sexta-feira, 21 de setembro de 2012

RTP 2 - Sentimento de Revolta



Há pouco estive a ver um documentário que, no serão da passada quinta-feira, foi transmitido na RTP1 (e não na 2, o que é raro). Foi uma peça muito interessante sobre a vida e obra de Laura Alves, uma atriz infelizmente desconhecida para muita gente da minha geração, mas que alguns deverão reconhecer pelos papéis nos célebres filmes portugueses dos anos 40 como «O Leão da Estrela» ("ai a loiça!"). O problema é que só o registo cinematográfico e televisivo é que nos dá a conhecer, hoje em dia, uma pequena parte da genialidade dessa grande atriz. Mas outro problema (bem maior, suponho) é que nós, os mais novos, não nos habituámos a ir ao teatro regularmente e a reconhecer os atores em palco que não fossem os que estão a fazer telenovelas. A época de Laura Alves foi uma época muito diferente em termos culturais do que é a de hoje em dia: as pessoas valorizavam mais a ida ao cinema, o entrar numa sala de teatro, até o simples ato de ligar o botão da televisão e ver alguma das séries em voga naquela altura do preto e branco e da RTP que fechava às dez da noite com o hino nacional. 

Tudo isto me fez refletir na questão que aflige a televisão nacional da atualidade: o fecho eminente da RTP2 e da privatização da RTP, numa época em que o termo "programa popular" é sinónimo de parolice e putrefação de cérebros (excetuando em raros casos) e que torna cada vez mais insignificante e obsoleta a arte de se fazer... arte. Resumindo: às nove horas da noite, o que é que o espetador pode ver nos quatro principais canais (a.k.a generalistas) da nossa televisão? Bem, o concurso do Malato na 1, um documentário da National Geographic na 2, novela na 3 e novela na 4. O problema não é a existência destes programas na nossa TV. O problema é haverem em excesso, e essa situação de excesso acontecer desde há vinte e tal anos para cá. Parece-me que as pessoas deixaram, a pouco e pouco, de dar importãncia às coisas culturais e a torná-las situações banais do dia-a-dia, juntamente com a manhã de trãnsito ou a fila da Segurança Social, quando isto não devia acontecer! Um programa, um filme, uma peça de teatro, deveria servir para nos afastarmos da realidade, mas agora, também com o auxílio da internet, as pessoas deixam de se conseguir centrar numa coisa só. Não há tempo. Tentam ver um filme, e ao mesmo tempo que olham de quando em vez para o que se passa no ecrã, vão vasculhar as novidades dos amigos no facebook ou conhecer as novidades de SPAM da caixa de entrada do e-mail.

Mas no meio de um oásis de programas que estão centrados em provar a afirmação "As pessoas ainda veem televisão se lhes dermos o que querem" (e concordo: o grandesíssimo dejeto de animal - desculpem o insulto a caminhar para o palavrão - que dá pelo nome de Casa dos Segredos conseguiu aliciar, na primeira gala, mais de um milhão e meio de pessoas a ligar o televisor e conhecer a nova cambada de pirosos que vão frequentar, durante três mesinhos, "a casa mais famosa do país"), existe um canal que conseguiu sobreviver sempre ao invasor da badalhoquice e do popularismo barato de terceira classe: A Rádio Televisão Portuguesa parte II. Sim, dito desta maneira dá um ar mais pomposo à coisa, mas para quem não percebeu, estou a falar na RTP2. O único canal que se preocupa em agradar a diversos nichos de mercado: crianças mais inteligentes das demais que querem ver desenhos animados bons e não as sitcoms com risos "enlatados" do Disney Channel, intelectuais que vibram com cada novo documentário sobre um escritor português que desvaneceu da memória coletiva do povo, pessoas que gostam de entretenimento (mas que seja algo bom para se assistir e que não nos faça mal à cabeça), cinéfilos fãs de correntes tão diversas como Fellini até ao mais recente filme vencedor dos Oscares, etecetra. Poderia estar aqui a debitar os tipos de pessoas que fazem a audiência da RTP2. É claro que é o canal menos visto dos generalistas, mas o seu público cosnegue ser mais representativo da inteligência que ainda subsiste no nosso país do que juntando os outros 3 num só. A RTP2 faz o que  os privados não querem fazer e o que a RTP executa no mínimo de vezes por ano em que é obrigada a fazer serviço público de televisão. Foi com a RTP2 que eu e maior parte das pessoas da minha geração cresceram. Pode ser, repito, o canal menos popular entre os 4 mais populares, mas foi o que marcou mais a vida destas mentezinhas minúsculas que ainda estão por desenvolver que são as dos indivíduos que nasceram entre 94 e 99. É o canal que nos dá cultura e que associamos quando nos lembramos de algum aspeto de cultura geral que tenhamos aprendido por causa da caixinha mágica.

Se a RTP1, a SIC e a TVI produziram e emitiram programas marcantes e inovadores nos últimos anos? Sim, com certeza, mas de uma maneira tão disfarçada possível que passou ao lado de muita gente. Dos primórdios da SIC só me lembro dos (poucos) desenhos animados que transmitiam ao fim de semana e dos anúncios aos filmes do género «Sozinho em Casa» e a séries como a do cão polícia ou a do ranger do Texas. Mas da RTP2 lembro-me perfeitamente de ver anúncios a todos os programas, mesmo os mais intelectuais, exibidos todos ao mesmo horário e não às duas da manhã. E isso marca a diferença. A RTP2 faz, em parte, o trabalho que uma gigante como a HBO exerce nos EUA, só que para um nicho de interessados que estão dispostos a pagar a mensalidade para se ter em nossa casa o dito canal de cabo para verem séries próprias de qualidade, telefilmes de qualidade, grandes clássicos do cinema e bons programas que definem a Grande Televisão. Por cá, ainda temos um canal que faz algum desse trabalho à borliu, mas parece que o Estado quer remeter a cultura para, única e exclusivamente, quem tiver mais dinheiro ao bolso para gastar. Ou então, acabam com os poucos recursos culturais que a televisão portuguesa possa dar e pronto, é aquela pequena parte da população portuguesa que vê a RTP2 (incluindo eu - quando ligo a televisão faço sempre questão de ver o que está a dar no 2.º canal, não ligar aos outros e só depois ir ver a programação entediante do cabo) que começa a sacar tudo da net. 

O problema das pessoas deixarem de ver televisão, segundo alguns analistas muito dotados na disciplina de afirmarem coisas sem pés nem cabeça, tem uma única razão, e que volto a mencionar: a massificação de um único género de TV em três canais e quase 24 horas por dia. E em 2013, com a extinção da RTP2, não há hipóteses de fuga para aquelas pessoas que, sem recursos ou possibilidades para aceder à aldeia global, terão de se render ao João Baião, ao Malato, à Júlia e ao Goucha (engraçado que costumam dizer que esses programas da manhã trazem "alegria" às pessoas. O que é curioso é que das poucas vezes que vi esses programas a serem transmitidos, foi em lares de pessoas muito idosas - que mantinham o ar de solidão e tristeza que é estar num sítio daqueles, mesmo com as palhaçadas do caixa d'óculos da TVI - e em sítios em que a televisão era ligada e deixada naquele canal ao acaso só para "fazer companhia"). Era giro era que nessa altura as pessoas voltassem aos seus "pré-históricos" e "datados" hábitos de leitura. Diria muito desta sociedade. Mas não, essas pessoas veriam praticamente o que lhes pusessem à frente e 'tá feito!

Não sei porque de repente me apeteceu escrever o meu total grito de revolta em relação à extinção provavelmente permanente do único canal de verdadeiro interesse dos 4. Mas acho que ver aquele documentário abriu-me os olhos mais do que já estava. Foi a ver aquele documentário na RTP1, que raramente se lembra de passar coisas que façam as coisas pensar e recordar-se do passado, que me apercebi de algo: a RTP2 fecha, fica só a RTP1. Mas o Governo pensa que a 1 vai fazer o serviço público da 2. Ora, se o diretor de programas já disse que as apostas do canal para 2013 são as novas "estreias-televisivas-comerciais-a-imitar-os-programas-dos-privados-e-que.ninguém-vai-ver"? Porque é que achamos que a RTP vai preocupar-se com a cultura se já anunciou que os programas previstos para o próximo ano são os habituais projetos da Catarina Furtado e do resto da matilha que recebe demasiado na conta bancária para o "talento" que têm? A RTP não tem, na maior parte da sua consistência, profissionais de jeito para continuarem o legado da RTP2. E provavelmente, os poucos programas culturais da 1 também vão desaparecer, tal como o pouco bom senso que a televisão generalista ainda tem na sua programação (está muito bem escondido, mas ainda tem).

Há quem queira reagir a isto como «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». Bom, não é por pessoas ficarem na fila dez horas para regozijarem de histerismo por possuirem o mais recente IPhone que eu vou fazer igual. Nem é por trinta indivíduos acharem graça ao Malato que 10 milhões e picos tenham de achar também. Há opiniões diferentes, há gostos diferentes, há tendências tecnológicas e sociais diferentes, e tudo abandalha porque as pessoas do Poder e do entretenimento nunca souberam respeitar bem isso. E o que concluo, depois desta quase-tese de doutoramento? Que é pena, porque ainda sou dos poucos que acha que a televisão deve ser vista na televisão, e que me faz falta às vezes ter uma tela para ver filmes num tamanho maiorzinho que a televisão Sony (daquelas caixas analógicas dos anos 90) que está instalada no meu quarto. Mas é a vida. Mas perguntando se sem RTP2 continuará a haver cultura, obviamente que sim, mas de outra forma, que terá de se associar com o desenrrascanço dos espetadores.. Ao menos sei que não é por fechar o melhor canal nacional que as pessoas deixam de ver cultura. As que gostam mesmo (e que formam esse nicho que vê a RTP2 - que ao contrário dos outros canais, tem um grupo de seguidores regulares e fiéis, que não oscilam com a nova série da Casa dos Segredos ou da mais recente produção novelística lusa) começarão a procurar pelos seus próprios meios. É a vida, mas parece que tem de ser. E nós, tugas, estamos habituadíssimos ao "tem de ser". Ou é isso ou é fazer petições na net que o Governo nunca vai ligar (apesar de eu as ter já assinado). E por isso... tem de ser!

Este texto foi galardoado com o TCN Blog Award 2012 na categoria de Melhor Artigo de Televisão.

1 comentário:

  1. Belíssimo texto!

    Voltei a ler hoje pela nomeação.

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