quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Sherlock - de novo em grande na segunda temporada


«Sherlock» é uma das grandes séries de crime e mistério da atualidade (juntamente, para mim, com outra série britânica, «Luther»), que mostra que, em cada episódio, há sempre grande planificação, criatividade e inteligência no argumento e interpretação dos atores. Talvez seja a única série que, em formato telefilme (cada episódio tem cerca de noventa minutos de duração), me consegue captar a atenção e fazer-me ficar viciado. Mas é que, apesar de até agora ter tido apenas duas temporadas de três telefilmes, cada um deles é feito com o maior cuidado (característica habitual das séries britânicas - poucos episódios, muito "sumo") e precisão, onde se aproveita todas as qualidades do formato televisivo para se trazer uma grande série que ninguém perde em ver!

Sendo uma adaptação moderna das histórias originais de Sir Arthur Conan Doyle, «Sherlock» funciona não por "aparvalhar" as ideias e personagens de Doyle, mas por conseguir transpôr na perfeição para a nossa realidade as aventuras e investigações de Sherlock Holmes. E se a primeira temporada tinha sido já muito boa, esta segunda foi ainda melhor, com as histórias a ganharem mais complexidade e por o Universo de Sherlock se ter tornado mais denso e negro.

Com interpretações brilhantes de todo o elenco (com especial atenção da dupla Benedict Cumberbatch e Martin Freeman, que dão um novo carisma à fabulosa dupla Sherlock Holmes e Dr. Watson), «Sherlock» é um "must" da indústria televisiva dos últimos anos, e uma grande fórmula de entretenimento e ação que poderá convencer até os mais saudosos da série dos anos 80 protagonizada por Jeremy Brett (que continua a ser "o" Sherlock Holmes por excelência!). É como eu digo: os melhores policiais são produzidos em Terras de Sua Majestade!

Louie - a série de comédia mais cómica da atualidade

Não me dou muito bem com séries de televisão, principalmente as americanas. Poucas são as que consigo ficar suficientemente agradado para conseguir seguir regularmente. Entre essas séries "de topo", para a minha pessoa, encontram-se, neste preciso momento, apenas duas (algumas que vou falando por aqui no blog, apesar de ter gostado muito, perco um pouco a paciência para as ir acompanhando de episódio em episódio, ou então porque perco a oportunidade de o fazer): a fantástica história dramática «Breaking Bad» (nunca uma série de 45 minutos me tinha deixado tão viciado - estou a caminho da quinta temporada), e «Louie», uma série muito cómica, escrita e protagonizada pelo brilhante stand-up comedian Louis C.K.

«Louie» é uma série que pega num conceito algo usado em outros programas de humor americanos: a comédia de embaraço (presente em séries como «Curb Your Enthusiasm», de Larry David, e cá em Portugal, n'«Os Contemporâneos»). Mas «Louie» não precisa de ser original a 100% para ter piada: são as situações que vamos acompanhando no dia a dia de Louis C.K que fazem toda a festa, rematadas sempre pelos seus momentos hilariantes de stand-up comedy (tal como na sitcom «Seinfeld», considerada a mais lucrativa de todos os tempos), numa junção perfeita e que, além disso, parece-nos sempre ser muito próxima da realidade, o que nos aproxima mais da série. 

As histórias de cada episódio de 22 minutos são sempre hilariantes, inteligentes e cativantes, mostrando o dom de Louis C.K para a comédia e para a escrita de humor para  televisão. Cada episódio passa num instante e dá logo vontade de ver outro de seguida (para mim, é o ingrediente ideal para que eu siga uma série de uma ponta a outra - neste aspeto, «Breaking Bad» é totalmente semelhante), e apesar de não ser a série mais premiada ou vista da atualidade, é uma das que tem mais adoração pelo seu público, que segue fielmente cada nova peripécia de «Louie». E pelo que vi de outras séries, posso considerar, sem qualquer tipo de dúvida, que para mim esta é a série de comédia mais cómica da atualidade (qual «Modern Family», qual «Parks & Recreation»... «Louie» bate isso tudo!). Louis C.K vai participar no próximo filme de outro Mestre, o senhor Woody Allen, e ao ver «Louie», a série anterior (para o canal HBO) «Lucky Louie», que segue mais à risca as normais usuais da comédia de situação, e todos os momentos de espetáculos de stand up do humorista que estão disponíveis na internet, percebemos que temos aqui um grande talento, que poderá surpreender na nova obra do Mestre Allen. Mas enquanto o novo filme do realizador não estreia, não tiremos conclusões precipitadas, e vejamos mas é «Louie», porque vale mesmo a pena!

Riso - Uma Exposição a Sério (mas que faz rir, de qualquer das formas)


Esqueci-me de avisar na altura em que fui ver esta exposição (há cerca de duas semanas), mas penso que não é tarde ainda para divulgá-la, visto que vai estar em permanência no Museu da Eletricidade durante os primeiros dias de 2013. «Riso - Uma Exposição a Sério» é uma antologia ambulante do humor, do melhor que se fez em termos de comédia (das mais variadas formas - na arte, na televisão, no cinema...) ao longo dos últimos séculos. Desde Bocage até aos Gato Fedorento, não esquecendo o melhor que se fez no estrangeiro (Charlie Chaplin, Monty Python, e muitos, muitos outros grandes nomes com o enorme talento de fazer rir), e que não pretende ser uma enciclopédia total do humor (para isso seriam precisos, pelo menos, dois Museus com o tamanho do da Eletricidade!), mas que informa, divulga, e diverte os visitantes com experiências novas e diversas, ao dar a conhecer muitos dos génios que já deixaram a sua marca na História do Riso, mas também dos indivíduos que, por mérito involuntário, fizeram o Homem soltar muitas gargalhadas. Recomendo muito esta exposição, está muito bem conseguida (e divertida, obviamente!) e organizada, e encontrarão muitas "caras" conhecidas, garanto! Destaque também para os eventos relacionados com a exposição: haverá conferências, sessões de cinema, encontros com humoristas... a seu tempo seremos informados mais em detalhe sobre toda a programação relacionada com a exposição. Rir é o melhor remédio, e «Rir - Uma Exposição a Sério» é um grande exemplo disso mesmo!

Charles Dickens e o verdadeiro significado do Natal


O meu problema com a literatura é muito simples: só leio o que mesmo me desperta a atenção num determinado momento. Contudo, quando encontro o livro que seja ideal para essa determinada altura (o que envolve diversas condições, entre as quais a forma como é escrito e a simbologia que as suas palavras transmitem), a sensação de vício e ultra-gosto pela leitura vem ao de cima. E ultimamente, peguei em dois ou três livros que comecei a ler, mas que não me despertaram de todo a curiosidade para continuar a fazê-lo (mas ficou lá a semente, um dia volto a tê-los na mesa de cabeceira). Contudo, anteontem à noite, decidi desarrumar «O Cântico de Natal», o famoso conto de Charles Dickens, e que eu considero a história de Natal por excelência e a minha peça literária de eleição que aborda a quadra.

Ao longo dos anos vi muitas versões televisivas e cinematográficas da obra de Dickens, e antes de ter começado a ler o livro, recordara-me de todos os elementos que captara do visionamento de todas essas versões (ou seja, já sabia a história de cor e salteado). Contudo, eu queria mesmo ler o livro, e o prazer que já tinha adiado há tanto tempo acabou por se concretizar há duas noites atrás, terminando na noite do dia seguinte. E digo-vos, que bem que eu fiz em ter escolhido «O Cântico de Natal»! É uma história tão bonita e tão simbólica para os dias de hoje que é impossível não se gostar dela. As personagens são tão características da sociedade atual, e os valores que elas têm (quer dizer, nisto é principalmente o senhor Ebenezer Scrooge, o idoso protagonista da história) são muito equiparáveis aos valores de cada um de nós.

De todas as adaptações do livro, penso que, após ter completado a leitura, a que captou melhor e mais inteligentemente a visão e o espírito da mensagem de Charles Dickens foi a versão animada mais recente, da Disney, com a voz de Jim Carrey e realizada por Robert Zemeckis. O filme segue mais à risca o livro, transpondo para o ecrã todos os pormenores e diálogos do livro sem perder nada em termos de credibilidade. Porque, se formos a ver bem, Dickens não pretende mostrar apenas a simbologia do percurso que cada um dos três Espíritos que Scrooge conhece - há todo um universo de metáforas e personagens que merecem ser descobertas. E por isso, recomendo que, antes de mais nada, lessem este livrinho. Vale muito a pena, e mesmo que saibam a história toda, vão ver que irão emocionar-se e rir-se com algumas partes que já conhecem por inteiro. Sempre fui admirador de Dickens, nunca tendo lido livros de sua autoria. «O Cântico de Natal» foi uma porta que se abriu para eu poder descobrir o seu universo literário complexo e imaginativo. E como estamos a chegar a Dezembro, nada melhor do que recordar uma das histórias que melhor retrata o espírito da quadra, sem recurso a Pai Natal ou fantasias de maior. A ler!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fúria Sanguinária (White Heat)


Unanimemente considerado, tanto por públicos tanto por críticas deste Mundo, um dos melhores filmes de gangsters de todos os tempos, «White Heat» (vou-me referir ao filme sempre no título original porque penso que a tradução portuguesa fica mal e não encaixa. Prefiro fazer outra exceção à regra geral de referenciar os títulos em português, e assim escrevinhar esta crítica dessa maneira) é uma obra que merece todo o reconhecimento que lhe possa ser atribuído. E este excelente filme, realizado pelo fantástico Raoul Walsh e com James Cagney no papel principal, tem já várias aclamações no currículo que não podem passar despercebidas: para além de ser o quarto filme no top 10 dedicado ao filme de gangsters do American Film Institute (apesar de eu não considerar «O Padrinho» como um filme incluído nesse género - é o número 1 do top, mas penso que a obra de Francis Ford Coppola é muito mais do que isso - penso que estes tops do AFI têm uma seleção de filmes muito boa para se conhecer mais em pormenor o melhor Cinema Americano de sempre, em diversas áreas distintas. Vale a pena dar uma vista de olhos!), de ter o "vilão" interpretado por Cagney noutra lista do mesmo instituto (a dos melhores sacripantas da Sétima Arte dos EUA) e da sua famosa frase ("Made it, Ma! Top of the World!") estar incluída em mais uma lista do AFI, é importante não esquecer que o filme foi escolhido para fazer parte da preservação do National Film Registry, o que mostra o quão significante tem uma obra cinematográfica para a História de um Povo.

«White Heat» poderia ser um típico filme de gangsters, com tiros, mortes, perseguições, traições, enganos e jogos de gato e rato. E o que é um facto é que a fita contém esses ingredientes todos. Mas a isso tudo é acrescentado um outro ingrediente, que o difere de todo e qualquer filme que possua os elementos anteriormente mencionados: «White Heat» consegue ser um impressionante estudo psicológico de um personagem, neste caso, do patife Cody Jarrett - interpretado por James Cagney -, que, apesar de ser temido e seguido por toda a bandidagem do país, não consegue largar a sua Mãe (que também é uma patifória, atenção!). É muito interessante e cativante acompanharmos a evolução da mentalidade e dos atos que Jarrett toma ao longo da ação da fita.

A importância de «White Heat» para a abordagem do método de contar histórias de Hollywood é muito significativa, facto que pode ser visto no pequeno documentário que está incluído nos extras da edição DVD do filme (que contém ainda o trailer da obra e um conjunto de três pequenos filmes da época, introduzidos pelo crítico de cinema Leonard Maltin, que servem para encenar, no conforto do lar, como era a ida ao cinema nesse longínquo ano de 1949 - os espetadores americanos não sabiam o que esperar do filme da sessão, mas era garantido que seriam presenteados, antes da projeção da mesma, com um pequeno noticiário com as principais atualizações do estado da Nação e do Mundo, uma curta metragem musical e animada, e no final, um desenho animado dos Looney Tunes). Historiadores de Cinema, Professores que se dedicam a estudar e a divulgar a Sétima Arte e os Grandes Realizadores da atualidade (como é o caso de Martin Scorsese) afirmam a grande influência que «White Heat» teve nos EUA, na arte das imagens em movimento, e na vida deles próprios. E eu concordo com todos eles: o visionamento de «White Heat» trata-se de uma experiência inacreditável, fascinante e inesquecível.

Com uma tradução lusa que o faz parecer ser um antecessor a preto e branco dos filmes de pancadaria dos anos 80, «White Heat» é um dos melhores e mais fascinantes filmes de gangsters de todos os tempos. James Cagney interpreta uma das personagens mais famosas, marcantes e complexas de toda a sua vasta carreira (que ficou, principalmente, reconhecida e imortalizada pelos trabalhos em filmes sobre o submundo americano, tal como «White Heat», mas também «Anjos de Cara Negra», «O Inimigo Público» - o filme que lançou o ator para o estrelato - e «The Roaring Twenties»). Realizado por Raoul Walsh de uma forma completamente surpreendente e ainda inovadora, após mais de sessenta anos passados sobre a estreia do filme, «White Heat» é uma grande obra-prima que não deixa ninguém indiferente.

* * * * *

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Em busca da geração perdida (visto que pouco me relaciono com a que pertenço)

Antes de alguém começar a inventar significados para a postagem desta imagem neste "póste", afirmo desde logo que a mesma não pretende ter grande valor, significativo para as próximas linhas que vós, poucos e humildes leitores desta estalagem virtual, ireis ler dentro de seguida. Apenas achei interessante colocar este fotograma de «O Garoto de Charlot», uma das maiores obras-primas da carreira do genial Charles Chaplin, por duas razões meramente simbólicas: primeiro, o conflito de gerações entre o vagabundo Charlot e o miúdo que este cuida ao longo da fita; segundo, por ser um exemplo da diferença de gostos entre a minha pessoa e o resto da malta da minha geração (será que a maioria dos energúmenos indivíduos da minha idade sabe ao menos quem foi Chaplin? Arrisco prever que, numa hipotética sondagem, 80% responderia que "não sei", e outros 5% profeririam "é um gajo com um bigode tipo o do Hitler". Riam-se, riam-se à vontade (e pessoas da minha idade, preparem as forquilhas e as tochas para a minha "execução" - estou a brincar, obviamente. Mas cuidadinho com o significado que ireis atribuir a este textinho, sim?), e continuem a rir-se, visto que as próximas linhas serão deprimentes demais para continuarem as vossas sonoras gargalhadas.

Durante diversos períodos do meu quotidiano (quer escolar, quer particular, quer "estupidilar"), é frequente não me sentir como membro da minha geração. A geração dos anos 90, a geração de 1995, a geração que aprendeu a ler e a escrever na viragem do século XX para o XXI, a geração que viu o Pokémon, a geração que seguia o Batatoon (que era transmitido logo quando eu chegava da escola), enfim, a geração à qual podem ser ligados outros mil e tantos elementos que seriam impossíveis de enumerar, na totalidade, neste post, visto serem tantos, tão ricos, e alguns tão esquecíveis a uma primeira consulta da memória.

Mas estava eu a dizer, que não me sinto parte da minha geração. Não sei se é algum problema que eu tive ao nascer ou algum defeito de crescimento (ATENÇÃO: a última frase apresentada mostrou ter conteúdos elevados de ironia... não comecem a pressupôr coisas do meu passado - muito pouco - obscuro, porque não vale a pena. Há tanta vida interessante por aí que merece ser investigada. Deixem estar a minha pessoa sossegadinha, no seu mundo idiota e entediante, se fazeis favor!), mas o que eu sei é que, em muitas ocasiões completamente distintas, por razões completamente diversas, e por temáticas completamente diferentes, sinto que devo ter nascido noutro ano qualquer ou noutro planeta qualquer, e que sou uma versão  que saiu defeituosa no padrão adolescente comum.

Sim, eu sei, meus caros discípulos (pouco) fiéis, de que a temática do "Ui, coitadinho de mim, que me sinto tão só neste mundo, ai que tenho crises existenciais e o camandro" já foi utilizada em diversos capítulos desta novela em folhetim que dá pelo bonito nome de «Companhia das Amêndoas». E eu percebo que às vezes até possa enjoar um bocadinho, mas é preciso compreender que, sempre que eu falo nestas coisitas da minha vida, é sempre por alguma razão em particular (e que, obviamente, é bem mais interessante que todo o "engonhanço" que utilizo para a elaboração destas redações mal feitas). 

Já falei, por diversas vezes, dos gostos diferentes (e, talvez, um pouco mais abrangentes em certas áreas) e algo particulares que eu tenho em relação à maioria das pessoas da minha geração (um facto que algumas pessoas me têm vindo a apontar, no contacto que estabeleço com o Mundo através das redes sociais e afins desta via eterna e infinita que dá pelo nome de Internet - e normalmente as pessoas acham graça a isso. Outras gostam de me utilizar, simplesmente, como uma pseudo-enciclopédia ambulante, sem páginas mas mais faladora e irritante. Mas isso é outra história...). Já abordei também, em tempos que já lá vão (ui, como o tempo passa... Foi há coisa de dois anos!) a forma como muita criançada vê o conceito de "Amizade" e a estupidez como encara os amigos que possui, através das formas mais pirosas - formas essas que envolvem postagens facebookianas que estão a um passozinho de serem consideradas ridículas... OK, não estão a um passo, são mesmo ridículas... como se a amizade se provasse por se colocarem fotografias de grupos de amigos com legendas do tipo «B3$t Fri£nds For€v€r... não pensem que eu estou a exagerar! (fui reler o texto em que abordei este tema, embora falando de um caso em particular - uma crónica integrante da quase-extinta rubrica «Coisas que Me Irritam» - cerca de alguns minutos antes de começar a redigir esta crónica, e digo-vos: de conteúdo não mudava nada. Já em termos de forma... talvez fosse pedir a um escritor conceituado - e verdadeiro entendedor da Arte de Escrever - para me mostrar como pôr aquele texto legível e "como deve ser"). Por fim, recordo-me (mas não tive paciência para ir vasculhar os arquivos de elevada profundeza "filosófica" do blog para provar a 100% isto) de ter falado, pelo menos umas duas vezes, como a forma distinta e particular como encaro as coisas e vejo as coisas me põe um pouco à margem daquelas coisas essenciais da vida de um jovem (nomeadamente, em termos de amorrr. Mas uma pessoa habitua-se a não dar importância a isso. Porque, já dizia o poeta, "Um dia há-de vir aparecer alguém!". Vamos a ver quando chega esse dia). 

Mas hoje, por alguns acontecimentos que inundaram este meu dia (e os últimos três úteis da semana passada), de raspão apareceu-me o tema do conflito entre eu e a minha própria geração. E, ao longo dos minutos em que estive a escrever os últimos parágrafos desta crónica, fui-me apercebendo mais em pormenor do que é exatamente esta ideia metafórica que circunda, de momento, a minha mente. Sou diferente em muita coisa, e penso que sei valorizar a diferença que tenho em relação aos outros (porque, já dizia o poeta - outro, este vem das organizações de paz e o catano - "Todos Diferentes, Todos Iguais"...). Porque é através desta distinção que o meu cérebro possui dos demais que me leva a não sentir os problemas que a maior parte dos adolescentes vê como "principais catástrofes a abalar a Terra" como... problemas propriamente ditos. 

Vou explicar-me: podem ter ficado a pensar que eu quis dar-vos a entender que penso que sou uma espécie de Dr. House da pequenada tuga. Nada mais errado. Apenas sei pôr as coisas no seu devido lugar e dar mais valor ao que, para a maioria das pessoas juvenis, não é tão significativo. Ou pelo menos, sei não exagerar as coisas que não devem ser exageradas. Como esse caso das amizades. Tenho um semelhante a ocorrer dentro do meu núcleo estudantil neste preciso momento. Duas pessoas, extremamente amigas desde o ano de dois-mil-e-troca-o-passo que se deixam de falar de um momento para o outro. A razão? Uma mentiu à outra (e consequentemente, a todas as outras pessoas à sua volta). Resultado? Talvez alguém se sinta um pouco arrependido por certas postagens exageradas no facebook, envolvendo super-felicidade (tal qual como se fosse possível ser eterna) e super-amizade. Coisa que, se existe (tal como o verdadeiro Amorrr), não é feita por cinco, dez, vinte, cinquenta anos de amizade. Mas sim por outros valores e condições, impossíveis de explicar em mais do que meia dúzia de palavras, mas mais visíveis ao nosso olhar do que nós possamos imaginar.

E se há um fator meu que eu não tenho é este. Preservo e estimo, com muito cuidado, todos os meus amigos (os verdadeiros e os da Máfia - ups, desculpem, não queria tocar neste assunto aqui num espaço tão infantil e idiossincrático. Peço desculpa,. garanto que não volta a acontecer!), mas há que ter cuidado com o que fazemos das nossas amizades. Daí, penso que o meu conceito de amizade advém daquele ideal antigo, oriundo de uma época já pré-histórica (até, basicamente, antes da invenção da internet - OK, digam que eu estou a exagerar, mas se há alguns jovens que dizem que o ano de 2007 já é muito antigo, os anos 80 serão o quê?), onde não existiam tecnologias nem tantos motivos para se levarem as coisas das amizades ao extremo. Nisto, sou muito de outra geração, para além de todas as outras coisas que mencionei, por acidente (ou nem tanto) ao longo deste post. Mas penso que, se eu fosse mesmo de outra geração, teria de ser de uma mistura de várias em simultâneo. Uma parte, em que estimo o saber antigo, outra, em que tenho alguma educação com os outros, outra ainda, a da curiosidade que tenho para com o que está fora do meu espaço... e tantas coisas mais!

Se sou de outra geração? É óbvio que não, mas que há coisas que eu tenho que a maioria dos outros "bacanos" da minha idade não têm, disso não tenho dúvidas. Gostava apenas que as pessoas com 17 anos (para cima ou para baixo, pouco importa - quero focar-me nesta faixa etária) abrissem mais os olhos e não se deixassem tanto influenciar por modas, padrões, ideias pré-formadas (não estou a falar dos temas polémicos - estou a falar das temáticas corriqueiras do dia-a-dia onde noto que falta haver alguma evolução mental por parte dos meus pares) e começassem a usar a cabeça, e não esperarem que a sopa esteja na mesa (ai que matáfora gastronómica mais linda!).

Poderão dizer que este texto não tem nexo, e não leva a qualquer tipo de reflexão ou significado. Digo-vos: pode ser verdade. Mas também esta crónica não pretende servir para ser criticada ou lida de uma forma analista e objetiva. É apenas um dos meus textos "experimentais" para ver como vai a minha escrita menos ligada à área do Cinema. Mas apenas gostava que, no fim de lerem este texto tão engonhante e palerma, que a malta jovem compreendesse que, por vezes, é preciso ter uma cabecinha mais aberta, mais culta, e sobretudo, mais inteligente. Que começassem a dar valor ao que realmente importa, e não, por exemplo às bebedeiras com o pessoal, e às amizades que, por terem sido consideradas demasiado preciosas para aquilo que eram na realidade, acabam por ter um desfecho repleto de desilusão.

Como Charlie Chaplin (olha! Uma referência para a imagem completamente aleatória que coloquei como ilustração deste post!) mostrava com a sua personagem do Vagabundo, a simplicidade, a humildade e a "originalidade" do ser humano, sobrepõem-se perante qualquer adversidade e qualquer situação que nos deixe mal. Assim, vamos ser nós próprios, abrir as portas da nossa imaginação para criarmos o nosso próprio "eu" (e não usar o da Maria, que tem as outras atrás dela - reinvenção de expressão popular) e destacarmo-nos do resto, tendo sempre curiosidade e espírito de iniciativa para fazermos coisas novas e diferentes do que toda a gente faz. É o meu apelo. Vamos a isso?

domingo, 25 de novembro de 2012

Brazil: O Outro Lado do Sonho


Vou ser sincero: se houve um filme que, ultimamente, me surpreendeu mais do que o esperado e me provocou alterações cerebrais mais densas do que poderia alguma vez imaginar, foi o filme de ficção científica misturado com alguma parvoeira non-sense que dá pelo título de «Brazil: O Outro Lado do Sonho» (um subtítulo à tuga - visto que o filme, no nome original, se chama apenas «Brazil» - mas que volta a ser dos tais que até que nem foi mal pensado!). Esta comédia, com tons de drama, e que, com o seu brilhante final, acaba por ser uma reflexão muito macabra e densa da burocracia e dos exageros da nossa sociedade, foi concebida por um senhor que dá pelo nome de Terry Gilliam. Um cartoonista que ficou, primeiramente, conhecido pela bonecada que fazia para "elementos de ligação" na série «Monty Python's Flying Circus» e também nos filmes do grupo britânico de comediantes (não esquecer que teve também pequenos papéis hilariantes na obra do gang. Para mim, é o mais engraçado dos três indivíduos do sketch da Inquisição Espanhola. Há também o falso profeta apocalíptico e o carrasco bizarro de «A Vida de Brian» o batedor de cocos e o mágico da Ponte da Morte em «O Cálice Sagrado», e tantos outros personagens!), mas que, nos últimos tempos, tem dado mais nas vistas pelos seus trabalhos como realizador, onde explora a sua criatividade, versatilidade e surrealidade até aos limites do (im)possível. «Parnassus: O Homem Que Queria Enganar o Diabo» é um dos seus projetos cinematográficos mais recentes (e o derradeiro trabalho do ator Heath Ledger, que trabalhara com Gilliam também em «Irmãos Grimm») mas do autor são famosos ainda mais os filmes «O Rei Pescador» e «12 Macacos». Ah, e «Brazil», pois claro, que vale mesmo a pena qualquer um de vós (especialmente os que tiverem apreço - e alegre paciência - para cinema menos convencional) visto ser uma obra marcante e de proporções épicas!

Deve ser destacado que o filme contém interpretações de um elenco escandalosamente particular. Num pequeno cameo temos a aparição de Gordon Kaye (o francês René da mítica britcom «Allo Allo!») como um dos indivíduos que controla o grande sistema burocrático que governa a cidade fictícia do filme (ui, e tanta comparação que pode ser feita à realidade portuguesa...) ou o amigo dos tempos dos Python (que dois anos antes, regressaram ao cinema com «O Sentido da Vida» - «Brazil» é do ano de 1985) Michael Palin, que tem um papel impressionantemente bom (e importante no desenrolar da história do filme), onde revela grandes dotes para o drama e para a versatilidade de estilos de "acting". Robert de Niro faz também uma pequena aparição, também ela portentora de alguma surpresa (o filme fala por si). Temos também Bob Hoskins como um eletricista maníaco pela sua profissão e que procura qualquer tipo de meio para obter vingança de algo... completamente... idiota. Os atores principais estão brilhantes, principalmente o protagonista do filme, Jonathan Pryce, que entre o real, o sonho e a loucura, mostra ser um indivíduo com talento adequado para o papel versátil e algo perturbador que desempenha.

«Brazil» pode ser considerado uma espécie de versão "live action" dos cartoons da era Python, repleto de apontamentos satíricos que levam ao extremo algumas idiotices da nossa sociedade. Não acabando por ser tão surreal como a bonecada pela qual Gilliam se tornou popular dentro do grupo, «Brazil: O Outro Lado do Sonho» dá-nos uma crítica feroz e versátil (reforçada pelo fabuloso twist final) da nossa sociedade, a partir do retrato de um mundo utópico onde tudo gira à volta da burocracia levada ao maior extremo de todos os extremos. Este filme tornou-se uma das minhas pérolas de eleição. Não consegui considerá-la perfeita, devido a algumas partes menos bem executadas que o filme possui, mas penso que todo o fascínio que criei por «Brazil» se centra na sua mensagem social e como o non-sense aliado a uma crítica construtiva da realidade faz uma junção perfeita.

«Brazil» é um grande filme de ficção científica, uma grande história de amor, e uma fantástica lição de vida sobre a vida em sociedade e todos os "podres" que nela persistem ao longo de tantas gerações. Se há uma altura em que o filme está mais atual é precisamente agora, e daí é urgente que toda a gente o veja!

* * * * 1/2

sábado, 24 de novembro de 2012

Uma das milhentas comparações que faço entre Filmes e a vida real...

Alberto João Jardim garante que sairá do cargo de Presidente do Governo Regional da Madeira no ano de 2015. Mas então...? Já é tarde demais para o sotôr decidir isso! É que, devido às influências e à "popularidade" que o Alberto angariou ao longo do seu extenso mandato, o estadista está agora a passar uma fase da sua vida que, se fosse adaptada para filme, seria uma versão tuga de «O Padrinho Parte III», na qual estaria incluída a frase: "Just when I thought I was out, they pull me back in..."

 (e agora, interpretem isto como quiserem!)

Poderosa Afrodite


Já é certo e sabido que, se eu vou criticar um filme do Woody Allen, não vai ser algo de negativo. Até agora nunca vi um filme mau deste Senhor. Uns melhores, outros menos bons mas ainda dentro do nível "Bom", o talento, a criatividade e a genialidade do cineasta americano nunca me desiludiram e sempre me surpreenderam, não só pelos diversos (e versáteis) caminhos para onde dirige a sua arte cinematográfica (desde a comédia de costumes até ao pseudo-documentário sobre um indivíduo de nome Zelig), como pelo facto de conseguir sempre renovar o "roupeiro" cómico e manter sempre a mesma graça e o mesmo interesse, mesmo que enverede pelos caminhos mais invulgares e desconhecidos. Pelo menos para mim.

«Poderosa Afrodite» vai de encontro a isso mesmo, naquele que eu considero um dos melhores filmes dos mais de vinte que já vi até hoje do Sr. Allen. Se tivesse de fazer um top 10 - tarefa algo complicada, diria - não tenho dúvidas de que «Poderosa Afrodite» estaria lá. Achei que este foi um dos filmes mais cativantes e originais de Woody Allen, que mostra mais uma vez, a partir do grande ecrã, as "normas" de funcionamento das relações humanas, conseguindo de novo inovar e ser hilariante. Mas o filme pega em moldes não muito normais dentro do Universo Allenesco de contar histórias: temos um casal (interpretado por Woody Allen e Helen Bonham Carter) que adota uma criança, e essa criança revela-se ser completamente genial e fora do comum (ou então são os Pais que meteram ideias na cabeça - a personagem de Woody Allen deu-me muito esta ideia - mas isso não interessa agora). Lenny Weinrib, o Pai babado da criança-prodígio, decide, então (visto que a curiosidade era grande) descobrir quem é que foram os "responsáveis" pelo nascimento do garoto. Só que a sua busca poderá seguir caminhos inesperados, e afinal, Lenny apercebe-se que a inteligência não se adquire pelos genes.

Não quis resumir a história de «Poderosa Afrodite» no parágrafo anterior, mas apenas dar alguma bagagem para o visionamento do mesmo. Contudo, se se partir à descoberta filme sem qualquer tipo de informação adicional, a surpresa da obra será ainda maior. Esta comédia satiriza, além de, como é hábito em Woody Allen, as relações dos seres humanos (de uma forma muito particular e que se "recicla" constantemente, daí a obra deste senhor ser sempre muito apetecível para a minha pessoa), um tema mais surpreendente e menos vulgar de ser retratado: a tragédia grega, nos modelos clássicos em que foram criadas, por exemplo, a história do Rei Édipo (o do complexo) ou do Deus Cronos (aquele que comia os filhos e coiso e tal). Não tenho grande conhecimento sobre a cultura grega (um dos campos onde tenho a maior ignorância, infelizmente), mas penso que, por agora, até conheço algumas coisas essenciais. Como três dos grandes símbolos do país: Homero, Atenas e Crise (OK, deixemo-nos de piadinhas idiotas e continuemos a análise ao filme). Mas o porquê da sátira aos modelos da tragédia da Antiga Grécia, se «Poderosa Afrodite» aborda temas e ambientes que dispensam (de todo) qualquer tipo de referência ao dramatismo clássico? Aí está a parte engraçada (e muito original) do filme: Woody Allen utiliza um "coro", ao estilo das ditas peças gregas, para fazer o papel de narrador da história da fita, de uma maneira hilariante, surpreendente e muito bem elaborada (estes peculiares membros do elenco do filme até têm direito a intervenções individuais, onde alguns dos "coristas" dá a sua própria opinião sobre a ação da história - e um ou outro até dá previsões para o futuro da mesma -, incluindo até alguns exuberantes - e inesperados - momentos musicais).

Woody Allen fez-me, pela "não-sei-quant"ésima vez, ficar ultra-bem disposto com um filme de sua autoria, boa disposição essa que durou o resto daquele dia (que foi segunda-feira), e que perdurou durante toda a semana (com as memórias que me foram aparecendo na mente - as cenas mais engraçadas da película passaram diversas vezes na minha cabecinha). Sem perder qualquer tipo de inteligência nem qualidade (as piadas são todas do melhor!), Woody Allen elaborou um dos seus filmes mais bem conseguidos e mais atrativos, de toda a sua filmografia. Há também que destacar as interpretações do elenco de «Poderosa Afrodite»: além do próprio Allen (sempre em formato meio-alter ego), há que fazer especial referência a Mira Sorvino (que venceu o Oscar para Melhor Atriz Secundária com a sua interpretação neste filme), que é a surpreendente Mãe do filho brilhante do casal que o adotou. Helen Bonham Carter, nunca perdendo aquele ar meio excêntrico que sempre a caracterizou (pelo menos eu nunca consegui ver um filme com ela e achá-la "normal"), resulta em cheio como a esposa conflituosa de Lenny Weinrib. 

Woody Allen volta a acertar, deixando um filme brilhante e muito marcante na sua longa carreira, que perdurará por muitos anos, quer pela sua forma como aborda temas como a paternidade, o casamento e o amor, quer pela sua versatilidade em saber contar uma boa história e saber fazê-la chegar ao público, ao passo que este se identifica e segue com muita curiosidade o percurso de cada uma das personagens de «Poderosa Afrodite». Um filme absolutamente a ver!

* * * * 1/2

domingo, 18 de novembro de 2012

O Verão de Kikujiro


Depois do sucesso e aclamação de «Hana-Bi: Fogo de Artifício» no Festival de Veneza (filme pelo qual o realizador/autor/ator Takeshi Kitano recebeu o galardão máximo do certame: o Leão de Ouro), dois anos depois surge um filme completamente diferente, quer em estilo, quer em forma, quer em conteúdo. Takeshi Kitano afirmou que, depois da premiação de «Hana-Bi», quis mudar radicalmente de "visual" cinematográfico, para conseguir pôr os seus seguidores constantemente à prova e para mostrar a versatilidade de temas que sabe abordar como ninguém no grande ecrã.

«O Verão de Kikujiro» é um filme que possui um ambiente bonito e cativante, reforçado pela extraordinária química entre as duas personagens protagonistas da narrativa: Masao, o menino que parte numa grande jornada em busca da sua Mãe, e Kikujiro, uma autêntica besta javardola mal educada, que acompanha o garoto na sua busca pela progenitora perdida. A relação entre as duas personagens desenvolve-se, ao longo das quase duas horas de duração do filme, de uma maneira invulgar, que nos emociona e encanta ao mesmo tempo, apesar das constantes cenas disparatadas que o filme possui (e que são o símbolo característico da comédia de Kitano, que no Japão é pouco conhecido pelo seu trabalho cinematográfico, mas mais pela sua carreira de "entertainer" em várias outras áreas: rádio e televisão principalmente). Apesar de Kikujiro não perder a maioria das suas características rudes para com os outros e para com o próprio Masao, conseguimos entender que tudo aquilo não passa de uma fachada, e que Kikujiro é apenas (e virando o famoso chavão do avesso), um cordeiro com pele de lobo. E é com as experiências que vive, durante a viagem, com Masao, que percebemos o lado humano daquele indivíduo e como tem também sentimentos e emoções, apesar de querer mostrar-se sempre como uma pessoa muito mal educada. Há uma ligação quase como entre Pai e Filho, que fortalece os laços entre as duas personagens e a identificação do público com este duo, que vive as mais diversas peripécias e testemunha as mais variadas situações.

«O Verão de Kikujiro» está repleto de grandes e hilariantes gags, onde reinam, na sua maioria, o non-sense (mas daquele non-sense extremo, mais parecido com a mais extrema parvoíce possível) e a comédia física, numa junção perfeita que dá ao filme um ambiente cómico, apesar da força dos temas que nele são abordados (a família, a amizade e a bondade, por exemplo) e que me fizeram pensar muito no verdadeiro significado das expressões das personagens, que contém muito mais do que as falas que pronunciam no filme. Esta obra contém também cenas de uma grande beleza, quer visual como narrativa, que nos permitem conhecer melhor toda a história e todas as características das diversas personagens que o filme apresenta (não só a dupla "peregrina", como também todos os indivíduos que encontram no grande caminho que percorrem). O "espetáculo" visual e de mise-en-scène é muito auxiliado pela poderosa banda sonora da autoria de Joe Hisaishi (um colaborador regular dos filmes de Takeshi Kitano, tendo já antes assinado diversas composições para o realizador para muitas das suas obras, como «Hana-Bi» e «Sonatine»), que dá uma grande potência ao filme e que se torna numa parte fundamental para a compreensão do mesmo. E toda esta junção de fatores, aliada à vivacidade das interpretações do elenco (principalmente a vertente cómica de Takeshi Kitano) marca toda a experiência de visionamento de «O Verão de Kikujiro».

Esta foi uma comédia, com toques de drama (e alguma fantasia à mistura), que me surpreendeu bastante. Achei que Kitano fez muito bem em mudar o "visual" e não fazer um filme tão violento ou pesado, como é mais recorrente na sua filmografia (pouco conhecida e divulgada, infelizmente, em Portugal). É um filme muito agradável, que me emocionou com a sua simplicidade que caracteriza as relações humanas e a cultura japonesa, tão rica e muito desconhecida da minha parte. «O Verão de Kikujiro» toca pela sua história, pela sua música e pelas suas personagens, que se aproximam de nós pela forma simples e normal como reagem às situações com que se deparam ao longo do filme. Contudo, penso que o verdadeiro motor da fita é mesmo a personagem de Kikujiro. Apesar da maioria das sinopses feitas sobre o filme darem mais destaque à demanda de Masao em busca da Mãe, Kikujiro dá o espírito à narrativa da obra e a que as situações se procedam da forma como o filme nos mostra. Masao é apenas o acessório para o adulto poder rever nele os seus próprios problemas e angústias. E isso, meus amigos, penso que é uma característica muito bonita de «O Verão de Kikujiro», que o torna merecível de ser visto para as pessoas que gostam de simplicidade e humildade em obras cinematográficas.

* * * *

O Menino de Cabul


Ao contrário de muitos, gostei bastante de ver «O Menino de Cabul». Não chego ao ponto de o considerar excelente, mas de facto, achei que esta obra tem mais do que se lhe diga e que deve ser vista ao pormenor. O filme parece simples, e não parece apenas, admito. A história não é complexa, não há grandes reviravoltas no guião, a montagem não é ultra espetacular, nem a narrativa é contada de uma forma pouco linear. Mas a força de «O Menino de Cabul» está mesmo na sua simplicidade, e na empatia que as personagens emanam e que me marcaram completamente. «O Menino de Cabul» não precisa de estar incluído em alguma das milhentas listas que atribuem esse epíteto tão subjetivo de «O melhor filme de todos os tempos» para ser o seu visionamento ser compensador. O filme não foi feito para ser um marco inesquecível na História do Cinema, mas para transportar uma grande história (a partir do livro «The Kite Runner», da autoria de Khaled Hosseini, que faz uma introdução ao filme na edição home-video do mesmo) para a Arte das Imagens em Movimento e para chegar às pessoas, ao público que, com os gostos mais variados, anseia por toda e qualquer novidade do mundo da Sétima Arte.

«O Menino de Cabul» é a história da amizade de dois meninos oriundos de realidades completamente distintas: um mora com o Pai, muito rico, e o outro vive com a família, que trabalha para o progenitor abastado do outro. Obviamente que este é um daqueles chavões que inundam uma quantidade bastante considerável de fitas que Hollywood, Bollywood e todos os outros países que fazem cinema (e que não têm uma "Meca" que marca a indústria da arte que tenha "wood" no nome) produziram. Aliás, é de apontar o caso do super-ultra-mega-popular (e mais recente) «Amigos Improváveis», que junta também duas pessoas através do mesmo guia narrativo de «O Menino de Cabul». E volto a pegar nesse filme (que foi um estrondoso sucesso por toda a Europa e além-mar, tornando-se um dos filmes mais vistos de sempre em França) para estabelecer um paralelo: é essa amizade entre duas pessoas diferentes que faz todo o interesse que circula as duas obras, e é essa "fórmula", que encaixa perfeitamente em ambos os casos cinematográficos, que faz as pessoas verem o filme e adorá-lo. Há vários tipos de filmes, os que são perfeitos, ou os que mexem connosco. Há ainda os filmes que conseguem ser perfeitos e marcantes e encaixarem.se em tantas outras categorias. Mas eu ponho «O Menino de Cabul» na categoria dos filmes que marcam, e que se tornam objeto de culto por um aglomerado de pessoas que se identificam e (em consequência) se comovem mais com o filme.

Marc Foster (realizador já conceituado, responsável por filmes tão diversos como «À Procura da Terra do Nunca», «Monster's Ball - Depois do Ódio» e pelo penúltimo capítulo do franchise 007, «Quantum Of Solace) pegou no livro e conseguiu fazer um filme que, além de ser entretenimento a sério, bem feito, concebido e idealizado, mostra ter habilidades para fazer obras que cheguem ao público, tornando-os cativantes e merecedores do seu visionamento. Tal como Steven Spielberg conseguiu renovar o espírito pelos grandes filmes de ação e aventura com a saga do mítico Indiana Jones, Foster mostra ter as competências desenvolvidas o suficiente para fazer que não lhe causem prejuízo, sem deixarem de ser bons (às vezes, há quem confunde "blockbuster" como mau filme... comparação mais errada...). A crítica ficou meio dividida com «O Menino de Cabul» (só o consagrado - e vencedor do Pulitzer - Roger Ebert mostrou estar mais entusiasmado com o filme, nomeando-o o quinto melhor do ano de 2007 e atribuindo-lhe nota máxima), mas penso que o público não ficou assim tanto. «O Menino de Cabul» é um filme "do público", tal como o filme «Amigos Improváveis, de que falei há pouco. E a mim mostrou ser uma história muito estimulante e entusiasmante, que nos faz pensar sobre temas que não estão longínquos como se possa pensar. O tempo cronológico mais perto do Presente que podemos encontrar no filme é o do ano de 2000, onde é retratada a situação de guerra e de extremo fanatismo que se vive, de uma forma muito intensa e perdurando até hoje, em muitos países e cidades árabes. E além de ser um filme sobre factos que nos chocam e impressionam em 2012, é uma obra sobre o poder da amizade e da escrita, que alcança fronteiras e que nos permite conhecer, de uma forma mais abrangente e detalhada, o que se passa à nossa volta. "Ler", como diz um poster que tenho cá por casa, "transforma os sonhos em realidade". Mas penso que, com «O Menino de Cabul», se passa exatamente o contrário: é a realidade que é transformada em sonho, na ficção que o livro e o filme abordam. Contudo, é uma ficção muito real, que não nos deixa parados sem refletir no  alcance que as palavras escritas podem ter sobre as que fazem o nosso quotidiano. «O Menino de Cabul» é um grande filme que não pode deixar ninguém indiferente.

* * * * 1/2

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sleepers - Sentimento de Revolta


«Sleepers - Sentimento de Revolta» é um filme que poderia muito bem ser adequado à realidade portuguesa, alterando, apenas, os nomes das personagens e os locais em que as mesmas se localizam à medida que a ação se desenrola. Realizado por Barry Levinson (o cineasta das causas sociais - veja-se, por exemplo, o oscarizado «Rain Man - Encontro de Irmãos», sobre um homem que descobre que tem um irmão autista, «Manobras na Casa Branca», uma sátira brilhante à política americana e à manipulação dos media, ou ainda o telefilme recente «Ninguém Conhece Jack», sobre a vida e visão do Dr. Jack Kervorkian, defensor da eutanásia nos EUA), a história de «Sleepers» gira em torno de um grupo de rapazes em duas fases distintas da sua vida: na adolescência e na idade adulta. Um erro, cometido entre estas duas fases (e que mudará a vida dos quatro amigos para sempre - e não digo isto por ser uma frase toda cliché e que é muito atraente para as multidões amantes de filmes lamechas), por esse quarteto de rapazes, marcará o fim da primeira fase e o início da segunda, mais cedo do que o previsto (algo que é dito mesmo por uma das personagens, que conta em voz-off tudo o que se passou entre ele e os seus amigos). O erro envolveu a morte acidental de um homem, que provocou a ida dos jovens para uma casa de correção, onde terão de se submeter às ordens de um grupo de polícias que monitorizam a dita casa. Contudo, é aí que a polémica começa: os jovens são vítimas de violação por parte de alguns agentes do centro. Muitos anos mais tarde, um incidente volta a reunir os quatro antigos amigos, e aí, podemos observar como a justiça e a injustiça se misturam de uma maneira muito complexa, através de um longo julgamento que marca uma das partes mais brilhantes de toda a narrativa de «Sleepers».


«Sleepers» aborda uma série de temáticas controversas e causadoras de uma discussão forte e pouco consensual, através de uma história verídica (o filme é a adaptação do livro de Lorenzo Carcaterra, que afirmou que tudo o que descreveu na sua obra é real, exceto apenas os nomes das personagens e pouco mais, que substituiu por razões óbvias) que me aproximou de uma realidade que, a mim, é tão distante, mas que os media falam constantemente. Falo, mais propriamente, do Processo Casa Pia, que tendo tantos anos de existência, continua sem uma resposta definitiva para ser, de uma vez por todas, encerrado. Esse Processo mostra também a fragilidade e a ingenuidade da nossa justiça, facto que está, também, muito patente em «Sleepers» (mas se todo o julgamento da Casa Pia fosse reduzido a um filme de 145 minutos, talvez já estaríamos todos muito mais esclarecidos e sem questionar tanto sobre, afinal, quem é culpado ou inocente em toda aquela história).

Barry Levinson reuniu um elenco repleto de enormes talentos da arte de Representar: Dustin Hoffman volta a colaborar com o realizador, após o gigantesco sucesso de «Rain Man», interpretando um advogado com problemas de álcool e droga, e junta, também, Robert de Niro (que voltaria a trabalhar com Levinson e Hoffman em «Manobras na Casa Branca»), num papel, digamos, pouco... convencional. Não digo isto por ser uma personagem fora do comum, até porque se trata de um Padre (mas provavelmente, trata-se de um dos sacerdotes mais cool da História do Cinema). Mas tive alguma dificuldade em encaixar o Senhor de Niro no papel de bom tipo, que pretende afastar os quatro jovens da "perdição" e conduzi-los para o bom caminho. Às vezes até pensei, talvez um pouco auxiliado pelo ambiente do filme (que me fez muito lembrar as obras cinematográficas sobre a máfia realizadas por Martin Scorsese como «Tudo Bons Rapazes» - que inclui de Niro no elenco também, mas no papel de um patifório com mau ar e mau génio), que aquele Padre, de repente, se iria desmascarar e toda a gente descobria, espantada, a verdadeira identidade daquele senhor. Mas não, isso não aconteceu. Contudo, é um Padre cheio de pinta, que se aproxima dos seus paroquianos (ou nem tanto) pela sua juventude, em que cometeu alguns pequenos crimes. Já é um Padre mais adequado à imagem desse Grande Ator. Eu sei que isto possa ser pieguice minha, mas habituei-me àquele estilo mais particular de Robert de Niro, daqueles papéis mais violentos, quer a nível psicológico e emocional. Contudo, está perfeito neste papel e simpatizei muito com a sua personagem, mostrando o seu enorme talento e versatilidade para qualquer tipo de papel (aliás, só há pouco, em pesquisas, é que me apercebi que de Niro já tinha interpretado um Padre num filme mais antigo e menos conceituado, que contava também com Robert Duvall). As interpretações dos miúdos estão também dignas de nota, dando uma grande veracidade à história e aos problemas com que se veem confrontados na casa de correção. Já os rapazes, quando adultos, são representados, na maior parte das cenas, por apenas dois deles, que se tratam dos maiores protagonistas do grupo (Brad Pitt e Jason Patric). É importante mencionar também o papel de Kevin Bacon, o polícia-símbolo de toda a pedofilia presente no estabelecimento onde se encontram os quatro rapazes. A história de «Sleepers» está muito bem conseguida, adquirindo mais força e notoriedade pela montagem, veloz e muito fluída, e pela visão cinematográfica de Barry Levinson, que soube dar o que eu queria sentir, em cada momento do filme.

Como já referi, Barry Levinson é o realizador das causas sociais, causas essas que nos estão sempre muito próximas, apesar de distantes ao mesmo tempo (ui, que frase tão linda que eu acabei de inventar...). «Sleepers» alertou-me, mais uma vez, para os temas quentes do dia a dia das notícias e que geram também muito falatório por parte da opinião pública. O filme mostra também como casos tão graves como o que os quatro amigos tiveram que conhecer devem ser tratados com a devida atenção e análise, apesar da influência dos grandes grupos económicos (ou daqueles suspeitos que possuem quantias de dinheiro elevadas o suficiente para subornarem quantos defensores da verdade quiserem) que está sempre presente, de uma maneira altamente exagerada. Contudo, apesar de ser o dinheiro que faz o Mundo girar, é a Verdade (e a procura pela mesma) que faz o Mundo crescer. E procura pela mesma que faz o Mundo crescer. E «Sleepers» é uma grande obra que reflete sobre o poder da Verdade e da Justiça (através das mais variadas - e complexas - maneiras) e do dever que cada Cidadão tem de denunciar o que está mal na sociedade, para garantir o bem do máximo número de pessoas. «Sleepers» é um filme cativante e entusiasmante que deveria ser passado nas escolas e ser alvo de discussão e análise de toda a gente, porque se trata de um entre milhares de exemplos que nos mostram como os valores da Verdade e da Integridade são mais importantes do que muitos nos querem fazer crer.

Nota: * * * * 1/2

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Balada, dizendo que eu até nem sou mau rapaz


Há uns tempos, decidi fazer um pedido para o novo programa do Nuno Markl, com esse músico brilhante que dá pelo nome de João Só. Por coincidência, o meu pedido foi o primeiro a ser feito, e foi tão detalhado que esse mestre da cantiga portuguesa pegou logo nele e transformou-o numa bonita balada, que podem ver e ouvir neste vídeo. Inclui a participação especial do mítico Tim, dos Xutos e Pontapés, mais um solo épico de guitarra. O tema da cantiga, muito resumidamente, é a dificuldade namoradeira que sempre tive de enfrentar durante a minha (ainda) curta existência. Mas talvez tenha de seguir os conselhos dos dois anfitriões deste programa de baladas por encomenda do Canal Q, e dar tempo ao tempo. Enquanto o tempo não passa, fiquem com esta cantiga e apreciem-na devidamente, porque fica no ouvido e resume muito bem tudo o que expliquei no pedido que fiz para estes dois senhores, que a meu ver, já criaram uma boa e original peça de televisão (pena é que o Canal Q só emita, por enquanto, no MEO...). Fiquei muito feliz por a minha entediante e desinteressante vida se tornou numa grande canção, muito propícia a que se torne um "hit"! Se tiverem alguma ideia (por mais parva que for - como a minha, por exemplo) para uma balada, saibam como o fazer em www.facebook.com/telebaladas, e enviem o máximo de pormenores para que o João Só consiga tornar a vossa balada personalizada ainda melhor!

domingo, 11 de novembro de 2012

O Homem Elefante


Há quase vinte e quatro horas terminei uma das sessões mais emocionantes e perturbadoras de cinema que fiz em muito tempo.É raro encontrar um filme com particularidades que me fizeram estar num estado de espírito tão particular que considero impossível transpôr para a palavra escrita (mesmo para a falada, penso que teria grandes dificuldades em conseguir descrever o que sinto neste momento). Encontrei características tão únicas e especiais em «O Homem Elefante», um dos mais admirados trabalhos do realizador David Lynch (o nome diz tudo, não preciso de estar a fazer referências à sua carreira).

Não consigo considerar «O Homem Elefante» uma obra prima cinematográfica, nem penso mesmo que seja um filme assim tão bem executado para "merecer" uma nota máxima dada pela minha pessoa. Contudo, tornou-se mais um filme integrante da minha lista de preferidos de sempre (que já vai em 58 itens, por agora). O filme é imperfeito, mas é perfeito ao mesmo tempo. É difícil explicar, mas apesar de haver algumas partes de «O Homem Elefante» que não estejam feitas de uma maneira tão boa como outras, este foi um filme que me tocou muito e que me marcou muito. E foi de uma maneira tão extraordinária, tão única e tão forte, que fiquei com a impressão de que este vai ser um filme que vou rever muito mais vezes ao longo da minha vida. E daí, achei que era justo incluí-lo na minha lista. Também não tem mal nenhum, visto que tenho outros filmes "imperfeitos" no meu top de preferências (veja-se, por exemplo, «Kramer contra Kramer» e «Regresso ao Futuro»). E apesar das "imperfeições", «O Homem Elefante» tratou-se, a meu ver, de um filme de uma rara sensibilidade, muito diferente de outros trabalhos do realizador David Lynch (que, pelo que eu conheço, gosta mais de enveredar por caminhos mais surrealistas e não tão "certinhos" como os utilizados para este filme, nomeado para oito Oscares).

Falando de «O Homem Elefante» em si, pela sua história e pelas temáticas que aborda... penso que há muito material para ser explorado e o que eu possa escrever vai sempre parecer pouco. David Lynch e sua equipa partem de um caso verídico, contando a história de um indívíduo chamado John Merrick (no filme o nome próprio foi alterado, visto que Merrick, originalmente, se chamava Joseph. Não consegui perceber o porquê desta substituição, mas talvez assim fosse mais fácil para a personagem, no filme, entoar o seu nome, e também assim cria-se mais impacto no espetador - em mim, ao menos, foi o que aconteceu. É preciso ver o filme para compreender esta "sensação", mais não digo) que nasceu deformado, devido a um acidente que a sua Mãe teve durante o seu tempo de gestação. Merrick foi tratado sempre como uma aberração e como número de espetáculo circense, atraindo multidões de curiosos pelo mundo dos "freaks" pelo epíteto de Homem Elefante. Contudo, um proeminente cientista (interpretado de uma forma brilhante no filme por Anthony Hopkins) decide compreender mais em pormenor a vida e o pensamento de John Merrick. As investigações e pesquisas do cientista com o próprio Merrick dão uma nova vida a esta "cobaia", tornando-o um ser humano mais digno desse nome: sociável, falador e curioso pelo mundo cultural. Contudo, haverá certas pessoas, incluindo o antigo "proprietário" de Merrick (que o usava como artista de circo), que pretenderão usar as suas grandes deformações físicas para conseguirem proveito próprio. E assim, a vida de John Merrick não está definitivamente segura...

«O Homem Elefante» é um espantoso filme dramático, comovente e muito propício à queda de umas lágrimazinhas em certos momentos. A fita pode ser vista como uma metáfora para a atualidade, visto que aborda um tema que é comum a, praticamente, todas as épocas que o nosso planeta já viveu: a diferença, e o modo como a encaramos. John Merrick é visto por uns como um idiota conhecido apenas por ser uma das aberrações do circo; outros conseguem ter uma visão menos tapada e mais abrangente das coisas, conseguindo perceber que Merrick é, tal como qualquer um de nós, um ser humano, que deve ser respeitado e compreendido (citando a famosa frase da personagem: "I am not an animal! I am a human being! I...am... a... man!"). O filme acerta em cheio em três pontos: as interpretações (não esquecer a magistral performance de John Hurt como Merrick), a banda sonora composta de uma maneira perfeita para todo o ambiente e história do filme, e a história, escrita de uma forma bastante interessante inteligente, que nos comove, nos alerta para as injustiças do Mundo, e que nos incita também a marcar a diferença dos padrões que, parece, regulam a nossa sociedade. Filmado a preto e branco (para mim, foi uma escolha muito positiva e acertada por parte de David Lynch), «O Homem Elefante» reflete também a mentalidade de uma sociedade diferente da atual, mas apesar de ambas estarem separardas por quase dois séculos, ainda possuem (para o bem e para o mal) diversos pontos em comum.

Nota: * * * * 1/2

sábado, 10 de novembro de 2012

O Inimigo Público (Take the Money and Run)


«O Inimigo Público» (outra tradução pouco fiel a um título de um filme, mas mais ou menos adequada ao contexto do mesmo) foi o segundo filme do comediante Woody Allen em que o artista esteve a cargo também da realização. Até então, Allen tinha dado cartas em experiências como ator e argumentista em comédias mais ou menos bem sucedidas (como no filme «Casino Royale», paródia ao universo do agente secreto 007) e na sua estreia como realizador, «What's Up Tiger Lily» (uma experiência tão estranha e peculiar que nem pode ser mesmo considerada como uma "estreia" na realização, pelo que pude pesquisar sobre ela. «O Inimigo Público» é uma iniciação mais digna do epíteto de "estreia"). Contudo, penso que o filme que define o estilo Woody Allen, a marca de escrita e comédia que marcaria, então, a obra deste grande humorista americano, seja mesmo «O Inimigo Público». Nele encontramos várias piadas e personagens que parecem ser protótipos para a criação de outras tantas histórias que se seguiriam, numa filmografia que já ultrapassou as quatro dezenas de filmes.

«O Inimigo Público» é uma comédia filmada ao estilo de "mockumentary", ou falso documentário (estilo de humor que Woody Allen voltaria a utilizar noutros filmes como «Zelig», história de um homem que tinha uma característica especial - mudar constantemente de personalidade, sendo um filme que está mesmo muito próximo de ser um documentário no verdadeiro sentido do termo - e «Sweet And Lowdown - Através da Noite», sobre um músico ficcional, interpretado por Sean Penn que tinha como principal inspiração o artista real Django Reinhardt) que conta a história de Virgin Starkwell, um indivíduo que, apesar de não apresentar grandes sinais de ser neurótico (característica fundamental de muitas personagens da maioria dos filmes posteriores de Allen), não deixa de ser uma personagem com muita graça. Trata-se de um homem que pretende ser um grande bandido, mas as experiências que tem no mundo do banditismo correm sempre mal. E o "documentário" dá-nos a conhecer a infância de Starkwell, os seus familiares e todo o historial de roubos e patifarias que este tem no currículo.

«O Inimigo Público» permite-nos dar a entender, mais que tudo, o porquê de Starkwell ter seguido a via da ilegalidade para fazer a sua vida. Alguns dos seus "colegas" dão o seu testemunho para esta pseudo-homenagem ao "trabalho" do ladrãozeco caixa d'óculos (que se partem umas duas ou três vezes em todo o filme, se não estou em erro), assim como observamos alguns dos seus golpes ao pormenor e a sua vida privada também. Sempre em sarilhos, a vida de Virgin Starkwell é uma boa janela para satirizar a realidade e alguns detalhes bastante curiosos sobre a mesma no estilo único e inconfundível de Woody Allen (no estilo cinematográfico ainda em fase embrionária, à época de feitura de «O Inimigo Público»). Veja-se, por exemplo, a cena em que Starkwell tenta assaltar um banco e tudo corre mal por causa de um erro de ortografia na nota escrita dada ao caixa do estabelecimento com as instruções para dar o dinheirinho ao patifezinho pouco inteligente.

O filme foi relativamente bem recebido quando estreou em 1969, tendo sido incluído, muitos anos mais tarde, na lista das 100 melhores comédias americanas do American Film Institute. «O Inimigo Público» poderá ser um dos filmes mais esquecidos, na atualidade, em toda a vasta carreira de Woody Allen, mas trata-se de uma verdadeira preciosidade que vale a pena ser descoberta. Apesar de ser um exercício inicial e conter algumas falhas de realização e montagem, «O Inimigo Público» é uma comédia hilariante, muito inteligente e atualíssima, que prima pela astúcia do argumento e pelas situações que, por mais disparatadas que possam ser, não deixam de fazer sentido dentro do contexto do próprio filme. Penso que este seja um dos filmes mais arriscados de Woody Allen (são poucos os que começam uma carreira com filmes deste género) mas um dos mais divertidos, apesar de não ser dos melhores. Contudo, o seu visionamento é muito proveitoso e trata-se de uma grande experiência de comédia que poderá agradar tanto a fãs como a não-fãs do trabalho de Woody Allen, visto ser um filme diferente do "padrão" utilizado, principalmente, a partir da fita oscarizada «Annie Hall» (e que pôs Allen, definitivamente, no patamar dos realizadores de culto). «O Inimigo Público» é um filme hilariante que urge ser visto e relembrado dentro das mais de quarenta obras cinematográficas da filmografia de um dos mais notáveis e brilhantes humoristas do século XX.

Nota: * * * *

Casablanca Parte II (Ou: Como Hollywood mostra ter uma forte carência de boas ideias)


Ontem estive a rever algumas das cenas de um dos meus 57 filmes preferidos de sempre (até agora, a lista poderá aumentar): «Casablanca». O critério que usei para a seleção do visionamento de certas partes deste grande clássico americano foi o de, simplesmente, procurar os momentos que mais me marcaram e mais persistem na minha memória que tenho do filme. Desde o momento em que Rick (Humphrey Bogart) constata que o antigo grande amor da sua vida está no seu café, quando ouve o pianista Sam tocar a (agora famosíssima) balada «As Time Goes By», até ao "início de uma bela amizade", às recordações dos tempos passados em Paris (e que ficarão para sempre na memória dos dois personagens - "We'll always have Paris"), não esquecendo, também, a famosa ordem dada por Louis: "Prendam os suspeitos do costume". Que é que eu posso dizer sobre «Casablanca»? Adoro o filme (fiz uma pequena crítica sobre ele há uns tempos, leiam-na aqui), e mais qualquer palavra que eu possa dizer sobre ele é sempre pouca para descrever o quão gosto de toda a história, dos diálogos, dos ambientes, da realização e das personagens de «Casablanca». É um dos exemplos mais refinados do Grande Entretenimento à Americana e é um filme que está quase a fazer setenta anos (70!) e continua a encantar hoje.

É engraçado comparar o legado que «Casablanca» deixou com todas as implicações (e complicações) que estiveram no centro da sua criação. A edição DVD (e muito provavelmente, a do "bolo-rei") contém uma série de documentários muito interessantes sobre os bastidores que levaram a que «Casablanca» fosse feito tal e qual como hoje o conhecemos e adoramos. Um deles (logo o primeiro item do menu de extras) caracteriza muito bem, pelos testemunhos do filho de Humphrey Bogart e da filha de Ingrid Bergman, e em pouco mais de cinco minutos, a forma como «Casablanca» foi feito. Para os produtores e para todos os membros da equipa técnica, mais os atores. este seria um filme de rotina. Apenas mais uma fita para cumprir o número de filmes estabelecidos pelo contrato assinado com a Warner Brothers. E o mais engraçado é que ninguém sabia, ao longo das filmagens de «Casablanca», o final da história. O guião dava voltas e voltas e ia sendo escrito durante a execução das cenas definitivas da história ainda por terminar, e esse fator (que incomodou muito os atores, nomeadamente Bogart), aliado à pressão da rodagem do filme e do descontentamento constante dos produtores e da equipa fez com que «Casablanca» fosse, para muitos, uma experiência de trabalho para esquecer. E de repente, o filme é aclamado pela crítica e pelo público, e vence vários prémios, nomeadamente 3 Oscares da Academia para Melhor Filme, Melhor Realizador (o excelente trabalho de Michael Curtiz deve mesmo ser realçado) e (pasme-se!) Melhor Argumento.

É que mesmo tendo sido escrito de uma forma pressionada e em cima do joelho, o guião de «Casablanca» contém, provavelmente, 50% das frases mais famosas da História do Cinema, aquelas citações que os cinéfilos têm constantemente presentes nos seus pensamentos e pretendem usá-las para diversas situações do dia a dia. E isto é obra, meus amigos.

O problema é que parece que a Warner Brothers tem planos para uma sequela desta obra prima do Cinema Americano. Alguns podem dizer «Oh Rui, mas que coisa! Tens de dar espaço à inovação!". Pois, mas eu acredito que, tal como o próprio Stephen Bogart (o Bogart "Júnior") afirmou (e que pode ser lido na notícia), há obras que são intocáveis. Por isso, para quê, sequer, continuá-las? Se fosse um remake, vá, eu não me iria também dar ao trabalho de ver, mas ao menos não era a continuação do mesmo filme. Esta sequela vai pegar na história do casal de «Casablanca» e fazer aparecer um filho que, qual Marco dos desenhos animados, decide ir à procura do paradeiro do seu progenitor (mas, vistas bem as coisas, apesar de Rick ter o seu café em Marrocos, era bem feita que o seu "júnior" fosse parar por acidente à Argentina, onde está a Mãe do miúdo proprietário de um símio de nome Dominó). Talvez pensem que conseguem almejar o mesmo estatuto de culto que o filme original ou até irem mais longe, como se fossem uma espécie de «O Padrinho - Parte II» do século XXI.

Seria interessante se isso acontecesse, mas como muita coisa nesta vida, seria algo muito improvável. Penso que, como ultra fã de «Casablanca», é impossível manter o charme deste filme na sequela. OK, o objetivo de uma continuação pode não ser esse, por isso digo por outras palavras: tenho receio que «Regresso a Casablanca» (o título da parte II da "saga") não seja um filme interessante e se torne, apenas, numa espécie de blockbuster hollywoodiano e que seja o contrário do primeiro «Casablanca»: enquanto que o primeiro filme ninguém da produção pensou que fosse algo memorável, tendo sido quase feito às três pancadas, o segundo pode ser feito com muita expetativa, muita minúcia e muito cuidado, e mesmo assim... não ser algo de memorável e provavelmente esquecível. Algumas sequelas são assim. Quantas pessoas se lembram que «A Golpada», famoso filme de George Roy Hill protagonizado pelos Grandes Paul Newman e Robert Redford, teve uma segunda parte? Pois, nem eu sabia, só há pouco tempo a pesquisar pelo IMDB é que encontrei esse "filme". Ou até mesmo a famigerada sequela dessa comédia lendária (mas não tão lendária para mim) que dá pelo nome de «O Grande Lebowski»? Pois... penso que o problema destas duas sequelas destes dois filmes completamentes distintos é o mesmo: nenhum deles esteve nas mãos dos indivíduos que criaram os originais. E é o que vai acontecer com a sequela «Casablanca». Aparte de ter uma história da autoria de um dos argumentistas originais do filme, que foi feita num contexto diferente e para ser produzida de uma maneira totalmente diferente da que é possível hoje em dia, com os meios desta época passados quase setenta anos da estreia do filme de Michael Curtiz. Talvez seja utilizado CGI e 3D para «Casablanca II», mas vamos esperar para ver. Mas estou muito pessimista, muito mesmo. Nem é como certas sequelas anunciadas (por exemplo, vai haver uma quarta parte de «Toy Story»: apesar de nem ter precisado de um terceiro filme, esse foi brilhante - talvez este quarto possa ser uma boa surpresa, para não variar) em que deposito alguma confiança. Mas repetir «Casablanca» é um risco demasiado grande. E agora é que deviam prender os "suspeitos do costume", ou seja, os produtorezinhos da Warner Brothers, sempre cheios de ideias geniais. Dentro em breve ainda se lembrarão de fazer sequelas para «Anjos de Cara Negra» ou de «Fúria de Viver». A mim nada me espanta, dado o estado das coisas. Mas agora uma coisa é certa (e voltando a citar mais uma frase célebre de «Casablanca»: Como é que, em todos os filmes produzidos em todos os países do Mundo, se vieram lembrar logo deste para fazerem mais dinheirinho?

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Pagos a Dobrar


Na noite da passada terça-feira, em vez de ter ido estudar para o teste de Psicologia, que tive hoje, preferi investir quase duas horas do meu tempo neste precioso filme americano, um dos maiores objetos de culto do film-noir, um género de que sou muito apreciador. E digo-vos, foi tempo muito bem gasto (e o teste correu bem, ao menos isso... acho que aproveitei melhor aquele tempo a ver esta excelente obra do que a estudar matérias que, àquela hora, não me chamavam muito a atenção). «Double Indemnity», na tradução correta «Dupla Indemnização» (mas neste caso, o título tuga, apesar de não ser uma tradução fiel ao original, até que nem lhe fica mal, porque não tira o contexto do mesmo) é um filme sobre amor, enganos, morte, dinheiro e seguros. Sim, visto que a história da fita gira à volta de Walter Neff, um corretor de uma empresa de seguros (interpretado por Fred MacMurray), que se apaixona pela esposa de um dos seus clientes, Phyllis Dietrichson (interpretada por Barbara Stanwyck). Essa paixoneta (aparentemente) correspondida levará a que os dois amantes preparem um golpe para conseguirem angariar uma quantidade considerável de dinheiro, através do marido da dita senhora, que será o alvo da falcatrua planejada pelo corretor de seguros e pela moça algo... suspeita.

«Pagos a Dobrar» (o título português verdadeiramente usado - e que nem é assim tão mau apesar de não ser uma tradução 100% fiável) inicia-se de uma forma pouco convencional, diferente do habitual e diria mesmo que, em certa medida, chega a ser inesperada. Vejamos: a história inicia-se quase pelo fim da mesma, se seguirmos a ordem cronológica dos acontecimentos. Mas não é isto que a torna inesperada, e sim a forma como é feita, ou seja, a confissão de Walter Neff ao seu patrão, Barton Keyes (interpretado pelo grandioso Edward G. Robinson, uma das grandes estrelas dos filmes de gangsters dos anos 30, a par de James Cagney), do crime efetuado, do que se sucedeu e que Neff não estava à espera, e de tudo o que levou a que acontecesse a tragédia. Neff é uma personagem descontrolada e pouco segura de si própria... ou talvez não. Pelo menos é a ideia inicial que podemos tirar desta figura ao depararmos com a cena da confissão, que inicia o relato de todos os acontecimentos do filme. Mas não, isso não é verdade. A pouco e pouco compreendemos o engenho e a astúcia com que Neff, pormenorizadamente, preparou cada detalhe do seu grande golpe (achei muito engraçado o pormenor de pôr um papel nas campainhas de casa, para saber se, ao voltar depois de ter saído, se alguém o tinha vindo procurar ao seu domicílio - o que teria acontecido se os papéizitos estivessem no chão, caídos), e como conseguiu sempre enganar o seu chefe, de uma inteligência quase inata para resolver crimes, e que quase o apanhou com a boca na botija.

O filme é baseado no livro policial homónimo da autoria de James M. Cain, tendo sido adaptada ao ecrã pelo também-realizador Billy Wilder, juntamente com o autor Raymond Chandler (que criou o Detetive Marlowe, uma das mais famosas e míticas figuras da literatura policial de todos os tempos). É uma história intrincada, repleta de grandes diálogos e excelentes cenas de drama, romance e crime. Embrenhei-me na trama, nos personagens e no ambiente do filme daquela maneira que só películas com características "noir" me conseguem causar. Gosto desse estilo cinematográfico pela fotografia, pelos ângulos e movimentos de câmara, pela sucessão de cenas que envolvem diversos tipos de narrativa mas que encaixam que nem uma luva umas nas outras. «Pagos a Dobrar» é tido como um dos expoentes maiores do film-noir, com lugar em, praticamente, todas as listas que procuram saber quais os melhores filmes de todos os tempos que já pude consultar (embora nenhuma me tenha agradado por completo - é o tal caráter subjetivo de qualquer seleção de filmes, livros, álbuns musicais, etc. Mas ao menos ainda se encontram algumas preciosidades, como foi o caso de «Pagos a Dobrar»), sendo também uma influência para muitos realizadores famosíssimos (e grandesíssimos também, com obras primas de cortar a respiração) como o Mestre Martin Scorsese, um dos maiores sábios na área da Sétima Arte, tanto na execução como na preservação (ouvi-lo a falar de cinema é um tempo muito bem passado, garanto-vos!), de que tive conhecimento até hoje. E... mesmo se nunca tivesse sido reconhecido e fosse um filme que entraria na categoria dos "esquecidos", eu estaria, na mesma, aqui a defendê-lo com unhas e dentes (e acrescentaria também que se tratava de um dos filmes mais subvalorizados que já me tinham passado pela vista, mas como não é o caso, prossigamos com a crítica).

«Pagos a Dobrar» é um filme sensacional, que me remete para aquele tema do "já-não-se-fazem-coisas-assim". Acho que é uma daquelas obras que permanece boa, passados tantos anos após a sua estreia, e que continua a emocionar, a causar algum riso em certas partes, e também a interessar. Senão seria muito mais provável que tivesse caído no dito esquecimento (ou não... a vida dá muitas voltas, já nada me surpreende...). Fazerem uma sequela deste filme é impensável, porque não vale a pena (falo nisto apenas porque hoje soube da triste notícia que a Warner Brothers tem planos para uma possível sequela do clássico «Casablanca». Ele há cada uma...), «Pagos a Dobrar» vale por si mesmo e tem tanto ou mais para explorar nele mesmo do que em meia dúzia de "thrillers" atuais. Os comportamentos e movimentos das personagens (quer gestuais como psicológicos - como por exemplo, as diferentes formas como Neff trata Phyllis - e Phyllis trata Neff - ao longo que a ação do filme se desenrola e começa a criar-se um clima de tensão entre os dois), as emoções que transmitem, a forma como são pronunciados e planeados os diálogos, e tantas outras coisas... «Pagos a Dobrar» é um autêntico guia de estudo da Arte de se fazer Cinema e um exemplo do Grande Cinema intemporal, que continuará a ser objeto de visionamento e agrado de muitas gerações. Obrigatório para os apreciadores do film-noir, e para todos os cinéfilos em geral (tal como a maioria dos filmes que vou vendo - dependendo dos gostos de cada um, vale sempre a pena tentar descobrir alguma das pérolas que eu vou "cronicando"), esta é uma obra imperdível!

Nota: * * * * *

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Os Pássaros: um verdadeiro filme de terror


Faço aqui uma pequena confissão: não sou apreciador de filmes de terror. Não é por meterem medo (porque, pelo menos a maioria dos que eu vi, não me fizeram qualquer efeito mental - à exceção do «Shining», que ainda teve algum efeito, embora eu não o considere uma obra-prima), mas por duas razões completamente diferentes: a primeira, porque a generalidade dos filmes de terror vive dos mesmos lugares comuns e estereótipos de sempre: um ambiente perfeitamente natural, em que a história de fundo entre as personagens nada interessa para o desenvolvimento do filme, onde aparece, como sempre, um serial killer disposto a matar toda a gente sabe-se lá porquê ou um monstro que, muito previsivelmente, devora tudo o que lhe apareça à frente; a segunda razão é que a maioria dos filmes deste género cinematográfico tendem a ser, além de, como já expliquei, repetitivos, fazerem o uso de sangue e tripas para me tentarem assustar. Infelizmente, não é isso que me assusta. Uma vez fiquei espantado quando passei, numa aula de filosofia do ano passado, o filme «Tudo Bons Rapazes» de Martin Scorsese e da maior parte das pessoas ter ficado meio que "aterrorizada" com as cenas de violência do filme. Há apenas uma pequena diferença entre as cenas envolvendo pancadaria deste extraordinário filme de gangsters com, por exemplo, a chacina dos filmes da saga «Saw»: é que, pelo menos, em «Tudo Bons Rapazes» sabemos que aquilo que vemos é baseado numa história verídica... Talvez fosse por isso que meio mundo daquela turma tivesse algum medo das tropelias de Henry Hill e companhia... mas não. Foi mesmo só por causa do sangue. E a mim isso não faz qualquer tipo de confusão. Nem percebo como é que isso pode meter medo. Mas isto sou só eu, e não pretendo desrespeitar os apreciadores do género de terror. Talvez ainda não encontrei foi muitos filmes do género que me agradaram.

«Os Pássaros», um dos maiores êxitos comerciais da carreira do genial Alfred Hitchcock (a.k.a. Mestre do Suspense), veio contrariar este meu geral desagrado pelo género de terror, encabeçando a lista dos bons filmes que já vi com temáticas que pretendem assustar o espetador (se bem que essa minha lista não seja muito grande - existem apenas dois títulos, este mais o «Shining»). Este thriller com muito terror à mistura começa também a pegar nalguns estereótipos presentes em muitos filmes de terror, como por exemplo, o cenário de que tudo está ótimo e a correr às mil maravilhas ao princípio. Caramba, se alguém vir os primeiros dez minutos de «Os Pássaros», é muito pouco provável que consiga perceber para que é que servem as ditas aves no filme, a não ser para os expositores da loja de animais onde Melanie Daniels (interpretada por "Tippi" Hedren, uma atriz que se introduziu no mundo do cinema com esta obra hitchcockiana), a personagem central da trama, se encontra pela primeira vez com Mitch Brenner (interpretado por Rod Taylor). Mas digo que vale muito a pena continuar a ver «Os Pássaros» para além desses ditos dez minutos, pois as surpresas começarão a surgir de uma maneira inesperada, tanto para os espetadores que viram o filme século XX como para os indíviduos das novas gerações que (como eu) contactam pela primeira vez com esta fita.

Porque é que gostei bastante de «Os Pássaros»? Porque sinceramente, é um filme que me pareceu não se deixar ficar pelas evidências, trazendo-nos grandes momentos de cinema (diria mesmo, arte) sem deixar de ser puro entretenimento "pipoqueiro". O Mestre de Suspense encontra aqui mais razões para explicar o famoso epíteto que a opinião pública lhe atribuiu ao longo dos anos, com um filme carregado de tensões fortes e de momentos que poderão causar mesmo medo. Este medo é conseguido tanto pela história e pelos atores, que funcionam de uma forma perfeita para conseguirem atingir o objetivo de «Os Pássaros», como pelos diversos planos de câmara utilizados, muito estratégicos, que realçam ainda mais toda a pressão e receio das personagens do filme. Destaque também para a não utilização de banda sonora, que não existe, praticamente, em todo o filme, o que beneficia o seu ambiente misterioso e terrorífico (não precisamos de nenhuma música para percebermos quando algo de errado se passou/se está a passar/se irá passar).Uma cena do filme que ficou muito presente na minha mente e que me marcou bastante, por exemplo, é um dos muitos exemplos ilustrativos da forma como Hitchcock monta um "susto" para o espetador, sem precisar, lá está, de banda sonora, e criando um verdadeiro momento de pura criatividade e originalidade do realizador: quando Melanie vai buscar a irmã de Mitch, temos um plano dela, e depois um plano do recreio da escola. Esta sequência repete-se algumas vezes, e de cada vez que voltamos a ver o recreio, vemos que este está cada vez mais cheio de pássaros (neste caso, corvos), que irão atacar aquela turma quando os alunos saírem, com cautela e acompanhados pela professora. Se virem «Os Pássaros», reparem neste pequeno pormenor. Para mim, só esta sequênciazinha é de génio, e tenho dito.

«Os Pássaros» é um filme muito bom, que me deu o que eu procuro, na minha opinião, na definição de filme de terror. Alfred Hitchcock mostra como o terror não precisa tão objetivo e hardcore para nos assustar verdadeiramente (se tivesse sido filmado à maneira do «Saw», garantidamente que não tinha mesmo passado dos dez minutos de visionamento). E confesso que fiquei verdadeiramente impressionado e algo assustado com certas cenas do filme, que tendo quase meio século, conseguiu ser mais aterrorizante que qualquer promissora nova estreia supostamente terrorífica nas salas de cinema. E mais do que um filme, «Os Pássaros» consegue ser também (um pequeno momento para mostrar como a filosofia está permanentemente ligada à criação de cinema) uma análise sobre a reação de uma sociedade em relação à ocorrência de um fenómeno grave e inconcebível, perturbador para a estabilidade da mesma. Sim, poderia, sendo assim, dar esta mesma opinião de análise sobre filmes de catástrofes como «2012» e «O Dia depois de Amanhã» (outro género de filmes que está em primeiro lugar nas minhas preferências), só que a diferença é que «Os Pássaros» tem uma visão mais real, intimista e construtiva do caso que apresenta, ligando-se mais ao espetador pela sua veracidade e não se mostrando apenas como um filme para se passar um bom bocado e depois enxotá-lo para sempre no recanto poeirento da nossa memória. «Os Pássaros» é uma grande obra com pouco mais a dizer e muito mais a contemplar, visto que as palavras são poucas para a descrição do que pude ver e só o olhar pode contemplar, verdadeiramente, a riqueza da fita. 

Nota: * * * * 1/2

domingo, 4 de novembro de 2012

Nova página do blogzinho...

... um índice com os links para os meus comentários a mais de duas centenas de filmes. Algumas mais extensas, outras nem tanto (também derivado da altura em que as escrevi - ao longo dos meses fui desenvolvendo a minha parvoíce, daí as críticas ficarem mais extensas). Enjoy! Basta clicarem, na barra verdinha por baixo da frase do Woody Allen, no espaço «Índice de Críticas de Cinema», 'tá bom?

sábado, 3 de novembro de 2012

Skyfall (Ou: o filme que me fez perceber que vale a pena continuar a descobrir a saga 007)


Foi preciso ter ido ver, hoje à tarde, ao Campo Pequeno, o mais recente filme das peripécias de James Bond, que dá pelo nome de «Skyfall», que percebi como eu estava enganado em relação às potencialidades da série do agente secreto 007 (um indivíduo sempre pronto para a pancadaria, perseguições, explosões, moças jeitosas e tudo). Esta saga (ou pelo menos, este filme) tem uma grande capacidade de interesse para a minha pessoa! «Skyfall» é um filme de ação muito bem feito e que me fez ficar colado à cadeira do princípio ao fim, sensação esta que já não sentia, pelo menos, desde que fui ver «A Origem», de Christopher Nolan, no mesmo cinema há uns dois anos atrás. 

A meu ver, o facto de «Skyfall» ter resultado tão bem deriva, muito provavelmente, dos nomes de mui' grande talento que estiveram envolvidos na sua produção. Comecemos pelo realizador Sam Mendes, que viu a Academia de Hollywood reconhecê-lo com o filme «Beleza Americana», pelo qual arrecadou diversos Oscares, mas nos últimos anos Mendes tem pautado por se envolver em projetos completamente distintos uns dos outros, o que provam a sua grande criatividade e versatilidade em ser um Grande realizador em vários géneros cinematográficos. Veja-se, a título de exemplo, «Caminho Para a Perdição», com Tom Hanks (um filme de gangsters frio e duro adaptado de um livro de banda desenhada, que pauta pelo extraordinário realismo que sustenta e as excelentes performances que contém), ou até «Um Lugar Para Viver» (uma pequena produção independente que envolveu dois grandes comediantes a ficarem com os papéis de protagonistas, um casal que pretende descobrir como criar o filho por nascer da melhor maneira: John Krasinski - da fantástica série «The Office», versão americana - e Maya Rudolph - estrela da companhia do «Saturday Night Live»). 

Depois, há uma fantástica banda sonora que nos faz perceber o quão bom é estar numa grande sala de cinema (o filme está a ser projecionado numa sala especial no Campo Pequeno, aproveitem!) e aproveitar aquela fusão de imagens e som que os nossos olhos e ouvidos podem vislumbrar; a autoria da música de «Skyfall» ficou a cargo de Thomas Newman que, além de reformular o famosa theme-song que é a marca do franchise 007 (e que me fez, por várias vezes ao longo do visionamento do filme, estar a abanar a perna ao ritmo da música sem dar por isso), trouxe novos ritmos explosivos e alucinantes que combinam perfeitamente com todas as cenas (com mais ou menos ação) que o filme dispõe para o gáudio dos espetadores, fiéis seguidores das tropelias bondianas ou nem por isso. Não esquecer a música dos créditos iniciais de «Skyfall» (uma sequência de imagens muito bem elaborada e planeada, que nos faz perceber que vem aí coisa muuuito boa), cantada e composta, em parte, pela famosa artista Adele (sim, aquela cujos dois hits passam incessantemente nas rádios que já enjoaram - ao menos agora têm a música do «Skyfall» para alternarem, ao menos isso...), que deixa uma marca indelével no filme: a música é fantástica e até agora está presa na minha cabeça - juntamente com meia dúzia de melodias de alguns filmes vistos recentemente (a minha jukebox mental é muito limitada) - e pareceu-me ter sido uma excelente aposta por parte de... indivíduo tal que tenha contactado a Adele (ou ao seu manager), dizendo apenas: "Ai e tal queriamos-te para fazeres a música de abertura do 007 e tal...". Sim, eu acredito que foram estas, simplesmente, as palavras pronunciadas por essa pessoa. Mas continuemos...

A história de «Skyfall» não fica nada atrás de todo o espetáculo visual do filme (começando pelo título do filme - se o forem ver, quando perceberem o que é que ele, afinal, significa, talvez soltem, baixinho, como eu fiz: "Aaah, então é isso que quer dizer!". É que pode parecer que não mas até foi uma grande surpresa aquela descoberta, principalmente porque logo de imediato liguei isso a alguns pequenos pormenores dados por algumas personagens antes dessa revelação), mostrando o que é, verdadeiramente, um filme de ação de qualidade. É que o argumento de «Skyfall» é muito interessante, envolvendo mais humanidade nas personagens de Bond e de M, a sua mentora, como aborda um tema com muitíssima atualidade: o ciberterrorismo e os efeitos que este tipo de ataque informático pode ter na sociedade (neste caso, o ciberterrorista é interpretado por Javier Bardem, num papel que me fez lembrar, em parte, o psicopata da obra oscarizada dos irmãos Coen «Este País Não É Para Velhos». Mas em «Skyfall», o vilão é algo maquiavélico, mas muito mais sensivelzinho e essas coisas. Não anda com uma coisa de pressão de ar, nem com uma moeda para decidir o destino das suas vítimas. Anda é munido de um computador, para tufas!, destruir com tudo). É deste tipo de história que me prende num filme: bem estruturada, precisa e cativante, e que, apesar de ter muitos elementos ficcionais (e alguns momentos de exagero, mas não tantos como do pouco que eu me lembro dos dois meios-visionamentos que fiz de «Casino Royale», o primeiro Bond protagonizado por Daniel Craig) não nos distrai do essencial. O que interessa é o que está no ecrã, e como nos prende tanto, não temos muito tempo para analisar alguns pormenores técnicos ou de narrativa que possam existir. E isto é entretenimento à séria, meus amigos. Não é um filme de ação qualquer feito às três pancadas. É uma obra muito bem idealizada e que me fez ver como vale a pena descobrir mais sobre 007 (espero é encontrar filmes que me prendam tanto a atenção como este... a ver vamos).

Por fim, aliado aos outros fatores que eu apresentei: temos um elenco recheado de estrelas (além dos repetentes, temos agora, por exemplo, Ralph Fiennes no cast da família do MI6, ou o estupendo vilão interpretado por Bardem) que cumprem ao máximo a sua "missão" de fazerem entretenimento fantástico, à melhor maneira que Hollywood só sabe fazer. Há cenas de ação? Sim senhora, muitas e com fartura. Mas estão tão bem ritmadas e compostas que é impossível alguém não ficar vidrado com o que irá ver no cinema (em casa será outra história, mas no cinema... se virem o filme numa sala como eu vi, com um ecrã maiorzinho e com um som - desculpem o termo - brutal, que me fez perceber que a verdadeira essência do cinema só é comprovada quando o ecrã é superior a nós, espetadores e pequenos seres que lhe obedecemos e respeitamos). E acho curioso como é que «Skyfall» não tem versão disponível em 3D nas salas. Eu não gosto muito dessa estratégia de ganhar mais uns cobres dos cinemas, pois dos poucos filmes que vi nesse formato nenhum valeu, verdadeiramente, a taxa acrescentada do bilhete. Mas «Skyfall» é um filme que me pareceu ter muitas possibilidades de poder suceder muito bem em três dimensões (embora eu não fosse comprar o bilhete se a sessão fosse nesse formato: a vida está cara e não preciso do 3D para ter uma grande sessão de cinema, como já afirmei). As cenas de ação quase que caem para cima de nós! E são tão fulgurosas e impressionantes que, sem os oculinhos e sem o ecrã meio desfocado (ou seja, mesmo com o ecrã em 2D) senti-me muito ligado com as cenas do filme e a pensar que estava ali, naquele momento, ao lado de Bond, a subir, clandestinamente, o elevador para apanhar um mau da fita, ou na cena de luta entre ambos, em que partem as janelas do prédio onde se situam e estão a andar à porrada com o ventinho da rua... olhassem lá para baixo e veriam setenta e tal andares. A queda até que não era má...

Resumindo, concluindo e advertindo: «Skyfall» é um filme surpreendente, para fãs e não-fãs de 007 (embora, para os fãs, haja muitas piscadelas a elementos fundamentais da cultura Bond, como o Martini, a famosa quote Bond, James Bond ou o uso de um Aston Martin - que foi usado por outro Bond, o de Sean Connery, num dos filmes mais conhecidos da sua era como 007, «Goldfinger» - durante uma das partes mais intensas, a nível de cenas de ação, de todo o filme). Simplesmente, é uma ótima oportunidade para passar duas horas e picos em grande numa sala de cinema, aproveitando o melhor que o cinema da atualidade, cheio de efeitos especiais e inovações fantásticas, pode oferecer aos espetadores. «Skyfall» não utiliza apenas esses efeitos todos só porque sim e porque dá lucro (só a marca 007, por si só, já dá algum dinheirinho garantido - pelo menos para pagar a massa gastada na sua produção, disso não tenho dúvidas), mas por uma razão de estética do próprio filme, e também porque são efeitos muito bem utilizados. «Skyfall» pode ser um filme surpreendente para uns, não tanto para outros, mas foi, certamente, uma das maiores surpresas que tive, em toda a minha vida (que ainda é curta, portanto esta frase pode não ter muito valor), numa sala de cinema. O meu nome é Sousa... Rui Sousa, e despeço-me de vocês não tentando plagiar Bond (que anda por aí a salvar o Mundo e eu aqui a escrever estas patacoadas), mas para vos mostrar que «Skyfall» vale muito a pena!

Nota: * * * * 1/2