sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dá Tempo ao Tempo (About Time) [2013]


Eis uma pequena grande surpresa entre as muitas estreias que, esta semana, inundam de novidades as salas de Cinema nacionais: «Dá Tempo ao Tempo» é uma deliciosa comédia que, tendo tons de sci-fi (que aos mais obcecados em comparar filmes com outros filmes, poderá ter parecenças com as aventuras de Bill Murray no clássico do humor americano «Groundhog Day» - porque a ela vai beber um pouco na narrativa, na mensagem filosófica e no romantismo fofinho), é uma aposta inteligente e completamente surpreendente de uma das maiores mentes da comédia britânica, Richard Curtis. Foi ele que escreveu muitos dos hilariantes diálogos de «Black Adder», as patetas desventuras d' «A Vigária de Dibley» e as histórias mais plásticas e "softs" de «Quatro Casamentos e um Funeral», «Notting Hill» e «O Amor Acontece» (tendo neste último título o papel de realizador). É um homem que possui uma criatividade imparável e que, felizmente, parece nunca querer esgotar-se. E «Dá Tempo ao Tempo» quer mesmo ser mais uma prova dessa inventividade constante deste grande cómico inglês, que tanto nos fez e faz rir com as suas loucas ideias, mas que são sempre do agrado dos seus seguidores (ou pelo menos, da maior parte deles).


«Dá Tempo ao Tempo» versa sobre uma família invulgar (e com o seu quê de particular) e um segredo que diz respeito a todos os homens da mesma: o dom de poderem retroceder no tempo. Tim (Domhall Gleeson) é um jovem de 21 anos, insatisfeito consigo próprio que, ao tomar conhecimento deste segredo pelo Pai (Bill Nighy) começa não só a aperfeiçoar muitos momentos do seu quotidiano (e para o bem dos que o rodeiam) e tenta, acima de tudo, utilizar esta dádiva para poder encontrar o amor. É esse o dia que mudará tudo nesta personagem, para sempre. E assim se tem uma premissa para uma engraçada e divertida comédia, que parodia e aprofunda ao mesmo tempo as relações humanas ao melhor estilo britânico, e que nos faz rir e pensar simultaneamente na nossa vida. Repleto de pequenas piadas que envolvem as trapalhadas em que Tim se envolve, e que o levam mais tarde a conhecer Mary (Rachel McAdams) ou... a ter de voltar a conhecer! Caricato, simples e tocante, «Dá Tempo ao Tempo» aumenta a sua complexidade à medida que nos deixamos surpreender pelos seus atores e pela sua narrativa, e quando ficamos a ver que esta, afinal, não é mais uma comédia de Curtis ao jeito das de Hugh Grant, onde tudo acaba bem e com um grande casamento, não deixando, por isso, apenas uma marca de bom entretenimento, que desaparece facilmente no espectador. Este é um daqueles filmes raros que deixam uma sensação especial que muitos filmes excelentes não conseguem transmitir nas emoções de quem os vê. Vemos a vida de Tim e dos seus conhecidos mudar pelas pequenas alterações que ele vai fazendo aqui e ali (e as confusões que as suas viagens temporais causam são delirantes), e vemos o romantismo como só os bons filmes cómicos nos sabem mostrar: da forma mais bonita, e que não passa por ideias forçadas ou "happy endings" para ninguém ficar com remorsos no final da sessão de Cinema. E o humor inglês há muito tempo que não dava tão fortes sinais de vida: estas piadas tipicamente britânicas, desconcertantes e tão precisamente refinadas e construídas, são um deleite seriamente provocador.


Com um argumento hilariante, que constrói cenas absolutamente divinais em termos narrativos, «Dá Tempo ao Tempo» tem muitos momentos típicos destas comédias românticas, mas que ganham uma nova graça e um tom mais refinado graças à pena de Richard Curtis. Afinal, não é a vida também um conjunto de repetições a que nos acostumamos, mas que ganham novas formas? E não será que os verdadeiros problemas são coisas com que nunca nos preocupamos? Um filme cheio de grandes e fabulosos atores, uma comédia adorável e encantadora que acaba por ser a tragicomédia da existência humana, onde o burlesco se confunde com o real, onde a nossa vida se confunde com os desejos e ambições dos outros. E onde ainda há espaço para hipotéticos finais felizes, que nós construímos e concretizamos... se quisermos, sem o auxílio de qualquer viagem no tempo. Além de ser a comédia mais complexa de Richard Curtis, «Dá Tempo ao Tempo» é, resumindo e concluindo, o seu trabalho mais bem conseguido no Cinema. Recheado de espírito "carpe diem", esta é uma comédia genuína que vai ao fundo do coração humano. A comédia cinematográfica não morreu, e eis aqui um exemplo dessa "sobrevivência". Podemos talvez não conseguir consertar, na realidade e ao contrário de Tim, tudo como queremos, mas temos ainda a hipótese de ficarmos deslumbrados com filmes assim.

* * * * 1/2

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