terça-feira, 30 de julho de 2013

A Laranja Mecânica – a criação literária de Anthony Burgess


Foi escrita há cinquenta e um anos e continua fresquinha como sempre foi, esta fantasia distópica criada por Anthony Burgess e que tão espetacularmente foi adaptada por Stanley Kubrick ao Cinema. A Alfaguara, editora pertencente à Objectiva, editou recentemente uma edição comemorativa da obra, recheada de “extras” literários (como ensaios do próprio autor sobre o seu livro e o filme de Kubrick, um prólogo escrito por Burgess para uma peça de adaptação e um epílogo, em jeito de entrevista a Alex, o protagonista, para a imprensa, e um prefácio escrito por um estudioso de Burgess – que desvaloriza e despreza, de uma forma inacreditável, o poder do filme, fazendo daquelas comparações tão injustas e desiguais entre Literatura e Cinema) e que contem o último capítulo da obra que foi publicado apenas em Inglaterra e rejeitado na América (e também pelo próprio Kubrick, que o considerou inconsistente em relação ao resto da narrativa, terminando a sua fita com aquele desfecho memorável). E esse capítulo, “ó irmãos”, dá um final mais feliz a «A Laranja Mecânica» e ao destino do seu protagonista, reforçando a moral da história de Burgess: a importância do livre-arbítrio no Homem que, se o perde (como se sucede a Alex depois deste ter sido submetido ao Método Ludovico), deixa de ser Homem. 

Anthony Burgess, o extraordinário criador desse drugo não menos extraordinário de nome Alex.
Mas não só há toda a história de interesses que rondam a “cura” dada a Alex, e que o fazem ser a cobaia de todo um estratagema político e social que utiliza este “drugo” violento, sarcástico e apreciador de música erudita, e a própria moral do poder da escolha dada ao ser humano, como também há o retrato “ultraviolento” da juventude, que fala a sua própria língua, o nadsate (com uma série de vocábulos criados por Burgess, devidamente incluídos no glossário desta edição – e que, depois de algumas dificuldades iniciais, são fáceis de acompanhar, porque o discurso do próprio Alex é, por vezes, tão corriqueiro que é difícil não ser compreendido sem se necessitar de ir consultar as páginas da “tradução” de palavras como “cheloveco”, “tolchocar”, “petiça” e “iarblas”) e que tem os seus estranhos e criminosos hábitos que destroem o ambiente da cidade onde vivem. Tal como em 1952, «A Laranja Mecânica» é agora um aviso à juventude e um alerta à irracionalidade e irresponsabilidade dos seres humanos. Porque é claro que temos de ter capacidade de escolha, mas nunca nos podemos esquecer que as nossas decisões influenciam muita coisa que está à nossa volta e que, muitas vezes, nem nos damos conta. «A Laranja Mecânica» é uma obra prima da literatura contemporânea e que é obrigatória para todos os jovens deste mundo. Tal como o filme!

domingo, 28 de julho de 2013

10 filmes para uma bonita tarde de Verão... com (ou sem) chuva

Pois é, parece que o aquecimento global anda a fazer efeito nas temperaturas e o calor dos próximos dias  vai ser um bocado incerto. E assim, para aproveitarem os dias em que chova durante a tarde e que, por isso, tornem as idas à praia impossíveis de serem concretizadas (a não ser que se queiram constipar), deixo aqui dez bons filmes para aproveitarem os tempos mortos causados pela temperatura instável. Contudo, estas fitas são boas para ver em qualquer altura, e esta lista poderia ter, assim, outro título qualquer. Mas este é giro e sugestões são sempre sugestões. Em cada título que escolhi, está o link para a crítica detalhada do filme, feita pela minha pessoa, para este estaminé. Os nove últimos estão ordenados por nome e o primeiro está nesse lugar porque foi o primeiro filme que me veio à cabeça. Aqui ficam:

1. - Network - Escândalo na TV
"I'm mad as hell and I'm not gonna take this anymore!". Este é o grito de irritação lançado por Howard Beale, a personagem central deste drama satírico de Sidney Lumet que faz uma crítica única à televisão e ao poder dos media. Foi feito nos anos 70, mas se fosse executado hoje, não mudaria em nada. Um filme que continua a ter um impacto extraordinário, e que é muito relevante para os tempos que correm, em que estamos inundados de contestações sociais por tudo e mais alguma coisa. Mas com tantas críticas e protestos, alguma coisa muda na sociedade? Ou apenas fazem manchetes nos jornais durante um dia ou dois e desaparecem como nunca tivessem existido? Esta é uma das muitas questões pertinentes levantadas por «Network», onde o jornalismo televisivo é desmascarado de uma forma assustadoramente genial, e onde percebemos como interessam sempre mais as audiências de um acontecimento do que o apuramento da veracidade do mesmo. A ascensão do louco "profeta" Howard Beale, e o seu destino, é apenas um exemplo ficcional de todos os segredos verdadeiros que nos escapam todos os dias...

E que tal um Western com muitos tiros e pancadaria à mistura (mas atenção - não é uma pancadaria qualquer!) para animar a tarde? E que tal serem surpreendidos quando pensavam que os filmes de "cobóis" estão ultrapassados e não interessam já nem à Maria Cachucha, que é a época em que eles eram populares? Poderia dar muitas mais sugestões, mas deixo nesta lista duas (fica mais uma num dos números a seguir, no quarto, mas são duas fitas muito distintas), e uma delas, uma das mais recorrentes que eu faço, é este «The Wild Bunch», de Sam Peckinpah, o realizador que inovou o Cinema Americano com obras primas como esta, onde a violência foi mostrada de uma maneira nunca antes tentada em Hollywood. É um ataque aos bons costumes, mostrando as personagens tal como elas são, sem dó nem piedade (o assalto da sequência inicial é um claro exemplo disso mesmo), e é de uma excelência enorme. É daqueles filmes que nos deixam de boca aberta. E mais não digo.

E um filme de Woody Allen nunca calha mal, principalmente se for visto num ambiente familar ou romântico. E «A Rosa Púrpura do Cairo» é perfeito para isso mesmo. É um dos filmes preferidos do próprio realizador, entre os que realizou, por ter conseguido fazê-lo exatamente como queria. E é uma delícia, além de ser uma homenagem ao Cinema, com uma história onde a realidade da narrativa e a magia do Cinema se aliam para contarem uma bonita história de amor, protagonizada por Mia Farrow e Jeff Daniels. Muitos dos temas das relações humanas recorrentes do Cinema de Woody Allen estão aqui, e é impossível uma pessoa não se deixar encantar pelo mundo desta fita e pela relação que envolve uma cinéfila compulsiva e a personagem do filme que ela vai ver recorrentemente à sala. E depois, o próprio ator do filme mete-se na parada! Isto só mesmo a ver é que se pode acreditar... um filme muito imaginativo.

O segundo (e último) Western desta lista é o épico de Sergio Leone. Porquê? Porque o filme fala por si, porque é daqueles filmes para se ouvir com o som no máximo (ou quase - evitem ficar surdos!) e porque é magistral. «Aconteceu no Oeste» é um Western saído da mente de um cineasta italiano, que deu um novo impulso ao género e que conseguiu retratar melhor a América do que os próprios americanos nas suas "coboiadas". E a música de Ennio Morricone, meus amigos... aquela música... Com um suminho fresco a acompanhar, e sem retirar os olhos do ecrã a qualquer instante (sim, o filme é lento, mas é tão envolvente!), faz uma sessão de Cinema imperdível.

Talvez para as mentes mais picuinhas, este filme calhe melhor num ambiente noturno, menos aconselhável a pessoas mais sensíveis, mas «Blood Simple», o primeiro filme realizado pelos incontornáveis Irmãos Coen (e que eu continuo a considerar o melhor da filmografia desta dupla) pode ser visto a qualquer hora do dia. É um thriller empolgante como poucos e de uma intensidade que apenas os Coen conseguem captar. É um filme algo esquecido, mas que vale tanto a pena. E o Canal Hollywood faz muito bem em passá-lo muitas vezes na sua programação. A ver se as pessoas o visionam! E é outro daqueles filmes que me deixou de boca aberta. Mas neste caso, foi do princípio ao fim. Com a sala completamente às escuras, e sem ninguém a importunar a sessão com SMS's constantes a enviar e a receber, é daquelas coisas que nem vos digo. E todos falam de «Fargo», que também gosto muito, e de «Este País Não é Para Velhos», mas aqui têm os Coen num estilo "noir" como eles nunca mais conseguiram voltar a fazer...

6. - Cyrano de Bergerac
Esta é a versão mais famosa e intemporal da famosa lenda de Cyrano de Bergerac, e tem tudo para agradar a todos. Têm também Gerard Depardieu numa das suas melhores interpretações (sim sim, muito antes da história da Rússia...), numa história de amor impossível entre o magnífico poeta narigudo e uma bela donzela na França do século XVII. É um filme de aventuras, de romantismo e de Vida. E a forma como Cyrano foi humanizado por Depardieu é mesmo notável. Uma narrativa simples de um homem simples, mas que deixou muito para a posteridade e muitas histórias e situações da sua vida para serem contadas às gerações posteriores. Ah, e «Cyrano de Bergerac» mostra também como o amor é difícil para o Homem desde sempre. Por isso, engatatões solteiros, animem-se!

Donnie Darko, a estranha personagem interpretada por Jake Gyllenhaal, saberá mesmo viajar no tempo, ou não passa de um tipo com muitos problemas mentais? Este filme surpreendente faz tantas perguntas e deixa poucas respostas, e causou-me um impacto muito grande quando o vi no ano passado. É uma espécie de "mind-f*ck movie", onde o mistério se torna cada vez mais complexo e a história se torna cada vez mais viciante. Será que é tudo verdade em «Donnie Darko»? Um bom filme para ser debatido após a sessão. E deixo um grande aviso: vejam a versão original de Cinema. A Director's Cut não é muito a "versão que o realizador queria ter feito mas que os mauzões dos produtores não deixaram", mas sim a "versão que o realizador quis executar anos depois para tornar o filme mais objetivo e para lhe render mais umas massas".

Um grande filme sobre o (suposto) pior realizador de todos os tempos. Talvez seja a fita mais precisa e refinada de Tim Burton, e Johnny Depp está aqui excentricamente genial, na personificação do ídolo do cineasta e do ator, neste biopic que percorre a estranha carreira cinéfila de Edward D.Wood Jr até à estreia do seu clássico de culto (na categoria dos "bons maus filmes") que é «Plan 9 From Outer Space» (a tradução portuguesa é muito má, «A Morte Veio do Espaço»).O uso do preto e branco é excelente e não há aqui nenhuma intenção de ridicularizar Ed Wood e as suas extravagâncias cinematográficas. Mostra-se apenas os métodos e manias do realizador e a forma como ele via o Cinema, a sua grande paixão, e os meios que arranjava para concretizar os seus mirabolantes projetos. «Ed Wood» foi um fracasso quando estreou, e infelizmente não está (aind) editado em Portugal. Mas é uma lição de Cinema que nos ensina que, por vezes, é dos "fracos" que reza a História...

É Marlon Brando numa das suas melhores interpretações, é Elia Kazan numa das suas melhores realizações, é um argumento soberbo e uma fita com um espírito único, que ultrapassa qualquer época histórica ou política (mesmo que «Há Lodo no Cais» tenha conotações políticas, nomeadamente relacionadas com a caça às bruxas do McCarthyismo). Uma obra excelente do bom velho e clássico Cinema Americano, que nos faz pensar nos grupos que nos rodeiam e que influenciam demasiado a nossa individualidade e as convicções de cada ser humano. No caso de Terry Malloy, a personagem de Brando, foi o facto de ter deixado o pugilismo por causa da máfia que o "dominou" e que pela qual ele se deixou levar, esquecendo o seu amor próprio. «Há Lodo no Cais» é um filme que nos mostra que vamos sempre a tempo de agarrar as oportunidades que surgem e que o indivíduo é mais importante do que um coletivo "uno". Excelente para ser visto em família.

E para terminar esta lista, deixo uma escolha mais recente e que, para muitos, pode parecer insólita: o filme independente e subvalorizado «Away We Go», realizado por Sam Mendes (que voltou a brilhar, recentemente, com o regresso triunfante de James Bond em «Skyfall») e protagonizado por John Krasinski e Maya Rudolph. Esta é uma fita simples, sobre a construção da família e das esperanças que o futuro traz a um casal. De uma forma cativante, inteligente e absorvente, «Away We Go» mostra um casal a reencontrar-se com várias pessoas e diversos lugares que marcaram as suas vidas, para conseguir decidir, afinal, o que querem fazer das suas próprias vidas e onde querem criar o filho que está por nascer. Fiquei muito surpreendido com este filme, muito esquecido e menorizado por muitos, mas é uma fita que deve mesmo ser vista. É um encanto de filme, que também é ótimo para ser visto num ambiente familiar, e que como até está a um ou dois euros nas lojas das grandes superfícies, é de aproveitar.

E assim acabo esta lista. Poderia ter-me lembrado doutros filmes, se fizesse a lista noutra altura, mas acho que estas dez sugestões são muito boas e interessantes para esta época do ano. Aproveitem estas sugestões e descubram outras obras que vos interessem... mas vejam sempre bons filmes!

Django Libertado [2012]


Qualquer novo projeto em que Quentin Tarantino se envolva, direta ou indiretamente, acaba por se tornar num acontecimento mediático global. Não é por menos: ele é um dos cineastas da sua geração mais adorados pelo público e um dos poucos que ainda quer mudar Hollywood, não deixando de executar entretenimento ao mais alto nível. A cada novo filme Tarantino renova a sua imagem e versatiliza-se cada vez mais, por se envolver em projetos completamente distintos uns dos outros (não deixando estes, contudo, de ter as suas marcas específicas e muito tarantinianas). E mais importante do que isso, é relevante assinalar o significado que Tarantino dá à forma como as suas referências o influenciam nos filmes que faz. Muitas delas são desconhecidas do grande público ou estão, simplesmente, a fugir dos novos espectadores de Cinema, mas Tarantino tenta-lhes dar uma nova frescura para os seus fãs poderem perceber como os Grandes Mestres da Sétima Arte são tão importantes para este ídolo da cinefilia atual, e assim, terão alguma curiosidade em explorá-los. E «Django Libertado» vai buscar as suas raízes ao spaghetti western, esse género tão estimado por uns, e repudiado (sem razão) por outros, que foi muito famoso nas décadas de 60 e de 70 na Europa, e também ao nome maior desse tipo de filmes, Sergio Leone, que o tornou imortal graças ao seu génio inconfundível, bem expresso nas obras primas «O Bom, o Mau e o Vilão» e «Aconteceu no Oeste», como também no excecional não-western «Era Uma Vez na América» (que é, para mim, a mais soberba fita de Leone). É inegável o legado tremendo deixado por Leone, que aqui, e pegando noutras referências dos westerns com esparguete à mistura (nomeadamente o franchise «Django», protagonizado por Franco Nero e realizado por Sergio Corbucci, e que originou dezenas de cópias), ganha um novo fôlego, apelando às novas tendências e às necessidades do Cinema do Século XXI (cuja importância e revelância é tão subvalorizada, principalmente pela cada vez maior hegemonia do "on-demand" e do "home cinema"), pela visão de Quentin Tarantino.


«Django Libertado» é um filme onde o divertimento é Rei e onde Tarantino explora ao máximo a sua veia sanguinária (mais notória depois de feito o díptico «Kill Bill - A Vingança»). Voltamos a ouvir os grandes diálogos habituais dos argumentos escritos pelo realizador, muito imaginativos, numa história muito bem construída (e muito bem musicada pelos gostos extravagan!tes e obscuros de Tarantino) que é esta demanda do ex-escravo Django (Jamie Foxx) e do Dr. King Schultz (Christoph Waltz), o homem que o libertou e que é um "bounty hunter" profissional. Ele "contrata" Django para encontrar os tão procurados Brittle Brothers em troca do salvamento de Broomhilda, a sua amada, mas serão muitas as surpresas que esperam este duo. E num total banho de sangue, num festim de piadas imparáveis (algumas mais negras e inteligentes - como o caso da agora famosa cena do Klu Klux Klan, que mesmo assim não é tão hilariante como muitos a pintam -, outras mais rebuscadas e fáceis) e numa aventura que parece não ter fim, «Django Libertado» é também um olhar crítico aos preconceitos da América (nomeadamente ao seu passado, com a escravatura retratada no filme, e à forma como, hoje em dia, o país parece querer esquecer esses tempos difíceis, impondo interdições e conservadorismos a torto e a direito) a e ao uso da "N-Word", ou aliás, à proibição do uso do termo, que já fez com que certos conservadores fossem mexer numa das Bíblias Sagradas da literatura americana (refiro-me a «As Aventuras de Huckelberry Finn», uma genial obra satírica e irónica de Mark Twain) por causa de uma simples e ridícula palavra. Aliás, muita da controvérsia que rodeou o filme foi exagerada e estragou, em parte, a estreia da fita e a paciência de Tarantino. Mas não deixou de ser um sucesso de bilheteira, mais um aliás, que se tornou o maior da carreira do realizador. Não é uma obra prima, não é um filme excelente e exagera, em parte, na sua duração e na lentidão de algumas partes menos estruturadas. Contudo, «Django Libertado», esta luta de um homem por amor, com as dificuldades postas pela escravatura e pelo racismo em primeiro plano, é um filme muito bom, um dos mais versáteis Tarantinos, que carrega mais uma vez na sua violência algo cartoonesca e divertida, com um grande elenco que providencia fenomenais performances (e só a dada altura é que percebemos porque é que Waltz é "só" um ator secundário do filme - porque a sua presença é enorme!), no meio da criatividade explosiva e delirante de Tarantino (onde se vê, hoje em dia, o uso do slow motion e da música épica que não nos filmes dele?), que, sejamos sinceros, adora matanças cinematográficas. E, se estivermos dispostos a isso, perceberemos como o que ele quer apenas é divertir os seus espectadores com todo aquele sangue. «Django Libertado» é mais uma ressurreição moderna do género Western, que tanto ainda tem para dar hoje em dia. Com ou sem tonalidades de vermelho a aparecerem no ecrã.

* * * * 1/2

O Sentido do Fim – as várias faces da Memória


Parece-me que pode ser esta uma das diferenças entre a juventude e a idade: quando somos jovens, inventamos futuros diferentes para nós; quando somos velhos, inventamos passados diferentes para os outros.

Quantas vezes contamos a história da nossa vida? Quantas vezes adaptamos, embelezamos, fazemos cortes matreiros? E, quanto mais a vida avança, menos são os que à nossa volta desafiam o nosso relato, para nos lembrar que a nossa vida não é a nossa vida, é só a história que contámos sobre a nossa vida. Que contámos aos outros mas – principalmente – a nós próprios.


Este é um dos livros mais bonitos e sinceros que já me vieram parar às mãos. Uma escrita brilhante e sublime, a de Julian Barnes, o autor de «O Sentido do Fim», vencedor do Man Booker Prize no ano de 2011 com esta obra. Parece-me que este é um daqueles livros tão curtinhos e que se lêem tão depressa, mas que possuem uma profundidade que muito calhamaço com várias centenas de páginas não consegue captar na sua essência. «O Sentido do Fim» é um livro onde as frases estão perfeitamente construídas, onde a forma e o conteúdo da obra se unem de uma maneira fantástica, onde fiquei maravilhado por cada parágrafo que lia, tão revelador de um escritor e de uma forma de ser e estar no Mundo. «O Sentido do Fim» é um livro sobre a memória e a forma como esta nos ilude, ou por outras palavras, a maneira como nós próprios enganamos a nossa memória que, depois, se “vingará” num futuro próximo, dando outra imagem aos factos que presenciámos que nada tem a ver com a veracidade dos mesmos. A vida é toda uma subjetividade, e é isso que Tony Webster se apercebe a cada momento, quando as suas recordações da juventude e das pessoas que o marcaram não correspondem muito ao que, de facto, lhes aconteceu, acabando por também ele perceber que ele não agiu sempre da maneira que a memória lhe permite recordar. Se pudesse haver alguém capaz de adaptar «O Sentido do Fim» de uma maneira digna para o Cinema, seria Sérgio Leone. Muitas vezes recorreu-me a lembrança dessa obra prima que é «Era Uma Vez na América» e a minha cabeça “reproduziu”, por diversas ocasiões, a banda sonora única de Ennio Morricone em muitas passagens do livro. Acho que só ele conseguiria filmar bem a sensibilidade desta história, sem correr o risco de se tornar piegas ao estilo de «Terms of Endearment». O que é pena é que ele já não esteja por cá para realizar esse trabalho, porque «O Sentido do Fim» é, para mim, daqueles livros especiais, para ler e reler no dia a dia, para ser uma espécie de “guia” para o quotidiano. É um grande pequeno livro, com tudo dentro dele.

Os Cavalos Também se Abatem – a dança na Grande Depressão


A ação da narrativa de «Os Cavalos Também se Abatem», um pequeno mas fulminante romance de Horace McCoy, situa-se durante os tempos da Grande Depressão. E aí conhecemos uma interessante moda da época, as maratonas de dança, e dois dos seus protagonistas, sendo que um deles é quem nos conta a história do que vivenciou em flashback. É singular a forma como McCoy decidiu contar a sua história, misturando as memórias do protagonista com os seus pensamentos na “atualidade” da narrativa, num ritmo tão frenético e dramático que é impossível não se ver todo o “filme” a desenrolar-se na nossa cabeça, à medida que prosseguimos a leitura. «Os Cavalos Também se Abatem» é um livro sobre a busca dos sonhos e as maneiras perigosas que se arranjam para os alcançar, como se trata também de uma mensagem sobre a juventude e a mudança das mentalidades do ser humano em determinadas situações mais delicadas. A co-protagonista, par do personagem central na maratona de dança em que participam, deve ser uma das figuras literárias mais desprezíveis e detestáveis que me lembre, pelo seu elevado pessimismo e repugnância para todos os que a rodeiam. Mas no final, talvez até consigamos perceber algumas das razões que a levam a ser assim, naqueles tempos tão atribulados, no princípio do século XX. E o título do livro pode parecer estranho, mas a metáfora contida no mesmo será devidamente, e surpreendentemente até, explicada na história. E agora resta apenas saber como é que o realizador Sidney Pollack adaptou «Os Cavalos Também se Abatem», no filme homónimo que foi algo aclamado na sua época. Porque este livro tem tudo para ser feito para o Cinema, nas mãos “dignas” disso mesmo…

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O regresso de Luther


It seems to me your conscience has killed more people than I have. 

Durante este mês de julho regressou uma das séries policiais mais brilhantes, mais negras e mais originais que a televisão britânica (com uma qualidade tão distinta dos formatos quase “standard” em massa dos americanos) proporcionou nos últimos anos, juntamente com o magnífico «Sherlock». Falo de «Luther», cuja terceira temporada, com apenas quatro episódios (mas que foram tão bons) terminou no passado dia 23, terça-feira. «Luther» não é um policial qualquer, onde os casos se resolvem num episódio como se fizessem parte de uma rotina algo entediante do seu protagonista: é um valente e profundo character study a John Luther, um invulgar polícia. E esta nova fornada de episódios, tão ansiada pelos milhares de fãs que este conteúdo da BBC conseguiu atrair desde a sua estreia, voltou a provar a originalidade e a criatividade desta narrativa, onde o enigma que rodeia a personagem de Luther se torna cada vez maior (graças às sucessivas investigações de dois agentes da autoridade que querem deitá-lo abaixo) e tudo melhora de episódio para episódio. É interessante também ver como cada temporada de «Luther» é tão diferente da anterior conseguindo contudo, conjugar tão bem a vertente policial da trama (que, nesta temporada, lida com um caso que levanta uma questão tão polémica para a Humanidade: a injustiça da Justiça e a vingança individual) como também o lado humano das personagens, não tentando torná-las em seres mecânicos e com “catch phrases” prontas a proferir. John Luther volta a sentir os seus demónios a caminharem no seu encalço nesta nova temporada, onde várias coisas inesperadas se sucedem a um ritmo alucinante, e cada vez mais percebemos como este não é um polícia qualquer. 

Em «Luther» faz-se a melhor conjugação entre as mais profundas histórias de crime e os “film-noir”. Diria mesmo que, nesta série, mostra o resultado de um encontro, nos tempos modernos, entre Alfred Hitchcock e Michael Mann, com algum contributozinho psicológico de Christopher Nolan e Jean-Pierre Melville. «Luther» conjuga o melhor destes mundos cinematográficos com a qualidade e a energia que a televisão pode proporcionar aos espectadores da atualidade, sempre sedentos de novas ideias e de novos conceitos num Mundo que, muitas vezes, se quer parecer muito desinspirado. 

É pouco provável que o criador e autor de «Luther» pense continuar a série (falou-se em acabar a história da personagem protagonizada por Idris Elba com um filme de Cinema, ou até mesmo a criação de um spin-off dedicado a uma das personagens secundárias mais adoradas da série, a psicopata Alice Morgan – e que nesta terceira temporada regressa de uma forma triunfante), mas pelo que vi, estes quatro episódios voltaram-me a surpreender de novo e acabam por fazer uma conclusão perfeita para a série. Porque depois do que o último capítulo nos mostra, o que haverá mais de interessante para explorar, de uma forma inovadora, em «Luther»? Talvez, e pela quantidade de coisas geniais que a série já nos apresentou, o criador encontre novas formas de continuar a série de uma forma sustentada e viciante, como sempre foi nestes catorze episódios. Mas se quiserem ficar por aqui, acho que ninguém se possa queixar. Porque «Luther» acabou, nesta terceira temporada, da melhor maneira: não a mais correta para a sociedade (porque se há algo que abunda neste programa são ilegalidades e muito pouca ortodoxia), mas a mais reveladora das personagens da trama. Só os “bifes” para me conseguirem cativar assim…

O Adeus às Armas – Ernest Hemingway e a I Guerra Mundial



A guerra parecia tão longe como os desafios de futebol de um colégio que não fosse o nosso. Mas eu sabia pelos jornais que se continuava a combater nas montanhas, porque a neve nunca mais vinha. 

«O Adeus às Armas» é uma interessante ficcionalização do que o seu autor, rnest Hemingway, viveu e experimentou na I Guerra Mundial, em que participou. Não sendo um livro muito original e, por vezes, demasiado repetitivo e cansativo nas suas descrições pouco construtivas do conflito em questão (e, aleluia, sinto-me feliz por não ser o único que se sinta assim com a escrita do autor – já ler «O Velho e o Mar», no ano passado, tornou-se um martírio tal que nem me lembro se acabei a leitura), acaba por ser uma narrativa relevante por viver da experiência pessoal do escritor, que sentiu na pelea tragédia que abalou o Mundo nos anos 10 do século passado. «O Adeus às Armas» é, também, uma história de amor, trágica e bonita, entre Frederic Henry e Catherine Barkley, durante os anos da Guerra. Mas apesar de se ler muito bem (à exceção de algumas partes menos bem construídas, que envolvem as ditas situações da Guerra), «O Adeus às Armas» parece funcionar melhor como documento histórico, hoje em dia, do que propriamente uma leitura no sentido literal do termo. Na contracapa da edição que me veio parar às mãos, da Livros do Brasil, «O Adeus às Armas» é declarado como “uma das obras primas de Hemingway”, uma noção tão subjetiva como as memórias do próprio Hemingway em relação à I Guera Mundial. Mas o reconhecimento desta obra é tão grande que vale, pelo menos, uma espreitadela e, se vos interessar, uma leitura completa.

Gastronomia


Uma das poucas qualidades que tenho é a de ser um bom garfo. Tenho uma certa curiosidade pela gastronomia e um gosto em experimentar alimentos que estejam ligados a alguma cidade ou região em específico. 

Ontem, experimentei amêijoas, uma das iguarias algarvias que nunca tinha provado. Apesar de alguma indecisão inicial, dez minutos depois, com o fim das doses, o estado do meu prato era este. E a amêijoa que está em cima era uma que tinha um tamanho maior do que o normal (a fotografia não mostra isso muito bem), e foi a última que ingeri. Fiquei satisfeitíssimo.

Politiquices

Os partidos políticos são como os canais de televisão por cabo: há tanta escolha mas, no fundo, nenhum acaba por interessar verdadeiramente. E enquanto não se descobre a "luz" no meio da "escuridão", nós continuamos no teimoso zapping.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Eu no Público


Faço uma pequena pausa das minhas mini férias da internet para publicitar esta reportagem, da autoria da Catarina Durão Machado, onde tive o privilégio de participar e de, lá está, ser fotografado. Ficou um texto muito interessante sobre a passagem do secundário para o ensino superior. E saiu no Público de ontem e diz-se que este estaminé foi lá mencionado!

O artigo online pode ser lido carregando neste link.

E agora retomo o período de descanso da net. Ah, e aproveito para, entre mergulhos de piscina e praia (tem sido ótimo) e entre leituras, sacar os novos episódios de «Luther». Porque já estou com saudades.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Adeus até ao meu regresso

Sim, as férias são para descansar. E nos próximos dias vou para o Sul do país e não vou estar a atualizar a Companhia das Amêndoas. Volto a 27 de Julho, sem falta, com coisas novas. Mas vou aproveitar para descansar, mais uma vez, a cabecinha (ela nunca funcionou muito bem, é a vida!). Obrigado por lerem este estaminé e umas boas férias, se for o caso! 

Laços de Ternura (Terms of Endearment) [1983]


«Laços de Ternura» é um filme sobre os trinta anos de uma relação entre uma Mãe (Shirley MacLaine) e a sua filha (Debra Winger). Variando entre a comédia e o melodrama, o filme conta todas as atribulações que as duas viveram e como as suas vidas mudaram ao longo dessas décadas, passadas em "revista", por vezes, com uma demasiada correria em contar coisas que, muitas vezes, o espectador não precisava de saber, tornando a fita demasiado longa para aquilo que oferece. O que o filme nos mostra é que, apesar dos tempos mudarem, as sucessivas gerações acabam sempre por cometer os mesmos erros, mesmo que os seus antepassados alertem para as consequências das coisas que fazem «Laços de Ternura» é um filme, aparentemente, sobre as desilusões criadas pelas ilusões que a vida fornece a cada um de nós, e a forma como lidamos com a nossa própria existência. Pena é que o excessivo e inconsequente melodrama tenha tido mais espaço do que estas temáticas mais interessantes...


Apesar de ter sido um grande sucesso do público e da crítica quando estreou, «Laços de Ternura» é o exemplo do filme que não resistiu ao tempo - ou que as massas gostaram na época e que eu continuaria a opor-me, se estivesse em 1983. É um filme que vai buscar muitos dos tradicionais formalismos com que se fazem, ainda hoje, as telenovelas: uma história demasiado direta, sem objetivos cinematográficos, música irritantemente repetitiva, como se servisse de indicador ao espectador para dizer "é para chorar aqui"... Vale pelos grandes diálogos das personagens, alguns muito bem escritos, pela realização delicada de James L. Brooks (que gosta muito de lidar com as relações humanas - algo que sai bem neste filme, e noutro seu que eu gosto mais: «Melhor é Impossível», também com Nicholson) e pelas soberbas interpretações de Shirley MacLaine e Jack Nicholson (vencedores de Oscar com este filme, e que fazem uma química excelente). O resto é totalmente esquecível, nesta fita em completo "80's style". Uma fita a dar ares de "perfeitinha", made in Hollywood de uma ponta à outra, e que para mim, foi uma das muitas decisões duvidosas da Academia. 

* * * 1/2

quinta-feira, 18 de julho de 2013

8 1/2 [1963]


Uma crise de inspiração? E se não fosse passageira? Se fosse o desmoronamento final de um mentiroso sem sorte nem talento?

Depois de «La Dolce Vita», do seu sucesso internacional e da influência que teve para outros filmes e cineastas da época, Federico Fellini volta a chamar o grandioso Marcello Mastroianni para brilhar como protagonista noutra fita, completamente diferente dessa tão famosa obra cinematográfica com a icónica cena passada na Fonte de Trevi, entre Mastroianni e Anita Ekberg. Após uma colaboração em «Bocaccio 70'», Fellini decide apostar num filme completamente diferente de «La Dolce Vita», onde o sonho e a realidade se confundem constantemente, e acrescentado uma dose autobiográfica muito intensa à narrativa, protagonizada por Guido, um cineasta com um sério bloqueio criativo (ele vai fazer um novo filme... só não sabe é sobre o quê!). A estranheza começa logo pelos três algarismos do título: o que quererá simbolizar «8 1/2»? Segundo a História do Cinema, é porque este se tratou do oitavo e meio trabalho de Fellini (esta era a sétima longa-metragem, mas o realizador participara também em três outros filmes, contando cada como um "meio") e, circunstâncias do destino à parte, este é um dos números mais famosos da Sétima Arte. Apenas o título dá logo uma ideia da componente autobiográfica do filme, mas obviamente, é muito diminuta: a autobiografia só se compreenderá mesmo com o visionamento da fita e com a atenção às cenas em que Guido recorda o seu passado (há nessas partes uma exatidão tal que é muito difícil não perceber que existe muita coisa que aconteceu mesmo nas situações apresentadas) e nos dilemas que este sofre com as pressões de todos os produtores e agentes que o querem a trabalhar no seu próximo projeto cinematográfico, à medida que a realidade se confunde com os inúmeros sonhos (alguns bastante surreais - veja-se logo a cena que abre o filme) que povoam o sono de Guido. É interessante a forma como «8 1/2» "autoriza" o espectador, no meio de todas as cenas que variam entre o drama e a grande comédia à italiana (que, e agora num tom de nostalgia, já não se fazem hoje em dia, pelo menos desta forma), pensar pela sua própria cabeça qual é o autêntico real da história. E «8 1/2» permite tantas teorias, tantas explorações e tantas vias para a sua narrativa... Vou ter de ver este filme muitas mais vezes. Deixou-me uma vontade enorme de o fazer.


Muitos realizadores consideram os seus atores como meros acessórios para a elaboração dos seus filmes. Contudo, isso nunca pode ser bem verdade (porque, mesmo que o cineasta faça um filme onde tudo é genial, menos a forma de interpretar dos atores - segundo a história, segundo o ambiente, segundo as intenções da câmara, etc -, isso pode danificar muito um filme - aliás, o que seria «Laranja Mecânica» sem a inesquecível performance de Malcolm McDowell? Ou será que «Vertigo» de Hitchcock teria o mesmo poder narrativo se James Stewart não fosse o personagem central dessa fita?) e Federico Fellini sabe muito bem disso. Tal como em «La Dolce Vita», é Mastroianni que domina «8 1/2» e toda a força e imaginação que dá a Guido. E no meio do rol de personagens peculiares e excêntricas (mas que nunca perdem a sua humanidade, apesar da excentricidade) que o rodeiam, ele consegue sempre destacar-se por ser, lá está, o "sol" de toda a fita. Desiludido com a sua vida, Guido não quer ser obrigado a fazer um filme para o qual as ideias não abundam, mesmo que tenha ido fazer tratamento a umas termas para tentar recuperar a criatividade perdida. Recorre muitas vezes à nostalgia que nutre pelo passado neste seu desgosto constante com o presente, recordando certas pessoas que o marcaram (e acaba por reencontrar uma ou outra, que acabam por lhe suscitar mais memórias e situações). Em «8 1/2» há sempre algo a acontecer, várias situações em cada cena, sempre tão humanas e ao mesmo tempo irreverentes, que tornam o filme ainda mais rico do que se poderia esperar. Fellini aproveita e dá também ao espectador mais um retrato da "sua" Itália, suas ideias e seus costumes (acabando por dar alguma maior atenção ao papel de uma Igreja mais conservadora e fanática, que ele próprio testemunhou em pequeno), não deixando de ser uma crítica algo satírica que abrange qualquer país e qualquer ser humano. Se em «La Dolce Vita» havia um confronto mais autêntico com a realidade, em «8 1/2» a mesma está também presente nos sonhos de Guido que, apesar da elevada surrealidade, não deixam de ter uma intenção crítica - nem que seja para a perspetiva de Fellini e no valor ou na importância que as personagens ou as situações que Guido recorda tiveram na vida e nos comportamentos do cineasta.

O desfile das memórias e dos sonhos de Guido numa das melhores e mais inesquecíveis cenas de 8 1/2
«8 1/2» é mais um exemplo da mestria da realização e da imaginação de Federico Fellini, um cineasta que soube explorar todas as potencialidades do Cinema para conseguir por em prática algumas das suas mais malucas ideias e conceitos. Vemos tudo e mais alguma coisa a suceder-se no filme, o personagem central e reencontrar-se, fisica e mentalmente, com o seu passado, e o frenesim é tanto que ele próprio começa a questionar o seu verdadeiro valor. Uma questão que me ficou na cabeça durante o visionamento do filme e que deixo aqui exposta foi: será que Guido é um sósia psicológico de Marcello, de «La Dolce Vita»? Ambas as fitas deixaram-me uma impressão tão forte e encontrei algumas semelhanças muito interessantes entre as duas personagens (apesar de, ao mesmo tempo, serem muito distintas - Marcello é um playboy italiano e boémio, Guido é um cineasta a entrar num quase-estado de decadência pessoal e criativa) que não consegui deixar de pensar nesta questão - ambos estão frustrados e decidem não sair da situação de frustração que sentem (porque no fundo, Marcello e Guido nada têm a dizer ou a fazer no ambiente em que se encontram, mas querem atrair, na mesma, alguma atenção sobre si próprios)... mas fica à vossa consideração, se estiverem a pensar em ver o(s) filme(s) ou se já o(s) conhecem neste momento. Porque eu não sou um teórico do Cinema e há coisas que servem melhor para tema de conversa do que para a escrita... Em «8 1/2» Fellini volta também a confrontar o sagrado e o profano, deixando uma série de importantes questões morais após o término da fita. Todo o elenco é soberbo, mas Mastroianni, mais uma vez, volta a ser um inesquecível protagonista felliniano, acompanhado por mais uma sublime banda sonora do sempre inspirado Nino Rota. «8 1/2» é um filme inquieto, como o ser humano é inquieto, e como o próprio Fellini também o é. Ao pegar na sua própria vida, o realizador conseguiu fazer um filme maior do que a vida, e que conseguiu dar um novo fôlego ao seu próprio Cinema.

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segunda-feira, 15 de julho de 2013

Breve Encontro [1945]


No último ano da Segunda Guerra Mundial estreava «Breve Encontro», um drama romântico intimista britânico, simples e encantador, realizado pelo Mestre David Lean, muito tempo antes deste cineasta criar esses épicos esmagadores que caracterizariam o seu Cinema a partir da década de 50, como «A Ponte do Rio Kwai», «Lawrence da Arábia» e «Dr. Jivago». Neste pequeno filme encontramos uma realização muito distinta da grandiosidade dessas fitas com que Lean se celebrizaria em todo o Mundo: é um romance simplista e quase banal, que deve muito do seu espírito e do seu encanto à dinâmica entre os dois atores principais e à misteriosa e bonita banda sonora, minimalista, muito assente no segundo concerto para piano composto por Sergei Rachmaninoff. «Breve Encontro» é uma história de amor à inglesa, onde no meio do retrato das duas personagens e dos encontros furtivos e escondidos que têm uma com a outra às quintas-feiras e que alimentam o amor que os une, se faz uma crónica dos costumes britânicos e das características de um povo tão peculiar, quer na sua linguagem, quer nos seus hábitos quotidianos. David Lean filma os pequenos movimentos dos atores, as subtilezas do espaço e a magia da Grã-Bretanha de uma forma tocante, centrando-se nessa relação que tem tanto de romântica como de destruidora para os dois amantes. A protagonista, Laura (Celia Johnson) confessa interiormente os seus "pecados" ao marido, que não suspeita da traição da esposa, ao longo de um monólogo "ilustrado" pelos flashbacks da sua mente, que nos revelam muitos dos momentos bonitos e reveladores que criaram a relação entre as duas personagens principais e que a fez crescer de uma forma preocupante para cada um deles mas que, para Laura, a deixa constantemente perturbada e preocupada com o futuro daquela relação secreta. Recheado de "lamechices" clássicas (no bom sentido do termo) tão bonitas e tão bem executadas, «Breve Encontro» é um dos romances que já não se fazem no Cinema (ou que, pelo menos, não são recorrentes nas novidades recentes da Sétima Arte - talvez só «Before Sunrise» se consiga safar deste rótulo), que recorre às pequenas coisas do Amor para o retratar da melhor forma, sem ser pretensioso nem precisando de recorrer a grandes dramatismos ou grandes fantasias para conseguir funcionar da melhor forma, filmando o romance de uma maneira inteligente e subtil. E ainda bem.


«Breve Encontro» tem a duração certa. Porque se o romance de Laura e Alec se tivesse prolongado por mais algumas cenas, talvez ter-se-ia tornado enfadonho, tal como se sucedeu com muitos filmes românticos da época (é uma lição que muitas fitas românticas de hoje teimam em não querer aprender ou utilizar nas suas narrativas), que hoje nos podem parecer algo datados. E por ser um filme tão preciso, direto e bonito e por si mesmo, ele não deixa grandes coisas para serem ditas, porque fala pelos seus oitenta e três minutos. Um filme simples, que enche as medidas de quem procura uma história singular e, ao mesmo tempo, com que nos possamos identificar. «Breve Encontro» foi, à época, um sucesso de bilheteira no Reino Unido, tendo sido também aplaudido com grandes honras no Festival de Cannes. E acho que o seu êxito deve ao seu romance que, a meu ver, tem um carisma tão grande como o de outros clássicos intemporais da Sétima Arte, cuja frescura e narrativa ultrapassou o seu ano de criação, tal como «Casablanca», que deve ser sempre obrigatoriamente mencionado. A forma como Lean pega nesta história tão vulgar e a transpõe para o ecrã tornou-a inesquecível para muitos (mais do que a mim, sinceramente) e consegui entender como é tão adorada esta fita. Uma daquelas pérolas que só os "Antigos" poderiam fazer e que, com tanta magia que possui, consegui resistir até aos nossos dias...

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sábado, 13 de julho de 2013

Close-Up [1990]


Quais seriam as verdadeiras intenções que o realizador Abbas Kiarostami tinha com este seu filme, «Close-Up», criado a partir de um acontecimento real que fez com que o cineasta quisesse filmá-lo, em substituição ao projeto que estava previsto executar naquele ano de 1990? Alguns veem, neste documentário ficcional, uma tentativa oportunista e pretensiosa por parte de Kiarostami para se aproveitar do drama de Hossain Sabzian para criar uma espécie de estudo sobre o poder do real e do irreal no Cinema. Outros analisam «Close-Up» como uma obra-prima cinematográfica (está incluída até na mais recente versão da lista dos Melhores Filmes de Todos os Tempos do British Film Institute) que mudou a Sétima Arte e que ajudou a que o Cinema não voltasse a ser feito e visto da mesma forma como era antes. Bom, opiniões e extremismos à parte, é impossível ficar-se indiferente a esta interessante investida de Kiarostami, um constante cruzamento entre a realidade e a ficção, onde a atualidade é muito importante para o desenrolar da ação cinematográfica, à medida que se conjuga com a recriação dos momentos reais contados pelas personagens sobre o caso apresentado: um homem (Sabzian) enganou uma família (os Ahankhah) por se fazer passar pelo seu realizador preferido, Mohsen Makhmalbaf (cujo filme «O Ciclista» é adorado por Sabzian que diz, mesmo, ser em parte um dos seus autores). Na parte documental do filme (que é captada por câmaras e métodos mais rudimentares), acompanhamos todo o julgamento de Sabzian e as coisas de que é acusado pela dita família. Mas o resto do filme, captado de uma forma mais limpa e cinematográfica, com técnicas mais profissionais, pode nem ser totalmente ficção: há a recriação dos momentos do "crime" de Sabzian (a cena em que ele enganou a Mãe daquela família, no autocarro, é toda uma reconstituição da realidade - interessante a forma como os "vigarizados" terem aceite entrar nas partes de ficção do filme), mas depois existe uma ou outra cena que nos deixa numa dúvida total quanto à sua veracidade (como a entrevista de Kiarostami a Sabzian - que lhe pede para filmar o seu sofrimento - e o final da fita). «Close-Up» é uma análise do poder do Cinema e a forma como analisamos as coisas que o ecrã nos apresenta. Com os "atores nos seus próprios papéis" (todos os intervenientes do filmes representam-se a si mesmos, quer na parte real quer na parte dita fictícia - tão duvidosa) acompanhamos o julgamento de Sabzian e tudo o que levou àquele momento triste, em que confissões serão feitas e verdades serão reveladas. É um retrato de realidades sociais, a partir de um Cinema que, querendo filmar o que o condiciona a ser tal como é, pretende também analisar a própria Sétima Arte e todas as linguagens que esta permite utilizar.


«Close-Up» contrapõe o real ao ficcional, fazendo com que o espectador se questione frequentemente onde está a Verdade no filme e onde começa a "ilusão" da Verdade. Nem uma aparente separação de filmagens (pelos dois tipos de técnicas expressas no parágrafo anterior) impedem que surjam as constantes dúvidas que o filme nos coloca. Algo como Fernando Lopes tinha já tentado, em parte, com «Belarmino» e as deambulações do pugilista pelas noites da capital portuguesa, mas em «Close-Up» essa interseção torna-se muito menos percetível e Kiarostami utiliza-a muito bem, de uma maneira inteligente e perspicaz. O filme é a história de Serbzian e do seu amor pelas artes (e, primordialmente, pelo próprio Cinema), que o levou a agir daquelas formas tão estranhas que as testemunhas nos contam durante o julgamento (e que são recriadas em determinados momentos). Repleto de mensagens sociais e políticas, onde ficamos a simpatizar, praticamente, com todas aquelas personagens "reais", vindas de estratos tão distintos, «Close-Up» é uma interessante obra cinematográfica, que brinca com o Cinema tal como o conhecemos e a forma como este gosta de nos iludir com as suas técnicas. E Nanni Moretti gostou tanto do filme e de o estrear em Itália, na sua sala de Cinema independente (a Sacher), que filmou a sua obsessão numa curta-metragem de seis minutos a que intitulou «No dia da Estreia de Close-Up», disponível como extra na edição nacional em DVD do filme. Essa curta acaba, também, por comparar a pouca influência que filmes "outsider" como é o caso de «Close-Up» possuem nos meios de comunicação social. Porque não sendo um filme perfeito, «Close-Up» é uma obra de alerta para a sociedade moderna e para o Cinema contemporâneo, através do olhar de Abbas Kiarostami e, em particular, pelo caso de Sabzian, um apaixonado pelo Cinema que só queria mesmo ter a oportunidade de poder pertencer a esse mundo artístico.

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Outra vez a sobrecarga de informação


Hoje estive, mais uma vez, a pensar na forma como a minha geração tem acesso a demasiada informação. Temos tanta coisa ao nosso dispor e estamos envolvidos em tantos formatos digitais que nos esquecemos de tentar organizar a cabeça! É impossível viver assim, pelo menos para mim: não estar concentrado a ver um filme porque tenho o telemóvel ligado, não conseguir ler um livro pelo barulho e pelas preocupações que estão a bombardear a minha cabeça... Bolas! Eu quero parar com isto! Quero ir para uma ilha afastada do Mundo, sem internet, sem informação a mais, onde me possa concentrar nas coisas que quero mesmo fazer!  
E enquanto tento magicar uma ideia para acabar com esta sobrecarga de informação que tanto me atormenta, vou só por uns likes no facebook, responder a uma SMS, rever um texto para o blog, ver os sites de jornais portugueses, responder a fóruns, ler umas coisas e... ups. Mais vale estar calado.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A Vida é um Jogo (The Hustler) [1961]


I'm gonna beat him, mister. I beat him all night and I'll beat him all day. I'm the best you've ever seen, Fats. Even if you beat me I'm still the best.

«A Vida é um Jogo» apresenta uma das personagens mais memoráveis da carreira do lendário ator Paul Newman, "Fast Eddie" Nelson, cuja história de vida continuaria, vinte e cinco anos depois, numa sequela não tão aclamada como o filme original, realizada por Martin Scorsese e com o nome «A Cor do Dinheiro». Mas centremo-nos em «A Vida é um Jogo»: é um filme que criou um dos mais memoráveis personagens do Cinema Americano e que, apesar de todo o seu ar de anti-herói, é uma das figuras mais acarinhadas pelo imaginário das fitas dos States. E apesar de ser um filme que tem o bilhar (e o fascínio de Eddie pelo desporto) como ponto central, é mais uma obra que lida com um grande "character study" das várias personagens que a protagonizam (Eddie, a sua namorada Sarah, o mestre do bilhar Minnesota Fats e o apostador pouco escrupuloso Bert Gordon) do que com o jogo propriamente dito (apesar da câmara seguir e captar profundamente os grandes momentos de jogo e as grandes táticas do bilhar das disputas que a narrativa nos conta, utilizando ângulos muito favoráveis e uma montagem muito bem construída). Contudo, é por causa do jogo que toda a história se desenrola, e é o bilhar que acaba por condicionar as vidas das figuras do filme. «A Vida é um Jogo» é uma adequada tradução não em relação ao título original (que é, pura e simplesmente, «The Hustler»), mas sim em relação às temáticas do filme e à mensagem de vida que transmite: a existência humana é como um jogo, cheio de obstáculos e de armadilhas que o Homem tem que ultrapassar, e muitas vezes, para conseguirmos atingir os sonhos que tanto ambicionamos, o preço a pagar pela execução dos mesmo é muito elevado e pode trazer consequências que não conseguimos até prever, quando temos de tomar alguma decisão delicada que envolva algum desses ditos sonhos (porque, e como dizia o poeta, "O Sonho comanda a Vida"). Mas é de ambição que se faz «A Vida é um Jogo», da persistência de "Fast Eddie" Felson em querer derrotar o aparentemente invencível Minnesota Fats (Jackie Gleason), num duelo de gigantes que pretenderá vencer durante muito tempo, não olhando a meios para poder atingir os seus inacreditáveis fins. E no meio disto, há sempre muitas apostas a serem feitas e, por isso, o dinheiro está constantemente a circular...

Os vícios do jogo e da ambição desmedida de "Fast Eddie" Felson.
"Fast Eddie" Felson não se cansa do seu objetivo, e a sua ambição parece não ter limites: ele faz mesmo de tudo para vencer e para continuar a dar que falar no mundo quase "subterrâneo" e escondido do bilhar, onde o perigo espreita e os interesses dos mais endinheirados também vêm ao de cima (e isto é muito evidente na personagem de Bert Gordon - o inigualável George C. Scott, que recusou a nomeação ao Oscar atribuída pela Academia por esta grande interpretação - que, ao ver Eddie tão determinado em arrumar Minnesota Fats, decide usá-lo para ganhar mais umas massas, ensinando-lhe, como diz a sinopse do filme, a "cruel arte de vencer"). Mas a persistência de Eddie, e a forma como isso o leva a ser derrotado em algumas partidas de bilhar ou a meter-se em sarilhos por causa das suas jogadas, interroga-nos se ele terá mesmo talento, ou se tudo aquilo não passa, pura e simplesmente, de um grande golpe de sorte. No excelente final do filme tudo ficará esclarecido, quando Eddie defronta, por uma última vez, o estranho mundo do bilhar e do dinheiro que o envolve, revelando ainda mais o seu temperamento desafiador e o "descaramento" que tem em relação aos que o rodeiam. Mas Eddie é uma pessoa com problemas e um indivíduo difícil de lidar, e daí, conhece Sarah (Piper Laurie), ume mulher algo perturbada que o segue e que acaba por sofrer as consequências da sua ambição descontrolada e pelo facto de não querer continuar a ser um "perdedor" nem de não saber nunca quando deve desistir, para o seu próprio bem (o que causa um dos grandes momentos de clímax da narrativa). No fundo, Eddie só pretende, como qualquer ser humano, integrar-se num determinado ambiente e impor-se perante os outros. Quer ser ele próprio e só pede que se faça notar no meio do pessoal. Mas será que conseguirá atingir o reconhecimento que tanto anseia? Será que as noitadas de jogo e de apostas trarão alguns frutos para ele e não para o seu pseudo-manager, que ganha mais do que ele pelas disputas em que participa? E por fim, será que Eddie perceberá que não só de ambição vive o Homem?


«A Vida é um Jogo» é, justamente, um clássico do Cinema por três razões: por ter conseguido fazer um retrato tão negro da vida sem cair em facilitismos ou clichés (utilizando o preto e branco para realçar a dureza dos ambientes em que Eddie entra e onde joga bilhar), algo que deve muito ao seu realizador, Robert Rossen; por ter essa personagem lendária (magistralmente interpretada por Paul Newman, com uma humanidade e uma simplicidade extraordinárias) e com quem nos conseguimos identificar tão bem, mesmo que nunca nos tenhamos confrontado com uma situação deste tipo; e pelo argumento, baseado no livro homónimo de Walter Tevis, que foi construído de uma forma elegante e que os atores souberam aproveitar muito bem nas suas excelentes performances. «A Vida é um Jogo» é um filme do público, mas que não deixa de ser (apesar de filmes ditos "populares" poderem ser, muitas vezes, muito mal conotados - e injustamente) uma excelente peça de Cinema, feita de coisas simples que acabam por se tornar bastante complexas quando as olhamos mais de perto, tal como o filme nos mostra. Esta é uma daquelas fitas que nos quer dar algumas pistas sobre o jogo da vida através de uma ficção que tem tanto de realidade como a existência de cada um dos seus espectadores. E não é por causa dos filmes que a nossa vida pode mudar, mas a Sétima Arte pode ajudar a abrir a nossa visão das coisas para perspetivas mais abrangentes e problemáticas. «A Vida é um Jogo» consegue fazer isso e, melhor ainda, ainda é um filme muito negro hoje, pela maneira realista e sem pretensiosismos como filma as deambulações de "Fast Eddie" Felson. Porque todos ambicionamos algo na vida, mas talvez não conseguimos perceber que tudo o que é ambicionado tem um preço, mesmo que lutemos o mais que conseguirmos pelos nossos sonhos...

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Saiu o trailer de Saving Mr Banks




Do realizador de “The Blind Side”, John Lee Hancock, o filme acompanha a luta de Walt Disney para obter direitos de PL Travers (Emma Thompson) para o livro de Mary Poppins, o que eventualmente levou à criação do clássico filme familiar. O elenco também inclui BJ Novak, Colin Farrell, Bradley Whitford, Jason Schwartzman, Paul Giamatti e Ruth Wilson. Um filme a olhar com atenção para a próxima Award Season e que acaba de ganhar o primeiro trailer:

Hum... filme produzido pela Walt Disney sobre o próprio Walt Disney... é capaz de ser uma grande ficção. A Disney ainda não conseguiu recuperar do trauma da verdadeira personalidade do seu criador (anti-semita, psicótico, etc), e não acho que seja desta que isso vá acontecer... Nice try, however. Talvez Hanks até consiga voltar a surpreender, mas tenho quase a certeza que não será um Walt Disney aproximado da realidade que vai ser retratado.

John Oliver no Daily Show


John Oliver foi uma escolha acertada para substituir Jon Stewart na apresentação do genial Daily Show (em Portugal é transmitido nas SIC's Notícias e Radical). A equipa de argumentistas do programa é fabulosa e eu gosto muito de cada um dos elementos da mesma, mas Oliver tem feito um excelente trabalho que nenhum dos outros conseguiria executar. Ele não apaga Stewart (o que é bom, mantém viva a "chama" do seu patrão), mas tem mostrado, de uma forma mais visível que só as pequenas aparições que fazia antes não permitiam, o talento de um grande comunicador. Oliver está há um mês no "posto" e espero que, nos dois meses que faltam para acabar este trabalho temporário, ele continue a dar o seu melhor e a proporcionar grandes momentos de humor televisivo. Porque é o que precisamos neste momento.

Sobre a inscrição para a segunda fase...

Burocracia, Burocracia, Burocracia... Vi hoje tanta papelada a circular na escola, quando fui candidatar-me à segunda fase dos exames, que começo a não entender porque é que se diz que o papel vai deixar de existir... Os impressos criam um ritual anual único e inesquecível! E ver toda aquela malta reunida, à espera da sua senha ser chamada... Que calor humano! Ah, e é algo que não se encontra em festivais de Verão, na naaa. Esta experiência foi mesmo qualquer coisa de especial...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Caimão [2006]


«O Caimão» é uma história de família e de política, feita de todos os condicionalismos que cercam os seus autores (um deles o realizador Nanni Moretti, que há bem pouco tempo voltou a dar que falar com «Habemus Papam - Temos Papa»), que levaram à criação deste filme. Let's face the facts: «O Caimão» não existiria sem Silvio Berlusconi, visto que é ele o alvo do novo filme que Bruno Bonomo (o formidável Silvio Orlando, um ator veterano dos anteriores filmes de Moretti), um neurótico produtor de filmes de qualidade duvidosa, vai dar ao mundo, após dez anos de ausência da atividade cinematográfica ("despedida" forçada que se deveu ao seu último filme, «Cataratas», cujos "fabulosos" minutos finais são-nos mostrados no início de «O Caimão», ter sido um grande fracasso precisamente uma década antes, o que levou o produtor à ruína financeira e profissional - na narrativa da fita, o filme está a ser projetado numa espécie de cineclube que "aclama" o "brilhante" talento de Bonomo), depois de ter recebido o guião escrito por uma jovem realizadora, Teresa Mantero (a brilhante Jasmine Trinca - também esteve muito bem no anterior filme de Moretti a este,«O Quarto do Filho», um autêntico drama, completamente distinto de «O Caimão»), com o título que dá nome a esta obra. A princípio, e por sua própria culpa (não se deu ao trabalho de ler o guião inteiro, mas sim, na diagonal), Bonomo não percebe as grandes críticas sociais e políticas que rodeiam a história de Teresa, e mais propriamente, a construção do Império de Berlusconi e todas as questões que os seus negócios duvidosos e algo criminosos deixaram por responder (e que continuam sem resposta, em alguns casos), sendo que uma delas (a que é constantemente repetida ao longo de todo o filme) é "De onde vem todo o dinheiro dele?". 


A "carreira" de Berlusconi alterou a situação política da Itália nos últimos trinta anos, devido ao facto que o político atuou em várias frentes (como na televisão e na construção de empresas) e sempre com algum aparente sucesso - sucesso esse construído a partir de métodos muito pouco legais -, que reforçou a sua imagem dentro da opinião pública... pelo menos, durante uns anos. E quando se apercebe disso, Bonomo percebe que será muito difícil levar um projeto destes a bom porto. Muitos interesses estão em jogo e são poucos os que pretendem mesmo pôr o dedo na ferida e atacar um senhor tão poderoso e que move tanta coisa em Itália, e serão muitas as ocasiões em que, quando tudo parece estar bem, se sucedem novos problemas que dificultarão ainda mais a elaboração de «O Caimão». E, ao mesmo tempo que encaramos esta espécie de "making-of" do projeto de Bonomo (que, além deste problema, está numa situação familiar e matrimonial delicada) e Mantero, mostram-nos algumas cenas em que o primeiro "imagina" partes do guião que está a ler, dando-nos uma ideia da extrema força política e crítica que a história da jovem rapariga escreveu... Se eles vão conseguir realizar o filme, isso é questão de vê-lo e cada um tirar as suas conclusões. Mas, com «O Caimão», Moretti deixou um filme que acaba por ser um retrato do seu próprio país, sem deixar de dizer qualquer coisa a qualquer outro. Com cenas cómicas hilariantes, muito bem equilibradas com o drama e a sátira política e social que é feita (e que culmina com o extraordinário final da fita - e mais não conto), «O Caimão» é não só um guia para a(s) trafulhice(s) em que Silvio Berlusconi esteve envolvido nas últimas três décadas, como também consegue ser uma genial obra sobre a humanidade e a mentalidade do ser humano, condicionada pelos meios de comunicação social e pelos interesses que põe em causa em determinados momentos da sua vida pessoal e profissional.


«O Caimão» é, além de um dos melhores filmes do realizador Nanni Moretti (e o melhor, pelo menos, entre as três fitas que elaborou no século XXI), uma peça-chave para se entender melhor muitas das convicções e preocupações do Cinema contemporâneo. Não foi tão elogiado pela crítica ou pelo público como outras das obras do cineasta, mas é um filme que precisa de ser descoberto e redescoberto. É um filme cheio de intenções, repleto de mensagens políticas e sociais, sem querer moldar a cabeça do espectador a pensar de uma certa maneira. Em «O Caimão», são apresentados os factos e uma visão muito realista do quotidiano de cada ser humano e dos bastidores obscuros da política. Trata-se de uma obra muito bem medida, com vida, acima de todas as outras coisas. Um filme inteligentíssimo, para rir e pensar no verdadeiro significado do impacto de políticas, de reformas e de reformistas na nossa sociedade. Moretti apenas nos dá um fio dos acontecimentos, e deixa-nos explorar, segundo a nossa própria cabeça, toda a narrativa do filme, sendo que cada um tira as conclusões que assim melhor entender. Com uma grande realização, e um retrato das relações humanas ao melhor estilo de Woody Allen, «O Caimão» é uma crítica que assenta que nem uma luva a qualquer regime político e a qualquer pessoa. Uma delícia de filme, muito bem medida, e que não se trata de um filme datado, apesar de abordar, em parte, um político que teve mais influência no ano em que foi produzido (contudo, Berlusconi continua a dar que falar hoje - prisões e tal...), porque o seu valor e o seu simbolismo permanecerão, felizmente (e também infelizmente), intemporais...

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sábado, 6 de julho de 2013

Jackie Brown [1997]


O genérico, com uma música muito "cool" (interpretada por Bobby Wormack, e cujo nome é «Across the 110th Street»), que abre «Jackie Brown», o terceiro filme realizado por Quentin Tarantino (e um dos menos aplaudidos pela crítica) e que, de alguma maneira, parece ser uma espécie de homenagem à famosa sequência inicial com Dustin Hoffman em «The Graduate», acaba por dar uma certa ideia de algumas das coisas que podemos esperar nesta fita, tão Tarantiniana mas que, ao mesmo tempo, rompe com alguns estilos e formas que o cineasta utilizou nos seus dois anteriores filmes e que não estão tão presentes neste. Mas lá está, Tarantino sem marcas de Tarantino não seria a mesma coisa, e algumas das suas características mantêm-se, como o extenso palavreado "hardcore", os acutilantes diálogos intermináveis e que não se enquadram muito no que poderíamos estar à espera de ouvir, e as situações vividas pelas personagens, sempre com o seu "quê" de surpreendente. «Jackie Brown» é uma espécie de "filme-de-transição" entre a obra prima que é «Pulp Fiction», e o díptico de «Kill Bill», que se seguiria, alguns anos mais tarde, à obra protagonizada pela irreverente Pam Grier. Como filme "a solo", marca uma nova reinvenção do estilo Tarantino, e que, apesar de algumas falhas, mostra mais uma vez a versatilidade de um dos grandes nomes do Cinema Americano da atualidade, numa mistura de comédia, crime, romance e farsa, em que todas as personagens, ou pelo menos a maioria delas, podem não ser o que parecem. As mentiras que são sucessivamente contadas em «Jackie Brown» levam o espectador a entrar na roda viva que é a narrativa do filme e que (outra característica de Tarantino que se manteve nesta sua terceira realização) é habilmente desconstruída, tanto formal como cronologicamente, mostrando que ainda se podem revolucionar os tradicionalismos da escrita de filmes e da forma como se quer contar uma história na Sétima Arte. Ah, e aparece, mais uma vez, a referência do porta bagagens, que volta a ter uma função muito importante para a narrativa, que é muito cómica (ao estilo do melhor humor negro e sarcástico) e excêntrica, acompanhada na perfeição pela banda sonora mais uma vez escolhida a dedo pelo próprio Tarantino (com as suas tão peculiares referências e gostos culturais - sinceramente, há coisas que ele vai buscar e que não lembram a ninguém!)...


Jackie Brown (Pam Grier) é a figura central do filme homónimo: ela é o "sol" da narrativa de Quentin Tarantino, baseada no livro «Rum Punch» de Elmore Leonard (que foi um dos produtores desta adaptação cinematográfica). É Jackie que é o ponto central de toda a história e que da qual todos os outros personagens são "dependentes". Mas Jackie Brown também precisa de todos eles para levar o seu esquema a bom porto, um esquema que envolve muito dinheiro e muitas pessoas, sendo que uma delas é, efetivamente, a quem a "massa" era destinada. É uma personagem com várias facetas, que conta histórias diferentes segundo a pessoa com quem está a falar, e tudo para conseguir obter a soma tão desejada pelos homens e pelas mulheres que fazem parte desta trama. Mas no final, quem é que estará a "jogar" com quem, como nos diz um dos slogans da campanha de promoção do filme? É tudo inesperado, nos filmes de Quentin Tarantino, e em «Jackie Brown», isso não é exceção. Os diferentes interesses de cada personagem estão em jogo, numa disputa onde ninguém confia em ninguém e onde todos têm o mesmo objetivo: o dinheiro. «Jackie Brown» não tem um ritmo tão bem composto como os dois anteriores Tarantinos, com algumas partes melhores que outras, mas acaba por ser um filme muito bom, que peca por ser demasiado longo em certas cenas. Mas é um filme que vale mesmo a pena, nem que seja só para acompanhar o empolgante desenvolvimento da história e ver o destino, mais ou menos trágico, que as personagens irão receber. Porque os filmes de Quentin Tarantino podem não agradar a todos os gostos, mas há algo que ninguém pode negar: é que este cineasta tem uma grande criatividade. E «Jackie Brown» é uma prova disso, não tão exemplar como «Reservoir Dogs» ou «Pulp Fiction», é certo, mas é uma fita muito divertida, inteligente, cómica e com alguns toques da "típica" brutalidade tarantiniana, que não cai nos facilitismos do "gore" mais atrativo para as audiências mais ligeiras. É um filme que é uma delícia!

* * * * 1/2

O Ódio (La Haine) [1995]


C'est l'histoire d'une société qui tombe et qui au fur et à mesure de sa chute se répète sans cesse pour se rassurer : "Jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien, jusqu'ici tout va bien..." L'important c'est pas la chute, c'est l'atterrissage.

Esta é a frase que ouvimos ser pronunciada no início de «O Ódio». É uma metáfora que percorre todo o filme e as situações em que as três personagens principais (Vinz, Said e Hubert, todos de culturas diferentes e que em nada se associam à francesa - um judeu, um árabe e um negro -, o que é uma pequena mostra da grande multiculturalidade do país, que tem vindo a crescer nestas duas últimas décadas de uma forma gigantesca) se envolvem, e que pode ter vários significados. Só chegamos mesmo a entender qual é o motivo desta pequena "piada" ser contada com todos os acontecimentos que culminam num final que traduz a preocupação de toda uma geração, e que acaba por coincidir com a minha geração (aliás, com tanta contestação que se tem visto no nosso país nas últimas semanas, não é para menos...), e a cada momento da fita, as personagens só ficam descansadas quando perceberem que "até aqui, está tudo bem". Porque vai haver momentos em que a incerteza vai aumentar as dúvidas e voltará a trazer consequências imprevisíveis para qualquer um dos três rapazes, ou das pessoas que conhecem e que vivem no mesmo bairro social que eles. Em «O Ódio», um filme baseado numa(s) história (s) verídica(s) - foi uma em particular que levou o realizador, Mathieu Kassovitz, a criar esta fita, mas o seu significado abrange muitas outras mais -, veracidade essa que visionamos, desde logo, nas imagens reais de confrontos entre a polícia e os cidadãos que são apresentados nos créditos iniciais do filme (mais a dedicatória "curiosa" que abre a obra, Dedicamos este filme aos que morreram antes dele ficar pronto) é uma reflexão sobre as transformações provocadas pela evolução constante da sociedade e da desorganização do poder político, judicial (na figura dos polícias que abusam da autoridade que têm - a causa do estado de Abdel, um amigo dos três rapazes, logo no início do filme, que está no hospital em estado grave, que nunca é visto na fita, mas têm uma grande importância) e económico. Mas ninguém é um verdadeiro santo em Paris, e em qualquer recanto, encontramos pessoas que, pura e simplesmente, querem zelar pelos próprios interesses, através de métodos mais ou menos irracionais... só resta perceber quando, ou até onde, é que tudo vai deixar de ficar relativamente bem.


«O Ódio» é um filme "outsider", fora das normas e direcionado à mentalidade dos espectadores. É um filme que pretende abrir os olhos das pessoas e mostrar como as coisas não estão muito bem no meio que as rodeia. Num tempo em que convivemos cada vez mais com a contestação social e a irracionalidade mostrada pelas duas "fações", os que protestam e os que tentam controlar o protesto, um filme como este, com um espírito tão profundo e com uma índole real e social tão forte, não pode ser posto de parte. A escolha do preto e branco foi certeira, apesar das distribuidoras televisivas, em 1995, terem imposto uma versão a cores para ser mais "visionável". Contudo, o sucesso do filme foi tal que essa versão foi eliminada. Mas na primeira edição DVD nacional de «O Ódio» podemos encontrar cenas eliminadas filmadas a cores, e percebemos que o impacto é muito diferente. Parece que, sem a vivacidade da cor, o filme conseguiu captar muito melhor os graves problemas sociais que são a sua temática principal, como parece que o confronto civis VS polícias, onde a força e a posse de uma arma torna-se o maior poder em casos extremos de violência (em que Vinz - Vincent Cassel - participa com muita convicção, dizendo até que, se Abdel morrer, irá vingar-se na autoridade) se torna mais próximo de nós nesta tonalidade, como parece também que a cidade é retratada com mais realidade desta forma (apesar de termos algumas cores mais bonitas - apesar de, com algumas tragédias que se sucedem no quotidiano do mundo, a existência delas pareça totalmente invisível...). Ah, e a realização e a montagem surpreendentes, muito pouco perfeitinhas e consistentes, são outro auxiliar importante para uma maior aproximação à "nossa" realidade, ou pelo menos, àquela que a produção contactou algumas semanas para que conseguisse fazer o filme da melhor maneira - ou seja. para conseguir atingir este maior nível de proximidade com o mundo real.


Seguimos um dia completo de atribulações para as personagens de «O Ódio», tal como se se tratasse de um documentário com os pontos mais altos das vinte e quatro horas vividas por Vinz, Said e Hubert (até as horas certinhas dos acontecimentos estão indicadas no filme!), que apesar de terem comportamentos estranhos e algo suspeitáveis, apenas querem concretizar os seus sonhos. São ainda muito infantis e reveem-se nas suas influências (maioritariamente da cultura americana, a partir dos filmes e das séries de televisão - e porque não se identificam com a cultura francesa) e querem ser como elas, mas não estão no ambiente certo para isso. E no meio de conversas banais (com uma linguagem muito vulgar e com muitos palavrões à mistura, num ambiente onde reina a violência física, psicológica e verbal) e do passeio do trio por várias zonas de Paris, percebemos quais são os verdadeiros impactos dos conflitos com a autoridade e, mais propriamente, do tumulto que ocorreu na noite anterior, que vitimizou Abdel e onde os jovens da zona incendiaram a escola local. «O Ódio» mostra que a raiva e o descontentamento humano, se levados a níveis extremos de irracionalidade, poderão gerar mais violência e mais contestação. É um ciclo que parece não ter fim, mas é tudo por causa das anomalias do sistema. E apesar de ter o abuso do poder como um dos temas mais fortes, «O Ódio» centra-se, de uma forma mais crítica à política, ao sistema que nos comanda, filmando, tão crua e diretamente, apenas mais um dia do "habitual" quotidiano daquele bairro social e das pessoas que o habitam. E acreditem, o "habitual" da realidade de um ambiente como o de «O Ódio» não augura nada de bom... um grande filme que continua a suscitar debate e a levantar questões importantes para a sociedade e para as novas gerações. Uma obra "social", que acaba por ser também uma grande peça de Cinema, do melhor que se fez na última década do século XX.

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Sherlock Holmes - O Vale do Terror


«O Vale do Terror» foi a quarta e última aventura longa de Sherlock Holmes (o detetive era protagonista, sobretudo, de short stories), criada pelo seu "Pai", Arthur Conan Doyle. Como fã de (bons) policiais que sou, não pude deixar escapar esta deliciosa edição nacional de bolso (da já conceituada coleção "11/17" - as dimensões de cada livro da mesma -, onde os livros são muito simpáticos, práticos e acessíveis para quem não gosta de andar com calhamaços atrás. Os preços é que talvez não sejam os mais justos, dado o facto dos livros serem de bolso, mas vale a pena espreitar a lista de títulos da coleção - daqui também li «O Grande Gatsby»). Não sendo uma das histórias mais atrativas, originais, interessantes ou apelativas do longo historial das aventuras do detetive mais famoso do Mundo, não deixa de ser uma leitura extremamente agradável, com a escrita de Doyle que dá muita atenção aos pormenores do espaço que rodeia as personagens, bem como todas as particularidadezinhas que são necessárias a Holmes para resolver o mistério que inunda o Vale do Terror. O livro é composto por duas novelas: uma, é o caso propriamente dito; outra trata-se de uma "prequela", onde se dá a conhecer o passado de uma das personagens do caso que Holmes e o seu fiel amigo Watson investigaram na primeira novela. Boa sugestão para as férias, que pedem leituras descontraídas e relaxadas, mas que não se tornem demasiado paradas e que possam ter alguma "ação".