sábado, 31 de agosto de 2013

A comédia (bélica) e a vida


DR STRANGELOVE, de Stanley Kubrick - um filme que está cada vez mais actual. E apesar de ser uma louca sátira, o seu lado alarmante, originalmente crítico para a Guerra Fria, continua assustador hoje. Não consigo deixar de pensar neste filme, e nas cenas que se passam na "ONU" do mesmo, onde se debate o risco de cair uma bomba que destruirá toda a Humanidade, ao ler, ver e ouvir todas estas trágicas notícias sobre a Síria. Esperemos que a realidade não acabe da mesma maneira que a ficção...

Realizadores autodidactas


Quando recebeu o Prémio Carreira há uns dias no Festival de Veneza, o realizador William Friedkin (The French Connection, O Exorcista, Sorcerer - lá exibido em cópia restaurada - e Killer Joe) avisou os jovens realizadores, ou aspirantes a tal, para sairem das escolas de Cinema. "Do it for YOURSELF!", disse de seguida. E concordo absolutamente: uma arte como esta não se aprende graças a cursos ou teorias, mas simplesmente com o puro visionamento de fitas. O canudo pode ficar bem no curriculo, mas em todas as artes só se aprende mesmo com a experiência, e neste caso, graças ao talento e à audácia dos artistas que querem arriscar para darem o seu Cinema ao Mundo. É óptimo saber todas as teorias, mas o verdadeiro realizador é o que compreende a câmara em todo o seu esplendor. E não há nenhuma aula que possa proporcionar essa experiência...

F1 no Cinema, por Ron Howard.

Mais um projeto cinematográfico que me captou a atenção: RUSH, realizado por Ron Howard, é uma recriação do mítico mundo da Fórmula 1 e, mais propriamente, a história da lendária rivalidade entre Nikki Lauda e James Hunt. Promete... pelo menos, é o que eu espero.


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Adeus, Rapazes (Au Revoir Les Enfants) [1987]


Vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza em 1987, «Adeus Rapazes» é um filme belíssimo, uma obra prima do Cinema mundial realizada por Louis Malle (e que fala, nesta película, de uma experiência que tem muito de autobiografia e de realidade) e que nos fala da amizade entre dois rapazes durante a II Guerra Mundial. Por alguns visto como uma espécie de sequência de «Os Quatrocentos Golpes» pela maneira como filma o ambiente escolar em que giram todas as personagens. «Adeus, Rapazes» não é uma história de um rapaz que, tal como Antoine Doinel, se quer ver livre de tudo e de todos, escapando à escola, aos Pais e à autoridade. Esta é a história de Julien Quentin (Gaspard Manesse), um garoto que vai passar mais um ano de aulas num colégio católico interno francês (instalado - dado curioso - dentro de um antigo Convento), em pleno conflito e com o país já ocupado pelas forças nazis, comandadas pelo implacável Adolf Hitler. Aí conhecerá Jean Bonnet (Raphael Fejtö), um rapaz com origens desconhecidas e obscuras, que é protegido pelos professores e superiores do estabelecimento escolar, arriscando as suas próprias vidas por uma causa humana maior do que toda e qualquer guerra, e que muitos apoiam de uma maneira fervorosa (dentro do Clero professoral do colégio, há quem faça parte da Resistência e tudo!). Perante os conservadorismos da época e os perigos causados pela ameaça do nazismo e da ocupação da França pela Alemanha, Jean e Julien, e todos os seus colegas de escola, são o mote para um filme triste e engraçado em certas partes, e é curioso que «Adeus, Rapazes» não seja uma das obras mais frequentemente citadas quando se fala no Holocausto no Cinema... porque é um Grande filme, sobre o tema e sobre a humanidade e, ainda, sobre o próprio Cinema e o seu valor em tempos mais difíceis (uma cena em que se faz uma projeção para a rapaziada, com o filme «O Emigrante», de Charles Chaplin, é muito reveladora disto, tal como a larga importância e influência que o genial cómico teve na época, provocando sorrisos e gargalhadas a todos os seus milhões de admiradores, que se identificavam com o pobre vagabundo Charlot). Não é a sequela do filme de Truffaut, uma ideia proposta por teóricos da Sétima Arte que mais nada sabem fazer do que inventar, lá está, teorias, mas algo muito mais profundo do que isso: sim, tem como protagonista um rapaz, numa escola que não lhe chama muito a atenção e onde se mete, tal como muitos dos seus colegas, em valentes sarilhos e complicações estudantis. Mas «Adeus, Rapazes» é muito mais uma obra sobre a força do ser humano, o medo (que pode tocar a todos, independentemente da crença) e a maneira como o Bem e o Mal se confundem constantemente na nossa vida, e do quão difícil é perceber a Verdade das coisas em diversos momentos da nossa existência.


Uma faceta curiosa, e quase "documental", diria, que «Adeus, Rapazes» nos proporciona, é toda a vida escolar e recriativa que os alunos têm naquele colégio, que apesar de ser tão lastimoso e duvidoso (em termos domésticos e das fracas condições que dispõe para os seus usuários - Julien e companhia queixam-se constantemente da comida, por exemplo) e conservador e retrógrado em certas coisas (um pouco a fazer lembrar o Estado Novo e os seus métodos de educação/religião - mas o nosso país foi neutro na II Guerra, e por isso este caso é outro), "obrigando" os alunos a cumprirem certos atos religiosos excessivos muito contra a sua vontade, os seus mentores e professores não conseguem esquecer as máximas do Cristianismo puro (e que estão muito esquecidas hoje em dia, infelizmente...), tão bem passadas por Louis Malle que nos dá uma visão objetiva e múltipla sobre as opiniões e as características daqueles moços tão distintos que habitam aquele local todos os dias. Há uma cena, que é uma das minhas favoritas do filme (além da narrativa que vai envolver a personagem de Jean Bonnet - e mais não digo) que nos mostra esta preocupação pela defesa dos valores cristãos e, mais importante ainda, dos direitos humanos: o discurso/a homilia de um dos padres do colégio, numa missa especial feita para os Pais dos meninos (que, na opinião de um deles, é o único dia no ano letivo em que a escola se aperalta toda para causar uma boa e falsa impressão junto dos visitantes, nada correspondente à realidade), num dia especial para todos eles porque vão rever finalmente os familiares, e que acaba por "chocar" muitas mentes parentais que assistem a essa dita missa, pela sinceridade tão forte das palavras do sacerdote. Mas distante de querer ser um filme de religião, «Adeus, Rapazes» é uma fita de atitude e de atitudes. É uma magnífica peça de Cinema, de uma rara sensibilidade, que toca a todos por ser tão humana e por nos fazer lembrar, de uma forma tão simples, outros tempos, mais conturbados e difíceis, onde o futuro de muita gente ficou incerto por causa de uma guerra sem pés nem cabeça. Louis Malle recontou a sua vida, ou melhor, uma parte dela, através destes seus personagens, tão interessantes e encantadores, que nos mostram a intemporalidade do ser humano, e das "aventuras" que vive, para qualquer geração. «Adeus, Rapazes» nunca perderá o seu tom de comédia, nem muito menos a inacreditável tragédia social que aborda nos seus fotogramas... É uma obra que tem de ficar para sempre bem guardada, por ser um grande tesouro das fitas.

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terça-feira, 27 de agosto de 2013

O Grande Gatsby [1974]


São poucos os filmes que conseguem obter uma reação tão mista do público e da crítica como a versão de 1974 da magnífica obra literária «O Grande Gatsby», de F. Scott Fitzgerald, realizada por Jack Clayton e com um argumento do inigualável Francis Ford Coppola. Por alguns muito estimado, por outros completamente desprezado, e para outros ainda tornou-se um filme esquecido, aborrecido, vítima do remake de 2013 de Baz Luhrmann, cheia de efeitos 3D e modernices para o século XXI, que apagou da memória dos espectadores a versão dos anos setenta. Contudo, e apesar da insistência de muitos para a não-visualização deste «O Grande Gatsby», acompanhada por uma pontuação muito fraca no Internet Movie Database (um daqueles sítios da web onde podemos ver coisas tão subjetivas, mas também tão forjadas e ridículas, como «Os Condenados de Shawshank» estar à frente de «O Padrinho», em termos de qualidade), parece que há ainda uma grande resistência para que este filme não seja visto. Mas eu fiz este "esforço", e fiquei surpreendido. Um filme não pode ser comparado ao livro que o adapta - comparações desse calibre acabam por conduzir a ideias erradas e a factos... incomparáveis -, mas se há algo que esta versão de 74 tem a ganhar é a proximidade que tem com a obra de Fitzgerald. Muito por "culpa" do exímio argumento de Coppola, que capta muito bem todo o espírito da época e todo o conteúdo cinematográfico que as ideias do escritor possuíam, dos cenários lindíssimos e tão característicos da crítica/sátira imposta por Fitzgerald a partir da sua história contada, na primeira pessoa, por Nick Carraway, e por alguns dos atores que protagonizam o filme de uma forma exemplar (Nick, aqui interpretado por um ator menos conhecido do grande público, mas cujo rosto, na atualidade, é irreconhecível, consegue ter um papel de destaque na fita - falo de Sam Watersn, que também entrou em dois grandes filmes de Woody Allen, «Hannah e as suas Irmãs» e «Crimes e Escapadelas», e foi nomeado para o Oscar pelo seu papel em «Terra Sangrenta», de Roland Joffé). Robert Redford e Mia Farrow são Gatsby e Daisy (Farrow que merecia pelo menos uma nomeação da Academia, não por encarnar Daisy, mas por ser ela, na perfeição - porque se Gatsby pode ser uma personagem enigmática e entendida de várias maneiras, Daisy, graças ao seu ego irritante e algo chocante, consegue ter uma única interpretação plausível, e Farrow captou-a de uma forma brilhante. Mas convém não esquecer a incrível performance de Redford!), o par romântico que volta a encontrar-se tantos anos depois, com Gatsby, já milionário, a querer voltar a conquistar o coração da sua ex-namorada, tão falsa, hipócrita e oportunista. O romance caracteriza um tempo e as andanças dos "roaring twenties", ou "loucos anos 20", em português. E o filme faz uma viagem mágica no tempo, dando "carne e osso" às personagens criadas por Fitzgerald (tão bem caracterizadas fisica e psicologicamente, na sua maioria), sendo mesmo exemplar e digno de ser visto.


Apesar de ser um filme onde notamos uma preocupação acentuada dos técnicos em relação ao guarda roupa e aos figurinos (quiseram tornar, o mais credível possível, a recriação daquela década tão misteriosa na História dos Estados Unidos da América), além dos pontos fortes que já mencionei anteriormente, «O Grande Gatsby» sofre por ser baseado nesse livro homónimo, que conquistou um patamar tão excecional de reputação e de reconhecimento na cultura mundial que é impossível de suplantar. Filmes como «O Padrinho», «Laranja Mecânica» e «Psycho», só para citar três exemplos famosíssimos, são casos onde o Cinema conseguiu igualar, em termos de popularidade, ou mesmo suplantar, a Literatura. Mas este filme, tal como todas as adaptações que já se fizeram a partir dele e que se farão num futuro próximo (o problema não é desta versão em si, mas do poder inestimável da obra literária, que afetará toda e qualquer recriação cinematográfica), não consegue libertar-se do fardo do livro, não consegue ser o filme "por si só", mas apenas "o filme do livro". É o que dá pegarem em clássicos inestimáveis das letras mundiais, mas esta versão de 74 vale mesmo a pena, apesar disso, pela tão-grande aproximação que tem com as ideias originais de Fitzgerald (oh não! Estarei eu também a fazer comparações entre livros e filmes que tanto critiquei há umas linhas atrás?!). Pode ter uma montagem por vezes abusiva e descontrolada, e certas porções de "acting" de alguns atores secundários que não funciona, ou que está simplesmente mal trabalhado (com muito exagero dos seus movimentos, em alguns planos completamente desnecessários que podem, para muitos, tirar algum ritmo à narrativa e ao que verdadeiramente interessa na fita), mas é uma delícia de filme, cheio de dança, música, festas e autêntica poesia visual (nas cenas entre Gatsby e Daisy, que têm tanto de trágico como de idílico, é completamente notória), além de que a cena do climax, por exemplo, e as consequências que esta traz, conseguem acentuar melhor todo o aspeto crítico que Coppola retirou do romance e quis passar eficazmente para o Cinema. No fim de contas, este «O Grande Gatsby» é uma boa adaptação, e não conseguindo fugir desse "rótulo" (repito: com um livro destes como "alvo" isso é impossível!), torna-se aos nossos olhos um filme inteligente e criativo, e que deve ser urgentemente "recuperado" da memória dos cinéfilos e dos críticos. É que temos em mãos um filme algo subvalorizado...

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Eu nos CBA


Como na edição anterior, vou ser um dos inúmeros jurados dos Cinema Bloggers Awards, uma cerimónia em que são atribuídos prémios aos melhores do Cinema, segundo a opinião dos internautas que têm o estranho hábito de escreverem posts cinéfilos. Infelizmente não pude estar presente na gala da primeira edição, mas participei na nomeação dos candidatos e, felizmente, vi alguns dos "meus" favoritos saírem vencedores. Vamos a ver o que nos espera esta segunda edição, que trará ainda mais feedback e público! E para irem ficando a par das novidades do certame, basta consultarem a página oficial dos CBA (que, lá está, é também um blog).

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os Fugitivos de Alcatraz (Escape from Alcatraz) [1979]


Alcatraz was built to keep all the rotten eggs in one basket, and I was specially chosen to make sure that the stink from the basket does not escape. Since I've been warden, a few people have tried to escape. Most of them have been recaptured; those that haven't have been killed or drowned in the bay. No one has ever escaped from Alcatraz. And no one ever will! 

A quinta colaboração entre o ator (e realizador noutras circunstâncias) Clint Eastwood e o cineasta Don Siegel resultou em «Os Fugitivos de Alcatraz», um filme surpreendentemente eficaz para a atualidade, repleto de grandes e sonantes diálogos e de fortes e fascinantes interpretações, não pegando demasiado na previsibilidade de algumas situações para sustentar o seu "todo" cinematográfico. Não é um filme de ação (e de "fuga-da-prisão") qualquer, mas sim uma obra inteligente, que não se esquece que é entretenimento, mas consegue levar o género ao mais alto nível.  E talvez por isso conseguiu tão bem resistir ao tempo. Depois do sucesso estrondoso, anos antes, obtido pela dupla com o primeiro tomo da saga de Dirty Harry («A Fúria da Razão»), Eastwood e Siegel seguem um novo rumo: um filme de aventuras, baseado numa história verídica, onde se procede uma grande evasão (não ao jeito de Steve McQueen, mas à maneira que alguns indivíduos, liderados por Eastwood - que interpreta Frank Morris, um ladrão de bancos habituado às andanças que as fugas de prisões implicam -, magicaram para tentarem escapar da fortaleza prisional de Alcatraz, de onde nunca ninguém antes conseguiu fugir!). E, tal como todos os grandes filmes de ação, ou que envolvam a parelha polícia-criminosos, «Os Fugitivos de Alcatraz» dá as voltas à realidade: os bandidos são os bons (ou, por outras palavras, apenas aqueles a quem nos afeiçoamos - não os inimigos de Eastwood e companhia, porque no meio dos criminosos mais amistosos há sempre os que têm a navalha pronta para atacar, e mesmo os que nos são amigáveis podem ter um truque ou outro na manga, à espera de ser usado para qualquer patifaria) e a Lei é a grande vilã da narrativa (personificada no "Warden" de Alcatraz, a quem pertence a citação com que iniciei esta crítica), e chegamos até a ter pena dos protagonistas quando são confrontados com os métodos algo desumanos e injustos com que são tratados naquela prisão (o caso mais "comovente", digamos, é o de Doc, uma personagem a quem tinha sido concedido o privilégio de pintar - personagem esse que trará algum simbolismo ao filme e a um elemento-chave do mesmo). No fundo, bons e maus são todos "farinha do mesmo saco", mas é claro que ficamos do lado dos corajosos prisioneiros que tentam sonhar com a liberdade. Mas será que a fuga é mesmo impossível, como afirma o Warden orgulhosamente, ou sair daquela ilha/prisão de alta segurança, e daquele ambiente que tanto tem de perigoso, como de duvidoso, como até de divertido, é mais fácil do que parece? No final, nunca saberemos o que aconteceu aos evadidos, mas alguns não ficarão satisfeitos com o resultado das desventuras do grupo de Frank. Há quem diga que conseguiram escapar mesmo, mas ficou, pelo menos, uma história curiosa e invulgar que foi muito bem filmada por Don Siegel e protagonizada por Clint Eastwood.


Estamos em 1960, uma década ainda marcada pelo preconceito racial e social nos Estados Unidos da América, patente em algumas personagens e cenas de «Os Fugitivos de Alcatraz», mas não há só temas sérios e sim também algum bom e desconcertante humor que "tempera" o filme, marcado ainda pelo plano astuto e inteligente de Frank Morris em grande entretenimento cinematográfico extremamente bem elaborado, com muito suspense, mesmo que pensemos que já sabemos toda a história e o final da mesma. O filme tornou-se uma referência do cinema americano e é mesmo inimitável por qualquer outro país ou Cinema. E temos de agradecer aos Americanos por serem os únicos a saberem fazer filmes como este, há que perceber isso de uma vez! «Os Fugitivos de Alcatraz» é um arrasador clássico dos anos setenta, empolgante e, por vezes, impressionante, onde são os pormenores, o argumento (construído de uma forma exemplar, não esquecendo nada), o realizador e os atores que fazem toda a diferença. Para alguns é um filme sobrevalorizado, e para mim é um grande filme.

* * * * 1/2

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Capote [2005]


On the night of November 14th, two men broke into a quiet farmhouse in Kansas and murdered an entire family. Why did they do that? Two worlds exist in this country: the quiet conservative life, and and the life of those two men - the underbelly, the criminally violent. Those two worlds converged that bloody night. 

Truman Capote é, inquestionavelmente, uma das figuras mais marcantes e controversas do século XX na Literatura e na sociedade americanas. A personalidade extravagante e desequilibrada do autor de «Breakfast at Tiffany's», repleta de manias e características pouco comuns no ser humano, foi muito bem transposta para o ecrã nesta fita biográfica de Bennett Miller (que realizou em 2011 «Moneyball - Jogada de Risco», um filme recomendável), e protagonizada por Philip Seymour Hoffman (num papel irreconhecível que lhe valeu o Oscar, bem merecido, nesse ano) que se centra nas peripécias vividas pelo escritor, e testemunhadas em grande parte pela sua grande amiga Harper Lee (que, de um momento para o outro, encontrou a fama ao publicar o seu livro «To Kill a Mockingbird», vencedor do prémio Pulitzer nesse ano, e que já foi editado com variadíssimas traduções em português e que originou a igualmente famosa adaptação cinematográfica protagonizada por Gregory Peck - que levou o Oscar para casa, graças ao advogado sulista Atticus Finch), que o levaram a escrever a obra que, para muitos estudiosos, é a sua obra-prima, «A Sangue Frio», sobre um caso real do assassínio impiedoso de uma família do Kansas por dois homens, e que o mudou para sempre. Capote interessou-se pelo estranho acontecimento e, ao querer saber as razões dos acontecimentos daquele dia 14 de Novembro de 1959, acabou por mudar a sua vida para sempre. Aliás, foi por causa da experiência algo traumática e frágil que Capote vivenciou nas investigações que fez para este livro, e a relação de proximidade que estabeleceu com um dos criminosos, Perry Edward Smith, que o autor nunca mais conseguiu acabar nenhum outro romance. Capote entrevista também testemunhas do incidente e pessoas próximas das vítimas daquele horroroso massacre, mas é em Perry que ele acaba por se interessar mais por se identificar tanto com ele, apesar de querer manter uma certa distância, já que Truman tem uma imagem social e literária para manter (e espera conseguir isso com a sua visão do homicídio em «A Sangue Frio»), e isso vê-se bem na forma como esconde do condenado à morte tudo o que está a escrever no livro e as suas intenções com o mesmo. Quer Capote salvar aquelas duas pobres almas ou, simplesmente, continuar a alimentar o seu crescente e planetário sucesso?


Truman Capote levou a sua pesquisa, e a sua escrita, ao extremo para «A Sangue Frio», e é isso que o filme nos mostra, à medida que aprofunda cada vez melhor esta personagem e a sua importância para a época em que viveu. Com um romance que, pelo que dizem, mudou a literatura americana, e que com o qual Capote inventou um nome género literário (a "non-fiction novel"), pelo que ele próprio afirma nesta obra. Ele aproveita-se de Perry para concretizar a sua "pepita" de ouro que tanto quis alcançar em toda a sua carreira literária e profissional, mas também mostra alguma da sua intimidade, parte das características que, pensa ele, a sua "capa" social consegue esconder, graças à fragilidade que encontra em Perry e na sua história de vida, tão parecida com a sua. «Capote» é a história do criador que fica afetado pela história que o leva a criar algo de novo, e que faz com que toda a hipocrisia, o fingimento e a cobardia perante os outros que Capote emanava, e que faziam parte da sua "persona" literária muito vincada (e quase de fachada - basta ver os maneirismos e as conversas superficiais e a parecerem que são muito interessantes que Capote tem com os seus convivas ou com as pessoas que conhece por causa deste caso), se desvaneçam pelo choque profundo que o escritor sentiu ao tomar contacto com esta curiosa, e provocadora situação. Com uma ótima fotografia e uma reconstituição invejável de uma época tão deliciosamente interessante, a nível cultural, nos Estados Unidos da América, e acompanhado por um sólido argumento, inteligente, sensível e engraçado em doses certas, salpicado também por bonitos momentos de banda sonora, de performances e de "estilo" cinematográfico, «Capote» constituiu uma nomeação curiosa e interessante da Academia, no ano em que «Colisão», de Paul Haggis, foi o grande vencedor da cerimónia. Não é um filme para ganhar prémios, mas sim para ser visto e para se entender melhor uma personalidade tão curiosa do panorama artístico americano, e que utiliza para isso o melhor que o Cinema tem para oferecer na técnica, na arte e na narrativa. «Capote» é uma película essencial para os admiradores de «A Sangue Frio» ou de qualquer outra obra do autor, sendo uma fita que nos ajuda a entender como a escrita, e a própria arte no geral, são muito condicionadas pelo autor que a quer pôr em prática.

* * * * 1/2

Um filme que é pouco provável que chegue a Portugal...

«In a World...» - um dos filmes que mais gostava de ver este ano e que, provavelmente, e a par de «The World's End», não vai estrear em Portugal. Uma premissa curiosa num filme realizado, escrito e interpretado pela comediante Lake Bell, que tem dado que falar, mas noutras bandas. É pena.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A Estação (The Station Agent) [2003]


«A Estação», pequeno filme independente escrito e realizado por Thomas McCarthy, a sua primeira obra (e que antecederia «O Visitante» e «Todos Ganhamos»), é uma proposta interessante mas pouco relevante, em termos cinematográficos, cinéfilos e sociais (apesar da fita parecer querer ter um fôlego maior graças ao aspeto social que transporta, mas que retrata tão estereotipadamente - não por causa da situação em si, mas por tudo o que a rodeia - e por a incluir numa história tão insípida). Mais conhecido pela sua carreira de ator do que nos trabalhos que faz por trás das câmaras (integrou o elenco da série «The Wire - A Escuta» e alguns filmes dispensáveis, mas rentáveis, como «2012» e a saga dos Fockers - «Um Sogro do Pior», etc), McCarthy teve um bom elenco à sua disposição (encabeçado pelo notável Peter Dinklage, que agora renovou a sua fama graças à sua participação recorrente na série «Guerra dos Tronos») e os meios necessários para poder filmar o seu simples e desinspirado argumento, que teria tanto para dar se tivesse sido retocado, tal como a montagem do filme. Ainda assim, «A Estação» conquistou meio mundo de festivais de Cinema independente (onde, pelo que tenho visto, é muito pouco frequente serem atribuídos prémios a fitas que mereçam mesmo um prémio, pela sua elevada qualidade - porque essas obras, com excelência ou brilhantismo, não abundam muito hoje em dia...) e comoveu audiências pela sua história de solidão e preconceito social, sendo que tudo se passa numa estação de comboios, herdada por Finbar McBride, um apaixonado pelo mundo dos comboios, e para onde este vai viver uma temporada, acompanhado por si próprio e pouco desejoso de conhecer pessoas e/ou experiências novas. Mas, e tal como nos diz a sinopse da edição nacional em DVD do filme (por apenas um euro - mas mesmo assim, pensem duas vezes se quiserem investir duzentos escudos nisto), "mesmo a solidão é melhor partilhada", e depois Fin conhecerá duas pessoas, igualmente solitárias, mas distintas entre si, que acabarão por fazer parte de si próprio.


O melhor de «A Estação» é o elenco (com Dinklage em grande destaque - consegue dar um espírito maior à sua personagem e passar, ao menos, uma mensagem que o argumento, por si só, não consegue) e a banda sonora, tão simples e solitária como o protagonista do filme (mesmo quando ganha dois novos amigos e tem uns namoricos lá pelo meio - coisas que servem apenas para encher). Mas se esta é uma fita que já tem uma duração bastante curta (85 minutos), a mesma é longa demais. Talvez com menos meia hora «A Estação» funcionasse melhor, mais uns arranjinhos necessários ao argumento (tão repetitivo, e onde nem as falas se escapam - além de o humor ser por vezes demasiado seco, e das personagens dizerem sempre "sh*t" a torto e a direito, sem qualquer tipo de nexo e numa repetição constante que cansa e tira o sentido à palavra, os diálogos são fraquinhos e, nos momentos em que se tornam bons, ou são cortados para outras cenas, ou são colocados em pontos da ação que os tornam desinteressantes ou descabidos, ou são simplesmente postos de parte para dar mais ênfase a ideias menos bem conseguidas), à produção e à realização. Mas como primeira obra, tem os seus méritos. É um filme algo divertido, com muitos clichés narrativos e "independentes" (ou seja, daquele género de filmes independentes que se assumem como tal, mas que depois vão copiar as formatações do cinema americano mais comercial - e, pior do que copiarem, é que copiam mal), mas que - e em tempo de férias, isto é o mais importante - é uma obra que se vê bem, com uma bonita fotografia que dá uma certa frescura à história e aos seus personagens (algumas das paisagens que os rodeiam são belíssimas - e McCarthy acentua isso muito bem), e uma interessante investida no mundo de um indivíduo que, por ser de baixa estatura, não deixa de ser humano e com tantas preocupações e hábitos como qualquer um de nós.

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A Cinemateca


Há uma tendência cada vez maior no governo português e nas suas entidades para incentivarem os consumidores a sacarem cultura da net. É assim mesmo, encerram-se os espaços culturais para deixar a malta enfiada em casa a clicar. A Cinemateca Portuguesa, agora em risco de fechar, onde são exibidos muitos filmes raros e pouco ou nada vistos na televisão e no home video, é um caso disso. Mas de facto, se assim preferem, quem fica a perder é o país... Se assim preferem, perde-se mais uma fonte de investimento (sim, porque a Cinemateca não é um museu-fantasma, tinha muitos utilizadores e sócios) e perde-se mais um valor incalculável da cultura nacional. João Bénard da Costa está a dar muitas voltas na tumba neste momento...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Uma nota para as 60 mil

Já tenho este blog há quatro anos e alguns meses. Os meus objetivos e as minhas ideias para este estaminé mudaram muito durante este percurso de existência, mas nunca tive a intenção de fazer coisas populares (porque aliás, na maior parte das vezes, não é essa palavra que pode caracterizar os temas que abordo nos posts), e sim, apenas algo que me desse espaço para fazer tudo aquilo que eu quisesse escrever. Apenas divulgo, e se as pessoas quiserem, carregam no link e acedem ao conteúdo que escrevi em determinado momento. 

Mas não posso deixar de ficar contente por saber que a Companhia das Amêndoas já soma mais de 60 000 visitas desde 2010. Para alguns pode ser um número pequeno, comparando com as enormidades que alguns outros bloggers ou facebookianos conseguem por meio dos seus posts e/ou da aceitação de que usufruem junto dos outros. Mas eu estou muito orgulhoso da minha pequenez, e de como ela conseguiu ganhar uma dimensão de que eu nunca poderia esperar. Mais do que feedbacks ou maior ou menor interesse que alguns dos meus posts obtêm dos visitantes, o que me interessa é que as pessoas vão parar ao blog porque quiseram, porque algo lhes captou a atenção, e não porque era uma coisa que toda a gente conhecia e/ou que tivesse perdido a alma própria por alguma estranha razão do destino. 

Quando subi ao palco dos TCN Blog Awards para receber o prémio no ano passado, disse que era estranho estar nomeado com algo tão minúsculo no meio de tantos sites em que estão envolvidas muitas pessoas e em que muita dinâmica está espalhada no ar. Mas bolas, ter 60 000 visitas num projeto feito "a solo", sem ter grande reconhecimento, para mim, é uma Grande obra. 

Obrigado a todos, e a Companhia não vai parar! 

60 000 VISITANTES!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

O Espantalho (Scarecrow) [1973]


Dois anos depois de ter apostado no ator Al Pacino como protagonista do seu anterior filme, «Pânico em Needle Park», uma história obscura e ainda muito atual sobre o mundo e o uso da droga (a obra que revelou verdadeiramente o intérprete e que levou Francis Ford Coppola a querer contratá-lo para «O Padrinho»), o realizador Jerry Schatzberg volta a ter Pacino num projeto seu, desta vez, uma trama cómica, com algo de drama, a ser co-protagonizada também por Gene Hackman. Ambos os atores já se tinham tornado conhecidos do grande público pelos seus papéis em fitas de grande êxito nas bilheteiras e igualmente vencedoras de Oscares (Hackman, em 1971, em «Os Incorruptíveis Contra a Droga» e o seu galardoado "Poppeye" Doyle, e Pacino no trabalho de Coppola, ao qual ofereceu uma poderosa performance como Michael Corleone no primeiro capítulo da saga da família italo-americana - facto curioso: no ano seguinte ambos os atores trabalhariam para Coppola, em dois projetos distintos estreados e nomeados para prémios no mesmo ano, «O Vigilante» e «O Padrinho - Parte II», respetivamente), mas não deixa de ser relevante a forma como se entregam, de corpo e alma, a este filme de não tão grandes dimensões cinematográficas, mas repleto de Humanidade. Talvez por isso o Festival de Cannes lhe tenha atribuído o Grande Prémio do certame, porque é nesse patamar que «O Espantalho» sai vencedor, além das grandes performances e do bom argumento que tanto possui de simbolismo como de encanto(s), sendo uma fita moralista, mas que não cai no domínio da "pieguice" por causa dessa sua faceta. Muito pelo contrário: tal como os clássicos realizador, por exemplo, por Frank Capra, esse ingrediente assenta-lhe que nem uma luva.


«O Espantalho» é a história de dois "outsiders" em busca de melhores dias: Lionel (Pacino) é um marinheiro, regressado a terra após cinco anos no mar, e Max (Hackman) é um ex-presidiário que sonha abrir um negócio de lavagem de carros, projeto esse para o qual investiu durante muito tempo, inclusive aquele que passou atrás das grades. Tal como muita coisa desta vida, as duas personagens encontram-se de uma forma que nenhuma delas esperava (e será que se trata de coincidência ou de uma mera atuação do Destino? - a eterna questão) e acabam por ser amigos, muito improváveis, é certo. Porque ao passo que Lionel é uma pessoa descontraída, bem-disposta e que acredita no poder do Riso e do Humor (como diz o "outro", a rir é que a gente se entende) para um melhor entendimento entre as pessoas (aliás, o título do filme - não querendo revelar muito - advém de um exemplo que, para ele, comprova a sua teoria, que tanto pode ter de lógica como de patética, depende dos gostos), Max é resmungão, por vezes violento (sendo essa a razão da sua estadia na prisão) e pouco aberto às pessoas que lhe são desconhecidas. Duas maneiras de ser diferentes aproximam e afastam estes dois homens desde o princípio ao fim de «O Espantalho», culminando a fita num desfecho trágico e que poderá, para alguns, tornar esta dupla ainda mais humana. E se Al Pacino tem tanto de hilariante como de tocante, Gene Hackman não lhe fica atrás, por mostrar tão bem a psicologia da sua personagem nas diferentes fases por que esta passa (e sim, em certas alturas ele rende-se ao entusiasmo de Lionel), nesta história sobre o preço que pagamos pelas atitudes que temos, tanto para o bem como para o mal. Porque por vezes as nossas boas intenções podem não corresponder aos desejos de outros, «O Espantalho» é um bonito filme, agradável, sobre atitudes e a alegria que faz a vida, apesar da mesma ter coisas tristes que nem a boa disposição, ao que parece, não consegue suprimir. Mesmo sendo simples em quase todas as suas "secções", além das já citadas (e destaque também para a fotografia, muito bem trabalhada - mas por vezes dá um certo estilo ao filme que parece não lhe pertencer), «O Espantalho» é um achado raro do Cinema Americano, cheio de boas intenções para transmitir aos espectadores. E consegue concretizá-las, por possuir esse toque tão especial e tão humano.

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

4 ideias para novos filmes da PIXAR envolvendo meios de transporte


«Carros» funcionou bem nas bilheteiras, e fizeram o dois, que foi também bastante rentável para as carteiras dos seus criadores. E agora, vem... «Aviões». E para ajudar esta saga de meios transporte criada pela PIXAR, eu dou aqui quatro ideias para novos filmes, para poderem explorar à brava este maravilhoso filão. E a pequenada, com certeza, vai adorar! E cada uma das ideias tem uma sinopse da história e tudo, hein? Não é preciso agradecer PIXAR! Os nomes das personagens é que estão aportuguesados. Mas olha, queriam a papinha toda feita não?!

1. - Motas
A história de Toni, uma jovem e fulminante mota que concorre a todas as corridas da especialidade no mundo (mundo esse que é só habitado por motas, obviamente!), e que leva isso mais a sério do que a ele próprio. No final Toni descobre o que é importante na vida e, imagine-se, consegue ressuscitar uma velha cidade perdida no meio do nada! (AVISO: qualquer semelhança desta sinopse com a do filme «Carros» é propositada. Mas os putos querem lá saber, eles papam o filme e pronto! É mais uns milhões para o cofre dos estúdios da PIXAR! Contudo, as próximas quatro ideias vão ser originais. Isto é, não vão ser retiradas das três fitas já existentes que têm transportes. Isso é garantido!)

2. - Camiões
A história de Zé, um camião com um nome bastante apropriado, que ambiciona voar. Mas no final percebe que isso é estúpido e volta ao seu emprego de carregador de stocks do Continente (e que tem só óleo para vender aos outros camiões, porque lá está, não existem humanos neste planeta!)

3. - Bicicletas
A história de Mimi, uma bicicleta que é diferente das outras... porque tem três rodas. No final, descobre que é um triciclo e vai viver junto dos outros triciclos, e aí já se sente verdadeiramente feliz e não uma excluída da sociedade rodoviária. E sim, isto é o Patinho Feio.

4. - Trotinetes
A história de Pipo, uma trotinete que quer ser uma bicicleta. Mas no final percebe que cada um é como é e todos devemos ser felizes assim (aproveita, já que és uma trotinete que fala, uma coisa rara!).

E já vejo sequelas para cada uma destas ideias e outras ideias a surgir! Sinceramente, PIXAR, encontraste uma mina de ouro!

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Anatomia de um Crime [1959]


«Anatomia de um Crime», uma obra realizada por Otto Preminger e protagonizada pelo inigualável e inesquecível James Stewart, é um clássico dos filmes de tribunais (ou "courtroom dramas") e uma boa amostra dos bastidores da advocacia, bem manuseados na arte cinematográfica, tal como as "mexidelas" que se podem fazer na Lei, em benefício de uma ou outra pessoa. Com créditos iniciais de Saul Bass (que deu o seu toque a tantos filmes de Alfred Hitchcock - entre os quais as obras primas «Vertigo» e «Psycho») e com a música de Duke Ellington (um dos maiores nomes do jazz, e que faz também uma pequena aparição no filme, onde as suas sonoridades ficam indissociáveis da trama e do ambiente, com um uso de sombras e de luz muito especial, criado por Preminger), «Anatomia de um Crime» é a história de Paul Biegler, um ex-promotor público que está meio "decadente" por se ter reduzido a casos insignificantes e que não dão muito trabalho a serem resolvidos. Mas ao aceitar um grande desafio (que será o mote de todo o filme: um julgamento que envolve violação e assassínio), Biegler volta às luzes da ribalta, proporcionando um "show" jurídico através da análise detalhada de um caso que parece muito simples e que tem tudo resolvido, mas que vai dar mais trabalho (nomeadamente, em termos de pormenores do Direito e de certas pontas soltas de uma história da qual sabemos quem são os culpados) do que se poderia pensar.
 
 
As melhores cenas de «Anatomia de um Crime», e porventura as mais icónicas da fita de Otto Preminger, são as que envolvem o longo e competitivo julgamento onde Frederick Manion (Ben Gazzarra, numa interpretação que nos deixa duvidosos das suas verdadeiras intenções em grande parte do filme - aquela cara de mau do seu personagem não ajuda a que os espectadores simpatizem com ele, o que é interessante) é o arguido e principal acusado do crime em jogo nas barras do tribunal. E além disso, há a guerra de advogados, moderada por um juiz que tem algumas reservas em relação a um caso que levanta alguns temas tabu da plateia presente na audiência (e que eram também - e continuam, em parte, a ser - os temas controversos de uma sociedade americana mais atual): Paul Biegler, da defesa, e Claude Dancer (George C. Scott numa performance digna de Oscar - e por acaso foi uma das nomeações para o Prémio da Academia de sete que a obra recebeu, mas não ganhou: o épico «Ben-Hur» foi o gigante vencedor dessa temporada). Este segundo está mais interessado em ganhar o caso propriamente dito (e, assim, melhorar a sua reputação social e profissional) do que chegar à Verdade dos factos, uma característica muito comum de advogados de "courtroom dramas", mas que infelizmente, não deixam de ser muito verdadeiras, enquanto que Biegler tenta ele próprio perceber, afinal, onde toda aquela história intrincada e suspeita vai acabar por fazer sentido para além da sua própria cabeça e dos juramento a ele prestado pelo acusado. E afinal, onde está o bem? Na Lei ou na realidade que, em muitos casos, não pode ser provada segundo os termos da Lei? E mais, onde está a verdadeira Justiça em casos não tão vulgares (como é o caso do deste filme) onde o crime gera outro(s) crime(s)? O resultado do julgamento só se saberá no final do filme mas acho que em «Anatomia de um Crime» é muito mais interessante o percurso para a meta, tão bem elaborado e tão cinematograficamente cativante, do que o fim propriamente dito. Este é um filme que não pede só para o vermos até ao fim na necessidade de sabermos como esta história tão curiosa acaba, mas para o espectador poder acompanhar toda a escalada e os acontecimentos que condicionam o desfecho da fita.
 
 
«Anatomia de um Crime» é um filme notável, por além de ser extremamente longo mas, e apesar de um assunto que poderia tornar-se monótono, nunca cansa e está sempre "vivo" durante o seu visionamento, constituiu um marco forte na representação da América no seu próprio Cinema, sempre mais tradicionalista e defensor de fortes (e na maior parte dos casos, exagerados) conservadorismos. No filme são postos temas então delicados na discussão do julgamento (e que, quando são mencionados, é de notar as estranhas reações dos espectadores da sessão de Justiça - e argumentação, a base essencial do Direito -, que se riem das palavras constrangedoras de uma forma ridícula e muito ingénua) e, em parte, isso ajudou a afetar, para o bem, o espírito do Cinema dos "states" e para um contínuo progresso de abertura e liberdade de expressão na Sétima Arte do país (que viria a culminar, em grande, com o espantoso "boom" trazido pela geração da Nova Hollywood, com nomes como Martin Scorsese, Brian de Palma e Francis Ford Coppola). Mas razões históricas e culturais à parte, «Anatomia de um Crime» permanece um grande filme e vê, felizmente, a sua reputação crescer cada vez mais com o passar dos anos. Além de ser entretenimento inteligente e socialmente importante, esta é uma boa lição para todos os que queiram ser advogados: é mais importante fazer bem o trabalho que nos compete e que achamos que tem de ser feito, do que lutar, através de métodos superficiais e hipócritas, por coisas que não acreditamos e que só utilizamos para nosso próprio proveito. E não é preciso um curso para se saber uma coisa destas...
 
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P.S - Para os interessados, o filme está disponível para visionamento gratuito no YouTube com legendas em inglês.

O logo

Para as pessoas que diziam que o logo do blog parecia ter sido feito por uma criança de 3 anos, dou a boa nova: alterei o logo!
Quer dizer, não muda muito, como podem aliás ver. O desenho é diferente, mas o estilo infantil e patético é o mesmo de sempre.
Mas é a vida. Acho que está até mais infantil e mal feito do que o outro. E está giro assim. E eu sei que tenho uns gostos de decoração um pouco esquisitos.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

A Leste do Paraíso (East of Eden) [1955]


«A Leste do Paraíso» foi a estreia do mítico James Dean como protagonista cinematográfico (numa carreira que só iria durar apenas para mais dois filmes, devido ao fatal acidente que vitimou o ator). E basta apenas isto para incluir este fabuloso filme realizado por Elia Kazan na História do Cinema Americano. Mas há mais: «A Leste do Paraíso» é a queda do sonho americano e de uma família conservadora assente em ideais estritamente bíblicos e rigorosos (sendo que todo o filme - incluindo o título - parte de citações ou passagens da Bíblia, e o nome dos dois irmãos faz referência à história de Caim e Abel), onde dois irmãos (um bem comportado, outro outsider e sempre rebelde e que parece estar constantemente fora do baralho do pequeno agregado familiar aparentemente feliz, para o qual a Mãe, desaparecida, é um tema tabu) se opõem com o objetivo de agradarem ao seu Pai, em Monterey, no ano de 1917. Na época em que Hollywood engrandecia o Cinema com mais e melhores inovações técnicas (neste caso, o Cinemascope) face ao crescimento acelerado da Televisão, o que deu aos EUA um dos períodos mais férteis da sua existência (é nesta década e na de 60 que nascem os grandes épicos estrondosos como «A Ponte do Rio Kwai» e «Lawrence da Arábia»), com espectáculos de magnificiência absoluta onde tudo era pensado em Grande (incluindo as maravilhosas bandas sonoras - e «A Leste do Paraíso» não é exceção, graças à brilhante banda sonora composta por Leonard Rosenman, que está presente na obra de uma forma muito forte, abrindo-o até com uma "overture" magnífica), «A Leste do Paraíso» conquistou o público ao longo dos anos pelo fascínio que emana, graças também às interpretações do elenco (a de Dean é completamente icónica!) e ao guião de Paul Osborn, que teve de adaptar o longo romance homónimo de John Steinbeck para uma fita de duas horas de duração. E recebeu a aprovação do autor da história de Cal e Aron (os bastidores do filme estão muito bem revelados nos extras da edição DVD), esta adaptação que lida muito bem com os segredos, as mentiras e as perversidades que rodeiam o passado de uma família que parece ser tão certinha e respeitosa. 

Um dos muitos momentos em que a relação entre Cal e o seu Pai fica um pouco delicada. Mas durante as filmagens, diz-se que estes dois atores também nunca se deram lá muito bem...
Ambientado nos turbulentos anos da I Guerra Mundial, com a agitação da entrada no conflito e as consequências e os problemas trazidos pelo mesmo (numa cena vemos um ataque preconceituoso e xenófobo da população de Salinas a um habitante alemão, tudo por causa da guerra e do papel da Alemanha na mesma), «A Leste do Paraíso» é um filme grandioso também na sua realização (a do Mestre Elia Kazan, o "realizador dos atores" e que tão bem dirigiu Marlon Brando em «Há Lodo no Cais», que no ano anterior recebeu vários Prémios da Academia) e nos planos grandes e detalhados (e alguns utilizam uns interessantes ângulos de câmara, diria que nunca tinha visto serem usados antes de ter visto este filme) que glorificam a História familiar e dramática de Steinbeck adaptada por Osborn. Com um romance à mistura (Cal vai "fanar" a noiva de Aron, fazendo um bonito par) e uma história que envolve um passado familiar escondido dos filhos (e que Cal descobre), este é um Clássico americano, goste-se ou não dos seus classicismos, das suas representações e dos seus ideais cinematográficos, morais e artísticos. Sendo um filme que mostra o valor da família e de nós próprios na mesma, e de quão longe vai o Bem e o Mal no espírito humano (influenciado ou não por referências religiosas e/ou sagradas) «A Leste do Paraíso» é a revelação de James Dean, grandiosa e com um impacto que poucas conseguem ter. Estava aqui a primeira grande marca do ator que, apesar de ter tido uma carreira tão curta, ganhou um espaço imortal na memória da Humanidade.

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A surrealidade dos Contos do Gin Tonic


«Contos do Gin Tonic» é um livro onde o humor e a surrealidade se encontram, através das pequenas histórias criadas por Mário-Henrique Leiria. Com tanto de Monty Python como de Vasco Santana e António Silva, estes contos malucos e irreverentes influenciaram uma geração de comediantes portugueses (Nuno Markl e Nilton incluídos) e continuam a ser engraçados, mais uns do que outros, hoje. É difícil escrever mais do que isto sobre um livro que tem um conteúdo tão vasto e impossível de ser analisado de uma forma concisa e objetiva. Apenas posso adicionar estas informações: é um livro divertido, que se lê muito rapidamente, cheio de histórias que podem agradar a todos os gostos e feitios humorísticos e que não deixa ninguém indiferente. Mário-Henrique Leiria foi um grande tradutor (são de sua autoria as primeiras edições nacionais de «Fahrenheit 451» de Ray Bradbury e «Admirável Mundo Novo» de Aldous Huxley), mas aqui atestamos a sua imaginação narrativa, conhecendo as suas mirabolantes personagens e as situações caricatas e ridículas por que têm de passar. Algumas histórias são mais curtinhas do que outras (uma ou outra parece ter o efeito da punchline de um número de stand up comedy, outras davam até para fazer um filme - completamente louco, é certo), mas a risibilidade está em todas, além de uma crítica social acentuada e que continua a fazer sentido. Os «Contos do Gin Tonic» são essenciais!

Nascido Para Matar (Full Metal Jacket) [1987]


Quando Stanley Kubrick pegou na Guerra do Vietname e fez um filme sobre ela, o mesmo só poderia ser assim, inigualável. «Nascido Para Matar» (o significado do título é intraduzível para português - pelo menos, em três palavras apenas) é mais uma prova de que os filmes de Kubrick têm uma intensidade especial, única e inimitável, tal como afirmou Martin Scorsese sobre este realizador ("ver um filme de Kubrick é ver dez dos outros realizadores). O filme é um retrato, realista ou nem tanto, sobre a transformação que o treino dos soldados e a participação no conflito propriamente dito tem nas suas vidas e nas suas mentalidades. «Nascido Para Matar» é o retrato dos efeitos do Vietname nas pessoas que nele colaboraram, pelos olhos de um dos seus participantes, "Joker" Davis (Matthew Modine), um indivíduo que deve a sua alcunha pelo seu humor e boa disposição (além de gostar de imitar John Wayne), em duas partes distintas: nos treinos para o combate, onde os recrutados são submetidos às ordens de um sargento que gosta muito de berrar insultos aos seus subordinados, e no cenário de guerra, onde "Joker" verá com os seus próprios olhos, enquanto jornalista do «Stars and Stripes», a publicação periódica do exército (a imprensa, uma faceta pouco vista em filmes sobre a guerra do Vietname, que exerce, tal como a propaganda, um poderoso papel nas coisas que passam do conflito para o cidadão comum, que muitas vezes é vítima de lavagens ao cérebro bem disfarçadas), os horrores e as consequências da guerra. Muitos transformam-se em autênticas máquinas de matar, não conseguindo perceber, contudo, a razão para todo aquele caos e para todo aquele drama. Em «Nascido Para Matar» mostram-se os excessos do Vietname numa mistura explosiva com a inventividade cinematográfica de Kubrick, que introduziu uma banda sonora repleta de grandes êxitos dos anos 50/60 no meio de cenas que ficam ainda mais intensas pela música a que lhes foi colada (a cena onde se houve «Surfin' Bird» - mais tarde parodiada, com grande sucesso, pela série animada «Family Guy» - é um excelente exemplo disso). Não existindo mais nada para acrescentar, porque tal como outros filmes de Kubrick, há mais para ver do que para escrever sobre eles, termino afirmando que «Nascido Para Matar» é um fantástico filme de Guerra e o testemunho de um realizador versátil (e que fez de tudo nas Imagens em Movimento - desde comédia a ficção científica) neste género cinematográfico.

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Cultura em produtos domésticos

Se repararem, as caixas de lenços de papel vendidas pelo Pingo Doce têm, nas suas capas, versos de Fernando Pessoa em modo Ricardo Reis. 
Agora o que poesia tem a ver com assoar o nariz, isso já não sei.

The Mist - Nevoeiro Misterioso [2007]


Se «The Mist» não tivesse sido realizado por Frank Darabont, o homem que trouxe pérolas do Cinema Americano dos finais do milénio passado como «Os Condenados de Shawshank» e «The Green Mile - À Espera de Um Milagre» (e convém também não esquecer o subvalorizado «The Majestic» com Jim Carrey, numa das poucas ocasiões em que o ator agarrou um papel verdadeiramente dramático), eu não teria visto este filme, uma história de terror e ficção científica baseada, mais uma vez, numa criação de Stephen King (cujas adaptações cinematográficas da sua obra são incontáveis, pelos mais diversos cineastas - mas Darabont é o que mais se destaca). Porque «The Mist» tem muita coisa dentro de si que faz o que eu não gosto que seja posto em prática no Cinema. Mas não me deveria ter surpreendido, pois o cartaz e a sinopse da fita já dão uma ideia disso. Fui apenas atrás do nome de Darabont, e assim, tive uma das grandes desilusões cinematográficas dos últimos tempos. É um filme repleto de coisas óbvias e previsíveis, construído através de personagens que, na sua maioria, não funcionam da melhor maneira (ou que apenas servem para gritar - ui, que assustam tanto, tal como a forma como todos os atores dizem constantemente palavrões de uma forma muito expressiva, sim, porque em situações de drama e de perigo como esta o que é mais provável é que, de repente, salte a língua a toda a gente - ou para serem vítimas rápidas dos estranhos bicharocos que estão no meio do nevoeiro que assola uma cidadezinha americana) e com situações que - e isto é estranho, estando a falar de um filme incluído no género de "terror" - me aborreceu em certas partes. O Cinema vale por si próprio e não pelos adereços que se lhe possam colocar, e parece que «The Mist» quer viver dos acessórios e não das potencialidades que a Sétima Arte fornece aos espectadores. Mas depois é curioso que «The Mist» pretende ter a parte do suspense e do horror como capa para dar ênfase a uma psicologia intensiva da maioria das personagens vazias e da narrativa, só que infelizmente só consegue fazer isso de uma forma razoável - e que torna este mote a parte que, para mim, foi a mais interessante do filme. O slogan do filme é "o medo muda tudo", e talvez fosse essa a principal ideia a passar por King e pela adaptação de Darabont, quando o caos da cidade começa a fomentar o pânico dos seus habitantes e a aumentar o fanatismo religioso de alguns deles, movidos por uma guru extremista que diz que aquela praga de insetos gigantes forma o Apocalipse há tanto prometido. Mas à exceção dessa algo interessante parte de reflexão proporcionada por «The Mist», este não deixa de ser um filme de pipoca, com muitas subplots desinteressantes que tentam, sem sucesso, dar mais algum fôlego à história insípida e que caberiam na perfeição na secção "Deleted Scenes" das edições DVD e Blu-ray do filme. Com um modo de filmar muito amador, ou pelo menos, pseudo-amador (parece que é o que está na moda hoje em dia. Isto não é "Nouvelle Vague" nem nada, é apenas uma tentativa de tornar as coisas num documentário muuuuito credível), «The Mist» sofre por ser mais um filme de espetáculo, e por este espetáculo não ser bem feito, do que um filme em todas as suas vertentes. Mas é preciso ser sincero, porque falei de pipocas: talvez «The Mist» fosse daquelas fitas que desse maiores emoções no Cinema. Mas a narrativa continuaria a ser um grande alvo de críticas pela minha pessoa, e mesmo assim, não perderia a sua veia de telefilme do canal Syfy.


«The Mist» é um filme sobre uma catástrofe inesperada, que obriga a que um homem e o seu filhote fiquem presos num supermercado, juntamente com tantas outras pessoas (incluindo o seu vizinho que é "um grande advogado" e por isso é ultra-espetacular, apesar de só saírem asneiras quando abre a boca), à espera que chegue a bonança. Só que ela tarda muito, e depois vão morrendo uns quantos pelo caminho e aparecem monstros muuuuito assustadores (cujas vítimas que causam têm tanto de aterrorizador como de hilariante - e isso não é suposto num filme de terror, pois não?) que vão matando uns quantos pelo caminho e aumentando o fanatismo de outros tantos. Em «The Mist» vemos como o Homem muda nas situações mais extremas e como as pessoas tendem mais a divergir do que a entenderem-se em casos de perigo. Mas com tantos clichés e berros a parte razoavelmente boa do filme fica um pouco tapada pela tamanha superficialidade que transporta no seu conteúdo e na sua forma. Mas como «The Mist» é uma obra com um orçamento considerável, ao menos conseguiram pagar a bons atores para interpretarem os seus papéis, que variam entre o algo-consistente e o nada-consistente, rodeados por um sem-número de lugares comuns e com as coisas tão habituais e gastas que, ao que parece, são as que andam a sustentar o Terror há demasiado tempo. O grande problema do filme, contudo, é querer ser, ao mesmo tempo, muito profundozinho filosoficamente, e muito claro e objetivo cinematograficamente. Essas duas facetas tão contraditórias fazem com que «The Mist» acabe por ficar ainda mais prejudicado. Além de querer parecer ser uma versão moderna de «Os Pássaros» de Hitchcock, mas não conseguiu aprender o que esse filme tinha de bom em termos de terror: conseguia assustar, de uma forma potente e extremamente eficaz, com pouco e com o mais íntimo do ser humano, sem precisar de muitas extravagâncias visuais...


Mas, e porque há sempre um "mas" (e porque em todos os filmes menores há sempre coisas boas para serem aproveitadas, mesmo que sejam um dos maiores pedaços de ridicularidade da História), «The Mist» consegue ser cativante, e os seus atores, que conseguem, até, ter boas interpretações com personagens tão fraquinhas, dão uma força interessante a um filme que teria tudo a perder se não fosse o seu elenco. E a viragem que «The Mist» tem na sua parte final também é algo curioso: talvez esperasse um "happy-ending" inconsequente, posto à última da hora, para não deixar o espectador com um certo remorso na consciência, mas... é exatamente o contrário que se sucede aqui! OK, as últimas palavras do ator principal não precisavam de ser proferidas de uma maneira tão exagerada, mas a ideia resulta bem, porque acaba por dar um final "necessário" para a horrível situação apresentada e pelas poucas escolhas psicológicas que são dadas ao protagonista. Ele não poderia esperar uma reviravolta tão rápida nos acontecimentos... «The Mist» não é um filme totalmente mau, mas também não acaba por se tornar em algo de verdadeiramente interessante empolgante. Mas no meio de tantas falhas possui algumas pequenas coisas boas, e é isso que acaba por importar. É um filme mediano, com uma ou outra ideia interessante.

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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O Homem das Duas Faces (The Man in the Glass Booth) [1975]


«O Homem das Duas Faces», um filme realizado por Arthur Hiller (talvez um dos títulos mais prestigiantes da sua não-tão bem recheada filmografia) a partir da peça homónima de Robert Shaw (mais conhecido como ator - foi Henrique VIII em «Um Homem para a Eternidade» e teve outros papéis memoráveis em filmes como «A Golpada» e «Tubarão»), esteve incluído na segunda série de fitas das produções do American Film Theatre, um serviço de Cinema por subscrição que durou duas temporadas e que teve um objetivo corajoso, popular na época e inovador, e que nunca mais se voltou a repetir: filmar o Teatro, sem perder o espírito das peças adaptadas, através do auxílio de grandes realizadores e atores a participarem nos mesmos. Hoje em dia, os filmes do AFT têm o estatuto de lenda, e por muitos anos foram difíceis de encontrar e de visionar pois estiveram muito bem escondidos do público. Contudo, recentemente a coleção de catorze títulos deste projeto dirigido por Evy Landau foram lançados no mercado de home vídeo (e apenas seis deles - mas que são dos mais conceituados - foram editados em Portugal pela Unimundos, e que estão agora nas lojas a preço de saldo, incluindo «O Homem das Duas Faces») e podemos contemplar o espírito destas obras e a qualidade dos seus textos e das suas produções, muito bem patentes, de uma forma exemplar, nesta fita, protagonizada por Maximillian Schell (nomeado ao Oscar de Melhor Ator por esta excecional performance) e com argumento adaptado de Edward Anhalt. «O Homem das Duas Faces» é um drama perturbador sobre o Holocausto e os seus efeitos na sociedade muitos anos depois de ter ocorrido, porque, apesar de já ser uma coisa do passado, continua a suscitar muitas tristezas e problemas no presente. No filme podemos analisar um retrato profundo da personagem principal, Arthur Goldman, um judeu rico instalado em Nova Iorque... ou um oficial nazi responsável pela morte de milhares de judeus que se refugiou sob uma identidade falsa nos Estados Unidos da América. A dúvida instala-se constantemente, e fica ainda mais persistente quando vemos Schell a ser tão convincente nos dois "papéis" que representa ao mesmo tempo. Mas quem será realmente aquele alemão? Uma vítima das traumas do Holocausto ou um orgulhoso monstro da tragédia em que esteve profundamente envolvido? Acho que, até ao final do filme, é impossível ter-se a certeza disso. E essa característica dúbia de Schell dá uma força maior a «O Homem das Duas Faces» porque, se optarmos por optar num dos lados da questão, conseguimos ter razão (tanto Arthur Goldman é paranóico e obsessivo pelas desgraças que o nazismo trouxe, como o criminoso nazi é convincente no seu relato dos crimes que cometeu, relato esse feito de uma forma orgulhosa e provocadora - qual deles é o verdadeiro Homem?). Com alguns toques de humor, o filme quer deixar uma questão social por explorar pelo próprio espectador, pelo rasto que a tragédia do Holocausto deixou e pela maneira como hoje vemos as consequências que o mesmo trouxe para a Humanidade.
 
 
O ponto mais alto de «O Homem das Duas Faces», que tanto tem de revelador como de fascinante, é mesmo a gloriosa interpretação de Maximillian Schell no papel principal, que deixa uma impressão muito forte nos espectadores. Os ecos do passado fazem as questões do presente e desta personagem, que esconde (ou talvez não) a sua verdadeira identidade são levados até um julgamento em Israel, onde no meio de uma audiência composta por judeus (muitos deles sobreviventes do nazismo), Goldman revela a sua "persona" nazi, que tanto tem de real como não (e agora eu já fiquei confuso com o que estou para aqui a escrever). O filme está consistentemente realizado por Arthur Hiller, que soube manter o ritmo da peça e dos formalismos do Teatro com o espírito do Cinema, aliando estas duas artes de uma forma muito bem conseguida, criando uma obra mais complexa do que se possa imaginar, e que deve ser vista de uma forma objetiva, não se deixando levar pela impressão dos relatos feitos pelo homem na parte em que se veste de nazi, que não está caricaturado mas sim, assustadoramente credível. Mas é impossível analisar este filme sem revelar algum do seu material, e por isso, mais vale ficar por aqui, porque já dei um "cheirinho" alargado da narrativa. Concluo dizendo que «O Homem das Duas Faces» é ainda um filme semi-oculto, mesmo com a disponibilidade que os filmes do AFT estejam hoje no mercado, mas que é merecedor de visionamento. Uma obra muito bem pensada, inesquecível e arrebatadora, que comove e nos faz refletir sobre as múltiplas máscaras que o ser humano pode utilizar para enfrentar ou para esconder alguns dos seus problemas mais obscuros...
 
* * * * 1/2

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Aguenta-te Canalha! (Giù La Testa) [1971]


«Aguenta-te Canalha!», que nas Américas do Norte tanto é conhecido como «Duck, You Sucker!» (o seu título original, que referencia uma catch-phrase de um dos protagonistas do filme), como por «A Fistfull Of Dynamite» (um título engendrado para fins de marketing - talvez a semelhança de título com o primeiro tomo da Trilogia dos Dólares, que foi tão lucrativa, pudesse dar um impulso importante às receitas de bilheteira desta fita), como ainda por «Once Upon A Time... The Revolution» (este título publicitário até faz mais sentido, visto que, antes de «Aguenta-te Canalha!», o seu realizador tinha feito, alguns anos antes, essa obra prima que dá pelo nome de «Once Upon a Time In the West»), é o filme intermédio da segunda trilogia elaborada por Sergio Leone, o senhor dos westerns spaghetti e possuidor de uma visão cinematográfica épica, poderosa e completamente genial. Após o enorme sucesso das aventuras de Clint Eastwood pelas mãos do cineasta italiano, Leone decidiu, nas suas próprias palavras, criar uma nova trilogia, que falasse mais da evolução da América desde o final do século XIX (no fim da época do "far-west", onde os novos meios de comunicação, como o comboio, e a evolução dos povos americanos fecharam todos os mitos e lendas criados pela "era dos cobóis"), passando ainda pela revolução mexicana de 1913 (neste «Aguenta-te Canalha!) e culminando naquela que é, para mim, a obra maior de todas: «Era Uma Vez na América». Duas grandes personagens, interpretadas pelo mítico James Coburn e pelo surpreendente Rod Steiger (sim, surpreendente se tiverem visto, antes desta fita, uma outra em que este ator participou: «Há Lodo No Cais» - não parece mesmo ser uma só pessoa a fazer estes dois papéis tão distintos!) numa história de explosões, tiros e política, onde o centro de tudo é a amizade entre  John (Coburn), um terrorista irlandês especialista na arte de explodir, e Juan (Steiger), um revolucionário mexicano, e tudo isto bem polvilhado por mais uma fantástica e inesquecível banda sonora do Grande Ennio Morricone, num western "zapata" onde tudo pode acontecer a qualquer momento. Apesar da política ser uma forte componente do filme, não é ela que o sustenta, mas sim a incrível química entre os dois protagonistas e todas as aventuras que eles vivem durante as turbulências durante aquela época, onde estão acentuadas as diferenças entre os estratos sociais e onde o atraso social e comunicacional (os meios para tal são escassos).


«Aguenta-te Canalha!» abre com uma citação de Mao Tsé-Tung (retirada das versões "retalhadas" pelas distribuidoras, para conseguirem angariar mais dinheiro com a fita) que termina com a afirmação "A Revolução é um ato de violência". E é tudo isso que testemunhamos no filme. OK, sabemos que, talvez, o contexto em que Mao quis dizer isso de uma outra maneira, enquadrando-a na situação da China, mas se a soubermos enquadrar na obra cinematográfica, a frase tem o seu significado. As personagens questionam muito o valor das Revoluções para a alteração das coisas. Será que todas as conspirações, atentados e sacrifícios humanos que são feitos em prol da pátria servirão para alguma coisa, ou o ciclo manter-se-á igual e impossível de ser alguma vez alterado? E será que o egoísmo humano suplanta sempre o interesse comum? Porque, no início, a relação de John e Juan cimenta-se por uma mera questão interesseira de ambos: ganharem dinheiro. Mas no fundo, acaba por formar-se uma amizade entre estes dois homens tão diferentes, em termos de cultura e de estrato social. E sim, isto é um cliché, e talvez um dos modelos narrativos mais utilizados na História de todas as Artes. Mas há as formas plásticas e as formas tocantes e inigualáveis de se retratar um certo tema que podem fazer com que este ganhe novos contornos. Para mim, é o que sucede em «Aguenta-te Canalha!», e mais tarde, de uma forma ainda mais profunda e dramática, em «Era Uma Vez na América». Mas felizmente, cada um destes filmes de Sergio Leone valem por si e, como são completamente distintos uns dos outros, são injustas quaisquer comparações que se possam fazer entre essas peças de Grande Cinema. Mas em todos temos características comuns, que são o espírito da cinematografia leoniana: os obsessivos close-ups, a ânsia de criar cenas que possuam muito de épico e de grandioso mesmo nos mais pequenos pormenores de cada situação, a fabulosa inspiração/concretização musical de Ennio Morricone... há tantos pormenores e tantas ideias de um génio do Cinema a jorrarem em «Aguenta-te Canalha!» que o filme tem de ser visto com uma atenção especial ao detalhe e à feitura de cada cena. Porque, mesmo com a cobertura de ser uma história que envolve política, ela não torna a fita num panfleto ideológico, já que Leone aproveita para criticar ambos os lados da medalha do caso mexicano: o povo pobre e inculto e a elite abastada e autoritária. E mesmo assim, Leone só queria, mais uma vez, aproveitar esta história para dar largas à sua imaginação e torna-la completamente sua (não consigo imaginar esta narrativa nas mãos de outro realizador - seria completamente distinta), fornecendo-lhe o seu espírito e a sua visão cinematográfica, que conseguia a qualquer história (mesmo que fosse a mais banal possível) um "cheirinho" especial.


«Aguenta-te Canalha!» é talvez o filme mais "porcalhão" de Leone, onde a repugnância dada pela veracidade do estado dos personagens (algo que não acontecia muito nos westerns americanos) é levada quase a um nível extremo... exceto, talvez, o facto de lavarem todos muito bem os dentes naquela época (estão tão branquinhos!). Mas não é isso que interessa para esta análise, mas serve mais como "fun fact" sobre este filme, onde a comédia ganha novas proporções no estilo de Leone, no meio de algumas situações bizarras e muito ruidosas (por causa, lá está, dos tiros e das explosões) onde a hipocrisia governa em todas as atribulações presenciadas por John e Juan, que põem em causa os seus ideais e aquilo que querem para as suas vidas. Em flashback contam-nos as origens de John, mais enigmática e complexa que a de Juan, num filme de grande e glorioso entretenimento e divertimento. Talvez «Aguenta-te Canalha!» esteja entre o lirismo de «Aconteceu no Oeste» e a ação e a aventura de «O Bom, o Mau e o Vilão», e ainda bem, porque resulta de uma forma muito satisfatória e cinematograficamente sensacional e que, felizmente, começa a ser valorizado e a ser posto ao lado das grandes obras de Sergio Leone, que nos deixou tão poucos filmes, mas que têm tanto para dizer e para sentir.

* * * * 1/2

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O "meu" filme

Sempre que me perguntaram até hoje qual "o" filme da minha vida, eu tinha sempre dificuldade em limitar a minha resposta a um título. Mas andei enganado por muito tempo, porque eu tenho um filme que é mesmo "aquele", para mim. Uma obra extraordinária que, logo no primeiro visionamento, me causou um impacto que nunca tinha sentido antes nem nunca voltei a sentir até hoje.

Sim, eu vejo muitos filmes excelentes, inovadores, poéticos e inacreditáveis. Mas o "Era Uma Vez na América" continua a ser "aquele" filme. E logo atrás dele tenho uma dezena de outros filmes que fazem parte de mim de uma maneira mais importante, mas este é o número 1. Tenho a certeza. 
 
 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Lenny [1974]

 
«Lenny», o filme biográfico sobre a vida e a carreira de Lenny Bruce, um dos comediantes mais irreverentes e provocadores da escola americana da arte de fazer rir, é o retrato de uma geração. É a ascensão, a queda e o reconhecimento de um comediante que ousou ser ousado - e que, por isso, sofreu muitas graves consequências dos seus atos (e dos seus ditos) provocatórios e, em muitos casos, constrangedores e polémicos. Filmado a preto e branco, o que realça muito a história dramática e muito urbana que foi a vida de Lenny Bruce e dos seus espetáculos noturnos e corrosivos, tem Dustin Hoffman numa das suas melhores e mais surpreendentes interpretações, contando algumas partes significativas da vida do stand up comedian inimigo público n.º 1 da moral e dos bons costumes, a partir de uma peça que mistura o real e o ficcional na personalidade de Lenny, não deixando por isso o realizador Bob Fosse (o homem do espetáculo na Sétima Arte, que dois anos antes fez o filme «Cabaret: Adeus Berlim») de executar um filme de grande qualidade. Porque o Cinema nunca pode ser "a" realidade, mesmo que se inspire nela (e nisto lembro-me de uma certa crítica da Time Out ao «Lawrence da Arábia» - é alarvidades daquelas que me fazem pensar que eu até escrevo alguma coisa de jeito), «Lenny» tenta dar aos espectadores, e com muito mérito, uma lição que a Humanidade já nos mostrou tantas e tantas vezes, mas que continua a ser importante estar na nossa mente: a fama e as suas consequências. Contudo, é hoje em dia que Lenny Bruce está mais popular do que nunca, mesmo tantos anos após a sua morte - as gravações dos seus espetáculos (ou das suas reflexões existenciais cómicas, por outras palavras) circulam em dezenas de vídeos no YouTube e noutros sites de coisas que se tornam virais de um momento para o outro - e o seu espírito de provocação e de questionar os códigos de conduta da sociedade (o que o tornou um pseudo-guru da sua época) continua a suscitar debates e polémicas acesas, onde o valor da liberdade de expressão é sempre questionado pelas mais diversas correntes de opinião. E é dessa liberdade que se fala também em «Lenny», da luta do comediante pela divulgação da sua comédia, num país onde reinam muitos conservadorismos "ditatoriais" (porque só quem quer ver Lenny, ou ouvi-lo, é que o faz - ninguém que se oponha a isso é obrigado a fazê-lo). E descobrimos mais coisas sobre ele (ou pelo menos, sobre o seu "eu" do retrato cinematográfico) pelas entrevistas feitas por um jornalista às pessoas que com ele conviveram (a mulher, o manager, a Mãe, etc), intercaladas por vários momentos das suas atuações e de momentos da sua atribulada vida privada (que foram uma grande inspiração para as suas ideias cómicas extravagantes). «Lenny» tornou-se um filme um pouco esquecido nos últimos anos, e talvez, não muito justamente avaliado pela crítica da sua época. Porque hoje permanece como um retrato muito interessante e perturbador de uma figura ímpar da comédia americana da contemporaneidade.
 
 
Se se notar nas partes dos espetáculos de Lenny Bruce que são apresentados no filme, as reações das diferentes pessoas que a eles vão assistir. Quão diferentes seriam hoje em dia, se o comediante estivesse agora a começar a sua escalada para a fama? Muito pouco, porque a sua irreverência continuaria a chocar Hoje. E bem. «Lenny» fala de um homem que só queria afirmar-se no meio dos "zés-ninguém" que abundam no Mundo, mas a vida atribulada e o início de uma relação de "amor" com as drogas tornam-no decadente, devendo uma parte da sua popularidade da época pelos múltiplos escândalos em que se envolveu. Ganhou um grande culto e foi preso, por diversas vezes, pelas obscenidades ou provocações dos seus espetáculos. Mas ao arriscar, pela liberdade de expressão, a sua pele em sucessivos julgamentos (que também ocupam umas boas cenas desta fita), Lenny adquiriu mais e mais fama e publicidade - que é o que, sejamos sinceros, todo o artista ambiciona (mesmo os mais desconhecidos do público e que afirmam gostar dessa posição). «Lenny» é a queda de uma estrela, que estragou a sua vida e viu arruinar-se psicologicamente de um momento para o outro, e este não é um "biopic" normal: apesar de uma estética de realização algo ultrapassada e demasiado metida nos 70's, o filme possui uma montagem extraordinária e uma estrutura narrativa não-linear (com algumas pequenas - e insignificantes - falhas) e é impressionante e, dependendo dos gostos, chocante, e cria-nos uma proximidade muito palpável da ação cinematográfica. «Lenny» é um filme notável, subestimado, e recomendado para todos os fãs de Lenny Bruce e para quem gosta do bom Cinema Americano que quer arriscar e fazer-se ouvir sem precisar de ser altamente dispendioso e vazio de ideias. Dustin Hoffman esteve nomeado para o Oscar para este filme, mas não ganhou o prémio. Mas este papel vale muito bem pelas duas interpretações pelas quais o ator arrecadou as estatuetas da Academia...
 
* * * * 1/2

O Grande Salto (The Hudsucker Proxy) [1994]


«O Grande Salto» é uma pérola mais ou menos bem escondida na filmografia dos irmãos Coen. É um filme divertido, simples e com algumas cenas repletas de imaginação e de magia cinematográfica, como a dupla de realizadores/argumentistas nunca tinham feito antes, misturando uma( música grandiosa (e que me fez recordar os clássicos natalícios - ou pelo menos, a banda sonora de muitos deles - pelo seu tom quase "doce" e mágico) com uma história que envolve o passado e o futuro... ou talvez não. Pelo menos é a ideia que o monólogo inicial, proferido em voz-off por uma das personagens secundárias do filme (que acabará por ser, de uma maneira interessante, um dos pontos-chave da trama), nos pretende transmitir, tal como o slogan da Hundsucker Industries (a empresa onde se desenrola o filme), "O Futuro é Agora". Mas depois percebemos a pouco e pouco como «O Grande Salto» é um filme parvo. Um filme parvo que, em dadas alturas, atinge o nível do ridiculamente parvo. Mas que não deixa de ser encantador. O IMDb e a Wikipédia classifica esta comédia dentro do género dos filmes "screwball", que tendem a cair para as piadas mais simples e básicas e, na maior parte dos casos, sem graça. Só que esta obra é parva no bom sentido. A parvoíce de «O Grande Salto» está num nível, para mim, de qualidade como está o non-sense revolucionário dos Monty Python, e que tanto me faz rir. Não sendo um filme propriamente hilariante, «O Grande Salto» tem as emoções no sítio certo, provocando risos e sorrisos com uma história com algo de inteligência  e, também, algo de vulgar - a estrutura é muito normal, e sabemos desde o princípio que (e espero que isto não seja nenhum spoiler...?) tudo vai acabar bem e adivinhamos, logo no primeiro momento em que a miúda do filme aparece, que o protagonista (Tim Robbins) vai ficar com ela. Mas esta simplicidade e normalidade é apenas um pretexto para os Coen fazerem um filme à la Coen, e que foi o primeiro projeto de maior orçamento feito pelos Irmãos.  A narrativa vai buscar os moldes aos clássicos americanos, que contavam histórias com moral e que pretendiam ensinar alguma coisa aos espectadores. E a moral é simples: a felicidade não se compra, nem que tenhamos todo o dinheiro do mundo, e esse vil metal, na maior parte das vezes, só acaba por trazer aborrecimentos a quem tem de tratar dele em grandes quantidades (e sim, esta expressão pode ter vários sentidos e não estou a falar em desfalques nos bancos! Isto tem a ver mais com falcatruas económicas empresariais). «O Grande Salto» é um filme que, criticando e satirizando a burocracia e o mundo da economia e da gestão e apelando à simplicidade dos simples, torna-se uma boa proposta de verão, e também, de comédia inteligente e, ao mesmo tempo, com muita parvoíce, e que possui, ainda, um toque de humor em jeito de desenho animado.


«O Grande Salto» mostra uma estratégia de um grupo de empresários para manterem a Hudsucker após a morte (bizarra) do seu fundador. E Massburger (Paul Newman), um inescrupuloso homem de negócios, dá a ideia de colocarem um idiota como diretor dos destinos da empresa para este a arruinar e, assim, as ações da empresa poderem ser compradas a baixo preço após a ruína, evitando que a marca caia nas mãos de qualquer cidadão, intenções essas a do senhor Hudsucker. É assim que entra na história Norville Barnes (Robbins), um jovem à procura de trabalho que será o bode expiatório da Hudsucker, mas que, com as suas invenções (uma em particular - uma pista está no poster do filme), irá virar os planos dos empresários do avesso. Contudo, Norville acabará por não conseguir controlar a sua nova vida empresarial, e os resultados podem ser dramáticos. Aliás, a sua criatividade e a sua vida pessoal, tal como em tantos casos que a vida real nos mostrou, começam a ficar afetados pela cor do dinheiro... «O Grande Salto» é um caricato conto social que nos quer ensinar algo sobre a vida que está lá fora e de todos os perigos e idiotices que a circundam. O filme tem uma estrutura muito habitual em termos de forma mas é uma delícia de visionamento, principalmente quando a história ganha uns certos contornos mágicos e com o seu quê de encanto e de fantasia, culminando num final com muito de nonsense. Mas não se pode estar com expectativas para se ver uma comédia destas, e especialmente, quando é feita pelos Irmãos Coen (aliás, "expectativa" é uma palavra que pode destruir qualquer peça cultural e artística que existe ou está por vir ao Mundo). O espectador tem de se deixar levar pela simplicidade de «O Grande Salto» e pela simpatia e empatia que as personagens nos transmitem, apesar da caricatura constante que é feita com algumas personagens e situações. Não é o mais fascinante filme dos Coen, nem precisa de o ser para mostrar-se, aos nossos olhos, como um filme singular na carreira dos dois cineastas.

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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Coisas giras envolvendo informações para candidaturas


Sabem aquela sensação de acharmos uma coisa muito tempo, confirmarmos essa coisa com muitas pessoas e, passadas umas semanas, descobrirmos que essa coisa não é verdadeira? 
Acabou de me acontecer, ao ir pedir a ficha ENES para a candidatura para a primeira fase. Quando fiz os exames várias pessoas, incluindo professores e funcionários de escolas, responderam-me a uma dúvida "estúpida" (isto foi o que um dos indivíduos respondeu na altura) e que foi: posso usar a nota de Português da segunda fase para a média de candidatura da primeira? Fiz esta pergunta e a cada um dos mais de quinze inquiridos refiz várias vezes a mesma, para ver se eles percebiam o que eu queria dizer. Todos me responderam que "sim, sem dúvida alguma". Nenhum disse que não era possível. 
Well, turn's out that is bulls*t porque hoje refiz, novamente, a pergunta na secretaria do Rainha (ai que desconfiadinho que eu sou - e com razão!) e mostraram-me até como vai ser a minha ficha ENES, que mostra que isso não é possível! 
E como eu estou? Aha! Radiante! Tenho duas décimas de diferença nas duas médias (16,8 na primeira e 17 na segunda) e, parecendo que não, isso até tem algum significado, nomeadamente no que diz respeito a conseguir, na primeira fase, aceder a uma universidade que me garantia uma isenção total de propinas! Ah, e lembrei-me agora que fui fazer o exame da 2.ª fase de Português porque toda esta gente me disse que sim à minha pergunta! 
Mas pronto, agora é esperar para ver. Também quem fui eu para seguir as afirmações de quinze pessoas que, supostamente, deveriam estar bem informadas sobre as coisas que dizem respeito à sua área profissional?
É porque... pois, tinha-me esquecido, mais uma vez, que estamos em Portugal...