sábado, 30 de novembro de 2013

Novamente os TCN

E os TCN estão cada vez mais perto... por isso, na pequenez do meu blog, volto a apelar ao vosso voto (se acharem justo exercerem-no)! 

Para isso, basta fazerem estas coisitas: 

2. - Votar na poll "TCN 2013" (está no canto direito do blog, um pouco para baixo), na categoria "TCN 2013: Crítica TV" e escolher a opção "Sonhar Era Fácil", que é o título do meu post nomeado. 

Falta apenas uma semana para as votações terminarem, e toda a ajuda que quiserem dar, de pura e livre vontade, eu agradeço. Mais uma vez vejo-me no meio de gigantes e a concorrência é mesmo muito apertada (e talvez algo desequilibrada, mas os critérios são do júri...).

Obrigado pelo vosso apoio! :)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Julgamento de Nuremberga [1961]

Foi a partir de um dos maiores e mais reputados combates jurídicos da História que Stanley Kramer decidiu fazer este grande épico (que possui uma "overture" e tudo - e que é apenas uma amostra da potente banda sonora) que dá pelo nome de «O Julgamento de Nuremberga». Um ano depois da polémica e do êxito trazido pelo extraordinário «Inherit the Wind», o cineasta quis voltar aos temas quentes e que são alvo de grandes e permanentes discussões pela opinião pública. O resultado: uma grande película, que retrata não só grandiosamente bem todo o julgamento dos juízes nazis em Nuremberga, como também capta na perfeição um ambiente social, político e humano que caracterizou o Mundo nos tempos que se seguiram ao final da II Guerra Mundial. Foi este julgamento de 1948 que tornou célebre a expressão "crimes contra a Humanidade", que continuam a chocar gerações e a trazer tantas novas perguntas para serem respondidas. Com a Alemanha destruída e ocupada pelos Aliados, resta agora saber qual será o futuro dessa nação e, consequentemente, do resto do Mundo. E todos têm os olhos postos nos avanços e recuos deste julgamento. 


Spencer Tracy (que aqui foi nomeado para um Oscar) é um juiz deste caso que não foi muito concorrido, devido às consequências que pode implicar ao nível de reputações profissionais. É um juiz que terá de julgar outros juízes. E a acompanhá-lo vemos a sempre impecável Marlene Dietrich, um expressivo Richard Widmark (o brilhante advogado de acusação que já triunfara antes ao protagonizar «Pickup on South Street», de Samuel Fuller) um fenomenal Maximillian Schell (vencedor do Oscar, como o advogado de defesa dos alemães, que tem de lutar contra as suas forças para contradizer aquilo em que acredita para cumprir o seu trabalho), e outras personagens secundárias (mas interessantes de acompanhar numa perspetiva mais atual) interpretadas por nomes como William Shatner e Montgomery Clift (também nomeado). E voltamos a ter, tal como «Inherit the Wind», algumas particularidades que Stanley Kramer exigiu para esta produção: encontramos alguns atores improváveis a encarnarem personagens desconcertantes (Judy Garland - sim, a Dorothy fofinha de «O Feiticeiro de Oz» - é uma das maiores surpresas do elenco deste filme, que lhe valeu outra nomeação da Academia, tal como Burt Lancaster no papel de um dos oficiais nazis, uma sombria performance de fenomenal qualidade) e uma força incomparável e inesquecível assente nos diálogos das personagens e nos grandes discursos por elas proferidos. Este não foi um julgamento normal, não se tratou de um evento como outro qualquer - e Kramer faz tudo para que o espectador se aperceba de tudo o que envolveu o caso de Nuremberga, aproximando-o o mais possível do ambiente fervoroso e chocante que se viveu e se sentiu naquela época. E Stanley Kramer elaborou (ou foi obrigado a elaborar) um truque interessante, que ao mesmo tempo se afasta e se aproxima desse realismo pretendido: nos minutos iniciais do julgamento vemos todos a falarem as respetivas línguas (inglês e alemão), e ouvimos os intérpretes de um lado e de outro a traduzirem a situação. Para poupar tempo (e também dinheiro!), Kramer faz uma transição desta situação para aquilo que Hollywood tem de mais típico (mas que se funcionar, é bem empregue - e aqui é um desses casos), que é pôr todos os atores a falarem inglês. E de um momento para outro, isto acontece e é quase como se Kramer nos dissesse "Eu queria fazer daquela maneira, mas não dava. Tira muito do espírito do filme". E ele tinha razão, porque assim, «O Julgamento de Nuremberga» funciona admiravelmente bem.


Em «O Julgamento de Nuremberga», a câmara é discreta, mas quase fatal. No acontecimento que mudou o planeta, vemos os bastidores dos juízes e as reações de populares, de envolvidos e dos condenados. Todos têm alguma coisa para dizer para alimentar intrigas ou para desenvolver este processo longo e complexo. Os argumentos e os contra-argumentos expostos fazem o espectador pensar e repensar um assunto que, à partida, poderia considerar óbvio (tal como em «Inherit the Wind»). Não só o nazismo é posto em causa, como o domínio americano, causa de pânico para alguns alemães. E poderão as poderosas argumentações dos dois lados da medalha fazer-nos duvidar da culpabilidade ou da inocência dos juízes nazis? Conseguirão abalar a radicalidade de oposições e as nossas ideias pré-formatadas pelos horrores que associamos ao nazismo? Não sabemos, mas o que é sabido é que, por mais "pequeno" (em termos de espaço cénico cinematográfico - grande parte do filme passa-se no tribunal) que a fita seja, não é isso que quebra a espantosa potência da obra, que é crua, fria, aterrorizante até, e com algo de trágica. Ao explorar o horror, ficamos ainda mais horrorizados, e espantados por ser este um filme com mais de cinquenta anos. Sim, porque não foi só mais recentemente que o Homem do Cinema se ligou mais à sociedade, de todo. «O Julgamento de Nuremberga» é um grande filme, onde a verdadeira Justiça não é a mais popular. A força humana é a maior das Justiças, mas o que resta de humano em homens que cometeram Crimes Contra a Humanidade?

* * * * 1/2

Renascer das cinzas para quê?


Segundo o DN (e outras publicações), foram encontradas gravações inéditas de Freddie Mercury, e a partir delas os outros membros dos Queen (que é como quem diz, os que ainda querem render mais o peixe, o que exclui o baixista exilado John Deacon) estão a planear um novo álbum, ou pelo menos, uma qualquer maneira para continuar a lucrar com o legado do que a banda foi em tempos que já lá vão.

Iap, claro, esta é uma grande "novidade", para a qual já sei o resultado final: irá sair mais um álbum de remixes de artistas falecidos há muito tempo, cuja voz será utilizada não da melhor maneira artística, mas sim monetária. Se for como o «Made in Heaven», o último álbum dos Queen (editado já depois da morte de Freddie Mercury), vamos poder ouvir umas misturas de som da voz do cantor repetidas de forma irritante e "enche-chouriços" constante (porque retirando três ou quatro músicas, essa é a génese do álbum, e de outras incursões mais recentes como no caso de Michael Jackson). 

Afinal não é só nas funerárias que reside o lucro do óbito...

Quentin Tarantino quer fazer mais um western


E depois do estrondoso sucesso obtido com «Django Libertado», Quentin Tarantino anseia por executar mais um western. Mais detalhes sobre esta revelação podem ser lidos no Espalha Factos!

Frozen - O Reino de Gelo [2013]


Frozen é um filme de animação que se inspirou no famoso conto A Rainha de Gelo, de Hans Christian Andersen. E se bem que, como de costume, a Disney deturpa a história para poder aceder aos propósitos morais dos seus filmes, a intenção mantém-se igual: o filme é a história de Anna e Elsa, duas irmãs e princesas, separadas pelo poder mágico de Elsa (que transforma em gelo tudo o que toca), que destruiu a sua relação familiar e acabou com a estabilidade da cidade onde vivem. Elsa foge para as montanhas, conseguindo cada vez menos controlar o seu poder e os danos que causa, mas Anna quer encontrá-la e descobrir a solução para acabar com todos os males daquela situação. Pelo meio conhece algumas personagens que a irão ajudar nesta grande demanda musical, cómica e sentimental, ao melhor estilo da Disney.

Uma nova aposta forte da Disney, Frozen está pronto para se tornar em mais um grande sucesso de bilheteira da marca, reactualizando os seus hábitos cinematográficos, introduzindo-lhes novos elementos que continuam a dar interesse às histórias e às personagens destas fitas. Não é para se ver e pensar que esta obra peca por não ser “como das que já não se fazem hoje em dia”. Esqueçam os saudosismos, porque Frozen é um filme para se disfrutar ao máximo, para divertir, para rir e para ligar os mais novos com aquilo que os adultos se habituaram a ver na infância. Porque o legado da Disney é mesmo transversal a todas as gerações. 

Destacar também que, antes do filme, o espectador poderá ver um bónus adicional de seis minutos (e que será a única parte da sessão onde o preço do 3D valerá mesmo a pena): Get a Horse!, uma deliciosa aventura do Rato Mickey que mistura a animação tradicional a preto e branco (com a voz do próprio Walt Disney como Mickey) com as extraordinárias potencialidades da animação moderna, que dão uma vida nova e fenomenal às tropelias do rato e dos seus amigos. É uma óptima maneira de comemorar o 80.º aniversário da carismática personagem e de mostrar como o legado da Disney continua a ser incomparável, com ou sem computadores. 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

O Último Dever (The Last Detail) [1973]


«O Último Dever» ficou na História do Cinema pelo seu argumento. Robert Towne (que pouco tempo depois escreveria o inigualável «Chinatown» - com o qual recebeu o Oscar de Melhor Argumento Original -, realizado por Roman Polanski, e também protagonizado por Jack Nicholson) foi controverso para a sua época pela quantidade de palavrões que incluiu nos diálogos das engraçadas e filosóficas personagens desta tragicomédia americana. E ficou guardado na memória dos cinéfilos por, apesar das queixas dos produtores, ter conseguido manter a sua escrita tal como estava, porque na sua opinião, é assim que as pessoas falam no ambiente e grupo apresentados no filme, na vida real. Com uma das mais eletrizantes e fascinantes interpretações de Nicholson, no papel do incontornável e trapaceiro Buddusky, «O Último Dever» foi realizado por Hal Ashby (especialista em grandes dramas disfarçados de comédia como este e também «Bem vindo Mr. Chance», com Peter Sellers e «Harold & Maude»), e relata as peripécias de dois homens da Marinha americana (Buddusky e Mulhall - interpretado por Otis Young) ao entrarem numa missão de escolta a um ex-marinheiro condenado a oito anos de cadeia, levando-o até ao estabelecimento prisional a que foi ordenado comparecer dentro de poucos dias. A causa da culpabilidade do jovem Meadows (Randy Quaid) é injustificável e completamente idiota, e ao longo da viagem, os três criarão laços de amizade fortes que os levarão a experiências e emoções que lhes marcarão para sempre. Porque o objetivo de Buddusky e Mulhau será dar ao miúdo o maior aproveitamento possível do tempo que lhe resta aproveitar antes de ter de ir para atrás das grades...


«O Último Dever» possui uma máscara dentro da máscara: enquanto vemos o trio divertir-se e passar um tempo agradável nas suas passeatas pelos vários locais que formam a sua viagem, vemos o lado mais humano e delicado a desfazer-se das suas almas, com intimidades a serem postas a nu e todo um sistema errado e corrupto a que eles não podem reagir nem contrariar. Nem o lado rebelde de Buddusky (e que faz alguns dos melhores momentos desta obra) impede que se exerçam as contrariedades e as injustiças da vida na pele daquele marinheiro tão novo, que com eles conseguirá perceber a dimensão da sua vida e a importância de manter sempre o espírito ativo e uma boa disposição, apesar de todas as adversidades. Com diálogos acutilantes e que ainda hoje deixam um arrepio na espinha (de tão bem escritos que estão), «O Último Dever» contrapõe os valores do condenado, que não sabe o que o futuro lhe reserva, com os dos dois marinheiros experientes, que levam a seriedade com uma leveza que, a princípio, será impressionante para Meadows, mas que a pouco e pouco ele vai perceber e sentir-se influenciado pela mesma. E por instantes, podemos pensar que Buddusky e Mulhall estão a ser um mau exemplo para ele, mas depois perceberemos que, no fundo, todas as personagens têm uma grande inocência, da qual não querem fugir e que, por outro lado, nunca lhes poderá escapar. Resta poderem divertir-se como quiserem e, qual "carpe diem" citadino, aproveitar todos os momentos de entretenimento que possam alegrar as suas tristes e miseráveis existências.


Buddusky e Mulhall tornam-se amigos de Meadows no meio da turbulência e da diversidade da América contemporânea, num filme que nos permite rir do drama e de certas situações aparentemente pouco risíveis, e que culminam num final forte e que transmite uma carga psicológica que, até então, não víramos tão nítida no filme. O desfecho de «O Último Dever» deixa no espectador um vazio incurável no estômago e na alma, pelo simples facto da simplicidade chocar, nos últimos minutos da fita, com a brutalidade invisível da realidade "real" da situação, e da tristeza que as histórias de vida destes três fabulosos protagonistas nos deixam na memória e no sentimento. Um filme provocador e cuja execução foi mesmo necessária (porque ajudou a mudar a mente conservadora de alguns setores do Cinema americano), «O Último Dever» não é um filme qualquer, que sendo simples no seu conteúdo, torna-se arrebatador pelo que não está explicitamente "lá", mas que está escrita nas intenções de Robert Towne e de Hal Ashby ao criarem este filme. É uma fita que sobreviveu bem ao tempo e que, apesar de uma ou outra cena menos fulgurante, capta o espectador com essas pequenas coisas que nunca deixarão de ser atuais, que são os valores do ser humano e a forma como lidamos com a nossa posição no Mundo. Uma pérola, tão memoravelmente reforçada por um excecional Jack Nicholson, que faz o grande poder deste filme, mais a genial escrita de Robert Towne. «O Último Dever» é um filme que vale mesmo a pena conhecer!

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sábado, 23 de novembro de 2013

As razões da Pirataria


Na na, senhores da ACAPOR. Ao contrário do que dizem neste artigo  não foi, na realidade, a pirataria (como uma figura que age sozinha e de forma maquiavélica) que esteve na origem da queda das receitas de bilheteira do Cinema em Portugal e do mercado home video. Ela teve antecedentes! Houve várias razões que, todas juntas, propiciaram e continuam a propiciar o crescimento dos downloads, e a culpa disso reside no próprio mercado cinematográfico! 

A pirataria tem várias justificações: 
- os preços incrivelmente altos dos bilhetes praticados na maioria das salas;
- a desorganização e falta de competência mostradas na escolha e na péssima divulgação dos filmes em exibição;
- a prepotência e a arrogância de certas entidades que tratam os espectadores e os nichos deste mercado (cada vez mais essenciais!) com desprezo e arrogância e que os tomam como parvos;
- o atraso elevadíssimo de muitas estreias em relação a outros países (Portugal é ainda dos poucos que estreia filmes de 2010 em 2013, por exemplo!); 
- e as edições DVD/Blu-ray estupidamente caras (e muitas delas supérfluas), cuja qualidade está cada vez a piorar mais e que, muitas vezes, de tão más que são, fazem com que um filme em rmvb (um dos formatos de vídeo da web mais rascas que há) se possa assemelhar a um espetacular HD!

Pelo amor de Deus! Quando vai chegar o dia em que as empresas cinematográficas (e organizações duvidosas como a ACAPOR) se aperceberão que foram elas que ajudaram a fomentar a pirataria?!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Cinema King aproxima-se do fim


É uma notícia triste, a do encerramento do emblemático Cinema King, da Avenida de Roma. Sobre isso escrevi uma nova notícia para o Espalha Factos, que pode ser lida aqui.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Parkland [2013]


Parkland é um curioso exercício narrativo realista que mostra o dia do assassínio de JFK e dos três que se lhe seguiram, através de várias perspetivas que têm apenas uma coisa em comum: todas tiveram um papel a “cumprir” no desenrolar e/ou no atenuar da tragédia que abalou a América do Norte e o resto do Mundo. Estiveram envolvidas muitas pessoas que se tornaram desconhecidas com o passar dos anos, mas que aqui justamente reconquistam o seu papel no caso, pelas interpretações fornecidas pela obra.

Nomeado para o Leão de Ouro do Festival de Veneza deste ano, Parkland é a estreia do produtor e argumentista Peter Landesman no campo da realização cinematográfica. E para abordar o caso célebre que marcou a História, o realizador decidiu pegar na história dos anónimos, dos quais nunca ouvimos falar neste caso, e criou uma história reveladora e bem executada sobre a correria constante que marcou a tragédia e o seu desenvolvimento posterior, tanto a nível jornalístico como pela psicologia das personagens, que ficaram muito marcadas pelos acontecimentos daquele dia de 22 de novembro de 1963.

Parkland não é um filme que pretende dar novas respostas ou teorias da conspiração sobre o caso de Dallas, limitando-se ao relato documental e conciso dos factos. E é aí que reside o interesse maior desta película. Dando uma grande atenção ao pormenor e a todas as maneiras como cada uma das histórias se liga ao assassínio, esta é uma obra simples, que não quer dar novos caminhos aos inúmeros “porquês” deixados pelo mistério que envolve a morte de John F. Kennedy. Centra-se mais naquilo que pensamos saber, mas que pode ser ainda mais explorado, e que nos traz novos dados que nos ajudam a perceber a tão vasta complexidade deste acontecimento.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Relembrando os TCN

Os TCN estão cada vez mais perto, e por isso volto a apelar ao voto às pessoas que considerarem justo, e assim ajudam a pequenez do meu blog a ser menos pequena. Para isso só basta fazer estas coisas: 

1. - ir ao site  

2. - Votar na poll "TCN 2013" (está no canto direito do blog, um pouco para baixo), na categoria "TCN 2013: Crítica TV" e escolher a opção "Sonhar Era Fácil", que é o título do meu post nomeado. 

As votações decorrem até dia 7 de Dezembro, mas se puderem façam isso o mais depressa possível, e as vezes que quiserem! Obrigado pelo vosso apoio! :)

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Disparem sobre o Pianista (Tirez sur le Pianiste) [1960]


«Disparem sobre o Pianista» é o segundo filme do realizador François Truffaut. Foi feito um ano depois do magnífico «Os Quatrocentos Golpes», com o qual se tornou uma figura de renome no Mundo do Cinema. Adaptado de um romance americano, da autoria de David Goodis, o filme é uma transposição para a realidade francesa do estilo noir da obra policial e das grandes fitas que influenciaram o cineasta na sua própria reinvenção da Arte Cinematográfica, complementada com as sensacionais inovações e experimentações levadas a cabo pela geração da Nouvelle Vague. Cheio de influências dos grandes clássicos americanos, polvilhados pela intrigante banda sonora de Georges Delerue, «Disparem sobre o Pianista» é protagonizado pelo famoso e formidável cantor Charles Aznavour (que há pouco tempo até esteve em concerto por estas bandas, e que tem desenvolvido uma extensa e notável carreira como ator - tal como muitos artistas da sua geração), no papel de Charlie Kohler, o pianista do título, um personagem noir por excelência, que se vê a braços com uma história de amor e de crime, cheia de movimento e adrenalina, e que tem muitos apontamentos cómicos indiscretos, e muitas vezes ousados, que nos revelam muito da sociedade francesa daquela época e de uma sátira que não adivinhámos tanto em Truffaut no seu primeiro filme. Aqui a criatividade do cineasta trabalha de uma maneira diferente, apontando para outros caminhos, os quais não fizeram parte do percurso de Antoine Doinel nos «Golpes». A voz da consciência de Charlie dá à fita uma veia de character study (tão patente nesses filmes dos EUA, inesquecíveis e intemporais), que lhe diz o que deve fazer e como deve agir em cada situação, e como tudo o que o rodeia não consegue fazê-lo esquecer alguns erros importantes cometidos no passado. Vemos muitas vezes a personagem infringir o que a consciência lhe dita, mas percebemos que a Razão e a Emoção guiam Charlie com o mesmo peso, fazendo com que ele se deixe ir por impulsos, amores e familiares sem notar bem as consequências dos seus atos. Mas o piano tem de continuar a tocar...


Filme mais experimental e arriscado que o seu antecessor, «Disparem sobre o Pianista» aponta várias tentativas de encontrar caminhos novos para o Cinema, mas os métodos revolucionários, que Ontem tornaram esta obra um dos principais títulos da Nouvelle Vague, são hoje um pouco cansativos e retiram ao filme uma maior potencialidade visual que poderia estar mais assente em simplicidades que são esquecidas em favor de todo o movimento e desorientação "controlada" da câmara. Contudo, é uma boa fita, contada de forma brilhante, onde o declínio da personagem e a ruína dos seus Amores criam um conto irónico, trágico e profundo do Homem e da Arte do Cinema. Com alguns momentos de puro génio (os momentos finais são um exemplo disso, tal como outras grandes cenas - grandeza essa que fica a cabo do espectador avaliar ou não), «Disparem sobre o Pianista» "imita" bem os films-noir sem entrar na onda do plágio e da falta de imaginação. Porque o que não falta aqui é mesmo a criatividade e a versatilidade, que em tudo estão representadas em François Truffaut e no protagonista tão bem encarnado por Aznavour. Uma obra dinâmica e multifacetada, e uma pista para toda a complexidade que cresceria nos filmes posteriores do cineasta, que nunca quis parar de querer reinventar e reavivar o Cinema Francês.

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O Rato Mickey fez 85 anos


Saiu ontem mas ainda está atual, a minha noticia para o Espalha Factos que fala sobre os 85 anos do Rato Mickey. E tem algumas informações que nao saíram em mais nenhum site ou publicação jornalística em Portugal! É consultar o texto neste endereçozito.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A Conspiração do Silêncio (Bad Day at Black Rock) [1955]


Existe sempre alguém a procurar alguma coisa nesta parte do Oeste. Para o historiador, é o Velho Oeste. Para o escritor, o Oeste Selvagem. Para o empresário, é o Oeste subdesenvolvido.

O filme começa e um comboio chega à pequena cidade de Black Rock. É a primeira vez em quatro anos que esse transporte pára naquele local. De lá salta John Macreedy (Spencer Tracy), um homem que não pretende passar muito tempo por aquelas paragens e que tem uma questão a pôr aos habitantes de Black Rock. Mas todos (ou quase todos) são hostis para com Macreedy, que começa a aperceber-se que há um grande segredo de que todos têm conhecimento, mas que nenhum quer deitar cá para fora. E todos se questionam a presença de Macreedy na cidade, inclusive Reno Smith (Robert Ryan), o líder de um grupo que domina, com medo e chantagem, todas as poucas pessoas de Black Rock. 


E tudo isto se passa em oitenta e um minutos de filme, nesta preciosidade cinematográfica que dá pelo nome de, em língua lusa, «A Conspiração do Silêncio». Um filme curto, mas sensacional, onde cada frame deve ser saboreado de uma maneira especial (e daí, isto torna difícil atribuir-lhe nota. Que vil tarefa!) É uma obra que, não sendo um western propriamente dito (não se situa cronologicamente nessa época, mas sim em 1945, dois meses após o final da Segunda Guerra Mundial), acaba por sê-lo na sua estrutura e na construção da psicologia das suas personagens, tal como pela perspetiva de atraso, de paragem no tempo e de uso de velhos costumes que estão perpetuados na cidade de Black Rock, que tem todos os elementos que associemos às cidades dos filmes de Ford, Leone, e tantos outros. E muitos associam o "silêncio" dos cidadãos de Black Rock às negações que são feitas por diversas personagens ao xerife interpretado por Gary Cooper em «O Comboio Apitou Três Vezes», que se vê sozinho contra o bando de patifes que estão prestes a chegar de comboio... 


Realizado por John Sturges (responsável pelo estrondoso épico «A Grande Evasão»), «A Conspiração do Silêncio» é um filme grandioso (por ter sido feito em Cinemascope e, graças a isso, consegue captar uma atmosfera de thriller que se aproveita muito bem do colorido da fotografia) que, ao ser acompanhado pela astuta banda sonora de André Previn, origina uma combinação luxuosa e rara com os elementos que fazem o que de melhor o Cinema Americano sabe fazer, e que mais ninguém consegue imitar, felizmente. Na cidade que "recupera" as lendas do Oeste (ou pelo menos, o lado real e menos fantástico da coisa), todos receiam o que Macreedy pode causar naquele ambiente, devido às suas múltiplas perguntas e eventuais descobertas feitas em alguns momentos-chave do filme. E depois há mistérios dentro do mistério, porque ficamos sem saber, afinal, quais são os propósitos de Macreedy. Desconfiamos de todas as personagens tal como elas não têm confiança umas nas outras. E no final, culminando todo um grande crescendo cinematográfico, onde a tensão e a perplexidade aumentam a cada cena, tudo se conclui de uma forma perspicaz. Algo expectável, é certo, mas não é isso que danifica a construção arrepiante e impressionante deste filme, que continua firme entre os grandes títulos de renome da cinematografia dos EUA.


Cheio de diálogos eloquentes e inspirados, «A Conspiração do Silêncio» é também uma crítica subversiva ao McCarthyismo (que aqui, e ao contrário de «High Noon» - que via o "silêncio" dos personagens como a sua cobardia em não quererem ajudar o protagonista dos apuros que o cercam -, reside no facto de todos saberem que há algo que está mal, mas ninguém tem coragem para denunciar o problema) e a uma conceção de Poder que, à boa maneira dos filmes do far-west (veja-se também o exemplo de «O Homem que Matou Liberty Valance»), se regula pura e simplesmente pelo Poder descontrolado e opressivo de um determinado grupo de pessoas, desmioladas e sem grande sentido de Lei e/ou Ordem. Com um fascinante trabalho de câmara (porque pega em coisas muito simples e transforma-as em grandes momentos de Cinema) e interpretações fabulosas de um elenco escolhido a dedo (Tracy e Ryan são inigualáveis, assim como Ernest Borgnine, Lee Marvin, Walter Brennen, Anne Francis, Dean Jagger, entre outros), «A Conspiração do Silêncio» também mostra, como em «Valance», a solidão de uma cidade em relação à totalidade em que está inserida, e a forma como ela "orgulhosamente" se afasta desse todo para se poder afirmar (pelo menos entre os seus habitantes) como um pólo independente, que não necessita de ajudas exteriores e que pode limitar a sua vida ao seu pequeno espaço de ocupação. E daí advém toda uma vida diferente, e todas as consequências que esta traz. Faz muito lembrar o caso português, onde nas pequenas aldeias, todos se conhecem e sabem as vidas uns dos outros, guardando segredos eternos ou espalhando boatos implacáveis sobre os outros. Com o poder da maioria forçada se faz o jogo de mistérios e encruzilhadas de «Bad Day at Black Rock», um filme que, apesar de estar cheio de cor e de vivacidade visual, tem um lado muito, mas muito negro.

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A nova vida de palco do Sermão aos Peixes


Esteve poucos dias em cena no Teatro Nacional D. Maria II, mas eu tive a oportunidade de assistir há cerca de uma semana a «Sermão aos Peixes», uma encenação do fabuloso texto do Padre António Vieira, levada aos dias de hoje e repleta de interatividade. Esta é apenas mais uma prova que as palavras do sacerdote, que se dirige aos peixes e utiliza-os para criar metáforas adequadíssimas aos seres humanas, continuam extremamente atuais e plenas de significado. Através de dois sem-abrigo que, através de diversos engenhos de palco e de uma grande energia de interpretações, dizem o texto de Vieira, a peça utiliza diversos recursos cénicos que dão uma nova vida a um sermão que, para muitos, não interessa grande coisa no nosso tempo.

«Sermão aos Peixes» é uma peça dinâmica, cómica e filosófica, que nos leva ao pensamento de Vieira de uma forma nunca antes vista. Ao contrário de «Comunidade», outra peça do D. Maria que vi recentemente, e que não soube pegar no grande texto que teve como base para fazer uma encenação decente, o «Sermão» usa e abusa das palavras de PAV, brinca com os conceitos e com os "peixes" elogiados ou acusados, e dá uma nova expressão aos ditos do autor. Talvez o final seja um pouco rebuscado para aquele contexto (depois de terminado o Sermão, é feito uma espécie de pequeno sketch original que encerra a peça), mas não estraga nada desta maravilhosa peça, com algo de mágico e de esclarecedor sobre a sociedade contemporânea. Aconselho a verem, se por acaso o «Sermão aos Peixes» voltar brevemente a estar em cena!

A Mentira de Armstrong [2013]


Pouco tempo depois de ter sido finalmente desmascarada, a fraude de Lance Armstrong é agora levada ao ecrã, através de um interessante e revelador documentário que mostra o poder do mediatismo do ciclista e a manipulação exercida sobre os seus fãs de todo o mundo.

A Mentira de Armstrong explora profundamente toda a controvérsia que rodeou a carreira de Lance Armstrong e a construção de uma das maiores mentiras da História do Desporto. A princípio, a ideia do realizador Alex Gibney passava por filmar o regresso da figura ao ciclismo em 2009. Mas o conceito acabou por ser posto de parte, até que, no princípio de 2013, Lance Armstrong finalmente assumiu a fraude que protagonizou como profissional. E o realizador decidiu aproveitar as filmagens de 2009 para esclarecer a mentira que enganou muitas pessoas (incluindo-o também). O resultado é uma abordagem de proporções inimagináveis a Armstrong, à mentira e aos que nela estiveram envolvidos, e às transformações sociais e económicas que a mesma originou no ciclismo e nos media.

A Mentira de Armstrong explora os dois surpreendentes lados da questão polémica e todos os envolvidos na grande máquina ilusória que envolveu um dos maiores ciclistas de sempre, a nível temporário. É uma história de Poder que disseca todas as mentiras e os atores desta grande peça que se prolongou por uma incrível quantidade de tempo, deixando consequências arrasadoras para muitos dos seus participantes. E será que há ainda mais coisas para serem desmentidas e descobertas? Haverão mais segredos por revelar?

Leiam a crítica integral no Espalha Factos

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Malavita [2013]


«Malavita» (denominado «The Family» nos states talvez para melhores resultados comerciais - tal como aconteceu, por exemplo, com a adaptação do título de «Harry Potter e a Pedra Filosofal» para o mercado americano na sua estreia original) é o regresso ao mundo da máfia do lendário Robert de Niro. Muitos anos depois de ter feito clássicos incontornáveis como «O Padrinho - Parte II» e «Tudo Bons Rapazes» (referenciado de uma forma curiosa nesta fita), de Niro parece estar de volta a uma série de papéis mais relevantes, após uma época mais morta da sua carreira cinematográfica. Depois de uma considerável surpresa com «Last Vegas», «Malavita» é mais uma prova do triunfal regresso do excelente ator. O filme de Luc Besson, realizador conhecido pela ação cinematográfica fulgurante e, muitas vezes, excessiva que rodeia as suas obras (veja-se «Nikita - Dura de Matar», ou um exemplo com muito mais qualidade, «Léon, o Profissional»), assina em «Malavita» um filme de gangsters muito decente, com bons e maus momentos técnicos onde, basicamente, se tenta desconstruir esse género de filmes contando uma história com o seu quê de desinspiração e banalidade. Com produção executiva de Martin Scorsese (daí a referência a «Goodfellas»?) e uma intrigante banda sonora, «Malavita» flutua entre a comédia (onde triunfa muito mais) e a ação a alta velocidade, no retrato de uma família disfuncional que tem de fugir da vingança de um grupo mafioso cujo líder foi denunciado pelo Pai (Robert de Niro). E mesmo que não seja mais do que um objeto de mero interesse do "culto" dos filmes da máfia, é agradável voltar a vê-la a ser retratada no Cinema de uma forma algo relevante e perspicaz. 


Com algumas boas invenções de montagem e umas boas porções de diálogos engraçados e interessantes (incluídos em situações vulgares, mas que ganham "sumo" pelo determinado contexto que nos é apresentado), «Malavita» é uma obra que mostra uma violência exacerbada que tanto nos faz rir como, em certos momentos, nos causa um tédio descomunal (e principalmente no final, que parece ter sido construído usando todas as razões menos convincentes possíveis que pudessem ser inventadas, os pretextos para justificar o rumo que decidiram dar à história). Os artifícios visuais de Besson enchem a medida do ecrã, mas não as exigências do espectador que, apesar de gostar de ver a grandiosidade do Cinema, sabe que o mesmo não se faz de cenas aleatórias e incongruentes de grandeza. A justa homenagem aos gangsters do Cinema que é tentada levar a cabo com «Malavita» perde pela inconsistência da estrutura do filme, que só ganham mais "pinta" quando o argumento caricatura alguns elementos que começámos a associar à máfia do grande ecrã: os métodos radicais, as subtilezas das suas vinganças, os excessos da organização e dos seus membros... além de que de Niro brinca também um pouco com a "persona" que criou nesse tipo de fitas, o que é curioso de se contemplar. Cómico, despretensioso, rebuscado às toneladas e repleto de um falso estilo que até dá gosto de ser visto, «Malavita» poderia ter brilhantismo se o seu todo não deixasse um vazio após o visionamento. Falta muita coisa ao filme: uma história mais bem estruturada, que poderia ser tão bem explorada pela "essência" que Besson quis dar a esta trama (e que tem mesmo algo de Scorsese). Mas vê-se com prazer, e até passa muito depressa. E o melhor mesmo é ver que de Niro ainda quer mostrar aos seus milhões de fãs que continua a ser um ator cinematograficamente credível, entrando agora em projetos mais interessantes do que os elaborados anteriormente. Mas agora isto tem de prosseguir numa escalada evolutiva: esperamos obras melhores em tudo o resto, e que não se assentem só no poder do ator...

* * * 1/2

Andy Kaufman anda por aí?

Ao ler esta insólita notícia (que dá à vida do comediante Andy Kaufman uns contornos ainda mais surpreendentes), recordei-me do final de «Homem na Lua», o filme de Milos Forman que conta com um Jim Carrey em estado de graça, e que passa em revista a vida desta figura tão enigmática do showbiz americano, que tanta coisa deixou por esclarecer.

É que, se os minutos que encerram «Homem na Lua» podiam ser vistos como uma espécie de brincadeira ao próprio Kaufman e às ilusões que criava, depois desta revelação essa cena poderá ter um valor diferente agora. Poderia mesmo ser um indício de que Kaufman estava vivo, porque esta "brincadeirazita" até pode ter um fundo de verdade.

São coisas que um cinéfilo se lembra por associar a realidade aos filmes. E seria bem interessante se a verdade fosse esta...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Fugiu um Condenado à Morte (Un condamné à mort s'est échappé ou Le vent souffle où il veut) [1956]


De Robert Bresson, o realizador do excecional «Pickpocket» (que tornou um banal ato de vigarice em excecional arte cinematográfica), este é um filme não sobre carteiristas, mas sobre fugas da prisão. Como Bresson deixou claro no início do filme, numa nota introdutória, o seu objetivo com esta obra é "contar uma história real sem recorrer a enfeites". Há uma preocupação do cineasta em retratar a realidade, utilizando o Cinema e as suas características, mas sem deixar que a Arte domine a não-Arte. Claro que esta máxima é impossível de ser concretizada de uma maneira total, porque nunca a ficção pode dar a realidade, nem a realidade chega ao mundo do ficcional, e também porque nunca se podem substituir uma outra. Mas Bresson tenta cumprir as suas palavras ao máximo, e o resultado é uma brilhante película, engenhosa e iluminada pelo génio francês da Sétima Arte, que consegue, mais uma vez, pegar em pequenos nadas e dizer tudo o que quer transmitir com esta história sobre liberdade, acrescentando também mais algumas coisas que se vai lembrando pelo caminho (e que estão presentes nos pormenores de câmara, constantes ao longo do filme). Cronologicamente situado no tempo da Segunda Guerra Mundial, com a luta entre o Nazismo e a Resistência Francesa a ocorrer na clandestinidade, encontramos um campo de prisioneiros franceses em Lyon, prisioneiros esses que foram capturados pelos alemães ao serem apanhados em tentativas de derrube do regime de Adolf Hitler. Baseado nas memórias de André Devigny, que escapou de uma situação assim em 1943, Bresson manuseia elegantemente a câmara e toda a conjuntura social, estética e filosófica do drama dos prisioneiros e da esperança que todos alimentam em reencontrar as suas vidas, as suas famílias, e os seus "eus", facilmente destruídos ou quebrados nestes ambientes de sofrimento. Com uma poderosa banda sonora  (praticamente dominada pela essência da obra de Wolfgang Amadeus Mozart) que nem sempre está presente, mas que marca profundamente a narrativa, «Fugiu Um Condenado à Morte» é um testemunho vivo e forte do mundo, da guerra e da Arte do Cinema, contado pelo protagonista com um grande detalhe.


Mais do que um filme de relato real, «Fugiu um Condenado à Morte» é um filme para ser sentido de uma maneira especial, atenta aos movimentos da câmara que só Bresson sabe executar, e aos grandes momentos de mise-en-scène. Talvez irritado com as superficialidades de muita produção de Hollywood, Bresson tenha querido fazer o seu filme o mais puro possível e o mais próximo da realidade que o Cinema pode fazer. E conseguiu trabalhar aqui uma obra notável, onde se filmam os vazios, as angústias, a solidão e o drama do Homem em lugares e situações tão desumanas como é a do protagonista e dos seus companheiros - e muitos deles nem sobrevivem até ao fim daquele sofrimento. Quando vemos todas as ideias elaboradas por André a ganharem vida, graças às múltiplas e engenhosas tentativas de fuga que ele leva para a frente e que fazem as delícias dos espectadores, observamos todos os limites a que o Homem se submete para restaurar um dos seus dons mais valiosos: a liberdade e a integridade da sua pessoa. A obra de Bresson é uma reflexão surpreendente e majestosa sobre a Humanidade, ao ser confrontada com um dos crimes mais horríveis da História. Mas bate certo em qualquer tempo, em qualquer lugar, e em qualquer contexto. Uma fita repleta de força, vitalidade e audácia, que tanto nos comove como nos fascina, graças à sensibilidade humana retratada tão bem pelos pequenos nadas, que acabam por ser, pela medida como com eles lidamos, uma das coisas que tem mais significado tem no caráter de cada um de nós. Robert Bresson elaborou aqui um grande filme e uma grande peça de Cinema.

* * * * 1/2

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Fim da Aventura - Amor, conflito e religião


«O Fim da Aventura» é um clássico da literatura e uma das obras mais surpreendentes e maravilhosas de Graham Greene. Numa história de paixões, crenças e tensões, o autor explora hábil e genialmente a força do espírito humano, dissecando razões, pensamentos e justificações para a turbulência das personagens e o vaivém em que se encontram as suas vidas. E é fascinante a forma como o autor, sendo católico, consegue criar todo um rol de personagens sem ligações à religião (ou aparentes ligações) e fazer uma história tão credível e filosoficamente profunda.

Greene começou por ser comunista, mas com o passar dos anos (e também auxiliado pela influência da sua mulher), deixou a política e converteu-se ao catolicismo. Uma forte componente religiosa é notória em «O Fim da Aventura» e é isso que torna este um livro tão especial. Não há reflexões tendenciosas nem preconceituosas, mas Greene analisa a maneira como a fé, ou a falta dela, moldam as pessoas a serem quem são, boas ou más, tanto de um lado de crenças como do outro sem esse tipo de crenças.

«O Fim da Aventura» é um excelente e belíssimo romance, que vai até ao lado mais negro e profundo das relações humanas e do amor entre homens e mulheres. Sem picuinhices, sem ideias feitas, apenas repleto de humanidade e de humildade, com personagens identificáveis com o leitor e que são o exemplo do fascínio dos homens pelo que lhes é desconhecido e que os faz viver de formas tão complexas e reveladoras. É um grande livro, que agarra o leitor e que faz rir, chorar e pensar. E a escrita de Greene, carregada de ironia e sarcasmo, é verdadeiramente genial. 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O regresso de "Beat" Takeshi



Aaaah grande Takeshi! Digam o que disserem, ele ainda rula. E este filme deve ser um mimo para quem gosta dos seus filmes de crime e yakusas. Parará por Portugal, esta fita?

Até Amanhã, Camaradas [2005]


Para comemorar o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal, o realizador Joaquim Leitão pegou na sua minissérie de 2005 baseada num livro do líder do PCP, Até Amanhã, Camaradas e, das cinco horas de duração da mesma, fez uma reformulação com três para o Cinema. Os resultados não são os melhores, porque mesmo que o conteúdo televisivo tenha qualidade, não é isso que o torna adaptável para o grande ecrã.

Em filme de 180 minutos, sentimos uma narrativa apressada, onde acontecimentos e histórias de personagens são “comidos” sem dó nem piedade, triturados de forma acelerada e incongruente, e entregues ao espectador num prato confuso e cansativo, pela rapidez como trata cada uma das cenas. Ficamos sem perceber como é que algumas personagens surgiram ou onde foram parar, e algumas cenas verdadeiramente inúteis para o Cinema são melhor aproveitadas do que aquelas que teriam mais interesse na sala escura, que já fica afetada pela qualidade da película da série, filmada para TV, não encaixar normalmente aos ajustes das definições do ecrã cinematográfico.

Assim, ao contrário de um fenómeno como A Melhor Juventude, o épico de Marco Tullio Giordana, a produção portuguesa não funciona como produto televisivo e cinematográfico. Se a princípio o filme italiano foi uma aposta televisiva com quase 400 minutos, foi depois para as salas, com um corte reduzido (menos meia hora de série), e mesmo assim o filme funciona de forma maravilhosa. E talvez o problema maior da versão cinematográfica de Até Amanhã, Camaradas seja mesmo o de ter sido cortado demais, o que consequentemente, torna-o demasiado longo e curto ao mesmo tempo: longo por perder demasiados minutos com futilidades, e curto porque deixou muitas coisas relevantes por contar.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Last Vegas - Despedida de Arromba [2013]


Para quem achava que Robert de Niro, Michael Douglas, Morgan Freeman e Kevin Kline já não tinham nada para nos oferecer, eis que chega um filme que contraria esse preconceito: Last Vegas – Despedida de Arromba é o encontro cinematográfico entre quatro grandes lendas de Hollywood, que nos faz rir e pensar no envelhecimento e no poder das grandes amizades.

Last Vegas é um filme para divertir o espectador com o divertimento dos quatro grandes atores que protagonizam esta história que, mesmo parecendo semelhante a tantos outros filmes do género que os EUA produzem a cada ano, faz a diferença pela nova abordagem e pela qualidade das interpretações. Iniciando com uma pequena cena de abertura, em que vemos os quatro amigos nos seus tempos de juventude, e passando logo para o tempo presente – cinquenta e oito anos depois -, Last Vegas prova ser não só um filme cómico que está bem conseguido, como consegue ser também uma reflexão inteligente e cativante sobre a passagem do tempo e os problemas que acontecem a toda e qualquer amizade.

Last Vegas é um filme simples e bonito que nos fascina pela química espantosa entre os seus atores e pelo espírito alegre e profundo que traz aos seus espectadores. Há filmes que são obras primas intemporais, e depois há estas obras que, não sendo perfeitas, nos conseguem tocar em partes escondidas do nosso coração, e na nossa rebeldia interior, que queremos tanto esconder das pessoas que nos rodeiam.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

É de grandes momentos que se faz a História do Cinema


Just get up off the ground, that's all I ask. Get up there with that lady that's up on top of this Capitol dome, that lady that stands for liberty. Take a look at this country through her eyes if you really want to see something. And you won't just see scenery; you'll see the whole parade of what Man's carved out for himself, after centuries of fighting. Fighting for something better than just jungle law, fighting so's he can stand on his own two feet, free and decent, like he was created, no matter what his race, color, or creed. That's what you'd see. There's no place out there for graft, or greed, or lies, or compromise with human liberties. And if that's what the grownups have done with this world that was given to them, then we'd better get those boys' camps started fast and see what the kids can do. And it's not too late, because this country is bigger than the Taylors, or you, or me, or anything else. Great principles don't get lost once they come to light. They're right here; you just have to see them again!

James Stewart em Mr. Smith Goes to Washington, de Frank Capra

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

2001: Odisseia no Espaço regressa aos Cinemas


Sim, é esta a novidade que os Cinemas UCI trazem para o regresso das suas Sessões Clássicas. Para mais informações, leiam a notícia completa que escrevi para o Espalha Factos. Vai ser, sem dúvida, um dos acontecimentos cinematográficos do ano.

sábado, 2 de novembro de 2013

História de Gangsters (Miller's Crossing) [1990]


«História de Gangsters», um dos melhores filmes dos irmãos Coen, é uma curiosa e potente incursão da dupla de cineastas pelo universo dos filmes de crime que dizem tanto à alma da Sétima Arte americana (desde James Cagney e Edward G. Robinson aos mafiosos de Martin Scorsese, passando também pelas tentativas mais recentes de ressuscitar o género, como «Inimigos Públicos» ou «Força Anti-Crime»), que filmam os criminosos à sua maneira, ou seja, com todo aquele tom negro e arrebatador que caracteriza os seus filmes mais bem conseguidos (sim, porque mesmo que eles sejam muito bons a fazer comédia, é o lado "noir" dos Coen que mostra a verdadeira genialidade da sua cinematografia - veja-se o caso mais representativo e verdadeiramente "obra primaico", «Blood Simple - Sangue por Sangue»). O que os irmãos fazem é revitalizar o género, que muitos insistem em considerar (injustamente) datado e despropositado, não pegando no estilo de outros autores que trabalharam os gangsters no Cinema (para além de Scorsese saliente-se Raoul Walsh, Billy Wilder, Michael Curtiz, Francis Ford Coppola, entre outros), mas trabalhando-o com todas as suas marcas de estilo e acrescentando outras. «História de Gangsters» é talvez um misto entre o drama repleto de diálogos à David Mamet e a profundidade e a tragédia do primeiro capítulo de «O Padrinho». Este é talvez um dos títulos mais convincentes e perturbantes dos Coen, e está cheio de veteranos das suas fitas (John Turturro, Steve Buscemi, etc) e algumas excelentes aquisições (como Albert Finney e Gabriel Byrne), grandes diálogos e grandes personagens num mundo obcecado com a corrupção e o jogo de interesses pessoais que rodeia cada uma das "sub-plots" em jogo, interesses esses que acabam quase inevitavelmente em grandes festins de pancadaria e de tiro ao alvo. Ética não é uma palavra que conste no dicionário de «História de Gangsters», nem no caráter de nenhuma das suas personagens (umas mais hipócritas do que outras), que são acompanhadas por uma grande música (composta por Carter Burwell, que fez também as melodias para outras fitas dos Coen) e uma impecável cinematografia, que ambientam tão bem esta história de máfias irlandesas durante os tempos áureos (ou dramáticos) em que a Lei Seca estava em vigor nos Estados Unidos da América.  


Dois líderes e o capanga de cada um deles, eis a temática central de «História de Gangsters», que maneja muito bem todas as circunstâncias e brigas que envolvem cada um dos dois gangues mafiosos. Tom (Byrne), o "caporegime" de Leo (Finney) é o protagonista do filme e quem vai estar a comandar, no meio de algumas mentiras e resoluções duvidosas, uma série de planos para se livrar de alguns problemas financeiros e pessoais (que incluem um "affaire" extra-conjugal com a mulher do seu chefe). Ele é uma espécie de Rick do «Casablanca», mas em versão criminoso inconveniente. O filme possui um tom sarcástico, realista e sincero, através desta personagem que pouco se importa com a honra e o prestígio de quem o rodeia, e que só quer proteger-se no meio de uma encruzilhada de gangsters. Com um argumento dinâmico e uma ultra-violência que se opõe aos mais brilhantes momentos de pura beleza visual que o filme nos faz contemplar, «História de Gangsters» é uma obra fulminante onde nem tudo o que parece o é na realidade. A luta de poder entre os gangues é um bom pretexto para os irmãos Coen criarem uma das suas obras mais originais e geniais, com ideias completamente insólitas (algo típico nesta dupla de realizadores/argumentistas), que nos fazem rir quando não estávamos à espera, ou que nos fazem ficar impressionados quando não damos por isso. «História de Gangsters» é uma obra completamente recheada de pura adrenalina, com planos e cenas brilhantes (destaque-se, acima de todo o brilhantismo, o magnífico final) no mundo da corrupção clandestina do tráfico do álcool e das influências criadas por certos grupos ligados a essa venda ilegal de bebidas falsificadas. O filme é um festim para os admiradores dos Coen, dos clássicos filmes de gangsters com Cagney ou mesmo das obras mais recentes com estes criminosos. É uma fita deliciosa que é uma das mais criativas dos irmãos.

* * * * 1/2

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dá Tempo ao Tempo (About Time) [2013]


Eis uma pequena grande surpresa entre as muitas estreias que, esta semana, inundam de novidades as salas de Cinema nacionais: «Dá Tempo ao Tempo» é uma deliciosa comédia que, tendo tons de sci-fi (que aos mais obcecados em comparar filmes com outros filmes, poderá ter parecenças com as aventuras de Bill Murray no clássico do humor americano «Groundhog Day» - porque a ela vai beber um pouco na narrativa, na mensagem filosófica e no romantismo fofinho), é uma aposta inteligente e completamente surpreendente de uma das maiores mentes da comédia britânica, Richard Curtis. Foi ele que escreveu muitos dos hilariantes diálogos de «Black Adder», as patetas desventuras d' «A Vigária de Dibley» e as histórias mais plásticas e "softs" de «Quatro Casamentos e um Funeral», «Notting Hill» e «O Amor Acontece» (tendo neste último título o papel de realizador). É um homem que possui uma criatividade imparável e que, felizmente, parece nunca querer esgotar-se. E «Dá Tempo ao Tempo» quer mesmo ser mais uma prova dessa inventividade constante deste grande cómico inglês, que tanto nos fez e faz rir com as suas loucas ideias, mas que são sempre do agrado dos seus seguidores (ou pelo menos, da maior parte deles).


«Dá Tempo ao Tempo» versa sobre uma família invulgar (e com o seu quê de particular) e um segredo que diz respeito a todos os homens da mesma: o dom de poderem retroceder no tempo. Tim (Domhall Gleeson) é um jovem de 21 anos, insatisfeito consigo próprio que, ao tomar conhecimento deste segredo pelo Pai (Bill Nighy) começa não só a aperfeiçoar muitos momentos do seu quotidiano (e para o bem dos que o rodeiam) e tenta, acima de tudo, utilizar esta dádiva para poder encontrar o amor. É esse o dia que mudará tudo nesta personagem, para sempre. E assim se tem uma premissa para uma engraçada e divertida comédia, que parodia e aprofunda ao mesmo tempo as relações humanas ao melhor estilo britânico, e que nos faz rir e pensar simultaneamente na nossa vida. Repleto de pequenas piadas que envolvem as trapalhadas em que Tim se envolve, e que o levam mais tarde a conhecer Mary (Rachel McAdams) ou... a ter de voltar a conhecer! Caricato, simples e tocante, «Dá Tempo ao Tempo» aumenta a sua complexidade à medida que nos deixamos surpreender pelos seus atores e pela sua narrativa, e quando ficamos a ver que esta, afinal, não é mais uma comédia de Curtis ao jeito das de Hugh Grant, onde tudo acaba bem e com um grande casamento, não deixando, por isso, apenas uma marca de bom entretenimento, que desaparece facilmente no espectador. Este é um daqueles filmes raros que deixam uma sensação especial que muitos filmes excelentes não conseguem transmitir nas emoções de quem os vê. Vemos a vida de Tim e dos seus conhecidos mudar pelas pequenas alterações que ele vai fazendo aqui e ali (e as confusões que as suas viagens temporais causam são delirantes), e vemos o romantismo como só os bons filmes cómicos nos sabem mostrar: da forma mais bonita, e que não passa por ideias forçadas ou "happy endings" para ninguém ficar com remorsos no final da sessão de Cinema. E o humor inglês há muito tempo que não dava tão fortes sinais de vida: estas piadas tipicamente britânicas, desconcertantes e tão precisamente refinadas e construídas, são um deleite seriamente provocador.


Com um argumento hilariante, que constrói cenas absolutamente divinais em termos narrativos, «Dá Tempo ao Tempo» tem muitos momentos típicos destas comédias românticas, mas que ganham uma nova graça e um tom mais refinado graças à pena de Richard Curtis. Afinal, não é a vida também um conjunto de repetições a que nos acostumamos, mas que ganham novas formas? E não será que os verdadeiros problemas são coisas com que nunca nos preocupamos? Um filme cheio de grandes e fabulosos atores, uma comédia adorável e encantadora que acaba por ser a tragicomédia da existência humana, onde o burlesco se confunde com o real, onde a nossa vida se confunde com os desejos e ambições dos outros. E onde ainda há espaço para hipotéticos finais felizes, que nós construímos e concretizamos... se quisermos, sem o auxílio de qualquer viagem no tempo. Além de ser a comédia mais complexa de Richard Curtis, «Dá Tempo ao Tempo» é, resumindo e concluindo, o seu trabalho mais bem conseguido no Cinema. Recheado de espírito "carpe diem", esta é uma comédia genuína que vai ao fundo do coração humano. A comédia cinematográfica não morreu, e eis aqui um exemplo dessa "sobrevivência". Podemos talvez não conseguir consertar, na realidade e ao contrário de Tim, tudo como queremos, mas temos ainda a hipótese de ficarmos deslumbrados com filmes assim.

* * * * 1/2