sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Oscars celebram o 75.º aniversário do Feiticeiro de Oz


O fabuloso clássico do Cinema «O Feiticeiro de Oz» vai ser um dos grandes homenageados na edição deste ano dos Oscars. Podem ler mais sobre esta surpresa dos Prémios da Academia na notícia que escrevi para o Espalha Factos, à qual podem acessar aqui.

Ao Encontro de Mr. Banks (Saving Mr. Banks) [2013]


Pode ser caracterizado pela sua demasiada simplicidade melodramática (mais patente nos momentos de flashback) e pelos pequenos momentos cómicos que adocicam a tensão entre Walt Disney e P.L. Travers, mas se compararmos Ao Encontro de Mr. Banks à maioria das produções que têm saído dos estúdios da Disney nestes últimos anos, poderemos perceber que temos aqui uma bela surpresa. 

Pegando num dos filmes mais icónicos da infância e do crescimento de várias gerações de espetadores, e que é uma das fitas mais conhecidas do imaginário Disney, Ao Encontro de Mr. Banks é um dos projetos mais bem conseguidos dos estúdios nos últimos anos, não só por retratar fielmente (apesar de haver algum floreado inevitável na construção do Walt Disney de Tom Hanks) todo o processo criativo e ético que conduziu à concretização de Mary Poppins e de todas as suas inesquecíveis performances e as músicas da trama, como também por contrapor os mistérios e o sarcasmo que rodeiam a personalidade de P.L. Travers e as dúvidas da escritora em relação aos preparativos para a adaptação. 

O paralelo entre o passado e o presente de P.L. Travers explica-nos porque é que a autora protege tanto a sua personagem, e se o filme peca por possuir uma estrutura que é apenas competente, essa mesma estrutura sai valorizada pelas interpretações e pela construção da história de making-of. A lamechice pode ser difícil de suportar nos dilemas da infância da autora, mas Emma Thompson segura o filme e a sua personagem com garra e criatividade. Para quem espera uma experiência inovadora com Ao Encontro de Mr. Banks, esquece-se certamente que nem todas as fitas devem ser vistas da mesma maneira, e, apesar das falhas, este é um filme singular e com o seu quê de delícia cinéfila e emotiva. Mas só a interpretação da atriz torna esta fita inesquecível.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Cinema de Ingmar Bergman em digressão por várias cidades


Depois do sucesso em Lisboa, o ciclo de Ingmar Bergman vai prolongar-se na capital e rumará ao Porto e a outras cidades. Mais informações no meu novo artigo para o Espalha Factos, que pode ser lido aqui.

Parem de criticar, e vejam os Clássicos!


Dou uma olhadela às estatísticas que o Blogger me fornece sobre os quase cinco anos de existência da Companhia. Olho para o top 10 dos posts mais lidos e apenas dois são críticas de Cinema. Uma delas é «Obrigado por Fumar», que se encontra no sexto lugar da contagem, e um pseudo-texto que escrevi sobre os dois primeiros «Balas e Bolinhos», na décima posição.

Procuro mais críticas, não as encontro neste top. Quando acabo de escrever uma nova opinação e a partilho nas redes sociais e em fóruns selecionados, espreito o impacto que a postagem tem nos leitores. Apenas as que versam sobre filmes mais recentes (até as que publico no Espalha Factos e que, aqui no blog, apenas coloco um excerto com o link para se ler o texto integral) conseguem arrecadar mais visualizações. Mesmo as dos "filmes em 60 segundos", que demoro menos de um quarto de hora a elaborar, estão entre as mais lidas, principalmente se forem filmes que toda a gente já viu, como «A Caça» e o segundo «Senhor dos Anéis». Podem nem ser sobre grandes fitas - há apenas um fator dominante, o fator-tempo. Mais arrepiante é que não se trata do tempo propriamente dito, mas tal como as notícias, apenas interessa a muitos leitores saber dos filmes que estão na berra naquele preciso momento, e que são esquecidos meia hora depois de estrearem. 

Porque é que as pessoas continuam a desprezar os filmes clássicos, ou até, obras que têm pouco menos de dez anos de idade (sim, porque nesses casos já estamos a falar de verdadeiras "antiguidades arqueológicas")? Qual é o medo dos espectadores em relação ao preto e branco, aos novos horizontes que os autores clássicos trouxeram e que continuam novos mesmo que se façam mil e uma renovações na atualidade?

Não venham com questões de educação, de tolerância, de que "A culpa disto tudo é o sistema". Em parte é, é verdade, mas a culpa disto é das pessoas que, tal como desprezam as pessoas mais idosas e tal como espezinham tudo o que não seja do seu tempo como "isto não vale a pena porque não se adequa à modernidade", destroem o Cinema clássico com preconceitos, ideias erradas e falsos testemunhos. Em vez de usarem a sua liberdade para reconstruirem o seu pensamento, continuam com ideias feitas.

Não tenho dúvidas em afirmar que os filmes que me dão mais prazer em visionar são os do "arco da velha", que grande parte dos mortais não se dá ao trabalho de conhecer, porque tem sempre mais que fazer. E eu nem me quero referir a certas correntes do Cinema mais intelectuais e difíceis para alguns espectadores. Falo mesmo do Cinema Americano, da forma como se esquece o trabalho dos grandes autores da melhor era que Hollywood viveu desde a sua origem até à atualidade. Não só a "Idade do Ouro", como também as grandes invenções (e que conseguem ser artísticas e comerciais ao mesmo tempo - algo que certos criticozinhos ainda não perceberam que é possível!) que se fizeram até ao tempo imediatamente antes do que as massas consideram como os filmes fixes de hoje em dia. Sim, há grandes filmes atuais (e que são mesmo clássicos contemporâneos)... mas que as pessoas não tenham medo da palavra "clássico" no puro sentido do termo!

Mas a Era Doirada foi uma era que não levou com remakes, reboots, spin-offs e outras decisões massivas e aparvalhadas. Uma era que não precisou de grandes efeitos especiais, mas de grandes artistas cheios de criatividade, e que conseguiram fazer muito com quase nada. E não é curioso que, apesar da maioria das pessoas rejeitar a antiguidade, vibra com estas reformulações da própria antiguidade?

Uma era em que apareceu Billy Wilder, Ernst Lubitsch, Michael Curtiz, Raoul Walsh, Charles Chaplin, Buster Keaton, bolas! São tantos que enumerá-los a todos seria uma tarefa muito difícil!

Nem quero falar dos anos 70 e 80, e mesmo dos 90, que muitos já consideram de uma distância brutal de tempo e de mentalidades. Não! Tal como os bons livros e os bons vinhos, os bons filmes ficam melhores com o tempo. É difícil perceber isso? É árduo para uma pessoa que passe nos quatro canais, ficar por mais de dez segundos a ver «O Bom, o Mau e o Vilão» na RTP1, em vez de mudar logo para a Casa dos Segredos?

Desculpem, sei que estou com um discurso praticamente utópico. Mas o meu individualismo tinha de deitar cá para fora mais uma série de tópicos desordenados e confusos que o começam a irritar severamente.

Nunca tive jeito para fazer textinhos bonitos onde toda a argumentação é exposta de maneira correta, e onde o leitor pode tirar as suas conclusões e dizer se concorda ou não concorda. Apenas uma coisa me aflige, caros amigos e amigas, e que é o meu objetivo com este post: é difícil as pessoas verem filmes "antigos"? É difícil as pessoas perceberem que os filmes dos anos 10, 20, 30, 40, 50, 60, 70, 80 e 90 podem ter uma complexidade maior do que muita fita de hoje em dia? Que na atualidade o Cinema é mais Televisão do que propriamente Cinema (e nem quero falar da mudança para o digital)? Que o Cinema é uma Arte como qualquer outra, e que tem de ser respeitada?

Calo-me por aqui. Já nem sei o que dizer mais, e não quero reler o que escrevi até agora. Não me apetece. Fica tudo assim como está. Cada um tira as suas conclusões, e espero que uma delas seja: vejam Cinema. Todo e qualquer tipo de Cinema. Não liguem a pontuações do IMDb, a expectativas, aos filmes mais fixes do momento e àquilo que vos possa tornar socialmente aceites. Vejam o que querem ver, sem medos, sem perturbações. 

Não sejam 11 dos «12 homens em fúria», que se influenciam mutuamente para tomar uma decisão. Sejam o 12.º homem que tem uma opinião contrária e não receia em expô-la! Nada vai mudar com este meu post, mas precisava de desabafar este manancial de coisas que começam a atafulhar o meu cérebro, de cada vez que exploro a internet.

Há um mundo para descobrir, e que a atualidade não consegue suportar. Esse mundo está no Cinema clássico, americano e não só. 

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane) [1941]


Old age... it's the only disease, Mr. Thompson, that you don't look forward to being cured of.

Filme de decadências e traições, obra sobre Poder e declínio, película marcante da História do Cinema Americano. «Citizen Kane» não é o melhor filme dos tempos porque, felizmente, a arte cinematográfica é tão vasta e excecional que se torna difícil escolher uma grande obra que se destaque entre todas as outras grandes. Mas sem dúvida, a primeira e mais conhecida realização de Orson Welles é um dos trabalhos mais notáveis da Sétima Arte, e figura com toda a justiça no Panteão das maiores obras primas da História das obras primas do Cinema. Foi uma proeza técnica para o seu tempo (apesar da maioria das inovações serem de descoberta anterior a este projecto - no entanto, Welles aperfeiçoou-as e levou os mecanismos a mares cinéfilos nunca antes navegados), e na contemporaneidade permanece como um filme arriscado para os padrões de “consumo” cinematográfico (a câmara não é "bem comportada", filmando de ângulos pouco usuais e que foram pouco favoráveis para os padrões da época - e talvez hoje em dia sejam difíceis de compreender pelo "comum dos mortais"). «Citizen Kane» não só contribuiu para dar um novo impulso às Imagens em Movimento, como auxiliou a tornar maior e mais imperceptível a Arte da Ilusão proporcionada aos espectadores por essas imagens. Porque se o Cinema envolve o manipular o melhor possível o espectador, o filme envolve o público na teia complexa e fascinante da obscura vida de Charles Foster Kane, dos seus amigos e da falha das relações humanas, que cresce à medida que o seu Império torna proporções ainda mais gigantescas (mas se as posses de Kane aumentam, isso não corresponde à cada vez maior falência económica da sua "indústria").


Não é só a grandiosidade e o lado espalhafatoso de Kane, que indica a sua crescente ruína, que faz de «Citizen Kane» um filme tão marcante. É de notar o valor que se dá à deterioração da grande amizade que unia o protagonista e Jedediah Leland (Joseph Cotten num excelente papel), que se afastam porque Kane perdeu gradualmente os valores éticos (e uma certa Declaração de Princípios por ele escrita e assinada quando comprou o jornal «Inquirer») que o motivaram a iniciar a sua demanda pelo mundo da comunicação social e, mais tarde, por outras vertentes da vida social e urbana dos Estados Unidos da América. Ao rejeitar aquilo que acreditava e que o fez subir a ambições mais altas do que poderia imaginar, vemos os desejos de Kane alterarem-se segundo as relações de poder que estabelece, e pela contínua e mais abrangente importância e mediatismo que atinge na sociedade americana. Mas apesar de todo o poder que detém com o seu Império, Kane é um homem impotente, por nunca conseguir ter aquilo que realmente quer. Apoiando-se no colecionismo obsessivo e exacerbado de obras de arte e suas afinidades (culminando na construção da inacabada e caríssima Xanadu - cujo custo, segundo ouvimos na "newsreel" do filme, nenhum homem conseguirá descobrir), Kane tenta colmatar as faltas que tem na sua vida e que, mesmo tendo todo o dinheiro e poder de influências do mundo, nunca conseguirá compensar. Faz crescer coisas sem motivos definidos, porque assim pensa que está a usar o seu poder e a fazer aquilo para o qual ele "serve", mas nunca conseguirá ficar satisfeito. A grandeza, a sua prepotência e a sua arrogância, afinal, não passam uma máscara que esconde os seus segredos, as suas falhas, o seu lado nostálgico, e essa palavra tão misteriosa, que um jornalista tentará descobrir qual será o seu significado para a vida do decadente e frio Charlie Kane: "Rosebud"!


O problema da elevada aclamação que «Citizen Kane» ao longo das décadas é o mesmo que muitas obras primas praticamente unânimes sofrem no seu processo de intemporalidade: ao serem demasiado estudadas e analisadas, talvez os críticos e investigadores percam a noção de que este é um filme que, como qualquer outro, requer desconhecimento total do seu conteúdo. Infelizmente, muitos de nós já visionaram o filme sabendo, afinal, o que é “Rosebud” (a famosa chave para o carácter e a vida de Charles Foster Kane), mas há todo um espólio cinematográfico que, tal como as maravilhas do império megalómano de Xanadu construído pelo magnata (não esquecer também a megalomania do cineasta, que se repetiria no seu filme seguinte para a RKO, «The Magnificent Ambersons»), é um regalo para a vista e para a sensibilidade dos mais cinéfilos. E descobrir a história de bastidores do filme, e a forma como o aparente visado da trama, o real William Randolph Hearst, tentou a todo o custo que «Citizen Kane» fosse espezinhado e desprezado pelo seu país (o que envolveu algumas ameaças ao jovem criativo Orson Welles) é também outra delícia que nos proporciona outra visão sobre esta história excecional. Welles recusou, ao longo de toda a sua vida (e durante todos os anos em que foi "massacrado" com esta sua primeira obra, que é apenas uma pequena parte de uma vasta e inovadora filmografia, única no circuito americano), dizer que o seu Kane é uma cópia exata de Hearst, mas trata-se sim, de uma amálgama de histórias de vida. Porque afinal, o que vemos da decadência de Kane não é mais do que o que a experiência humana nos mostrou várias vezes noutros casos reais. Contudo, todas as histórias sobre ascensão e queda saem valorizadas pelo seu lado original, e pelo facto de que, apesar da vida parecer convencional, aquilo que tiramos dela nunca poderá encaixar-se nos parâmetros rígidos da vulgaridade. E pode ter sido, na época, um brutal fracasso de bilheteira (apesar da grande campanha publicitária e da polémica em volta de Hearst), e perdeu nos Oscars para «O Vale Era Verde» de John Ford. Mas hoje, e tal como em 1941, «Citizen Kane» é uma das obras mais fulgurantes e angustiantes sobre os pequenos lugares-comuns e as grandes surpresas da essência da humanidade.


É de louvar os atores do «Mercury Theatre», muitos a darem os primeiros passos no Cinema, mas que fornecem interpretações brilhantes de uma qualidade que vários artistas com uma carreira já estabelecida nunca conseguiriam alcançar. É de elogiar a banda sonora de Bernard Herrmann, o seu primeiro trabalho como compositor, e que aqui mostra as bases de melodias mais negras e obscuras como seriam as que ele faria para vários grandes filmes de Alfred Hitchcock, que ficam indissociáveis da música que os acompanha. Herrmann aumenta o ambiente de angústia existencial proporcionado pela decadência psicológica de Kane e de todos os que dele dependeram, crescendo o Vazio sentimental que tanto nos fascina, como nos arrepia, nos momentos mais tristes e complexos da narrativa. «Citizen Kane» recriou a alma humana destruída, nos moldes que inspirariam muitos filmes posteriores (um dos exemplos mais recentes é o percurso auto-destrutivo de Daniel Plainview, interpretado pelo Oscarizado Daniel Day-Lewis em «There Will Be Blood»), num dos exemplos mais genuínos e negros dos efeitos da prepotência humana. Quando a felicidade, afinal, reside nas pequenas coisas, nem o maior dos magnatas consegue resistir mentalmente àquilo que a sua memória insiste sempre em tocar. Quem dera a muitos fazerem uma longa-metragem de estreia tão genial como a de Orson Welles (que foi beneficiado pela total liberdade criativa oferecida pela RKO), que deve também, neste resultado final, ao trabalho de fotografia (que o próprio reconheceu, colocando o responsável ao lado do nome do realizador nos créditos finais do filme). Mesmo que já saibamos o final ou já tenhamos visto a fita mais do que uma vez (como é o meu caso), «Citizen Kane» é daqueles raros casos cinematográficos que se torna mais perturbante e revelador a cada novo visionamento, sendo um filme praticamente novo a cada visionamento. Estando ou não nos tops que elegem os melhores filmes de todos os tempos, este é sem dúvida um marco incontornável da cultura mundial.

* * * * *

sábado, 25 de janeiro de 2014

Scarface, o Homem da Cicatriz [1932]


Foi polémico para a sua época e criticado pela sua excessiva violência, e porque, na opinião dos censores, tinha um final que glorificava o criminoso em relação à Lei e Ordem (o que levou à produção acrescentar o título sugerido pela equipa de censura, «The Shame of a Nation»). O «Scarface» original data de 1932 e deixou um impressionante legado para as gerações de cinéfilos vindouras (e foi o filme americano preferido de Jean-Luc Godard num top que o cineasta elaborou em 1963, nos primeiros anos da sua carreira como realizador), que ficou, em parte, apagado pelo ainda maior fenómeno cultural que se tornou o remake escrito por Oliver Stone, realizado por Brian de Palma e protagonizado por Al Pacino, em 1983. Apesar de ser muito mais agressivo, anárquico e violento e conhecido que o original, seria injusto estabelecer comparações entre os dois filmes, mas é algo inevitável: são completamente distintos, quer na forma quer no conteúdo, e apenas podemos encontrar semelhanças em alguns pormenores e "subplots" da narrativa (como a célebre frase "The World Is Yours") e na estrutura da história (como um percurso de ascensão e queda da personagem principal, o gansgter Tony Camonte, em 1932, e Montana, em 1983). Estão separados por cinquenta e um anos, e ambos refletem, à sua maneira (e tendo em conta os gostos das audiências na moda nas suas épocas de estreia), os objetivos do Cinema da sua época, e o sonho americano que todos cobiçam, mas que tão poucos conseguem alcançar. Ah, e ambas as versões recorrem a abusos visuais e narrativos, que por vezes são mais aturáveis, e noutros momentos nem tanto.


Mas centremo-nos no «Scarface» de Hawks, uma amostra daquilo que viriam a ser os melhores filmes que esse realizador faria nos anos seguintes (como «Rio Bravo» e «À Beira do Abismo»), onde a ação e a imaginação se combinam para dar ao espectador uma experiência inesquecível e única no Cinema Americano. Tal como outros filmes de gangsters neste período dourado do Cinema, no meio da violência e da vida dos criminosos, tenta-se alertar as pessoas para os problemas e para os malefícios do crime (daí foram impostas algumas alterações a este filme pelos Censores...). E se Francis Ford Coppola decidiu não introduzir, em «O Padrinho», indivíduos italianos que "talka laika diz" (ou seja, personagens de origem italiana que sejam estereotipadas), foi porque teve como exemplo a forma exagerada (e para os nossos dias, chega até a ser cómica) como Tony Camonte e os seus compadres sicilianos se expressam em «Scarface», e que desagradou o cineasta. O Tony de Paul Muni é mais simpático, brejeiro e folião que o de Al Pacino, sendo uma recriação da figura do bandido clássico que dá o ar da sua graça de quando em vez, mas ambos são estereotipados à sua maneira. E pode ser uma peça muito datada para o nosso tempo, mas ninguém pode tirar o soberbo entretenimento que Howard Hawks soube tão bem jogar no filme. Uma obra histórica e surpreendentemente sensível (isto se tivermos em conta o padrão dos filmes de gangsters dos anos 30 - o lado emocional só começou a ser mais utilizado um pouco mais tarde, com títulos como «Anjos da Cara Negra», uma história de crime mas também de amizade, e «Fúria Sanguinária», sobre o carinho que um gangster tem da sua Mãe), e educativa, por querer incutir às pessoas que não devem seguir os exemplos dos heróis da tela. Infelizmente, para a perspetiva atual, a violência de «Scarface» é caricaturável, grotesca e com menos impacto do que em 1932, e a violência tornou-se um objeto de culto do Cinema, que é cada vez mais aprofundado com o passar das décadas (veja-se o ultra-abuso de truques cinematográficos e cénicos que de Palma utiliza para fortificar a imagem descontrolada e "drogadamente" intensa do seu Tony Montana). Mas se nos rimos mais hoje com o «Scarface» original do que seria suposto no ano em que estreou, não é por isso que o filme sai desvalorizado.


«Scarface» não é só, por isso, uma peça curiosa de Cinema porque podemos ver uma das experiências iniciais de um realizador que se tornaria um dos melhores do ramo daí a uma década ou menos, nem só também pelo seu lado "arqueológico" e pela importância que teve para a História do Filme. A história deste confronto com a autoridade por um criminoso que sobe, sem olhar a meios, na hierarquia do Poder do submundo, continua a ser muito relevante e genial em termos de entretenimento, de montagem e de eficácia dramática. Permanece um retrato entusiasmante sobre a transfiguração psicológica de um homem, que provoca a sua própria queda no seu mundo ao perder o controlo de tudo. Tanto o original como o remake possuem os seus exageros, temperados de maneira especial, e que são propositados - afinal, estamos a ver uma história de criminosos, e exagero é o que não falta de pessoas assim, como os dois Tonys que lutam para superarem todos aqueles que lhes querem cortar a passagem na escalada da ilegalidade. Já merecia um restauro decente, este clássico marcante dos EUA, que apesar do seu amadorismo e das inconsistências que a perseguem, mantém-se como um bom filme, e uma peça cinematográfica de conhecimento essencial para qualquer cinéfilo.

* * * *

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Uma nota sobre o caso do Meco

Meco: vítimas vistas a rastejar com pedras atadas aos pés

Antes de entrar para a faculdade, uma das coisas que mais me assustava era a ideia que eu tinha da praxe, tal qual as via em filmes como «A Rede Social» e em casos parecidos com este que está a ser investigado.
Nesse aspeto tive sorte. Na FCSH, a praxe não chega a exageros nem a humilhações nem a extremos como estes que são relatados na reportagem, e mais do que a lembrança das pequenas brincadeiras que retirei dessa semana memorável, ficaram laços de amizade feitos entre os caloiros e os veteranos que permanecem firmes.
Convém por isso não generalizar, mas infelizmente, há muita irresponsabilidade noutros lugares. A selvajaria abunda ainda nas mentalidades de muito jovem, que não olha a meios para atingir os seus fins - mesmo que os fins impliquem pôr vidas inocentes (e também algo ingénuas, porque não sabem o que as espera) em risco. A praxe não deveria ser um ritual de iniciação que, tal como se fez em CC, acolhe os novos alunos e os apresenta ao mundo em que acabaram de entrar? Não deveriam as praxes afastar-se da anarquia e da estupidez de casos como o deste grupo de jovens, em vez de se tornarem autênticos exemplos de atos animalescos?
Supostamente, num mundo civilizado, seria pelo melhor dos outros que rituais como este seriam elaborados. Mas a burrice, a intolerância e o desejo de humilhar os outros prossegue como um dos "greatest hits" da humanidade.
À juventude que está a pensar ir para faculdades em que se pratiquem estas autênticas atrocidades, digo-vos isto: tenham a coragem de dizer NÃO à idiotice alheia. É que a obediência cega a ordens impostas por por quem não sabe o que está a fazer, diz-nos a História, nunca dá bom resultado...

Golpada Americana (American Hustle) [2013]


Some of this actually happened” é o que podemos ler nos primeiros momentos de Golpada Americana. O objetivo de David O. Russell não é elaborar uma recriação da realidade tal como ela aconteceu, mas adaptá-la para os moldes cinematográficos atuais, tendo em conta as influências cinematográficas que exerceram grande importância para o realizador. Talvez a presença tão abusiva de outras inspirações possa dar uma certa sensação ao espectador de que já viu um filme assim antes. Algo recorrente no Cinema contemporâneo, infelizmente. 

A mais percetível de todas as referências é o toque de Martin Scorsese que sentimos ao longo da narrativa, e que é notório tanto no uso de voz-off, como na forma de se filmar certos planos em câmara lenta, e em personagens como a de Christian Bale, uma espécie de ”imitação” dos papéis que Robert de Niro interpretou há 20 ou 30 anos (e curiosamente, de Niro entra também neste filme, interpretando uma pequeníssima mas interessante composição). 

Mas esta Golpada Americana não se fica apenas pelo mero exercício de cópia, e consegue “sobreviver” por mérito próprio. É um filme divertidíssimo, com uma história engraçada e dramaticamente interessante, apesar dos clichés que vemos nas suas personagens e em algumas situações. E há um toque inteligente nesta obra, quer no elenco, quer na realização e no argumento, que lhe dá um sabor especial e que faz com que não seja um filme totalmente banal.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quentin Tarantino desiste do seu novo projeto


Já não está fresquinha, mas aqui fica a minha notícia sobre a recusa de Quentin Tarantino em continuar a sua nova história cinematográfica, «The Hateful Eight», depois da traição que sofreu com a divulgação do argumento do filme a um número restrito de colaboradores. Mais informações no Espalha Factos.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Filmes em 60 segundos: A Regra do Jogo (La Règle du Jeu) [1939]


Jean Renoir descreveu a estreia de «A Regra do Jogo» como uma autêntica “bofetada”. Mas se a princípio foi incompreendido, com o passar dos anos esta obra foi redescoberta, e hoje, é um dos grandes tesouros do Cinema. Uma comédia sarcástica de costumes e de sátira de estratos sociais, e um drama psicológico sobre a fragilidade e a mutabilidade da condição humana, que Renoir dirige num cenário com o seu quê de burlesco e de sedutor, onde as personagens se revelam nas suas qualidades e defeitos (e não é o “status” que pode apagar as críticas que se podem fazer a este grupo decadente de indivíduos e de situações cómicas, trágicas e filosóficas), nas quais o espectador revê o mundo que o rodeia e as máscaras que fazem a nossa posição perante os outros, no grande jogo que é a vida. Uma obra prima cuja crítica faz sentido ainda hoje.

★ ★ ★ ★ ★ 

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Filmes em 60 segundos: Hannah Arendt [2012]


Hannah Arendt: uma grande pensadora do século XX, cujas teorias controversas sobre o nazismo são a base do filme homónimo de Margarethe Von Trotta, onde visionamos o impacto das conclusões perturbantes que Arendt retirou do julgamento de Eichmann. A poderosa interpretação de Barbara Sukowa como Hannah Arendt suporta uma narrativa com fragilidades e que se dispersa, ao contar muita coisa com um largo distanciamento. A estrutura simplista e algo superficial do filme parece não conseguir aguentar tamanha história, que não tem um ritmo apropriado. Mas filma-se o essencial da vida e obra de Arendt, e é delicioso acompanhar a perspectiva social da trama e a irracionalidade causada pela polémica. Poderia ser mais do que um “simples” bom filme, mas «Hannah Arendt» consegue a proeza de nos fazer repensar um tema que continua a marcar a Humanidade: a banalidade do mal e o domínio da colectividade sobre o indivíduo nos totalitarismos.

★ ★ ★

As Diabólicas (Les Diaboliques) [1955]


Foi por um triz que os direitos cinematográficos do livro «Celle qui n'était plus» não foram vendidos a Alfred Hitchcock. Quem acabou por realizar a adaptação da história de crime e mistério foi Henri-Georges Clouzot, e a "derrota" de Hitchcock seria recompensada mais tarde (os dois autores do texto, Pierre Boileau e Thomas Narcejac, escreveriam mais tarde «D'entre Les Morts», livro especialmente dedicado ao cineasta, e que originou uma das suas maiores obras primas: «Vertigo»). Mas ao ver «Les Diaboliques», percebemos que se trata de uma trama que tem tudo o que poderia agradar à criatividade de Hitchcock. Felizmente, Clouzot conseguiu destacar-se da grande influência e referência e construiu aqui um exercício notável de manipulação emocional cinematográfica.


Inquietante e ainda extremamente provocador e algo perverso até, «Les Diaboliques» é um curioso e complexo exercício cinematográfico que explora os limites a que o espectador pode ser levado, com uma simples história de traições, paixões, chantagens e interesses egocêntricos. Quando a mulher e a amante de um homem inescrupuloso e detestável decidem aniquilá-lo, inicia-se uma série de circunstâncias misteriosas e paranormais, que nos deixam em suspenso até ao último momento da narrativa, dirigida e conduzida de forma engenhosa, aproveitando todos os momentos em que se possa agarrar o espectador pela sua ingenuidade e por não saber, ao certo, o que é que se está a passar nesta trama. As duas personagens são duvidosas e têm dúvidas em relação a todos os outros, receando que o seu plano e o crime seja descoberto. Mas a reviravolta e o "twist" final dão uma abordagem incrivelmente assustadora a uma história que parece ser corriqueira, e é nos pequenos engenhos terrivelmente eficazes que conseguimos perceber o porquê de Hitchcock querer tanto adaptar o livro. «Les Diaboliques» impressiona pela sua estética e pelo seu lado psicológico, muito bem trabalhado, e que funciona com um impacto na audiência como poucos filmes conseguiram ter na sua época e, mesmo, nas décadas posteriores. Preocupante, intrigante e sufocante, a experiência é tão forte e rica que o próprio Clouzot pede, depois do desfecho da fita, que os espectadores não contem nada do filme a quem não o tenha visto ainda. Foi o que se tentou fazer nesta pequena crítica, porque é a ver «Les Diaboliques» que se consegue perceber a dimensão de choque e de brutalidade cinematográfica que o cineasta, as suas atrizes (as maravilhosas Simone Signoret e Véra Clouzot - cuja carreira na representação cinematográfica se limitou a apenas 3 filmes feitos pelo marido) e os argumentistas, que cresce à medida que nos vamos apercebendo que, numa aparentemente simples história policial, existem muitas camadas para descobrirmos e que são necessárias para encaixar todo o intrincado puzzle. Um exemplo de suspense cinematográfico que, felizmente, ainda não conseguiu ser ultrapassado.

* * * * 1/2

Coisas de Cinema que se encontram na web.


OK. Incluir esta obra prima do Cinema num festival só por causa de uma teoria subliminar que existe sobre a sua narrativa é algo... simplista. E redutor. E ingénuo, porque nada disso é o que mais importa num filme tão espetacular como «Johnny Guitar».

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Filmes em 60 segundos: O Senhor dos Anéis - As Duas Torres [2002]


Se o primeiro capítulo de «O Senhor dos Anéis» possuía o encanto da novidade e da reinvenção moderna e cativante de um clássico da literatura mundial, já «As Duas Torres» é um exercício de “encher chouriços” cansativo e enfadonho. Peter Jackson repete a espectacularidade sensacional que caracteriza a trilogia, mas a trama adaptada é demasiado curta e objectiva para conseguir manter um bom nível em quase três horas de filme, sendo esticada até aos limites para satisfazer as vontades do realizador, que não conseguiu construir, desta vez, um ritmo apropriado à narrativa do Cinema. Contudo, nesta segunda fita da saga sobressai de novo o lado visual, musical e épico, que felizmente, foi das poucas coisas que se mantiveram (e melhorou até!) em relação ao anterior tomo. Valha-nos, ao menos, poder apreciar a grandiosidade majestática e exemplar da cinematografia e o amor de Jackson à obra de fantasia intemporal de Tolkien. 

★ ★

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street [2013]


O regresso de Martin Scorsese ao grande ecrã faz-se com grande pompa e circunstância neste O Lobo de Wall Street, o filme mais longo da sua carreira, e que é um regresso às origens do realizador e aos temas que tornaram célebres alguns dos seus projetos mais famosos, como Tudo Bons Rapazes e Casino.

É uma película alucinante que nos deixa chocados, mas também entusiasmados pelo rumo dos acontecimentos, e pela constante inventividade de Scorsese que, apesar do fabuloso argumento de Terence Winter ser bastante fiel ao que Jordan Belfort conta no seu livro autobiográfico, proporciona alguns toques de originalidade na execução das cenas e em alguns truques narrativos e cinematográficos que são cozinhados com uma grande mestria. Nunca vimos Leonardo DiCaprio como aqui, numa performance que arrasa tudo e todos, e que é, talvez, a sua mais provocadora e exuberante interpretação. 

Torna-se difícil saber se será este filme uma comédia sem moralismos, ou um drama que pretende disfarçar-se de peça humorística. Rimo-nos de algumas situações, pelo ridículo que transportam e pelo excesso que representam, mas não nos sentimos culpados das nossas próprias gargalhadas? Árdua esta questão, mas a máscara de farsa não esconde as intenções que Scorsese quer passar, e a constante obsessão do seu Cinema em dissecar o lado profano da espécie humana.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Tolstoi e a história de Khadji-Murat


Para Harold Bloom (numa citação que preenche a parte superior da capa da edição de «Khadji-Murat» da Cavalo de Ferro), esta é "a melhor história do mundo, ou pelo menos a melhor que eu li até hoje". Opiniões à parte, há coisas para serem elogiadas nesta narrativa minuciosa que, com tanta minúcia, perde-se no essencial e nos valores das situações descritas para dar mais importância aos pormenores. Lev Tolstoi conta, neste pequeno livro, as peripécias do guerreiro chécheno homónimo, uma figura com um grande poder de liderança. Amado pelo seu povo, que nele confia cegamente, Khadji-Murat aventura-se entre inimigos e possíveis aliados enquanto a guerra perdura, um conflito que foi causado pelo desejo de mais poder e pelos excessos de controlo e de domínio dos mais fortes nos mais fracos. Último romance de Tolstoi, «Khadji-Murat» não será, no entanto, um dos títulos mais notáveis da sua bibliografia. Mas é uma delícia ler a inteligência do autor e o cuidado que mostra em contar ao leitor todos os esquemas militares e políticos que foram postos em prática no combate, e nas amizades e traições que descobrimos e que desvendam as maiores fragilidades da espécie humana. Contudo, acima disto, está a história de um povo e da sua sobrevivência, representado pelo seu líder, que apenas pretende salvar a sua pequena comunidade da destruição perpetuada pelas maiores forças que a ela se opõem.

Brutalidade (Brute Force) [1947]


When you're on the inside, even the funny things of the outside seem wonderful. Just so they happened on the outside.

Filme sobre a dureza da vida dos condenados de uma prisão e do lado obscuro da Lei que poucos querem desvendar, «Brute Force» é uma obra poderosa e sufocante que nos leva ao pior dos ambientes e à mais tensa das tensões. Jules Dassin filma um thriller e um clássico da Liberdade (ou do desejo dela) no Cinema, apresentando Burt Lancaster no papel do protagonista, Joe Collins, um dos líderes incontestáveis dos criminosos da penitenciária de Westgate, e que tenta sempre contornar ou fintar uma ditadura policial que tem a violência e o medo a incutir nos prisioneiros as principais normas em vigor. Mais do que uma grande película sobre uma fuga da prisão, «Brute Force» fala-nos do Poder, que domina os prisioneiros e os gangs internos em que se congregam, e que é exercido pelos guardas com maior força e perspicácia até do que por aqueles que lhe são superiores na estrutura hierárquica desse tipo de Poder (neste caso, o diretor do estabelecimento, que se deixa engolir pelas exigências dos seus subordinados e pelo mais desumano de todos eles - o astuto, cínico e cruel Capitão Munsey, que não olha a meios para poder derrubar o seu chefe e poder, assim, ocupar o seu "trono" no topo desta "cadeia alimentar").


Produzido por Mark Hellinger (responsável por outros clássicos que, como esta fita de Jules Dassin, revolucionaram a forma de se retratar a violência no Cinema, como «High Sierra» e «The Roaring Twenties», ambos de Raoul Walsh, e também, tendo sido este o penúltimo filme que teve a sua assinatura - o derradeiro foi a obra seguinte de Dassin, «The Naked City», de 1948) e com uma fortíssima banda sonora do lendário Miklos Rozsa, que dá um fôlego portentoso ao argumento do futuro realizador Richard Brooks, «The Naked City» mostra também o espírito de camaradagem que se cria entre os presos, unidos pelo mesmo objetivo: superar a injustiça do sistema violento dos seus opressores. Não há aqui heróis nem vilões, apenas seres humanos perdidos pela irracionalidade dos seus atos, cometidos por certas e determinadas razões - no caso dos guardas, e principalmente Munsey, porque veem na violência uma maneira mais eficaz de perpetuarem a Lei; e no caso dos detidos, vemos as razões criminosas que levaram alguns deles a chegarem àquele sítio, por meio de flashbacks que nos fazem até ter pena do triste destino que as suas intenções pouco egocêntricas lhes trouxeram. Ao conhecer o íntimo dos condenados, acabamos por ficar ainda mais do lado deles, devido à parte emocional das suas vidas, que nos toca e nos suscita algum descontentamento pela injustiça que reina naquelas vidas miseráveis.


Há sequências brilhantes, que saltam à vista por uma precisão exemplar, criada por Jules Dassin para aumentar o impacto e a "fúria" do espectador em relação à narrativa e às desventuras das várias personagens, que fazem uma revisão das suas vidas e uma auto-descoberta dos seus valores e dos limites que querem ultrapassar para poderem voltar ao lado de fora, o "outside" onde reina a liberdade que deixaram de conhecer há muito tempo. A brutalidade é a Rainha da dura e nada divertida festa dos guardas de Westgate (e a falta de escrúpulos de Munsey, o maior vilão de todos - cuja sede de Poder ainda gera mais violência, ódio e opressão), cuja fúria e injustiça ainda dão mais força ao sonho de liberdade dos prisioneiros. Jules Dassin filma o medo e passa-o para o público graças à atmosfera sombria e muito negra à qual ninguém pode ficar emocionalmente indiferente. É isso que vemos em «Brute Force»: emoções, e os controlos de certas emoções por outras, mais fortes e poderosas, que dominam a alma humana pelo pior e mais inconsequente que nela se pode encontrar. Um filme sobre tudo isto, e também, as prisões do ser humano, que não se limitam à definição física e real do termo, mas que abrange muito mais: as prisões que fazemos a nós próprios e que os outros nos fazem, por meio de censuras ou de limites que podem ser absurdos ou que, estando já tão presentes na sociedade, já nem damos conta da sua existência. Não é por acaso que a última frase que ouvimos ser pronunciada nesta jóia preciosa de Cinema é esta: "Nobody escapes. Nobody really escapes".

* * * * 1/2

É só para dizer...

...que este é o 1700.º post desta Companhia.

O que vou fazer para celebrar o acontecimento?

Nada.

Gastei um post só para dizer que este é o post n.º 1700 e para, de seguir, não acrescentar mais nada?

Pois parece que sim.

Não há nenhuma coisa especial previamente preparada para esta efeméride. É que 1700 não é um número tão sonante não é?

Quando se chegar aos 2000 é que poderá haver qualquer coisa gira.

Mas de momento não, 'tá bom?

Obrigado por continuarem desse lado, é tudo o que me ocorre dizer.

E pronto, resto de bom dia.

Co' licença.


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A Lenda do Santo Bebedor: os silêncios e as amarguras da vida


«A Lenda do Santo Bebedor» é uma pequena novela de Joseph Roth, que vive do seu protagonista e dos símbolos (alguns com um certo toque divino) e significados que a ele ficam associados, e que fascinam o leitor porque, nas primeiras impressões que tiramos do bebedor Andreas, não nos parece ser uma figura que tenha muito para dizer, ou coisas tão relevantes para serem exploradas na sua personalidade. Da sua boca ouvimos proferir regularmente: "Que Deus nos dê a todos nós, a nós os bebedores, uma morte tão suave e tão bela!”. Andreas é um personagem único, que deambula pelas ruas de Veneza, revelando a sua tragédia que é, em parte, a que toca a todos os seres humanos. Livro curto, mas cuja pequenez não se traduz pela quantidade de material de reflexão que deixa no leitor.

Foi feito um filme, de Ermanno Olmi, que conta com Rutger Hauer no papel principal. Para o ator, esta é a performance pela qual gostaria de ser recordado. Espero ver o filme em breve (foi por causa disso que me lembrei de escrever uma pequena opinação sobre o livro), porque o artista teve mesmo, com este material de "pesquisa", muitas potencialidades para se sobressair com uma grande prestação...

1984 - quando um grande livro ultrapassa os limites da realidade


Dizer que «1984», de George Orwell, é uma obra que possui uma fortíssima atualidade, já todos nós sabemos (e aliás, o aumento do número de vendas do livro nos EUA depois do escândalo da NSA ainda auxilia mais esse facto). Ao afirmar que a história distópica e (apenas figuradamente) futurista sobre Poder, Opressão e Manipulação é um alerta para o lado mau de qualquer ditadura, também não estou a acrescentar nenhuma novidade opinativa sobre esta obra prima literária. E ainda, ao manifestar a minha consideração de que o valor da história e das situações de «1984» torna-o uma peça de leitura obrigatória para qualquer ser humano, também não poderei acender novas luzes sobre esta narrativa. 

De tão bom que é «1984» e de tanto que já se disse e se escreveu e se debateu sobre o livro, parece impossível acrescentar-lhe alguma coisa de novo, no meio de um mar vasto e infindável de opiniões e interpretações que existem sobre a sua construção e as intenções de Orwell. E eu, um simples e ingénuo leitor/devorador de livros que me despertem a atenção como este me despertou, não poderei dizer mais nada de interessante ou relevante sobre «1984». Daí eu já ter lido a obra há uns meses e só agora é que consegui escrever alguma coisa sobre ela - mas infelizmente, não está a sair nada de jeito.

Talvez reste apenas a experiência do leitor. Sim, porque lemos as opiniões sobre um determinado objeto cultural especial e particular, mas quando o consumimos e quando o sentimos, entramos noutra dimensão interpretativa que nunca caberá em qualquer ensaio ou dissertação ou conversa que se possa ter sobre ele. «1984» é um desses livros que nos deixa perturbados e confusos, e que desperta em nós um certo desejo de querer mudar o mundo. É uma delícia ler cada página da ficção (tão verídica) inventada por Orwell, e tão bem traduzida para português pela Antígona, e percebermos que este é um dos poucos livros que nos despertam os sentidos como os "vulgares" não conseguem fazer (sensação parecida com a que nos oferecem os grandes filmes, os grandes álbuns, as grandes peças, etc).

Mas apesar de «1984» ser o livro mais famoso de Orwell, convém não esquecer que há outra obra prima, mais curta e mais incisiva, mas que é igualmente recomendável: «O Triunfo dos Porcos» («A Quinta dos Animais», numa tradução mais recente e que segue literalmente o título original). Ambos os livros lidam com a sociedade e os jogos de poder que se criam entre classes e "chico-espertezas" políticas e institucionais. Duas peças literárias que são um murro no estômago para o leitor, e que devem, ou melhor dizendo, têm de ser lidas. Depois de descobertas estas duas obras, talvez fiquemos a perceber um pouco melhor os grandes males que atravessarão para sempre este nosso mundo...

Keep Going Marty!



A cada novo filme de Martin Scorsese que estreia, aumentam as más línguas que anseiam que o realizador peça a reforma e se ausente do mundo do Cinema. 

O problema é que muitas pessoas ainda veem os realizadores como se fossem uma personificação dos seus gostos pessoais. O trabalho deste Mestre é admirável. E ainda bem que não é consensual, mas desejar um destino tão triste a um homem que tanto ainda tem para dar é injusto. 

Mais: se o Manoel de Oliveira ainda por aí anda a realizar filmes (e ainda bem - e eu não sou o maior fã do realizador), porque é que o Marty não pode continuar a exprimir a sua criatividade no grande ecrã, e a ensinar-nos a importância da preservação do Cinema?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A Quimera do Riso (Sullivan's Travels) [1941]


There's a lot to be said for making people laugh. Did you know that's all some people have? It isn't much, but it's better than nothing in this cockeyed caravan.

É mais uma das grandes comédias americanas dos anos 40, e um dos filmes mais ousados e provocadores do seu tempo: são poucos os que, como «Sullivan's Travels», de Preston Sturges, se arriscam a criticar e satirizar Hollywood desta maneira tão peculiar (veja-se logo uma das primeiras cenas, em que o protagonista tenta convencer os executivos de um estúdio a deixarem-no fazer um filme dramático, onde todos discutem tudo o que uma fita deve ter para ser um sucesso - e repete-se várias vezes "and a little bit of sex", o que mostra que essa "tendência" da indústria, infelizmente, já vem de há mais de setenta anos...), e conseguirem manter a sua atualidade. Mas «Sullivan's Travels» (um título que é uma paródica referência ao livro de Jonathan Swift, que nos fala de uma outra viagem, mais fantasiosa mas não menos socialmente relevante) não é só uma sátira ao "establishment" que impera no Cinema americano, como também provoca o anti-"establishment" e as pretensões e exigências das pessoas que querem mudar a Arte, inovando-a e explorando as potencialidades de um meio que nem sempre é bem aproveitado. Comédia de divertimento puro e inteligente, com timings perfeitos nos momentos de humor físico e "slapstick" que ainda fazem rir, é uma película divertidíssima que não se fica só por aqui. Preston Sturges quer mostrar como o divertimento e a seriedade são complementarmente importantes para aquilo que gostamos ou não gostamos de ver nos filmes. E algumas cenas impressionam pelas diversas técnicas que Sturges utiliza para não só criar uma mui agradável comédia, como também para filmar a miséria que se vive na América, onde é o riso uma ferramenta ainda mais essencial para a vida de cada pessoa.


Sullivan quer perceber como é a vida real, para dar credibilidade ao seu próximo projeto, uma ficção cinematográfica que, contrariamente aos filmes que lhe deram êxito, não se trata de uma comédia, já que quer filmar o drama da realidade do sofrimento humano. Ele está farto de fazer fitas que fazem as pessoas rir e que não as fazem pensar nas coisas sérias. Mas o que ele e a sua futura "partner" percebem é que eles não conseguem, afinal, livrar-se das condições não-miseráveis e muito cómodas das suas vidas, e no meio das gargalhadas que esta dupla nos proporciona (Joel McCrea e Veronika Lake têm uma química formidável), explora-se o drama das difíceis condições de vida fornecidas por uma época atribulada, onde a ganância está presente entre os mais ricos e entre os mais pobres (algo bem patente numa formidável sequência, onde ouvimos apenas música e em que vemos os dois protagonistas a "provarem" o sabor amargo da dura vida real). Ao incluir o sofrimento, Preston Sturges concretizou 'acidentalmente' as intenções do seu realizador ficcional, provavelmente seu alter-ego. «Sullivan's Travels» não é só um filme que nos faz rir (muito) como cumpre também o papel 'aborrecido' e pouco lucrativo (para as produtoras) de procurar as verdades escondidas dos males da América. Assim, ele vai de encontro (e a certa altura, contradiz também) o que é contado nesta história, porque a sua intenção é mostrar os valores do Cinema, que não são limitados a um género específico. Porque o Cinema, acima de tudo, é uma escapatória a realidade. E nessa fuga, muitos não terão disposição para, ao viverem no sofrimento, verem filmes sobre o sofrimento. E qual é o problema, se muitos veem a Sala como um meio de pura distração? Não valem de nada perpetuarem-se as catalogações do Cinema que retiram a esta Arte o facto de não ser algo que se adequa apenas para alguns, ou para um nicho muitos específico: cada um vê os filmes que quer e interpreta-os à sua maneira. E não pode haver mal nenhum com isso. Fazer os outros rir talvez possa ser a melhor coisa do mundo, e nao pode ser desvalorizada. Se bem que Hoje as comédias não sejam como esta, «Sullivan's Travels» alerta para o significado do humor como remédio para aturar melhor os problemas do quotidiabno. A ficção não precisa de ser feita só de (bons e maus) dramas, e há espaço para todos os estilos e géneros nesta Arte muito abrangente. E poucos são os filmes que passam assim esta mensagem tão descarada, mas que é tão incrivelmente real. 

* * * * 1/2

Leonardo DiCaprio: 5 grandes personagens


Na semana em que estreia «O Lobo de Wall Street», a quinta parceria entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, revisitei aqui a sua carreira e destaco as cinco melhores personagens interpretadas pelo ator.  A lista foi feita por ordem cronológica e não apreciativa, e tentei aqui incluir todas as "facetas" que o ator já mostrou no ecrã. De fora, mas como "Menções Honrosas", ficam duas interpretações: «The Departed» e «Shutter Island».

Leiam, opinem e contestem as minhas escolhas, clicando aqui!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Recordar Spencer Tracy


Spencer Tracy foi um dos maiores atores do seu tempo, e tem uma grande história de vida para contar. Podem lê-la aqui, neste meu novo artigo no Espalha Factos e que marca o regresso da rubrica «A Recordar»!

sábado, 11 de janeiro de 2014

Revolutionary Road [2008]


Tell me the truth, Frank, remember that? We used to live by it. And you know what's so good about the truth? Everyone knows what it is however long they've lived without it. No one forgets the truth, Frank, they just get better at lying.

Quando Kate Winslet e Leonardo DiCaprio se reencontraram no grande ecrã em «Revolutionary Road», já não lhes podia sair da "pele" a memória da dupla como protagonistas de «Titanic», de James Cameron. Nesta obra os dois estão noutro filme de época, mas que tem um contexto e um conteúdo completamente diferentes da fita oscarizada de 1998, e ainda bem. Porque ao contrário de «Titanic», «Revolutionary Road» não é uma narrativa embelezada pelos efeitos especiais e pelas mais modernas técnicas de efeitos especiais, flutuando o vazio do enredo na magnitude da sua estrutura formal. Realizado por Sam Mendes (um cineasta tão diversificado que consegue concretizar maravilhosas produções independentes como «Um Lugar para Viver» como também grandes produções de Hollywood como «Skyfall» - que deu uma nova frescura e interesse ao franchise de James Bond) e baseado no livro homónimo de Richard Yates, esta é a história da vida de um casal, e dos seus confrontos com as imposições da vida real. Como não tem nenhuma "fofura" ou alguma delicadeza excessiva que encontramos no romance de «Titanic», muitas pessoas deixaram este filme de parte, por ser incrivelmente duro e esmagador. Nem sabem o que perdem, porque encontrariam, se vissem o filme com uma vista descuidada, uma película que, com o seu charme muito especial, filma algo que é invulgar de se encontrar no Cinema americano. Não há floreados, apesar da lindíssima fotografia nos querer dar essa ideia (ou melhor ainda, que naquele ambiente aparentemente perfeito há mais destruição do que possamos estar à espera), nesta reflexão sobre a rutura das relações amorosas e o mal estar do casal na sociedade daquela época, que nos quer parecer tão linda e poética. Vemos o casal a conhecer-se e, logo a seguir, Sam Mendes faz uma transição logo nos primeiros minutos para o pós-casamento, e para o primeiro foco de tensão e de discussões que iremos ver neste filme, que crescem gradualmente e por razões cada vez mais complexas naquilo que constrói o fabuloso drama familiar e social que é «Revolutionary Road».


Os sonhos do passado e a realidade do presente fazem a grande temática do filme: April e Frank são o casal cuja vida quotidiana faz o ideal do que é o "sonho americano" para muitas pessoas. Mas eles não estão satisfeitos com as boas condições e o status que conseguiram atingir. Ambos querem viver a vida como esta deve ser vivida - algo que é um preconceito para todos os que querem ter uma visão "realista" das coisas. Contudo, todos nós temos sonhos e ambições, mas por causa do lado real que nos pesa tanto, e do medo de arriscar que nos leva a rejeitar tantas oportunidades e situações, preferimos submeter-nos ao sistema "psicológico" que tem uma força tão grande que consegue destruir uma parte da liberdade individual de cada ser humano. As pressões são muitas, mas os Wheelers vêm esta "fuga" do convencionalismo das suas vidas como a única chave para conseguirem acabar com a desordem que causa a aparente ordem repetitiva, chata e monótona do dia a dia. A derrota parece inevitável: de que vale arriscar se as estruturas "fiáveis" e "seguras" estão lá para combaterem isso mesmo, graças a noções de sucesso e de reputação que são efémeras e que não validam a eternização do sujeito (apenas lhe dão pão para comer, que é algo já muito precioso e essencial)? A angústia de estar neste ambiente de segurança, e de não se seguir aquilo que se quer fazer, não será maior e mais prolongada do que a angústia de se sair mal por se ter arriscado uma vez? «Revolutionary Road» deixa muitas perguntas, e não há só um romance aqui (felizmente). Não só o filme é lindíssimo em termos visuais (palmas para a fotografia e para a impecável reconstituição de época), como é hábil e engenhoso a filmar uma história intimista, mas que toca a todos nós por falar dessas pequenas imposições da vida que nos querem desviar daquilo que queremos fazer mesmo enquanto por aqui andamos. Lá diz o provérbio (que aqui se adequa perfeitamente, e poderia até ser um slogan muito interessante), "quem não arrisca, não petisca"...


Amargo, desencantado e avassaladoramente real, «Revolutionary Road» não será um filme que possa agradar aos fãs de «Titanic». Aqui não há nenhum dos ingredientes que tornaram a obra de James Cameron um bombástico êxito mundial, à exceção da dupla de protagonistas, que aqui são muito melhor "utilizados" e não servem apenas para decorar uma odisseia romântica numa viagem marítima. É uma história de medos e de preocupações, que levam a novas discussões e desagrados sobre novos medos e novas preocupações que surgem com a racionalidade deste homem e desta mulher, e que os quer impedir de, por uma vez, poderem sonhar sem limites. Quando os outros não querem que nós não sejamos como os outros, a questão que sobressai é como resistir a tamanha dimensão da maioria em relação à nossa individualidade. E o filme deixa o espectador espantado por todo o seu conteúdo e por toda a sua alma, onde paira o espírito livre das duas personagens centrais, que não acreditam que concretizar desejos e sonhos possa ser a coisa mais irreal de sempre, porque são as convenções impostas que destroem a convencionalidade do casal (ou por outras palavras, são essas convenções que vão criando mágoas na relação e do matrimónio estabelecido), e a normalidade acabará por causar mais estragos por ser isso mesmo, normal. E o que Sam Mendes nos mostra é que as relações humanas são falíveis porque os seres humanos as tornam falíveis pelas mais pequenas e pelas mais gigantes razões, todas elas exploradas, de uma forma ou de outra, no filme. Uma obra esmagadora, que nos deixa um vazio, quando nos apercebemos que, tal como na vida que conhecemos, a mediocridade permanece e as pessoas não evitam cair no esquecimento, tal como todas as "outras". De que valem felicidades disfarçadas quando não se soube arriscar e fazer aquilo que não foi ousado fazer antes? Nada. E isto não é uma crítica. São apontamentos dispersos mentais que ficam connosco depois de ver «Revolutionary Road», e que merecem ser percebidos e visionados como deve ser. Uma fita magnífica, sobre a qual não consigo fazer um texto de apreciação. O que os olhos captam com a beleza das imagens é tudo o que se pode apanhar deste filme. Parabéns a Sam Mendes, a Kate Winslet e a Leonardo DiCaprio: podem não ter ganho nenhum dos prémios que todos os "outros" ganham (se bem que, de quando em vez, são premiados quem merece!), mas sobressaem porque fizeram um filme que entra no espectador, e de que dele nunca mais sairá. Sensações destas valem mais do que qualquer estatueta, e são muito mais eternizáveis...

* * * * *

Post-scriptum: há uns anos vi este filme pela primeira vez, mas não foi nas melhores condições - estava com um grupo de amigos -, e devido a isso, não me deixei entrar na narrativa por causa de tudo o que me rodeava nessa altura. Fiquei com uma má recordação do filme, talvez também porque não possuía uma certa sensibilidade como a que tenho agora (se no passado tivesse visto a trilogia «Before» do Richard Linklater, sei que, provavelmente, não teria gostado nada), e felizmente fui acordado a redescobrir como deve ser esta fita. Senão, mal sabia eu o que poderia estar a perder...

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tintin já tem 85 anos


Um dos meus heróis de infância não passava de uma figura fictícia que se aventurou por páginas de (geniais) álbuns de BD. Esse meu ídolo faz hoje 85 anos, e não perdeu, com o "envelhecimento", nenhum do espírito de aventura e mistério que o caracterizam desde sempre, continuando a conquistar miúdos e graúdos. 

Hoje em dia, o repórter mais famoso do mundo está não só nos livros, mas também em múltiplos jogos, programas de televisão e filmes (e só o mais recente é que consegue captar a alma do personagem criado pelo magnífico Hergé), e permanece uma figura espectacular, e um exemplo para todos os contadores de histórias da contemporaneidade. Um moço cheio de audácia, e com o qual eu e milhões de leitores de todo o mundo aprenderam certas lições morais e sociais que nos poderiam ter escapado, não fossem as peripécias deste herói. 

Não tenho um álbum preferido, mas este da foto («Os Charutos do Faraó») é um dos que mais vezes li em toda a minha "nerdice" de devorador de banda desenhada. A cada nova passagem encontro sempre pormenores novos e espantosos! Hergé fez uma obra não muito longa, mas cuja densidade e complexidade são inesgotáveis. 

Ao longo dos anos voltei várias vezes ao universo deste detetive e dos seus inesquecíveis e hilariantes comparsas, e felizmente, não é um universo infantil. Que tentem os mais velhos tentem aos livros, e encontrarão mensagens absolutamente surpreendentes de sátira e crítica social e ainda muito atual, reveladoras da inventividade e do génio do Criador. 

Muitos parabéns Tintin. Que contes mais 85, e mais 85, e assim por adiante. Até à eternidade. 

P.S. - E que estreie rapidamente o segundo filme da trilogia do Spielberg e do Jackson!

Filmes em 60 segundos: Bob le Flambeur [1956]


O quarto filme de Jean-Pierre Melville é uma interessante experiência no heist-movie (antes do género ser denominado como tal), que iria influenciar obras posteriores (como a trilogia «Ocean’s»). Com várias influências americanas e reinvenções de géneros cinematográficos e narrativos, aqui conta-se a história de Bob, um jogador compulsivo e um assaltante “reformado”, que decide concretizar um assalto impossível a um casino. Tem algumas imprecisões e excessos que, com o tempo, deixaram de funcionar tão bem, mas a previsibilidade de parte das situações não retira o mérito ao maravilhoso elenco (encabeçado por Roger Duchesne) e à banda sonora inspirada do filme. Mostrando o lado do crime (e dos detalhados esquemas de preparação do fabuloso golpe) e o lado da polícia, o realizador filma uma narrativa com um certo pendor experimental, “noir” e audaciosa, que comprova algumas das marcas de estilo e de criatividade que se consolidariam noutros projetos posteriores de Melville. 

★ ★ ★

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Filmes em 60 segundos: O Falso Culpado (The Wrong Man) [1956]


Manny Balestrero (Henry Fonda) é um músico acusado de um crime que não cometeu – um dos temas preferidos de Alfred Hitchcock – em «The Wrong Man», uma história real que tem proporções tão invulgares e curiosas que o próprio realizador faz uma introdução ao seu filme, alertando que o espectador está prestes a ver uma história que possui “elementos mais estranhos do que toda a ficção de muitos dos thrillers que fiz antes”. O que atrai o cineasta para este caso é a forma tão simples como se condena um indivíduo isento de qualquer culpa, e é isso que vemos na performance de Fonda, e na alteração do estado psicológico da mulher da sua personagem, Rose (Vera Miles é magistral). Indiscreto e incisivo, Hitchcock assinou um filme diferente, entusiasmante e cativante, onde vemos o suspense a entrar na vulgaridade do real neste retrato inquietante e preocupante de um problema muito sério.

★ ★ ★ ★ 

Filmes em 60 segundos: Bulworth - Candidato em Perigo [1998]


Warren Beatty é um senador que, de um momento para o outro, altera a sua atitude em tempo de campanha e começa a “revolucionar” e a desafiar um sistema de ideias e de relações de poder, misturando injustiças sociais, corrupção e uma boa dose de hip-hop. O ator e realizador destrói todos os males da política e das suas prejudiciais consequências para a sociedade americana, com um argumento astuto, original e muito espirituoso. Um filme que é desconcertante e que desconcerta o espectador pela sua invulgaridade, e por brincar com as coisas sérias que todos nós estamos sempre a criticar e que fazem o estereótipo repetitivo, mas infelizmente real, dos jogos de poder e de dinheiro das ideologias. Quando o humor da sátira corrosiva de «Bulworth» nos contagia, não deixa, contudo, de nos fazer pensar nos graves problemas que são abordados e que são o pão nosso de cada dia.

★ ★ ★

O Cinema de Hong Kong está de volta a Portugal


A Mostra de Cinema de Hong Kong volta pela quinta vez a Lisboa, e pela primeira vez, vai estar no Porto! Mais informações neste meu novo artigo para o Espalha Factos!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Life Itself - o documentário sobre Roger Ebert



Está quase a sair o documentário sobre o fantástico Roger Ebert. Vai estrear no Festival de Sundance e nele participa muito boa gente. É realizado pelo homem que fez o filme preferido dos anos 90 pelo crítico («Hoop Dreams») e tem produção executiva de Martin Scorsese. Um filme sobre o homem que era muito mais do que um notável crítico de Cinema, que pretende abordar as várias facetas do maior ícone da escrita cinematográfica das últimas décadas. Este vídeo é um incentivo à campanha para ajudar a pós-produção do documentário. 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O Passado e o Presente dos posters de Cinema



Os posters dos filmes já não são o que eram. Antes, o poster era uma das maiores fontes de criatividade do marketing de uma obra. E hoje em dia... é o que sabemos. Um vídeo muito esclarecedor que todos os cinéfilos (e apreciadores desta bela arte - sim, porque fazer posters como se fabricavam nos anos 40, 50, 60, 70, 80 e 90, é uma grande e lindíssima expressão artística) deverão gostar de visionar.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Dois Homens e um Destino (Butch Cassidy and the Sundance Kid) [1969]


"Most of what follows is true", lemos no início de «Butch Cassidy and the Sundance Kid», após uma introdução peculiar, em que vemos um pequeno retrato dos dois lendários foras-da-lei, em tons sépia, enquanto os créditos iniciais passam. Essa "cor" manter-se-á até uma certa altura da fita, com certamente um propósito específico, e mesmo que tudo o que vejamos a partir daí não seja verdade, tal como o próprio filme nos quer provar, nunca foi esse o grande problema dos filmes western, e da forma como as lendas foram "pintadas" no ecrã pelos grandes realizadores deste género cinematográfico. É de recordar que, com «O Homem que Matou Liberty Valance», ficou imortal a frase "Quando a lenda se torna um facto, publica-se a lenda". E não são as lendas e as ficções que mais gostamos de conhecer, no Cinema e fora dele? Não é a partir das imagens irreais que criamos sobre mesmo as pessoas que mais admiramos, que nos movem e nos conduzem a certos caminhos? Pois bem, felizmente, esta película de George Roy Hill não tem como objetivo essa reflexão sobre o valor da lenda em comparação com a Verdade, porque há aqui outras coisas: este é um western feito numa época em que já não se fazem westerns - pelo menos, com a regularidade de outros tempos (e apenas um ou outro autor ainda se consegue destacar com o género - veja-se Sergio Leone, que no ano anterior concluía a obra prima «Aconteceu no Oeste».). Revivar algo como a coboiada, que a maioria quer dar como "mortas" para a eternidade, tinha de ser feita, em termos de marketing, da melhor maneira possível. E Roy Hill consegue porque aqui alia um grande argumento, que relembra uma época glorios e aventureira dos EUA pelas peripécias dos seus protagonistas, e por ter como protagonistas uma dupla de atores, cuja química, de tão cómica e singular, são a componente mais marcante de todo o filme. E a parceria entre Paul Newman e Robert Redford resultou tão bem que o realizador voltou a juntá-los, mas numa história de outras vigarices: o premiado «A Golpada».


«Butch Cassidy and the Sundance Kid» é a história de dois dos bandidos mais "temidos" do Velho Oeste, cuja audácia e cujos golpes podem fazer parte da lenda... ou não. Há tantas incertezas sobre aquela época que o que nos vale é que George Roy Hill fez um filme muito divertido, onde se satiriza a seriedade a que estamos acostumados a associar a certas situações cinematográficas, proporcionando uma nova forma de se ver o western. Tem uma ou outra cena despropositada, e que danifica em parte um certo ritmo que torna este filme tão especial (como as duas ou três sequências em que apenas ouvimos música - mais especialmente a que envolve a bicicleta, porque a última até tem algum interesse cinematográfico)? Sim, mas retirando essas pequenas coisas, é uma obra que tem muita imaginação e criatividade, que surpreende pela forma como reinventa certas convenções que podem ter feito muitos fugir dos westerns clássicos (mas que têm tanto para descobrir...), e onde visionamos magníficas sequências de vibrante montagem e deliciosos diálogos. A "páginas" tantas, o filme muda de tom, tal como a reviravolta que se dá nas vidas destes dois criminosos, que sempre se acharam invencíveis, até que o inesperado acontece. Com técnicas e características demarcadamente "60's" (os zooms são uma constante), em «Butch Cassidy and the Sundance Kid» tanto o bom humor aparece sempre e nas ocasiões menos prováveis, como o silêncio do desespero e do medo que Butch e Sundance sentem com o possível fim que podem ter as suas temíveis "carreiras". Filme reconceituadíssimo do Cinema Americano (faz parte da "National Film of Registry" e tudo), é não só uma peça de elevado e inteligentíssimo entretenimento, como um testemunho do poder de divertimento inigualável que só os EUA sabem trazer a todo o resto do mundo. E que vivam as lendas, apesar das críticas que se lhes possam ser feitas - são elas que tornam estas histórias bem mais interessantes...

* * * * 1/2

Novidades e grandes clássicos na seleção do Fantasporto 2014


Todas as publicações destacaram, com grande ênfase, que o filme preferido de 2013 do Tarantino faz parte da seleção do FANTASPORTO para este ano. Mas há muito mais para descobrir. Saibam tudo na nova notícia que escrevi para o Espalha Factos, aqui!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Filmes em 60 segundos: Fúria (Fury) [1936]


«Fúria» é uma muito interessante e reveladora incursão no film-noir. Tem uma demolidora interpretação de Spencer Tracy e fala-nos da influência de uma comunidade num indivíduo inocente que, ao ser acusado de um rapto que não cometeu, causa a selvajaria entre os habitantes da cidade onde está preso. A irracionalidade do colectivo ataca a ordem para fazer a sua própria justiça… injusta. Num misto de romance, thriller psicológico de vingança e “courtroom drama”, em «Fúria» vemos uma vítima a transformar-se, ao procurar vingança pelas consequências que as falsas acusações trouxeram à sua vida. Uma obra com um grande poder ainda hoje, onde assistimos à força negativa que um grupo pode exercer na situação individual de cada um. O final pode ter sido manipulado pelos estúdios de Hollywood, e pode quebrar o ritmo das intenções fabulosas de Fritz Lang, mas felizmente, não estraga todo o brilhantismo e genialidade desta sensacional fita. 

★ ★ ★ ★ 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Adivinha Quem Vem Jantar (Guess Who's Coming to Dinner) [1967]


Os grandes filmes do realizador Stanley Kramer têm sempre uma preocupação socio-cultural incluída na narrativa (e que a ela atribui um suporte especial), numa sociedade que, apesar de se mostrar idílica e paradisíaca, tem ainda muitos obstáculos para ultrapassar e que não ajudam a concretizar para a realidade essa dita ilusão. Em «Inherit the Wind» vimos o fanatismo religioso a combater as novas formas de pensar, que vão contra a norma estabelecida na pequena cidade do filme. No «Julgamento de Nuremberga» pudemos acompanhar um dos processos de condenação dos homens envolvidos num dos mais horríveis e trágicos crimes da História da Humanidade. E neste «Guess Who's Coming to Dinner», encontramos vários dilemas das relações humanas (e que, ao contrário do que muitos apregoam, não se resume às questões dos preconceitos raciais). O que liga também estes filmes é a coragem de Kramer, que filma histórias sobre temas controversos nas épocas em que a controvérsia é ainda de maior escala, e neste último título do cineasta, não nos podemos esquecer que ainda se sente a larga presença do racismo nos EUA, e pouco tempo depois da estreia, o líder Martin Luther King Jr (que revolucionou a sociedade americana do seu tempo, ícone da luta pelos direitos dos negros) foi assassinado, e em consequência, uma pequena piada sarcástica da fita teve de ser retirada nas exibições feitas após o homicídio. Daí, pegar nesta história de um casal que tem de aprovar o casamento da filha com um médico negro numa altura conturbada como a dos finais dos anos 60, poderia ser um risco quase "suicida" para todas as pessoas que nela estiveram envolvidas. Contudo, a película foi um sucesso (mesmo nos estados assumidamente racistas do Sul dos EUA), e talvez pelo facto de não se centrar apenas na questão da raça. Há outros temas, talvez até aprofundados com mais densidade, que não podem ser deixados de parte enquanto se visiona a obra: o dilema da mudança dos tempos e do conflito de gerações (onde os mais velhos chocam com os mais novos devido a pormenores insignificantes), a velhice dos Pais, e o confronto entre Pais e filhos, na etapa da vida dos segundos em que eles já querem voar com as suas próprias asas. Assim, o possível matrimónio do filme é apenas um pretexto para abrir horizontes mais vastos, e que fazem toda a psicologia narrativa de «Guess Who's Coming to Dinner».


É um filme que retrata as tensões entre os membros de uma família, num ambiente aparentemente bonito e reconciliador, mas que tem os seus pequenos "demónios", onde ideias pré-concebidas e preocupações parentais se conjugam tanto para o lado da ingénua filha como para o lado do noivo dela - e não estamos a falar de racismo, porque felizmente, não temos nenhuma personagem com ideias estereotipadas nesse tipo de coisas. Os estereótipos existem nas personagens e naquilo que representam, mas as convenções que "pintam" são uma chave importante para a história - e foram feitas assim propositadamente pelo cineasta, porque depois a maneira como se lidam com os temas da narrativa é feito sem nada de cliché ou de irrealista, porque se trata do caso como seria visto por uma qualquer pessoa "vulgar", e não por um conjunto de estrelas de Hollywood que tem mais importância que o resto do Mundo. Poderia ser uma peça de teatro, pela construção das cenas e da disposição do cenário e dos atores, mas tem grande poder cinematográfico graças ao trabalho de Stanley Kramer e do formidável argumento de William Rose. Os pequenos apontamentos cómicos e familiares são deliciosos, assim como o lado estético e cultural marcadamente "sixties", mas que até tem alguns pontos em comum com a vida atual (na parte social, não na parte "kitsch"), porque os problemas nunca mudam, apenas o conteúdo em que estão "transformados". O filme é mais inteligente e não vai pelas ideias e conclusões que todos nós sabemos e esperamos encontrar, o que mostra mais um título de sucesso feito por Kramer, e que já era uma receita que fez resultar as suas obras anteriores. E este filme pode ser muito direto e incisivo nas discussões dos problemas, mas é assim porque retrata essas discussões no seio de uma família, onde os conformismos desaparecem com a situação a tornar-se cada vez mais difícil de ser resolvida.


«Guess Who's Coming to Dinner» consegue ser, no seu todo, um retrato da América dos anos 60, e que ainda não mudou muito, quarenta e seis anos depois da estreia da fita. Com brilhantes sequências de diálogos e de situações, acompanhadas pelas grandiosas performances do elenco, é ainda um drama bonito, sensível e moderno, com muito de entretenimento que não é "só" entretenimento, e que no qual Stanley Kramer foi um perito excecional. Mais do que o testemunho de um Cinema profundamente social e dado a fazer pensar e repensar o espectador sobre aquilo que está a ver, «Guess Who's Coming to Dinner» é uma prova viva da grande versatilidade do Cinema Americano e de como, no meio de tradicionalismos formais, se consegue sempre inovar graças às abordagens mais relevantes que transformam uma parte da própria Sétima Arte. Por fim, é de realçar que este foi o último filme interpretado pelo genial Spencer Tracy, que morreu dezassete dias após o final das filmagens, e a nona vez que o ator contracenou com a sua companheira de longa data, a não menos formidável Katharine Hepburn. São eles que dominam toda a conjuntura, assim como as suas duas personagens, que "roubam" o espaço ao acting dos outros atores, destacando-se unicamente, e apesar disso, o grande Sidney Poitier pelas reviravoltas que introduz na sua composição em certos momentos. Quem souber a "trama" dos bastidores atribulados da feitura da fita saberá que Tracy já estava muito debilitado nesta sua derradeira aparição, mas se se visionar a obra, esse cansaço e desgaste é pouco notável. Ele foi um artista com soberba capacidade interpretativa, e soube marcar o seu talento até ao último frame.

* * * * 1/2