segunda-feira, 31 de março de 2014

O Homem Que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much) [1956]


Dois anos depois do sucesso comercial que foi «A Janela Indiscreta», Alfred Hitchcock volta a pegar em James Stewart para trabalhar de novo uma história antiga, de um dos primeiros filmes que tornaram o cineasta célebre em todo o mundo. Na famosa entrevista que Hitchcock concedeu a François Truffaut, ouvimos o Mestre dizer que, enquanto a versão original de «O Homem Que Sabia Demais», datada de 1934, foi feita por um amador talentoso, o seu remake (e o único objeto do próprio realizador que ele quis refazer cinematograficamente) já tem a assinatura de um profissional da área. E não é para menos: algumas cenas são semelhantes entre as duas obras (a grandiosa cena de maior clímax, passada no Royal Albert Hall, ficou para a História), mas enquanto a versão original, que conta com Peter Lorre num dos seus primeiros papéis ingleses, mostra um autor em crescimento, e com curiosidade de experimentar fórmulas e mecanismos diferentes, na versão de 1956 encontramos um Hitchcock no auge da fama e da sua genialidade, e que tem ao seu dispor todos os melhores meios técnicos que Hollywood poderia fazer - há mais rigor, há mais precisão, timing e consciência narrativa, utilizam-se elementos cénicos novos, já Bernard Herrmann é colaborador regular das fitas hitchcockianas, e tudo é feito para arrebatar o espectador nos momentos mais propícios ao efeito. Em 34, ele era uma curiosidade do Cinema; vinte e dois anos depois, já se tinha tornado uma espécie de "magnata" da indústria, com o mundo a seus pés... quando não fugia da norma (sim, não falemos do caso de «Vertigo»!).


«The Man Who Knew Too Much» é um dos filmes mais "certinhos" de Hitchcock entre os seus grandes êxitos, no que toca ao manuseamento das personagens e à manipulação a que se confronta o espectador, não se evitando o "happy ending" inconsequente para a típica família americana perfeitinha, que espalham o patriotismo americano por terras estrangeiras... tudo num grandioso technicolor. Mas mesmo assim, não deixa de ser uma peça única e um grande filme, por ter como mentor essa tão sublime individualidade (porque não existem apenas as meras formalidades que faziam o pão nosso de cada dia de cada época... há a marca de autor, o que nunca deixa de ser essencial e relevante). Com Hitchcock, nada consegue ser totalmente "normal" - e eis aqui a sua chave de ouro, porque para estragar a aparente perfeição deste núcleo familiar (em que Stewart faz parelha com a formidável Doris Day - e não esquecer a música «Que Sera, Sera»), surge um plano de chantagem que estraga as férias em Marrocos do casal e do seu pequeno (e algo irritante) pequenito. O realizador reinventa a sua história com novidades, sendo a primordial uma gestão perfeita do drama, do suspense, da tensão e do palpitar do coração do espectador. Tem um punhado de momentos brilhantes e que se tornaram antológicos, aliando o mais puro e eficaz entretenimento a uma mise-en-scène precisa, fulgurante e entusiasmante. 


Tem alguns dos estereótipos mais predominantes das grandes produções da era clássica de Hollywood, mas «The Man Who Knew Too Much» não deixa de ser, mesmo assim, um mimo cinéfilo. Além do mais, é um exemplo de criador de estereótipos futuros, com inúmeras cópias de movimentos e ideias de Hitchcock a serem planeadas por vários realizadores posteriores (a maioria sem granjear grande sucesso na sua imitação/ "homenagem"). Pode não ser um dos mais notáveis trabalhos do cineasta, mas é sem dúvida um dos seus filmes mais arrepiantemente divertidos, e um exemplo formidável de como funciona muito bem a junção de mestria cinematográfica com culturas e preferências populares. É uma amostra do quanto Alfred Hitchcock gostava de brincar com a fragilidade emocional do espectador e de dar a volta ao que temos como adquirido e garantido, no momento em que não estamos mesmo nada à espera que isso aconteça. Contendo um dos temas preferidos do autor (o homem envolvido numa encrenca devido a um pequeno acidente de percurso - veja-se ou reveja-se «O Falso Culpado» e «Intriga Internacional, por exemplo), «O Homem Que Sabia Demais» é um dos títulos mais agradáveis e surpreendentes de Hitchcock, que apesar de se poder ter desvalorizado com o tempo (isto em algumas interpretações mais forçadas ou descontextualizadas, tal como certos momentos mais tecnologicamente datados), acaba por sair valorizado porque ele soube aproveitar o melhor que os pequenos momentos têm para oferecer, para os tornar Grandes, e naqueles que nunca conseguirão sair da nossa memória... e da memória do Cinema.

* * * * 1/2 

sábado, 29 de março de 2014

Não Matarás (Krótki Film o Zabijaniu/A Short Film About Killing) [1988]


No dia a dia banal e vulgar de uma cidade polaca, é-nos apresentado um conjunto de vinhetas que têm o ato ou o impulso de matar como denominador comum. É verdade que Krzysztof Kieślowski, o realizador deste «Não Matarás», se irá centrar nas relações dramáticas e trágicas que irão unir três personagens (o taxista, o jovem assassino e o advogado inexperiente e pouco seguro de si). Mas o realizador vai mais longe: com esta versão expandida do quinto episódio da mítica série televisiva «Decalogue», de sua autoria,  na qual perseguimos uma panóplia de personagens que sonham, refletem ou desejam destruir algo, ou alguém - e a maior parte desses desejos refletem-se em pequenos gestos e intenções subliminares, mostrando que a morte não se limita apenas à forma física de a concretizar, diversificando-se nos outros (e arrepiantes) sentidos do termo. E quem será mesmo o mau da fita nesta história tão bem contada e pensada: algum dos pequenos membros da comunidade cujo quotidiano acompanhamos a cada passo? Ou todo um sistema que, por meios psicológicos e subversivos, consegue ser ainda mais mortal do que tudo aquilo que as personagens poderiam fazer, em prol da aniquilação, se se juntassem para formarem um esquadrão de luta pelo falecimento? «Não Matarás» fala das várias mortes que assolam as grandes metrópoles, as pessoas "inocentes" que nelas se passeiam, e os "assassinos" que as planeiam pelas mais variadas maneiras - e não falamos apenas dos que matam mesmo no sentido prático da questão, é preciso voltar a lembrar...


As três personagens tornam-se o centro das atenções da visão suja, negra e obscura que Krzysztof Kieślowski retira da vida urbana na Polónia, e encontram-se por causa dos objetivos obscuros de uma delas. Dois homens fazem a destruição alheia, em níveis mais ou menos graves de impacto emocional e físico, enquanto que o outro testemunha apenas o processo que leva o criminoso a ser  dominado pelo sistema judicial, e pelas razões tão diretas e objetivas que comprovam a sua culpabilidade naquele crime estranho em que esteve envolvido. «A Short Film About Killing» é isso mesmo, uma obra curta, que não chega a uma hora e meia de duração - mas isso não a impede de conseguir suscitar no espectador uma sensação poucas vezes conseguida. Uma provocadora análise da natureza do ato de matar, da morte física e da morte social (que pode ter consequências semelhantes à da primeira - o desaparecimento do indivíduo, ou a sua exclusão, da comunidade em que está inserido, pode atribuir-lhe o estado de "morto" de forma instantânea - é o poder do coletivo sobre a condição miserável de se ser "uma parte do todo"), e uma fascinante metáfora sobre o ciclo de crime, castigo, culpa e rendição que não pára de surpreender e de obcecar a mente humana... e a sua cultura. Kieślowski criou um filme com intenções muito específicas, e que dentro da sua pequenez consegue, por elas, ser maior do que muitos dos "grandes". É claro que, por levantar muitas questões, «Não Matarás» não pode ser visto apenas por uma única e objetiva interpretação (aliás, serão interessantes todos os debates que tenham como tema as mensagens da fita). Mas é o que pretende o cineasta: a partir de uma visão rígida e elaborada do Real, apontar todos os caminhos que circundam estas temáticas, à medida que consegue, também, criar um estudo sobre a manipulação que cria em nós, simples visitantes deste mundo trágico e fatal, mas cuja consciência se deixa levar pela mais pura das ilusões cinematográficas. 

* * * * 1/2

IndieLisboa regressa com muitas novidades do Cinema Nacional e Internacional


Eis um cheirinho do que a edição de 2014 do IndieLisboa vai trazer ao panorama cinematográfico da capital! Podem consultar todas as novidades do Festival Internacional de Cinema Independente no Espalha Factos!

Arnold Schwarzenegger revela detalhes do próximo Exterminador Implacável


O que podemos esperar do quinto Terminator? Arnold Schwarzenegger revela algumas pistas... Parece até ser interessante, mas por outro lado, se olharmos para os projetos em que o suposto realizador esteve envolvido... é esperar para ver. Leiam no Espalha Factos.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Mãe e Filho (Pozitia Copilului) [2013]


Há apenas uma única coisa que danifica Mãe e Filho e as suas pequenas e tão características simplicidades: o trabalho de câmara. Irritantemente documental, inconsistente e descontrolada, a condução das imagens prejudica em parte o ambiente que a história pedia e que a abordagem tentou a todo o custo concretizar, criando uma certa monotonia que, ironicamente, fica associada aos movimentos excessivo da forma de filmar. 

Não é preciso ter medo dos planos fixos, pois estes não fazem mal a ninguém, e ainda há por este mundo muitas alminhas que não procuram filmes apressados e com montagens aceleradas, desejando encontrar, no encanto da sala escura, um espaço livre para contemplarem o ecrã e reflectirem o poder das fitas tal como elas devem ser apreciadas. Pode não ser um mal fulcral do filme, mas dá a sensação que, com uma câmara mais calma e “quieta”, tudo o resto poderia ter saído um pouco mais valorizado. 

Mãe e Filho é uma obra de causas nobres, que não se fica apenas por retratar as discussões constantes entre as duas personagens, e as dúvidas que todos têm uns dos outros. Há aqui uma análise social e psicológica que tem de ser vista e compreendida, e que passa pelas razões da Mãe em proteger tanto o filho: por vezes sentimos que é o instinto maternal e familiar que está a atuar, mas noutras ocasiões, entendemos aquela atitude como algo manipulatório e interesseiro, atribuindo à Mãe uma faceta frágil e perturbante, não deixando Barbu ganhar totalmente a sua independência. 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 26 de março de 2014

“Hollywood, tens cá disto?”: Manhã Submersa (1980)


É a primeira vez que faço um texto para esta rubrica do Espalha Factos, sobre as maravilhas não tão faladas do Cinema português. Decidi pegar no filme mais conceituado de Lauro António, adaptação do romance homónimo de Vergílio Ferreira (que interpreta aqui uma das suas personagens): MANHÃ SUBMERSA. Uma obra a descobrir, urgentemente! Leiam aqui o pouco que eu tenho para dizer sobre este tesouro nacional.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A Loja dos Suicídios (Le Magasin des Suicides) [2012]


Com as crises que desiludem muita gente (quer sejam emocionais, económicas, ou de outra índole qualquer), haverá mais hipóteses de aumentar a tendência para o suicídio. E esta loja poderá ajudar todos aqueles que procuram acabar com a sua própria vida segundo os seus desejos mais diversificados: desde venenos a harakiri, passando ainda por revólveres e os "clássicos" enforcamentos, há de tudo na casa muito visitada e prestigiada dos Tuvache, o estabelecimento mais requisitado no mercado suicidário. E sim, por tudo isto, «A Loja dos Suicídios» poderia parecer uma animação depressiva e repugnante para a maioria do público português, que ainda acha que todo o filme animado é dirigido só e exclusivamente à criançada... mas que se engane quem ainda quer pensar que a bonecada é apenas para miúdos. Patrice Leconte realiza, na sua primeira investida no Cinema de animação, uma comédia muito, mas muito negra, e não menos musical, que é relevante para as dificuldades que temos Hoje de enfrentar, a que ninguém pode mesmo ficar indiferente. Se por um lado os exageros humorísticos da narrativa servem para criar um estilo próprio e que em muito deve às ideias de Tim Burton, por outro, é notória a intenção de se confrontar o espectador com a triste realidade, onde não prevalecem cantigas nem ironias em desenho animado. Uma loja como esta pode não existir no "nosso mundo", mas se retirarmos a camada de (bonito) floreado e ficção da trama, conseguimos perceber que os risos que esta estranha família e o bizarro negócio do qual fazem o seu quotidiano não tem tanto de non-sense como nos parece...


Uma animação muito divertida, sádica e inteligente, que brinca com a morte e todos os clichés a ela associados, «A Loja dos Suicídios» pretende apenas que o mundo seja um sítio melhor para viver, livre de depressões e das tais tentativas de suicídio. Pode parecer uma mensagem simples, mas não deixa de ser essencial na atualidade, mesmo que os filmes não consigam "mudar" o mundo. Pode ter algumas ideias previsíveis (sim, o final será exatamente aquilo que o espectador estará a prever a partir do momento em que a família Tuvache ganha um novo membro, o filho sorridente e bem-disposto que é, por isso, o "martírio" para o negócio), mas não deixa de ser uma delícia animada, e mais uma peça de resistência contra a aparente ditadura do 3D na arte dos desenhos animados (há algum aqui, mas são as duas dimensões que dominam o filme). Com uma panóplia de personagens hilariantes e um sentido de humor extraordinário, provocador e invulgar, «A Loja dos Suicídios» passou mais ou menos despercebido por Portugal e parece ter sido mal compreendido um pouco por esse mundo fora - em parte porque um conceito destes é difícil de explorar e de ser aceite pelas massas que frequentemente (ainda) vão ao Cinema, e ainda porque se trata de um filme de animação... francês, fora dos ditames americanos que fazem as delícias repetitivas dos espectadores. Esta não é uma obra para crianças, mas para os Pais se divertirem e, mais importante ainda, para pensarem no que estão a ver, rindo dos variadíssimos e obscuros "gags" da fita e apercebendo-se sempre que, no meio das grandes gargalhadas, existe um pano de fundo cruel, frio e realista que inspirou a criação desses formidáveis momentos de humor. Uma comédia assombrosa e uma pequena pérola deliciosa. 

* * * *

E a data de estreia da nova temporada de Um Lance no Escuro é...


Quarta feira, 2 de Abril, à noite.

Vamos estar numa nova emissora, a Rádio Autónoma, da Universidade Autónoma de Lisboa, e o programa terá algumas diferenças em relação à primeira temporada.

Será mais curto (30 minutos certos - com hipótese de ter episódios aumentados, se a cavaqueira  assim proporcionar, que serão depois carregados na íntegra para o podcast) e centrar-se-á mais na parte de entrevista. A rubrica das bandas sonoras desaparece, mas planeio fazer uma edição especial todinha dedicada à música no Cinema.

Para mais novidades, não hesitem em consultar a nossa página de facebook

O Sonho de Wadjda [2012]


O Sonho de Wadjda foi a primeira obra escrita e realizada por uma mulher saudita, e o primeiro título a ser rodado integralmente na Arábia Saudita. Por isso, Haifaa Al-Mansour não só assinou um feito notável em termos artísticos, como também a nível histórico e social. Não é todos os dias que algo do género chega a terras lusas: estamos perante o início de uma nova forma de se fazer Cinema, num país que, infelizmente, continua a defender rígidas e apertadíssimas leis fundamentalistas e discriminatórias.

O que faz a realizadora, com as circunstâncias e condicionamentos da Arábia Saudita e a história (simples, mas bonita) que tem em mãos, não poderia ser mais apropriado: com a coragem de ser a primeira mulher a realizar um filme naquele país, Haifaa Al-Mansour aproveita para dissecar todas as desigualdades entre sexos que se sentem diariamente naquela cultura, acompanhada por uma ligação demasiado dependente às ideias religiosas, presentes em todos os pormenores do quotidiano (sendo que a maioria deles podem causar choque a nós, espectadores de países ocidentais).

Ao explorar uma sociedade muito restrita e contraditória, O Sonho de Wadjda aproveita a coragem das suas intenções para nos trazer uma experiência precisa e direta sobre os valores árabes ancestrais na contemporaneidade. Tal como a protagonista, que não se preocupa em prever as “feridas” e ruturas que terá de provocar para conseguir a tão amada bicicleta, também Al-Mansour decide, corajosamente, não ceder às ordens do Cinema convencional do seu país, mostrando a realidade tal como ela é, sem ter a ausência de alguma coisa ou a presença exagerada de situações emocionais.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

domingo, 16 de março de 2014

Filmes em 60 segundos: O Exterminador Implacável (Terminator) [1984]


Mais do que um simples filme de acção mainstream (onde estão incluídas grandes doses de pancadaria e efeitos especiais), «Terminator» é um exemplo do uso da mais pura criatividade, para um conceito que poderia apenas ser manipulado para encher mais um grande chouriço cinematográfico. É um bom blockbuster que não se fica pelo lado pipoca, onde se destaca a originalidade, pelo seu tão bem executado entretenimento (que felizmente, não se limita a passar imagens aleatórias numa playlist de rebaldaria para o espectador) e pelo estilo puramente 80’s, inimitável na modernidade pouco inventiva. Apresenta um dos vilões mais icónicos do grande ecrã, que valeu a Schwarzenegger o estatuto de lenda, e James Cameron injecta uma faceta social e narrativa muito bem construída e verdadeiramente apelativa. Permanece perturbador, surpreendente, envolvente e eficientemente enervante, aproveitando todas as componentes do género, elevando-se, por isso, a um patamar que poucos filmes de acção desejam alcançar.

★ ★ ★

Fruitvale Station - A Última Paragem [2013]


Recorrendo a técnicas vulgares do Cinema do nosso tempo (como a câmara desorientada e obcecadamente documental), eis uma película que se propõe a quebrar outras vulgaridades, ao nível da elaboração da narrativa e da montagem: Fruitvale Station começa com uma gravação amadora e anda para trás e para a frente na linha temporal da história dramática e cativante de Oscar, sem cair em sentimentalismos fáceis (como outros filmes extraídos de “histórias verídicas”). 

Vemos um retrato indie do lado urbano e suburbano da América, que sendo de curta duração, acaba por pecar em, mesmo assim, parecer demasiado longa. Mas é impossível que o espectador não se deixe levar pelos pequenos dramas familiares que poderá ver, mesmo que alguns deles tenham um lado demasiado propositado e convencional. O que interessa aqui é a mudança da personagem principal, e todas as coisas que decide fazer para tornar essa mudança viável, quer seja pelas pequenas mentiras que Oscar conta às outras personagens para justificar os seus atos, quer pela importância que atribui a todos os que o rodeiam.

Ryan Coogler não cede à típica “poesia” emocional estupidificante, proporcionando um lado mais inteligente e subtil ao filme e abordando com inteligência e impacto uma série de temáticas que estão inerentes à sociedade norte-americana (sim, o racismo é uma delas). E Michael B. Jordan é o melhor de Fruitvale Station, num magnífico e impressionante leque de atores. Uma interpretação audaz, sem deixar de ser humana, sensível e credível, aproveitando as várias e contraditórias andanças do protagonista para criar uma composição notável, orientando-se muito bem entre a “realidade” e a ficção que paira na fita.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

sábado, 15 de março de 2014

The Railway Man - Uma Longa Viagem [2013]


The Railway Man não é mais do que um simpático exercício de lugares-comuns e ideias feitas, que aproveita, com todos os meios e todas as oportunidades, o facto de se enquadrar dentro do género cinematográfico popularíssimo que dá pelo nome de “based on a true story“. É o chamariz para uma fatia de espectadores que só considera este tipo de histórias as únicas que conseguem ter realismo e credibilidade (sim, porque o resto é pura fantasia), acreditando mesmo que nenhuma ficção pode ser mais real do que qualquer encenação da realidade.

O grande problema desta película não reside, contudo, no uso e abuso dessa trademark que tanto rodeia os filmes americanos (porque há uns casos em que esta é mais bem usada do que noutros). As grandes maleitas desta pequena desilusão estão mesmo nos adjetivos que lhe podem ser primeiramente associados: é uma fita desequilibrada, interminável e preguiçosa, que se apoia na fama das estrelas que a protagonizam para tentar elevar-se a um patamar que nunca conseguirá atingir.

Sim, a fórmula não é nova em Hollywood nem no Cinema em geral, sendo uma ideia com barbas já longas e farfalhudas.  Não devemos esquecer também que este é mais um número do inesgotável franchise de fitas na II Guerra Mundial, mas não deixa de ser uma obra cujo trailer deixa o espectador muito mais bem servido do que se vir o filme em toda a sua duração.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Morreu Hal Douglas, a inconfundível voz dos trailers


Um dos mais famosos locutores dos trailers de Cinema morreu na passada sexta-feira em casa, situada na Virgínia, EUA, aos 89 anos. Uma voz inesquecível e que será sempre recordada. Mais informações no Espalha Factos.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Woody Allen: 10 filmes que são melhores que «Annie Hall»


Sendo Woody Allen um dos meus realizadores preferidos, é-me injusto que a maioria das pessoas só se refira a ele pelo filme «Annie Hall». "Chateia-me" um bocadinho que se esqueça uma carreira de quase meia centena de filmes realizados (e mais uns quantos argumentos escritos e interpretados para outros filmes e programas de TV) por se lembrar apenas aquela obra que, para mim (e esta expressão é essencial para o resto do artigo), nem é uma das melhores do seu curriculum. Não digo que não gosto de «Annie Hall» - muito pelo contrário, sou grande apreciador. Mas pura e simplesmente, não acho que seja uma das peças-chave do realizador/argumentista/ator. Tem muitos apontamentos cómicos geniais, mas nos anos seguintes, Woody Allen conseguiu fazer fitas muito melhores, que superam a nível cinematográfico e narrativo a história meio experimental (mas carregada de muito neurotismo) que ele assina e protagoniza com Diane Keaton. Proponho aqui dez filmes de Allen que, se não conhecem, deveriam conhecer. A minha intenção não é comparar obras, mas simplesmente pegar todos os fãs de «Annie Hall» pelo título "provocador" deste post e fazê-los conhecer mais do Woody do que aquilo que já viram. Parem apenas de monopolizar as coisas para um ou outro título deste artista. Ele tem muito mais do que se lhe diga... Comecemos então esta contagem, organizada cronologicamente (e se carregarem em cada um dos epítetos das películas, serão reencaminhados para críticas mais extensas sobre os mesmos que publiquei aqui no blog).



Sim, é outro dos filmes mais famosos do comediante. Mas tem uma fórmula muito mais bem conseguida, aprofundando sentimentos e ilusões que o Woody de «Annie Hall» nunca se lembraria de colocar nas suas narrativas. Além de, a nível cinematográfico, ser um esplendor (graças à maravilhosa fotografia a preto e branco do filme), «Manhattan» é uma das comédias amargas mais bonitas do cineasta e aquela que mais grandiosidade atribui à persona neurótica de Allen.



Um dos filmes-homenagem ao Cinema mais originais de sempre, «A Rosa Púrpura do Cairo» é outro filme de Allen que joga com os sentimentos ilusórios de uma personagem, desta vez uma mulher ingénua que está apaixonada pelo poder dos filmes, e que de repente... vê o seu herói das fitas sair da tela para a amar como ela sempre quis que amasse. Woody brinca também com a realidade e a ficção, ao contrapor o personagem do grande ecrã e o ator que o interpretou, num misto de confusão, romance e drama que faz desta fita uma pérola lindíssima e irrecusável do Cinema americano.



De todos os Woody Allens, este é o meu preferido. Nunca um filme dele me agarrou tanto como este. E gosto tanto dele que me recuso sempre a mencioná-lo na tradução portuguesa literal (que torna a Hannah do título numa cidadã lusitana). Já tinha visto vários trabalhos do Woody antes deste («Annie Hall» incluído!), e depois de ver mais uns outros tantos, não tenho dúvidas em dizer que, até agora, «Hannah e as suas Irmãs» é, para mim, o seu filme mais bem conseguido. Se há algumas das temáticas habituais da correnta woodyalleniana aqui, como há noutras tantas fitas? Há, sim senhora. Mas esta história tem algo de especial. Esta trama de romances trocados, neurotismo existencial e o dia de Ação de Graças vai ainda mais a fundo às preocupações da persona de Woody, não se centrando, porém, apenas nela, e investigando de uma maneira subtil e genial as intenções de cada uma das personagens que compõem esta maravilhosa obra prima. Critiquem-me à vontade, não mudarei a minha opinião.



Um dos dramas mais fortes e psicologicamente complexos do autor. «Crimes e Escapadelas» envolve amores, um crime aparentemente perfeito, e a importância da culpa e da consciência de se ser culpado de algo. É um dos poucos filmes de Woody Allen que nos deixa um gostinho esquisito no organismo, porque percebemos que, como se sucedeu em raras ocasiões, ele quis dar a volta à imagem estereotipada que fazemos dele, e de alguns dos seus filmes mais centrados apenas na sua persona. Surpreendente e envolvente, uma trama à qual ninguém consegue escapar.



Uma das comédias mais divertidas e implacáveis de Woody Allen. Filme de época que homenageia o período dourado dos filmes de gangsters e do domínio do crime organizado numa América que não parava de crescer, é a história dos dilemas de um dramaturgo em busca da sua criatividade, e da estranha paixão que nutre por uma lendária atriz daquele tempo. Mais um filme invulgar na filmografia do autor, que ridiculariza costumes americanos e todas as particularidades de uma época conturbada, que a Sétima Arte se encarregou de embelezar na tela.



É uma sátira às tragédias clássicas gregas (temos direito a um coro que nos conta a história e tudo) e uma belíssima composição das relações humanas em situações mais ou menos atribuladas. Vemos uma das melhores personagens que Woody Allen magicou até hoje (interpretada pela maravilhosa - e Oscarizada - Mira Sorvino) numa das melhores receitas de criatividade do autor, onde ouvimos canções e se faz um apelo ao melhor que há na vida, apesar de toda a porcaria que rodeia este mundo.



O Harry Block da história é uma alusão a outro Block, o de «O Sétimo Selo» de Ingmar Bergman (Mestre pelo qual Woody Allen tem uma grande admiração), na versão definitiva e "ultimate" do retrato de um autor com problemas de criatividade... e que arranja sarilhos reais graças à ficcionalização, nos seus livros, de grande parte da sua vida pessoal. Talvez seja uma autocrítica de Allen aos seus próprios filmes, ou não... mas «Deconstructing Harry» é outra daquelas obras refinadamente hilariantes e geniais do humorista. É o filme mais "hardcore" de Woody, e um dos seus exercícios de escrita mais precisos e existencialmente adoráveis.



Quando estreou, muitos críticos apontaram «Match Point» como o fulgurante e refrescante regresso de Woody Allen aos grandes filmes. Não menosprezando algumas comédias anteriores (que, admito, eu gosto bastante), este filme é isso mesmo. Apesar de SPOILER SPOILER SPOILER SPOILER poder ser visto como uma espécie de "copy-paste" de «Crimes e Escapadelas» (os temas são parecidos e o desfecho da história também), «Match Point» sobrevive como um filme único do cineasta, que recicla de forma inteligente as suas ideias para dar um retrato fiel da arrogância inglesa. FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER FIM DO SPOILER Tem um dos pares românticos mais emblemáticos da cinematografia neurótica do autor, e uma construção notável, que é mesmo de cortar a respiração.



Foi o primeiro Woody Allen que vi no Cinema, e é um dos filmes dele pelo qual me sinto mais apaixonado. Tem uma lindíssima fotografia, que ilumina Paris como poucos realizadores conseguiram fazer, e possui uma das mais interessantes variações da persona allenesca interpretada por outro ator que não o próprio (outro caso notável é o de Larry David no exemplar «Whatever Works»). Filme de nostalgia e dos enganos trazidos pelos pensamentos ilusórios do "antes é que era" e de "antigamente é que tudo era giro", que Allen dirige com sabedoria, criatividade e muita sensibilidade, aproveitando a magia da capital francesa para dar um brilhante colorido a este jogo de paixões, envolvendo épocas e mentalidades distintas.



O mais recente trabalho de Allen, e uma das suas obras primas modernas, vai ficar para a História não só pela recriação de uma Blanche DuBois moderna, e pela crítica acérrima e muito ácida que a narrativa elabora contra as máscaras de cada um de nós: «Blue Jasmine» sai valorizada por causa de Cate Blanchett. E isso é inegável. O Oscar foi 100% merecido e são raras as ocasiões em que podemos ver uma interpretação tão fulminante como a da genial atriz neste filme. É um murro no estômago, que provoca gargalhadas inconvenientes e que não pode sair do nosso pensamento tão depressa como gostaríamos. Que se calem as bocas que condenam a eterna reciclagem que Woody Allen impõe a si próprio: «Blue Jasmine» veio comprovar que isso é não é de todo verdade. Que ele nos continue a surpreender assim! 

terça-feira, 11 de março de 2014

O Futebol no Feminino recomendou... a Companhia das Amêndoas!


A madrinha Mariana Cordeiro Ferreiro recomendou a minha Companhia das amêndoas no grande blog Futebol no Feminino, no qual escreve, mais as suas colegas, com grande regularidade. E olhem que este estaminé desportivo é muito, mas muito interessante! Espreitai tudo aqui!

segunda-feira, 10 de março de 2014

Este escriba agora faz parte do CCOP


Tenho agora a honra de anunciar que a minha pessoa foi um dos quatro escolhidos para integrar o Círculo de Críticos Online Portugueses. Não posso deixar de agradecer a todas as pessoas que tornaram isto possível, e espero poder contribuir da melhor forma para o Círculo. Muito, mas Muito Obrigado!

12 Anos Escravo foi votado por dois membros que não viram o filme


Não é a primeira vez que algo do género acontece nas votações dos prémios da Academia das Artes e Ciências de Hollywood, mas isso não impedirá que a polémica à volta da vitória de «12 Anos Escravo» continue a crescer. Mais informações numa nova notícia, escrita para o Espalha Factos.

domingo, 9 de março de 2014

Deus Sabe Quanto Amei (Some Came Running) [1958]


- I'll have the best room in the house. 
- Seven-fifty a day? 
- I once promised myself that if I had to come back here I'd have the best room in the house.

O que é preciso para criar uma obra prima? Os ingredientes são incertos e difíceis de qualificar e/ou quantificar, mas a subjetividade é mesmo essencial. E porque se continuam a negar os clássicos ou, pelo menos, todas as películas "arcaicas" que não surgem nas coleções duvidosas do IMDb e afins? Pouco se ouve falar de «Some Came Running», o melodrama de Vincente Minnelli que junta poesia e romance com um formidável leque de atores inesquecíveis, e que em português, foi denominado com um dos títulos mais pirosos que uma fita estrangeira já recebeu na nossa língua. Pode ter algum significado? Sim, mas não deixa de ser desnecessário e inútil, dando uma imagem telenovelesca e desprezível a um filme que pouco tem de banal, ligeiro ou convencional. É uma história de amor, uma história da oposição entre dois irmãos, uma história de adultério e paixões não correspondidas e, acima de tudo, uma belíssima composição da vida em sociedade e dos perigos das fragilidades humanas. Injustamente desconhecido do grande público (apesar de ter sido alvo de uma reposição neste nosso país em 2002) como também da crítica especializada, que continua a "martelar" sempre nos mesmos filmes nas repetitivas listas que elegem a nata do Cinema, «Some Came Running» é um tesouro muito bem escondido, mas imperdível. Uma obra cheia de pequenas surpresas, quer na impressionante interpretação de Frank Sinatra (que tanto possui de tenebrosa como de surpreendente), quer na carisma e jovialidade do incrível Dean Martin, e também pela forma inesperada como Shirley MacLaine arrasa tudo e todos com a sua personagem ingénua e loucamente apaixonada pelo protagonista (uma mulher que nos faz lembrar um trabalho posterior, «O Apartamento», e que lhe valeu a primeira nomeação da Academia - que se deve a uma exigência generosa de Sinatra). É o testemunho e a prova da soberba mestria de Minnelli em criar momentos de singular genialidade construtiva e visual, que levanta uma aparentemente simples trama romântica dramática para um nível mais elevado de qualidade e de originalidade, em que a música se alia à magia do CinemaScope para criar algumas proezas técnicas e emocionais únicas no Cinema americano (e não, não estamos a falar apenas do famoso clímax final).


Sim, é mais um character study do que uma narrativa propriamente dita, como afirma o crítico Leonard Maltin, mas «Some Came Running» consegue articular magistralmente as características das suas personagens com as situações em que se envolvem, manipulando a teia de consequências de alguns momentos fulcrais da história, que irão influenciar o último encontro de todas aquelas figuras... e a tragédia fatal que proporcionará o genial e inesquecível desfecho do filme. É um fresco de vidas humanas, dos novos que entram no cenário americano, mais as suas ilusões e amarguras, e dos velhos que continuam a deambular nesta grande peça da existência, à espera que os caloiros lhes tomem lugar e que acabem, no fim, a tomarem o seu lugar e a tornarem-se exatamente iguais a eles. Esta analogia é evidente na junção de Dean Martin, o homem que usa o seu chapéu a qualquer momento e em qualquer lugar, nunca abrindo exceções para tal não se suceder (ou talvez sim...?) e que está a viver um completo vazio quotidiano, alimentado apenas pelo vício do jogo e pelo álcool (ingerido do pequeno almoço até à ceia), e o protagonista de Frank Sinatra, um escritor desiludido, que começa a dar os mesmos passos que o seu comparsa. Mas que se notem as pequenas - e bastante subtis - diferenças entre o "tough guy" antigo e o moderno, e que estão presentes em pormenores curiosos (um deles: enquanto Martin faz a barba de maneira tradicional, Sinatra utiliza uma das tecnológicas máquinas de barbear, novidade para a época). Mas deixemo-nos de simbologias, porque «Deus Sabe Quanto Amei» (aaargh!, a agonia que dá mencionar esta miserável tradução!) é um daqueles filmes-chave de toda a Hollywood, e da essência do "velho" Cinema - que felizmente, nunca deixa de rejuvenescer aos nossos olhos.


O drama das paixões e dos sentimentos em puro CinemaScope é um dos mais belos filmes do Cinema Americano e uma das mais poderosas tramas produzidas pelo condão do classicismo da indústria de Hollywood. Que os mais incautos a designem de telenovela de duas horas e picos, porque não sabem o que estão a dizer; que a maioria das pessoas deite o filme e a sua essência abaixo, porque se deixam levar pela poesia da obra e a confundem com lamechice e floreados desnecessários (é preciso ser-se mesmo ingénuo para não se perceber que Vincente Minnelli assinou uma das fitas mais negras e complexas do technicolor); que os "haters" deitem abaixo todo o grandioso trabalho de realização, interpretação e narrativa (com personagens maiores do que qualquer um de nós) que aqui podemos deslumbrar, apenas porque «Some Came Running» não preenche os parâmetros dos espectadores da atualidade, não tendo medo de se localizar num tempo e espaço preciso. O mais profundo das almas humanas, isso, é intemporal, e transcende qualquer lado datado que possamos dar a uma história tão formidável como esta. A arte de bem contar histórias e de as superiorizar graças aos seus personagens foi poucas vezes tão bem conseguida desta forma na História do Cinema. «Some Came Running» não é para todos os gostos, e hoje em dia não é o filme tão popular como foi antes. Mas é daqueles raros achados americanos que, à semelhança dessa outra obra magistral que dá pelo nome de «Johnny Guitar», são mais apreciados e justamente homenageados deste lado do Atlântico do que no seu país de origem. E bem merece. Este é um daqueles filmes que deveríamos ver mais vezes na televisão (e sem ser no sacrilégio cortado para 4:3!), nesses execráveis tops e noutras coisas mais, e acima de tudo, «Some Came Running» é um daqueles exemplos de encanto universal, que infelizmente, alguns não estão dispostos a receber. Fica para aqueles que sabem ver nas imagens em movimento mais do que simples técnicas de entretenimento fácil e desprovidas de almas. Ninguém deveria abrir barreiras para belíssimas obras primas como esta. Ninguém deveria resistir a esta magistral história de almas perdidas e reencontradas... que lá no fundo, fazem a odisseia que todos nós, no decurso das nossas vidas, teremos de percorrer.

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O melhor tributo a PSH

Recordar mais uma vez Philip Seymour Hoffman, um génio da representação, com o melhor e mais completo tributo de todos. São vinte e um minutos de antologia, com quase cinquenta dos trabalhos que o ator nos deixou. Para ver, relembrar e recordar.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sylvain Chomet e o sofá dos Simpsons



O "couch gag" dos Simpsons na visão de Sylvain Chomet, o genial realizador das animações «O Mágico» e «Belleville Rendez-Vous».

Lições de Harmonia (Uroki Garmonii) [2013]


Esteve em competição na 63ª edição do Festival de Berlim, saindo vencedor do Urso de Prata. E é raro vermos um filme do Cazaquistão chegar a Portugal, mas Lições de Harmonia não tem tanto interesse cinematográfico e narrativo como possuem os apelativos elementos sociais e políticos do seu conteúdo. 

É mais uma experiência de pretensiosismo, onde o autor esconde o vazio das suas ideias e a fraca solidez da estrutura com uma série de metáforas ou situações descontextualizadas (a repugnante cena inicial, por exemplo), que tentam distrair-nos do essencial. Felizmente, esta tentativa de desvio do espectador sai frustrada, porque para além disto, temos as interpretações vazias e desorientadas de uma boa parte do elenco, e um certo descontrolo de pequenos mecanismos essenciais para o desenrolar da trama. 

São situações desconcertantes numa cultura desconcertante, as que visionamos em Lições de Harmonia. A obsessão do protagonista é o desejo de uma sociedade em limpar as suas impurezas, em livrar-se dos seus problemas e das marcas que nunca desapareceram. Só os divertimentos e as futilidades podem distrair os habitantes da dura realidade em que estão inseridos.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Filmes em 60 segundos: Snatch - Porcos e Diamantes [2000]


Como um teledisco pop, «Snatch – Porcos e Diamantes» (não parece, mas a tradução é adequadíssima) é uma realização de Guy Ritchie que junta elementos culturais e artísticos bizarros e histórias vulgares com um charme muito particular. Uma comédia repleta de non-sense, reviravoltas e vigarices, que tem como maior defeito perder-se no meio do humor e da história elaborada de forma intrincada e invulgar para se esquecer dos seus valores de Cinema, confundindo-se demasiado com o mundo da televisão e da linguagem que só caracteriza esse meio, e não qualquer outro. «Snatch» é um deleite para a gargalhada e funciona como entretenimento eficaz e imbatível, com momentos, frases e personagens inesquecíveis, que nos impedem de tirar a vista do ecrã. Há ainda performances surpreendentes de um elenco que, dificilmente, voltaremos a ver assim, aproveitando o delicioso “timing” que pediu a história grotescamente hilariante de Ritchie para conseguir funcionar assim tão bem.

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Filmes em 60 segundos: Gravidade (Gravity) [2013]


Epopeia espacial visualmente espantosa e ilusoriamente poética, «Gravidade» pode ser um dos filmes mais sobrevalorizados dos Oscares, mas não é por isso que deixa de ser um título merecedor de visionamento. Apesar da interpretação pouco convincente de Sandra Bullock e dos diversos caminhos raramente coerentes que a narrativa toma para consolidar a sua credibilidade, temos em mãos um feito cinematográfico inovador, belo e arrebatadoramente sedutor, que abrirá as portas da interpretação de símbolos e de certas cenas a muitos cinéfilos curiosos. Aliando inteligência e entretenimento, Alfonso Cuáron mostra ter sido justa a atribuição do Oscar de Melhor Realizador, graças a todo um conjunto de excepcionais técnicas cinematográficas que em muito ajudam a tornar um pouco mais interessante a artificialidade desta era digital. Por isso, «Gravidade» é melhor na forma do que no conteúdo, mas as enormes falhas não conseguem ser o essencial, perante tal espectáculo inigualável de som e imagem.

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O Filme LEGO (The LEGO Movie) [2014]


O Filme LEGO está a receber uma invulgar aclamação dentro do género que se enquadra, destacando-se de um sem número de apostas insípidas e repetitivas que preenchem o mercado do Cinema de animação. E merece-o, pois de todas as obras cinematográficas que utilizam a expressão “filme familiar” para levar Pais e petizes à sala , esta é das poucas que justamente se auto-nomeou como tal. 

Talvez desde Toy Story 3 que não se via um filme assim, um objeto satírico, inteligente e brilhante, que mexe a pequenada e a gente mais crescida de formas muito diferentes: enquanto as crianças ficam maravilhadas pela soberba animação e pelo lado “fixe” da narrativa, os adultos têm oportunidade de encontrar uma crítica à sociedade moderna que não se fica só por isso, possuindo várias camadas de subtileza que desafiam o mais moderno e complexo dos filmes de “imagem real”. 

O Filme LEGO representa um daqueles raros acontecimentos cinematográficos em que todo o público se consegue divertir e retirar alguma coisa especial. É da essência do ser humano, e daquilo que torna cada um de nós único e insubstituível, que se fala primordialmente nesta trama de amor, amizade, família e aventura. E a fita não se limita a transmitir essa mensagem com alguma fórmula já considerada gasta e irrelevante: vemos a narrativa dar várias voltas em si própria, a mostrar-nos sempre umas quantas novas surpresas, e a desafiar a própria perspetiva que estamos a tirar do filme.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Warren Beatty está de volta ao Cinema


Depois de uma longa ausência, o ator e realizador está finalmente de regresso ao trabalho! Mais informações no Espalha Factos!