sexta-feira, 30 de maio de 2014

António Sala num Lance no Escuro...

Eis aqui, já disponível em podcast, a emissão de Um Lance no Escuro que teve como convidado António Sala! Uma conversa divertida, interessante e reveladora de um comunicador incrível e multifacetado.

terça-feira, 27 de maio de 2014

“Hollywood, tens cá disto?”: O Pai Tirano (1941)


O meu segundo texto para esta rubrica quinzenal do Espalha Factos, que fala sobre filmes portugueses, é sobre aquela que é, para mim, a melhor das comédias clássicas dos anos 30 e 40 - e muito provavelmente, a melhor fita do género a ser feita no nosso país: «O Pai Tirano» tem um extraordinário elenco e aquele timing humorístico especial, que destacou este tipo de histórias e tornou intemporais, e sempre hilariantes, as peripécias do leque diverso de personagens que nos são apresentadas. Podem ler a análise no Espalha Factos!

sábado, 24 de maio de 2014

TV: Reviver o Passado em Brideshead (Brideshead Revisited) [1981]


Talvez seja difícil compreender que houve um momento, na História da televisão, em que uma narrativa calma, lenta e isenta de 'suspense' e de reviravoltas como «Brideshead Revisited» conseguiu ser um dos maiores fenómenos da cultura popular - e para alguns estudiosos, tornou-se, nos Estados Unidos da América, no maior sucesso com raízes britânicas a chegar ao país desde os Beatles. Foi uma série que abriu caminho para outras produções do mesmo género, adaptações fidelíssimas de clássicos da literatura inglesa, facilmente reconhecidas pelo cuidado das reconstituições históricas e literárias e pela singularidade dos actores que a interpretam. Uma dessas séries, todas produzidas pela Granada (que se tornou especialista neste género único de se fazer televisão), por exemplo, foi «As Aventuras de Sherlock Holmes», e todas as variadíssimas sequelas que revelaram o actor Jeremy Brett na pele do detective, naquela que é vulgarmente considerada como a melhor recriação alguma vez feita das histórias policiais de Sir Arthur Conan Doyle. Mas é preciso fazer uma distinção entre estes ditos dramas "de época", e todos aqueles que hoje em dia preenchem o espaço criativo de várias estações: é que exemplos como as produções da Granada da década de 80 mostram que, para além de se querer mostrar um estilo decorativo histórico (onde as séries actuais preferem empenhar-se mais), havia também uma história para contar. E não se tratava de uma história qualquer.


E o caso de «Brideshead Revisited» é ainda mais peculiar: trata-se da adaptação do romance homónimo de Evelyn Waugh (que considerava a sua obra prima), escrita em 1945, que retrata o percurso de vida de Charles Ryder (na série, Jeremy Irons), o protagonista que está, ao longo de toda a história, ligado à mansão de Brideshead e às pessoas que nela habitam. É um romance marcante na literatura europeia do século XX, e um marco cultural e histórico que ainda hoje se lê com deleite e encanto. Nele, Charles acompanha as alegrias de umas e a ruína e decadência de outras, que acabam, tal como as paixões, por influenciar todo aquele pequeno núcleo familiar que parece estar afastado do resto do mundo real, tal como mostram os seus membros - desde Sebastian Flyte (Anthony Andrews), o amigo de Charles que acaba por perder-se no meio de dúvidas existenciais e de más escolhas pessoais, passando por Julia (Diana Quick), a irmã de Sebastian, pela qual Charles se apaixona, entre tantas outras figuras insólitas. Ryder recorda todos os momentos que passou com aquela família, os dramas, as tragédias, os reencontros e distanciamentos, que se reflectem na forma como as mudanças trazidas pela sociedade afecta a instabilidade, inocência e ingenuidade da família, e na maneira quase obsessiva e descontrolada que os dogmas religiosos têm para controlar as mentalidades frágeis e perturbadas destas personagens. Ryder observa e relata tudo, como um espectador que se afasta daquilo que está a contar, mas que no fundo, nunca conseguirá, ironicamente, deixar de fazer parte das vidas destes "outros" que pouco ou nada têm a ver com ele. Por mais que ele se revolte contra o universo em que está inserido e contra as ideias fanáticas e irracionais dos Marchmain, a pouco e pouco, acaba também por se tornar num "deles".


O método televisivo de «Brideshead Revisited» é notável: tudo foi milimetricamente pensado e planeado, com o objectivo de tornar o mais fiel possível a linguagem televisiva aos propósitos da obra literária e das suas características muito próprias - e aparentemente, intransponíveis para outro meio. E sendo, para os nossos dias, uma série que tem uma grande lentidão narrativa (não vale a pena esperar por clímaxes, anticlímaxes, 'cliffhangers' ou de outros mecanismos que façam com que o espectador se vicie nesta história e mantenha o interesse nela), não deixou de ser, contudo, passados mais de trinta anos, um objecto exemplar de inovação comunicativa. E, apesar dos grandes luxos da trama, não vemos grandiosidades na mesma, porque a série mantém-se fresca e genial graças à simplicidade com que foi filmada e interpretada. Até aos mais pequenos detalhes (alterando apenas num ou noutro aspecto a linha cronológica do livro), a adaptação presta um culto total à obra de Waugh e a toda a crítica sociológica e filosófica que a ela está associada. A série foi feita de uma maneira específica, sem olhar a esticanços desnecessários que, na maior parte dos produtos televisivos, parece ser a maior moda, permanecendo eles no ar por tempo indeterminado só porque os argumentistas magicaram algo que, pensam eles, conseguirá manter o interesse da história que querem contar. Parece que, tanto nos anos 80 como no nosso tempo, muita narrativa se resume a prender as audiências sem que estas se apercebam verdadeiramente daquilo que estão a ver. «Brideshead Revisited» pede paciência a quem quiser entrar neste mundo... porque depois, os espectadores acabarão por sair muito recompensados. Feita de uma forma exemplar, adaptando, com mestria e respeito, um dos livros maiores do século XX, continua a impor-se como uma das séries mais importantes de sempre, e permanece como um objecto de vasto culto internacional - mesmo que tenha a esmagadora concorrência americana sempre a aparecer, uma cultura televisiva que cria popularidade graças a várias e desinteressantes séries que tendem a ser repetitivas e exageradas em muitos casos (felizmente que há excepções - e de vez em quando ainda apanhamos com algo de completamente diferente vindo dos 'states').


Conhecer a mansão e todas as histórias que esta esconde é uma boa maneira para aprofundar o nosso conhecimento sobre um povo e toda a sua cultura, assente em valores genealogicamente nobres, mas humanamente dramáticos, cinzentos e sarcásticos. E a série está tão detalhada e precisa, no seu retrato de  nostalgias, costumes e de toda uma disposição existencial única e exclusiva dos britânicos, que mais parece ter sido realizada pelo próprio Evelyn Waugh! É uma reflexão poética sobre uma sociedade anonimamente aborrecida e constantemente deprimida consigo própria e com as mudanças que sente, devido à alteração das "vontades" de governos, gostos, modas, Instituições, etc. Porque o snobismo tipicamente inglês persiste - mas ele não é mais do que uma fachada, enquanto o país sofre uma série de mutações que põem em causa os seus valores ancestrais e a própria nobreza que fez a Inglaterra crescer... e a evocação da guerra acaba por fazer uma bonita comparação aos desastres psicológicos e decadentes da família, envolvida nesse manto de hipocrisia perpetuado pela vida social que os seus membros cultivam. Lindíssimos são ainda os valores de produção da série, a inesquecível banda sonora, e o impecável elenco que soube transformar as figuras imaginadas por Waugh naquilo que o autor tinha exactamente imaginado, sem deixarem, contudo, de darem o seu contributo para as personagens a quem emprestam corpo e voz. Excepcional é, por fim, o confronto entre classes, religiões (ou falta delas) e filosofias de vida, que causam ainda mais rupturas e contradições entre o protagonista e as várias pessoas com quem se encontra. E este é daqueles casos em que vale a pena ler o livro e, quase ao mesmo tempo, acompanhar a série - os 11 episódios estão quase divididos pelas partes da obra, salientando muito bem os pormenores e brilhantismos de cada uma. 


«Brideshead Revisited» é um programa de televisão que revolucionou a própria televisão por ter características que não se adaptavam, realmente, ao que era mais procurado pelas produtoras e pela maioria do público da caixinha. Mas criou um impacto inigualável - e pode ter sido por isso mesmo, por não ser uma série apressada (muitos devem ficar pasmados ao verem quanto tempo se dão a acontecimentos aparentemente inúteis em cada um dos capítulos da história), que dá tempo para os personagens pensarem nas coisas que estão a dizer, filmando magnificamente, e com os melhores recursos disponíveis, uma história que tinha tudo para ser desprezada pelas massas. Mas felizmente, o que aconteceu foi exactamente o oposto do que aquilo que naquele tempo e Hoje, talvez, seria esperado. Um caso raro de popularidade na televisão britânica, que abriu portas para muitas outras séries, e cuja magnificência permaneceu, totalmente, com o passar dos anos. 

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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Ruína Azul (Blue Ruin) [2013]


Dwight (Malcon Blair) está perdido. Ou melhor dizendo, é um homem perdido, no meio de nenhures, não fazendo nada de jeito na vida. O mau aspecto em que se encontra, com uma barba farta descuidada, reflecte as condições mentais em que se encontra. Passa o tempo entre vagabundices, aproveita uma boa tarde de praia, e acaba por dormir no carro. Depois, dão-lhe a notícia: o assassino dos seus Pais saiu da prisão. É altura de ajustar contas com o passado: as ideias surgem e os hipotéticos planos começam a fervilhar na sua mente descontrolada e insegura. Dwight decide mudar a sua "imagem", parece uma nova pessoa que veio a este mundo. E é mesmo: agora, este Dwight não tem dúvidas sobre aquilo que fez e todas as coisas que ainda quer fazer. Está em acção, mas o medo persiste. Depois, fica descontrolado, já não sabe o que fazer: a vingança está a decorrer, mas onde param os limites de toda esta perseguição fatal, que o envolve na sua própria armadilha manipuladora e inconsequente?


«Ruína Azul» é um filme desconcertante: quem poderia esperar que, numa época dominada pelos mais desinspirados e insuportáveis 'blockbusters', chegasse até nós uma peça surpreendente como esta? É um 'thriller' como tantos outros, mas que consegue ter uma coisa em especial, que partilha com todos os grandes filmes do género: possui um espírito único e uma densidade incrível. Faz lembrar «Blood Simple», a primeira (e maior) obra prima dos irmãos Coen, sem ser necessariamente uma cópia desse filme - e ainda bem, porque o realizador Jeremy Saulnier sabe jogar bem com esta e outras referências cinéfilas, sem se esquecer de criar a sua própria história e um estilo que, se continuar no bom caminho, o pode tornar inconfundível no Cinema moderno. Ambas as fitas têm uma história de vingança, e apesar de seguirem caminhos e situações distintas, o clímax das duas acaba por coincidir num aspecto: a pressão que exerce no espectador é brutal, tal como a aparente simplicidade das suas personagens, cujos segredos e fatalidades acabam por nos esmagar, como se de uma grande e imparável bola de neve (cuja existência só reparámos quando ela já estava demasiado perto para não conseguirmos fugir) se tratasse. E o humor negro não é mais do que um ingrediente que serve, apenas, para temperar esses conflitos e tensões, acabando por não resistir perante tantas faltas de ar que nos consegue provocar. De tudo aquilo que possa ter assimilado entre tantos filmes e realizadores que admira, Saulnier aprendeu com os Coen a melhor lição de todas: a de que o público gosta de ser "mal tratado"... com dignidade, claro está. Como adoramos sofrer - mas calma aí, que a dor cinematográfica tem de ser de qualidade! E este é um caso onde acontece isso mesmo, porque sofremos com as personagens e com a escalada de eventos em que se intromete o nosso duvidoso anti-herói... mas não deixamos de ficar entusiasmados e empolgados com essa mesma catadupa de acontecimentos galopantes.  


Não é um 'thriller' que precisa de se gabar, não é um filme que se torna fácil aos olhos de quem o vê, não é um título que se deixe tentar pelo que o espectador preferia ver. Estamos num tempo em que até o mais recente 'reboot' de «Godzilla» é incluído nessa categoria cinematográfica, portanto, não é de admirar que, pelo menos por uma ocasião, surja um caso que se adequa perfeitamente àquilo que institucionalmente  o caracteriza - e sendo um grande «thriller', «Ruína Azul» consegue tornar-se, ainda, e citando uma frase tipicamente utilizada pelos nossos amigos americanos, 'one hell of a movie'. É um dos grandes filmes do ano, e uma obra que tem mesmo muito que se lhe diga. Desde a construção do suspense até às grandiosas interpretações, passando pela fria e dura realização e a imaginação de uma câmara matreira, sempre pronta a enganar-nos e a fazer-nos percorrer caminhos muito mais perigosos do que aparentam ser, há aqui muito para admirar. E arrisco-me, até, a fazer esta profecia: Dêem uns anos a «Ruína Azul» e talvez este já seja considerado um filme de culto, um clássico contemporâneo, e poderão vê-lo constantemente a ser incluído entre outros grandes "craques" as mais variadas listas conceituadas de cinefilia. Não que este seja o melhor filme do século... mas é tão bom descobrir que existem, ainda, pessoas que queiram trabalhar o Cinema como merece ser tratado, como... lá está, Cinema. Não sendo totalmente original, porque vai buscar as ideias e estrutura a histórias anteriores, «Ruína Azul» é um filme repleto de originalidade. Porque a "reciclagem" de ideias nada tem a ver com as potencialidades de um filme, já que muitas obras primas caracterizam-se, exactamente, por parecerem - e por apenas parecerem - iguais a todas as outras.


«Blue Ruin» foi feito com cabeça, tronco e membros, e é um filme que nos faz voltar a ter fé no Cinema independente norte-americano (sim, aquele que tem o verdadeiro espírito 'indie', não estou a referir-me a qualquer geringonça, que é tudo menos cinematográfica, que tem aparecido por aí fingindo possuir essa atitude e espírito livres de fazer Fitas, quando de facto, não consegue mais do que um isco fácil para atrair mediatismo a meia dúzia de 'hipsters'). Isto É Cinema, puro e duro, reflectindo aquilo que, durante um período da Sétima Arte, fazia as delícias dos espectadores - e que certos realizadores, como os Coen, tentaram ressuscitar, embora de maneira efémera, em décadas posteriores: o espírito 'noir', a falta de heroicidade plástica do protagonista, o desespero da sua demanda, e os desvios que este tipo de histórias fazem da vida real, e do que pode ser considerado "realista" ou "humanamente credível". No fim de contas, acaba também por filmar as relações familiares e os elos de ligação entre seres humanos de uma maneira que, no mínimo, pode ser considerada como insólita e envolvente. E isto não é entretenimento barato, atenção: «Ruína Azul» manipula, estimula e espezinha as nossas emoções a todo o momento, para depois destruir, completamente, toda a nossa inocência perante o grande ecrã. É isto que fazem os grandes filmes. Precisamos de CGI? 3D? Efeitos especiais de vária ordem? Não, tudo está na silenciosa, e porém arrepiante e perturbadora, essência desta grande descoberta do panorama americano moderno. E que mais se pode dizer? Ah, que já está em exibição nas salas de Cinema portuguesas. 

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quinta-feira, 22 de maio de 2014

O podcast do 6.º Lance...

... ou do 15.º, se formos contar as emissões todas. O convidado é o José Carlos Maltez, do blog A Janela Encantada, e a conversa foi sobre nostalgia, clássicos e o Poder do Cinema. Mais um divertido momento de cavaqueira radiofónica, para ouvir aqui em baixo!

UM LANCE NO ESCURO 06

Grace de Mónaco (Grace of Monaco) [2014]


Em vez de um filme profundo sobre as complicações políticas e sociais em que se envolveu Grace Kelly ao abandonar a carreira no Cinema, acaba por ser uma fita mediana, frágil e sensaborona, que passa levemente pelo que realmente interessa na vida de um dos maiores ícones femininos da História de Hollywood. 

Grace de Mónaco estreou no Festival de Cannes (foi o filme de abertura da edição deste ano) e a sessão ficou marcada pelo descontentamento do público e dos críticos presentes na sessão. É uma atitude que começa a ser generalizada, à medida que o filme chega a mais partes do mundo. Mas afinal, onde está o problema desta tentativa ficcional de ressurreição da vida da lenda do Cinema, do mesmo realizador de La Vie en Rose, sobre Edith Piaf

Pouca coisa bate certo na panóplia de personagens que nos são apresentadas no filme. Grande parte das figuras mais ou menos credíveis que compõem a história são plásticas, tal como de enorme plasticidade são as forçadas expressões faciais de Nicole Kidman. É um filme preguiçoso e falhado na sua reconstituição histórica e na falta de capacidade do realizador em perceber que, com muito menos aparato, se conseguiria captar, da melhor maneira, muitos dos momentos de intensidade e drama que necessitam certos eventos da história, que caem no esquecimento por ficarem disfarçados no meio de tanta e excessiva rapidez técnica, inadequadíssima para uma fita que precisa é de calma, para poder ser bem mastigada.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Um Lance no Escuro e uma Janela Encantada

Hoje há Um Lance no Escuro, e o convidado é o José Carlos Maltez, do blog A Janela Encantada (um estaminé muito bom que podem conhecer aqui!). Uma conversa sobre clássicos e a magia do Cinema, para ouvir às 22 horas, na Rádio Autónoma.

Podem ouvir a emissão em directo no site oficial da Rádio Autónoma.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Miguel Gonçalves Mendes disponibiliza a sua obra na internet


José e Pilar e Autografia são apenas dois dos vários títulos que compõem a filmografia de Miguel Gonçalves Mendes, e que poderão ser vistos, de forma gratuita no site do mesmo, numa iniciativa que tem início já a partir da próxima quarta feira. Mais informações no Espalha Factos.

sábado, 17 de maio de 2014

Capital Humano (Il Capitale Umano) [2013]


Capital Humano entrelaça as perspetivas de três personagens no desenrolar de diversos acontecimentos mais ou menos trágicos que unem e separam as suas vidas. Contado em quatro capítulos, nele acompanhamos a história de Dino Ossola (Fabrizio Bentivoglio), um vendedor que sonha com a ascensão social, que poderá ser garantida graças à amizade da sua filha Serena (Matilde Gioli) com a família Bernaschi, pertencente à alta sociedade. Depois ainda há tempo para descobrir a versão da própria Serena e de Carla Bernaschi (Valeria Bruni Tedeschi) de todos os diversos casos que vamos acompanhando, e cujo sentido nunca é tão óbvio e direto como possamos imaginar. 

Um misterioso acidente na véspera de Natal irá complicar ainda mais os conflitos interiores de cada um dos elementos desta tragédia urbana, montada como se de um autêntico puzzle se tratasse. O filme baseia-se no livro Human Capital, do crítico de Cinema Stephen Amidon, e, a partir dele, o realizador Paolo Virzì aproveita para desenhar um outro retrato da Itália contemporânea, com o seu quê de egocêntrica, pretensiosa, arrogante e cínica. São vários os filmes e cineastas que fazem uma análise assim a este seu país de origem, mas realmente, a única coisa que Capital Humano partilha com todas as variadas críticas sociais que o Cinema italiano tem levado a cabo nos últimos anos é mesmo a atmosfera de decadência, à qual nunca iremos escapar. Será a Itália um país interminavelmente decadente, ciente desta ruína cujo crescimento nunca conseguirá interromper? 

É um dos filmes italianos mais mediáticos do ano, mas que não se confunda popularidade com qualidade – mas Capital Humano consegue vencer nas duas categorias (e esperemos que consiga conquistar outras mais, entre as 19 nomeações em que está a competir para os prémios David Di Donatello, atribuídos pela Academia do Cinema Italiano) e ainda, surpreender noutras tantas, mais ou menos formalizadas no nosso pensamento crítico cinéfilo.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Godzilla [2014]


Sinceramente, é preciso estar a explicar a história de um filme que envolva esse monstro denominado de Godzilla (isto é, se à definição de “história” possa corresponder um festival anarquicamente irritante de clichés que abundam em todo e qualquer filme-catástrofe que tenha sido feito até hoje)? Talvez não, mas tem que ser, e não custa nada, porque até é tudo muito narrativamente simples. 

Há uma ameaça que surge do nada, há uma série de personagens humanas que têm tanto interesse para o espectador como a quantidade de cenas ridículas a que o monstro original foi submetido nas diversas sequelas feitas no Japão (procurem no YouTube e descobrirão a “fabulosa” dança abominável do bicho, entre outras pérolas da mediocridade), e também algumas cenas que envolvam mortes, bicharada com origens que, muito honestamente, a minha cabeça não conseguiu assimilar, e muitos figurantes a falecerem de maneira inglória. Mas não se preocupem: no fim, acaba tudo em bem, e vivem todos felizes para sempre… apesar da destruição toda. Que bonito – e tão fortemente apalhaçado. 

E é isto um filme que é previsível desde o primeiro momento, onde podemos adivinhar, praticamente, todos os planos que vão surgindo no ecrã e todas as falas estereotipadas, secas e brutalmente idiotas de todos os intervenientes. Esta pandilha de repetições e auto-reciclagens de fórmulas usadas até à exaustão poderá, no entanto, ter um brinde, para aqueles que quiserem gastar mais uns euritos para visionarem o filme no pouco espantoso e super-hiper-mega-ultra inovador IMAX 3D: um perturbante tiro à vista e uma valente dor de cabeça, proveniente de todo o excessivo barulho que foi inserido nas sequências de maior ação (que de “ação” propriamente dita, pouco ou nada têm).

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Serão "só" opiniões?


Podem dizer o que quiserem, que isto é totalmente subjetivo, que estarei a ser injusto para quem tem opinião diferente da minha, que nos encontramos numa democracia em que a pluralidade de opiniões é um direito e um dever. 

Mas É ÓBVIO que as 1795 pessoas que deram 1 ao «Era Uma Vez na América» são parvas.

Esta é apenas uma de muitas pérolas que podem encontrar no IMDb. E depois de investigarem um pouco, vão ver como o vosso sentido humanista é abalado com tamanhas alarvidades. Ah pois!

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Assembleia Municipal de Lisboa promove ciclo de Cinema gratuito


Em comemoração do 40.º aniversário da Revolução dos Cravos, a AML, que se localiza no fórum Lisboa, da Avenida de Roma, decidiu preparar um ciclo de sessões de cinema que teve início a 8 de maio, com uma seleção de filmes que têm como denominador comum a Cidadania no pós-25 de abril. São fitas à borla, numa iniciativa que se prolonga até Julho! Mais informações no Espalha Factos.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Jogo Fatal (House of Games) [1987]


What I'm talking about comes down to a more basic philosophical principle: Don't trust nobody.

Da estreia na realização do genial dramaturgo David Mamet, saiu um filme invulgar que não parece ser muito falado: «House of Games» é esse jogo de fatalidades em que a protagonista participa, sem saber quais serão as consequências dos seus atos e da confiança que deposita em Mike (Joe Mantegna), um "crook" habilidoso e mentiroso que a leva  a ser culpada e simultaneamente vítima de uma espiral de acontecimentos perturbantes e misteriosos. Os enganos, as falsas aparências e os mal entendidos que se criam causam dúvidas em Margaret (Lindsay Crouse) mas também a nós, espectadores inocentes que conseguimos ser ainda mais ingénuos que ela, sem sequer darmos por isso. E tentem esquecer, ao longo do visionamento, que Crouse não parece muito apta para o papel que desempenha - há muito mais para ver, e entender. E no fundo, talvez aquele jeitinho meio desajeitado da atriz a interpretar a protagonista tenha os seus propósitos próprios...


«House of Games» tem as suas falhas? Sim. Mas não deixa por isso de ser um dos textos mais surpreendentes e fantásticos de Mamet. Tem uma intensidade impressionante, propícia a diversas reviravoltas problemáticas que só servem para nos confundir mais em relação à natureza da personagem de Mantegna, e para nos proporcionarem mais agradáveis momentos de frustração emocional. A complexidade é notável, porque se olharmos descuidadamente para esta fita, nela não encontramos nada que a possa tornar cerebralmente torturante (o visual não é extravagante nem difere de muitos outros tantos filmes dos anos 80, e os atores falam da maneira mais corriqueira possível), mas é na sua subtileza e engenho que se encontra esse ingrediente, que acaba por ser o mais fatal de todos, neste puzzle cheio de armadilhas e pequenos truques vigaristas. Uma estreia de génio para um genial contador de histórias, que com habilidade e pouca ligeireza, confronta o espectador com um mundo desprezível, sabendo construir este seu "jogo fatal" de mentiras e ilusões sem se esquecer de fazer com que o público acabe por cair sempre na incerteza do desconhecido.

* * * * 1/2

Um Lance no Escuro e o MTTM

Já está disponível o podcast da quinta emissão de Um Lance no Escuro. O convidado foi o Francisco Rocha, do blog My Two Thousand Movies. Para a semana não haverá programa, mas voltaremos dia 21, com mais uma emissão!

terça-feira, 6 de maio de 2014

Festival Rocky de Terror (The Rocky Horror Picture Show) [1975]


Uma pergunta não sai da nossa cabeça, enquanto o verdadeiro festival de excentricidade e aberrações que, perplexos, contemplamos, em «The Rocky Horror Picture Show», decorre sem intenções de querer parar: O que é isto, afinal? E pode parecer uma questão simples de resolver, com resposta acessível e que possa ser unanimemente considerada como eficaz para a resolução do problema (algo como "trata-se de um musical que homenageia os filmes de terror e de série B que se fizeram entre as décadas de 30 e de 70, em Hollywood" - e isto é verdade, basta logo ouvir a música inicial e tentar captar todas as referências às produções clássicas da Paramount, RKO e companhia). Mas talvez essa definição seja muito, muito vaga, já que é uma tarefa consideravelmente difícil conseguir perceber, afinal, qual o significado de toda esta combinação das luzes, coreografias, músicas (orelhudas) e interpretações constrangedoras e agonizantes. Tentemos compreender o fenómeno no seu contexto histórico: quando estreou, o filme passou quase despercebido, não chamando a atenção do público ou da crítica dos anos 70. Mas de um momento para o outro, «The Rocky Horror Picture Show» tentou a sua sorte noutro tipo de exibições, para outro tipo de audiências, conquistando assim um culto gigantesco nessas sessões da meia noite, angariando milhões de fãs até aos nossos dias, em que as sessões animadas pelos espectadores se tornaram no pão nosso de cada dia de diversas cidades norte-americanas. E quase quarenta anos depois, o mito sobrepõe-se aos factos: o que tem este filme de especial, para continuar a ser tão adorado e acarinhado por gente de países e línguas tão diversas?


É que, e precisamos de ser sinceros, a originalidade de «The Rocky Horror Picture Show» passa, pura e simplesmente, pela forma como o género musical é alegremente distorcido para satisfazer as necessidades histéricas, pindéricas e saudavelmente retro que compõem as bizarras figuras que se deslocam neste grande espetáculo de (pouco) horror e (nenhum) glamour. O lado bestial do filme sobrepõe-se à fraca estrutura da narrativa, à fragilidade das situações dispersa vividas pelas personagens, à débil e distraída realização de Jim Sharman, e à falta de ritmo que se constrói entre os momentos musicais e as partes que não são cantadas nem dançadas. Mas lá está: é a sumptuosidade do conceito, conduzido de forma artisticamente grotesca e irreverente, que puxa os fãs para adorar este conjunto de mui exóticas pessoas, e o estranho e inexplicável mundo em que vivem, que justifica a adoração quase religiosa dos fãs. Porque, apesar de ser mediano como um filme, este festival de arte e espetáculo ganha por, apesar de nada ter em comum com os grandes clássicos do género musical, sabe cativar-nos pelas mesmas razões: pelas fabulosas e inesquecíveis canções e pelo visual muito, mas muito peculiar. E talvez por isso é que esta peça, que arriscou impor uma outra visão cultural, tenha resistido tão bem ao tempo: pelo culto e por ter características que justificam esse mesmo culto. Quem não consegue ficar fã do "Time Warp" depois de ver o filme, mesmo que a ele se possam apontar inúmeros defeitos?


Sendo o filme "WTF" por excelência, «The Rocky Horror Picture Show» é uma mistura de risos, incongruências e excentricidades que, admiravelmente, se aproxima de nós, mesmo que não fiquemos totalmente adeptos da sua estrutura, e apesar de ser, a cada momento, mais bizarro e invulgar. Pode ser mediano, mas consegue sobressair da sua mediania, por ser tão cativante e fenomenalmente "recordável" - e daí, é um "cult movie", como tantos outros que, independentemente da sua qualidade, parecem puxar por nós de uma maneira peculiar, que transcende até a noção que temos do que é o Cinema e do seu poder junto do espectador. E não se queixem se ficarem com as músicas na cabeça e as hilariantes coreografias das mesmas. Faz parte da experiência, e talvez sem saberem, estão a tornar-se membros desse culto mundial que rodeia este clássico do burlesco cinematográfico. De facto, não estamos perante um filme banal. É uma experiência estranha, a que nos proporciona, levando o público para caminhos cada vez mais psicadelicamente escandalosos e divertidos. É uma extravagância pop rock que emana os 70's de todos os poros, podendo não estar bem conseguido no lado cinematográfico e de escrita - mas não é por isso que deixa de ser divertidíssimo, no seu jeito de homenagem a referências cinematográficas e populares retro, adoçicadas com um novo estilo. Um filme irresistível, mas difícil de qualificar, e mais ainda de descrever - e que a nota não seja a parte mais influenciadora desta crítica, porque apesar dela, «The Rocky Horror Picture Show» é daqueles casos que não podem ser vistos de uma só maneira, transcendendo os limites da qualificação numérica. Consegue ser um filme sobre o qual dá gosto falar e abrir debate (o que não deixa de ser... estranho), e vale mesmo a pena por ser tão contagiante e por ter deixado uma marca indelével na cultura pop e no Cinema americano. E também porque só vendo é que se consegue acreditar na excentricidade que esta fita é - e depois do visionamento, não há volta a dar: ficámos ligados a este mundo, e vamos venerá-lo sem sequer nos darmos conta disso.

* * * 1/2

Filmes em 60 segundos: Gostam Todos da Mesma (Rushmore) [1998]


Não sabemos se, realmente, «Gostam Todos da Mesma», mas não é por ter uma tradução porcamente elaborada que a segunda longa metragem de Wes Anderson deixa de ser uma das mais deliciosas da sua filmografia: salpicado com o humor característico do autor, e que viria a desenvolver-se em filmes posteriores (assente em pormenores tão curiosos como o cigarro da personagem de Bill Murray), «Rushmore» é uma analogia entre os dramas da adolescência e o absurdo da vida adulta, com uma série de interpretações surpreendentes, uma maravilhosa banda sonora e uma grande inspiração visual e estilística, que não consegue parar de encantar o espectador. Tornou-se, com o passar dos anos, num merecido objecto de culto. E apesar do seu lado aparentemente bizarro, quem se deixar levar pela história estonteante de Max Fischer, repleta de amores trocados, ambições desmedidas, vinganças temperamentais e confrontos excêntricos, não vai ter, depois, razões para se arrepender.

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sábado, 3 de maio de 2014

Transcendence: A Nova Inteligência [2014]


Parecia ser um dos títulos mais promissores do Cinema de 2014, mas acabou por se revelar uma das grandes desilusões do ano, tornando-se mais um exuberante flop da produção de Hollywood. Transcendence fala de tecnologia e imortalidade, e estreia esta semana em Portugal. 

Foi mais uma vítima do elevado marketing do sistema publicitário do Cinema americano. Com ele, criaram-se, talvez, excessivas e injustificáveis expectativas em relação a Transcendence, mas neste caso, a ideia que nos dá o trailer não acabará por diferir significativamente daquilo que o filme é na sua integralidade. Em vez de ser uma abordagem nova às questões que afetam a sociedade ultra high-tech do século XXI, acaba por ser um festival de clichés que tanto tem de futurista e de original como qualquer um dos filmes de ficção científica parodiados em Mystery Science Theatre 3000

E Transcendence começa com algum interesse, com o discurso da personagem de Johnny Depp (e dos temas polémicos que analisa) que será, certamente, o momento mais fulgurante do filme. Precisamente porque não tem efeitos especiais nem cenas de ação despropositadas, como se sucede, a partir daí, numa catadupa de cenas que servem mais para encher chouriços (cuja qualidade é quase intragável) do que o apetite do espectador.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Sacro GRA [2013]


Foi o primeiro documentário a vencer o Leão de Ouro do Festival de Veneza, mas Sacro GRA é tão desinteressante como promete a sua sinopse. Um puro vazio cinematográfico, que se aproveita da realidade para dar o ar de ser um filme importante.

Não são de desprezar as intenções sociais e políticas de Rosi, porque aliás, nem é aí que se encontra o desinteresse de Sacro GRA. Mas o problema está mesmo no facto de o filme acabar por não se centrar em nada. As várias histórias que seguimos têm âmbitos e raízes distintas, e algumas são mais interessantes que outras. Porque não pegar apenas numa pequena porção delas e dar-lhes o tempo de antena que merecem, em vez de tudo se confundir, o que faz com que o espectador não consiga interessar-se por nenhuma das vidas que lhe são apresentadas, nem pelas variadas mensagens que a elas estão ligadas. 

Se há um propósito em seguir estas vidas peculiares, que pouco nos emocionam, este desvanece-se com o tédio que o filme nos provoca. Mesmo que seja uma reflexão sobre não-sei-o-quê, e uma lindíssima introspeção que aborda o não-sei-que-mais através dos exemplos de sicranos-e-beltranos, isso não chega para criar um filme, para fazer C-I-N-E-M-A. Será que Francesco Rosi se esqueceu do que é isso do Cinema? Ou, durante a execução deste filme, esqueceu-se de levar o dicionário para ir revendo, sempre que tivesse dúvidas, qual é o verdadeiro significado dessa arte sétima?

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

A Lancheira (Dabba/The Lunchbox) [2013]


É um romance peculiar, com as suas singularidades que o destacam entre os filmes mais comuns do género: A Lancheira é uma história peculiar que é ao mesmo tempo o retrato de uma sociedade e das diferenças de mentalidade entre gerações, à medida que o progresso e a tecnologia determina a forma como comunicamos uns com os outros.

É uma pequena grande surpresa, este filme cheio de simplicidade, que surpreende por não coincidir com os clichés que estamos à espera de encontrar. Pensamos, a princípio, que se trata de mais um romancezeco fantasioso como os outros, cuja única diferença encontra-se na sua localização geográfica e social. Nada mais errado, e ao longo de A Lancheira, percebemos que estamos perante algo que é exatamente o oposto dessas ideias feitas.

Mais do que um drama romântico, A Lancheira é uma obra social, que ilustra os costumes de uma cultura ainda muito ligada aos métodos tradicionais, mas que a pouco e pouco consegue avançar e acompanhar os tempos modernos. Vai buscar mecanismos clássicos de drama e até mesmo de comédia, inserindo-as num contexto único e que são tratados de uma forma bonita e encantadora, não tornando este filme mais uma cópia cansativa daquele tipo de filmes que só são propícios para levar casalinhos ao Cinema – sem que tenham muita atenção ao que se está a passar no ecrã…

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Uma história inédita para o 5.º aniversário

E eis aquilo que eu preparei, como presente para os leitores da Companhia das Amêndoas: venho aqui revelar-vos um pequeno conto que escrevi em 2011. É um devaneio puramente non-sense, que me ocorreu de repente quando estava nos computadores da biblioteca do Rainha D. Leonor, sem nada mais para fazer. Não é nada de mais, mas é uma curiosidade que eu continuo a achar patética, mas que, acho eu, faço bem em partilhar - até porque não sabia que mais é que eu podia preparar para este aniversário. Para verem como, pelo menos desde esse ano, continuo apatetado, tal qual em 2014. As únicas coisas que alterei ao texto original, que só conservo em papel (portanto sim, tive de o passar na íntegra para aqui), só passaram por questões de pontuação. Por isso, desculpem se a escrita está mais mediocre que o nível de mediocridade a que vos consegui habituar ultimamente. É só para preservar o espírito original da coisa. E sim, isto é parvo até dizer chega, começando logo pelo título. Mas aqui fica este rebuçadinho especial, só para vós. Cá vai:

A vida de Reginaldo Teles

Ou

Um conto sobre ódio que reflecte a idiotice do seu autor

Reginaldo Teles era um homem detestável: não havia sequer uma única pessoa em todo o planeta Terra que fosse do seu agrado, odiando tudo e todos de maneira igual. Poderia fazer chuva ou fazer sol, e mesmo que aquele dia em particular fosse sinónimo de alegria para Reginaldo, ele agia de maneira igual aos outros dias da sua vida, não conseguindo evitar expôr o seu grande defeito pecaminoso de vilipendiar todo e qualquer ser que com ele se cruzasse.

Alguns apontavam a origem desta maleita psicológica à ascendência de Reginaldo. Um seu tio-avô, o conhecido Casimiro Teles, conde do Vale da Pantomineira, ficou na História dessa aldeola por acordar sempre mal disposto, tendo ocasionalmente vontade de mandar algum dos seus criados para o espeto que assava os leitões nos sábados de Agosto. Felizmente, o protagonista desta nossa historieta nunca chegava a ter essa necessidade obscura, mas detestava toda a gente. E isso é algo ruim, também.

Por causa deste defeito, Reginaldo foi sempre um indíviduo propício a causar sarilhos por todos os sítios onde deixava a sua "marca". Na escola primária, por exemplo, foi expulso dois dias depois de ter apontado o conhecido e reconceituado "dedo-do-meio" ao reitor do dito estabelecimento. Se pensarmos que isto ocorreu em plena década de 50, sim, trata-se de coisa grave. Hoje a criançada anda à pedrada nos intervalos que supostamente seriam para ingerir sumitos e pão de leite, e ninguém se importa. Mas não nos desviemos do relato, já que este humilde narrados não pretende afastar-se do essencial (ou algo que possa ser assemelhado a tal conceito). As tropelias do então gaiato Reginaldo foram-se sucedendo, e só teve a verdadeira oportunidade de ser instruído quando os seus Pais se aperceberam que, após o filho ter passado por mais de vinte e muitas escolas em menos de três meses, que mais valia o Naldinho ser ensinado em casa, com os parcos conhecimentos que os progenitores poderiam dar ao filhote. Cresceu, aprendeu a ler, a escrever e a fazer contas, nunca deixando o seu vício de odiar o próximo, algo que nunca podia evitar nem mudar, mesmo que quisesse. Aos catorze anos, e já no princípio dos anos 60, Reginaldo decidiu sair da alçada dos paizitos e embarcou numa aventura à descoberta de si próprio e do resto, seguindo as pegadas da cruzada que o seu herói (odiável, claro) de infância, Adolf Hitler, tinha feito há muitos anos (uma experiência que, digamos, não correu lá muito bem para a popularidade do dito cujo, mas por isso é que Reginaldo o conseguia odiar um bocadinho menos que todos os outros seres humanos, pois o Dolfinho também, tal como ele, queria fazer todo o possível para tornar o ódio a palavra de Ordem da sua sociedade).

Não foi bem sucedido, e viveu durante oito anos a disparatar na Avenida 5 de Outubro, a troco das moedas que as pessoas lhe deixavam, caso achassem ternurenta a sua veia de ódio. Talvez alguns dos queridos leitores lembram-se desta figura mítica, que sempre que afirmava que odiava o indivíduo que estava a passar por si - embora não o conhecesse de lado nenhum -, conseguia criar um divertimento que juntava famílias e amigos em agradáveis passeios de fim de tarde por Lisboa. Ao fim dessa longa temporada, Reginaldo apercebeu-se como, à conta do seu "show" odiavelmente improvisado, tinha conseguido angariar uma quantia considerável de dinheiro, podendo assim concretizar o seu plano maior e mais apetecível: ir abominar para o estrangeiro, nos quatro cantos do globo.

Reginaldo passou os quarenta anos seguintes à sua partida, em Janeiro de 1970, a aborrecer e importunar indivíduos de diversas línguas e dialectos. Aprendeu inglês, francês, espanhol, alemão, chinês e um sem-número de idiomas onde se destaca também - imagine-se! - o açoriano da ilha de São Miguel.

Já em 2010, com meia idade e mais detestável do que nunca, Reginaldo decidiu regressar às origens e ao seu cantinho na 5 de Outubro - porque sim, durante quatro décadas, ele prosseguiu o seu trabalho de saltimbanco do Mal por todos os países por onde passou. Chegado a Lisboa, ficou surpreendido: o seu habitual cantinho onde, há tantos anos, muitas pessoas encontravam o seu espaço de entretenimento diário, estava agora a ser ocupado por uma banda africana com toques de Nova Zelândia, que se afirmava como uma mistura inovadora de muitos sons e estilos musicais, nomeadamente jazz, tango, pop e o corridinho. Reginaldo sentiu uma explosão de ódio mais intensa e diferente de tudo o que alguma vez tinha experimentado antes e, bastante furioso e momentaneamente irracional, começou a andar em direcção a uma passadeira sem saber bem o que estava a fazer. Não olhou para a estrada, e acabou por falecer nesse dia, atropelado por uma Vespa azul escura, que ia anormalmente veloz para aquela hora do dia.

Há quem diga que a última frase proferida por Reginaldo foi "Odeio motorizadas, pá!", mas talvez isto não seja mais do que um mito. Agora, se perguntarem ao narrador se esta história é fictícia, ele responder-vos-á que sim. Mas há muitos seres que andam por aí e que possuem as mesmas características desta vil e manhosa figura imaginária. Tenhai cuidado, amigos leitores, muito cuidado. Reginaldos Teles é coisa que nunca faltou em Portugal e arredores.

5 anos de vida, um abraço e um agradecimento


Foi esta a imagem que decidi utilizar para publicitar o quinto aniversário desta Companhia das Amêndoas, na sua página de facebook. Para comemorar, deixo-vos hoje ainda uma surpresa, mas antes, queria deixar um desabafo nostálgico.

A jornada já vai longa, prolongando-se até muito mais do que aquilo que eu, alguma vez, poderia esperar deste estaminé. Nunca ninguém conseguiu perceber o propósito deste blog, tal como nunca houve uma pessoa que conseguisse entender como funciona a minha cabeça, no meio de tanta desorganização de projectos, acontecimentos, ideias, livros, músicas, filmes, e tantas outras coisas, que povoam a minha imaginação e a fraca vida social que ainda consigo, com sorte, preservar.

Começou por ser um blog de parvoíces, no dia 2 de Maio de 2009, uma data que ficou marcada para a História desta companhia graças ao post primordial, em que apenas disse algo semelhante a "olá, não sei o que isto é, mas acabou de nascer. Obrigado e bom dia". Já a 3 do mesmo mês, publiquei a minha primeira dissertação idiota sobre o quotidiano (um pequeno ensaio grotesco sobre supermercados).

Consegui, felizmente, evoluir muito nestes últimos cinco anos. De cada vez que reencontro textos que escrevi no passado, não consigo deixar de os considerar patéticos e demasiado maus para terem sido postos à disposição para todo o planeta Terra (e a meia dúzia de alienígenas que vêm aqui parar, acidentalmente, porque estavam no Google a pesquisar receitas terráqueas que envolvem frutos secos). Provavelmente, amanhã já me terei arrependido da mediocridade destes parágrafos que estou agora teclando com grande vivacidade. Mas sou fã das coisas que se devem dizer no momento certo, sem serem polidas até à exaustão.

E mesmo que a Companhia das Amêndoas não possa ser definida como algo concreto, há uma coisa que sempre caracterizou este blog (se bem que, ao longo do tempo, fui melhorando a minha escrita - e tornei a minha opinião, felizmente, mais fundamentada a cada dia, apesar de ainda hoje eu continuar a ser burro que nem uma porta.), que é essa característica de poder dizer, neste espaço, o que me vai na alma. Seja de filmes ou de outra coisa qualquer. É o sítio onde tenho inteira liberdade, em que mais gosto de debitar coisas, mesmo que depois as odeie para todo o sempre. E depois disso também.

Nos últimos tempos tem sido a cinefilia a dominar o blog. Em vez de ser uma salganhada total de temáticas, passou a ser uma salganhada mais pequena, em que as críticas dos filmes (ou a publicidade a coisas que tenho feito para o Espalha Factos) se misturam. Com o passar dos anos pude conhecer pessoas e mentalidades novas graças aos disparates que fui aqui divulgando. 

E agradeço a toda a gente que me permitiu crescer e desenvolver esta companhia. Agradeço às pessoas que apoiam desde sempre esta coisa, que não merecia tanto. Obrigado a todos, pelos comentários, pelas apreciações, pelas críticas positivas e negativas, e por me terem ajudado a crescer - e por continuarem a fazê-lo. Não sou ninguém no mundo da blogosfera, nem pretendo ser. Estou bem no papel de "garoto-que-manda-umas-postas-de-pescada-e-que-as-pessoas-desconfiam-à-partida-porque-o-nome-do-blog-dele-é-demasiado-parvo" - e acreditem, eu não sei mesmo como é que este epíteto surgiu!

Que venham, por isso, mais cinco, dez, vinte anos de amêndoas, com ou sem chocolate. E por mais transformações que o blog tiver de sofrer, nunca terá o seu bom nome manchado. Porque lá está, sendo uma coisa tão estranha e vaga, posso fazer dela o que eu quiser. Se me desse na gana, a partir de amanhã começava apenas a publicar aqui receitas de bacalhau, e um trabalho de investigação aprofundado sobre danças e cantares da Beira Baixa. Mas não me apetece.

E o blog pode não estar nos seus melhores dias - este mês de abril foi muito cansativo, com tanta coisa para fazer para o Espalha Factos. Contudo, não penso abandonar este espaço, e tentarei, a partir daqui, manter um ritmo não tão distante, para não perder a pequeniníssimazinha comunidade de leitores que consegui captar com as minhas debitações culturais e anormais.

Agora, fora de brincadeiras: OBRIGADO. É tudo o que posso dizer, e que por mais vezes que repita, nunca deixará de fazer sentido proferir. Porque tenho sempre razão para o fazer.

Um Lance no Escuro - As canções dos filmes

«Django», «Goodfellas»... e muito mais, nesta quarta emissão de «Um Lance no Escuro», um especial dedicado às canções dos filmes. O podcast está agora disponível e podem ouvi-lo, como sempre, na Rádio Autónoma. São 25 minutos de boa música!

UM LANCE NO ESCURO 04

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ando por aí em cartazes


Coisa engraçada que aconteceu: «Capital Humano», o filme de encerramento da edição lisboeta de 2014 da Festa do Cinema Italiano, chega às salas no próximo dia 15, pela distribuidora Films4You (antiga LNK). Enviei para o facebook dessa empresa a pequena crítica que escrevi, enquanto peregrino da jornada do 8 1/2. E gostaram tanto que fizeram uma menção à minha pessoa no material promocional do filme (sou o Rui Alves, na parte superior deste cartaz - cliquem na imagem para verem o tamanho original). É altamente recomendável, e infelizmente, só vai estar em exibição em duas salas: no Arrábida Shopping e no El Corte Inglés em Lisboa. Mas é mesmo imperdível. E a simpatia dos responsáveis pela Films4You é notória de uma empresa que quer trazer, a partir de agora, grandes fitas para as salas (em Julho eles irão trazer o «Snowpiercer» e em Novembro, «The Wind Rises»). E para mim, como puro amador na escríta de Cinema que sou, é uma honra poder fazer parte na divulgação desta obra importantíssima no moderno circuito cultural italiano. A não perder!