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A mostrar mensagens de Julho, 2014

Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo (Când se lasa seara peste Bucuresti sau metabolism) [2013]

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Um filme que questiona o passado e o presente do Cinema, e aquilo que será a Sétima Arte no futuro – mas que se perde no desinteresse que acaba por criar com as suas personagens. Realizado por Corneliu Porumbiou, Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo é antecedido pela curta metragem Luminita, do português André Marques
O que é o Cinema? Parece ser a grande pergunta em que se centram os quase 90 minutos do filme de Porumbiou. Através de uma série de planos fixos, o realizador elabora uma série de alusões ao cinema contemporâneo e às diferenças que a modernidade trouxe às tradições da arte das imagens em movimento. Esses planos fixos são contados em sequência, em momentos de conversa prolongadas, que podem fazer uma espécie de alusão aos 11 minutos que um rolo de película consegue filmar (algo mencionado na primeira – e mais interessante – cena do filme), algo que Alfred Hitchcock utilizou também para construir um dos seus trabalhos mais notáveis e inovadores, A Corda. Mas s…

“Hollywood, tens cá disto?”: Balada da Praia dos Cães (1987)

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A expectativa que rodeia a produção, desde o início da sua rodagem, é evidente, devido a dois fatores: primeiro, trata-se da adaptação de um livro polémico, de José Cardoso Pires, inspirado num caso verídico, vencedor do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; o segundo fator reside no ator escolhido para protagonizar este drama policial, ambientado no Estado Novo: Raul Solnado, na altura um dos cómicos mais aclamados em atividade, decide embarcar noutro registo, interpretando o inspetor da PJ Elias Santana, que vai investigar um caso insólito. O próprio Cardoso Pires ficou, a princípio, desagradado com esta escolha para o papel. Mas quando o filme estreou, tanto ele como os espectadores ficaram surpreendidos, ao verem Solnado desempenhar tão bem esta personagem, representativa de um regime e de um passado repleto de mistérios.
Um dos grandes sucessos do Cinema português da década de 80 na nova edição da rubrica "Hollywood, tens cá disto?",…

100 anos depois – A I Guerra Mundial em 5 filmes

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Recordar a I Guerra Mundial no Cinema com 5 grandes filmes: eis a proposta que o José Pereira e eu concretizámos neste artigo para o Espalha Factos!

Oito Vidas por um Título (Kind Hearts and Coronets) [1949]

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Kind hearts are more than coronets, And simple faith that norman blood.

É uma das comédias mais famosas e características do estilo que tornou a Ealing num fenómeno de culto, produtora de uma série de filmes tidos hoje como clássicos, que marcaram a História do humor e do Cinema britânico. Basta que nos relembremos do impagável «O Quinteto Era de Cordas» ou do curioso e satírico «O Homem de Fato Claro» para associarmos um tipo de comédia característico desse estúdio inglês, onde o nonsense, o disparate e a sociedade são denominadores comuns para a criação de alguns dos momentos mais hilariantes da Sétima Arte. E com «Kind Hearts and Coronets» formamos mais um elemento que todas estas três fitas partilham igualmente: Alec Guinness. Um actor que dispensa apresentações, mas cujo génio e versatilidade parece estar Hoje esquecido, em virtude da dimensão dos épicos de guerra e ficção científica onde que colaborou (referências como «Lawrence da Arábia» ou «A Ponte do Rio Kwai» são inevitáveis…

Os discos dos QUEEN: Jazz [1978]

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«Jazz» fecha a primeira década de vida dos QUEEN, e tal como a maioria dos álbuns anteriores da banda, foi mal recebido na época do seu lançamento, sendo reavaliado por diversas ocasiões e entidades ao longo das décadas. Neste disco voltam as variações de estilos (como as variações criativas, mais presentes pelo cruzamento constante de temas mais fortes e alguns temas disfarçadamente inocentes e ingénuos), que caracterizaram a banda até «A Night at the Opera», mas os QUEEN reinventam-se mais uma vez, e incluem uma nova excentricidade às sonoridades desta obra, que conquistou o agrado de uns e o desprezo de tantos outros. E se os QUEEN já eram "estranhos", «Jazz» faz-nos perguntar "mas o que é isto?!" mais vezes do que o habitual, enquanto saltitamos de extravagância em extravagância, entre os pontos mais e menos altos de um álbum que marcaria, também, o desfecho de uma certa imagem visual da banda (para o álbum seguinte, «The Game», os quatro membros do grupo most…

Livros VS Filmes #2 - LARANJA MECÂNICA

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O LIVRO  «Laranja Mecânica» reflecte acontecimentos trágicos da vida do seu autor, e profetiza uma sociedade suja, violenta e isenta de moralidade, através da história diabólica de Alex e dos seus três drugos. Desenvolvendo uma linguagem própria (o nadsate), o protagonista conta-nos todas as suas peripécias, e com ela, o leitor vai até ao lado mais negro da humanidade, descobrindo os dois lados de uma questão delicada e que necessita de uma grande reflexão: a distância entre a Ordem e o Livre-Arbítrio, e suas causas e consequências. Um livro que permanece chocante e contemporâneo mais de meio século depois da sua publicação. 
O FILME  A obra de Stanley Kubrick é tão ou mais famosa do que o livro, não só pela inesquecível interpretação de Malcolm McDowell (o “one and only” Alex) como por toda a enorme controvérsia e censura que originou na sua estreia original. Com o passar dos anos tornou-se (justamente) um filme de culto, kitsch e provocador, que continua a provocar tanto como a esc…

Snowpiercer - Expresso do Amanhã [2013]

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Foi um coreano, Bong Joon-ho, que conseguiu trazer de volta a extinta tradição épica, popular e inteligente dos grandes clássicos blockbusters de aventura e ficção científica: Snowpiercer – Expresso do Amanhã é uma história apocalíptica e uma metáfora arrasadora para a existência humana e a hierarquização da vida em sociedade.
Snowpiercer é o comboio onde viajam todos os humanos que sobreviveram à catástrofe provocada por uma experiência falhada que queria parar o aquecimento global. Entretanto, estamos em 2031 e uma nova geração já nasceu naquele comboio, e muitos não se conseguem lembrar de como era a vida na Terra, antes da tragédia acontecer. O Snowpiercer viaja sem parar à volta do mundo, e está estruturado de forma hierárquica, dos mais pobres aos mais ricos e poderosos, controlando os fracos com um sistema violento e chocante. Mas chegou a altura de Curtis (Chris Evans) liderar uma revolta contra todo o sistema dominado com mão de ferro pelo grandioso chefe do comboio.
Dito de…

O MotelX está de volta… e os sustos também!

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A noite da passada terça feira ficou marcada pela conferência de imprensa do MotelX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, onde se apresentaram muitos dos regressos e novidades que irão marcar a oitava edição do festival, a decorrer entre 10 e 14 de setembro. Espreitem as novidades no Espalha Factos!

O Fim do Outono (Akibiyori) [1960]

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O último dos três filmes do realizador Yasujiro Ozu que chegam esta semana ao Espaço Nimas, em cópias digitais restauradas, é mais uma belíssima reflexão do papel das relações humanas nas mudanças e costumes da sociedade japonesa. Um clássico do cinema oriental que os espectadores portugueses podem agora ver ou rever no grande ecrã. 
O Fim do Outono é a história do início de um ciclo social e da tentativa de tentar renovar outro. Trata-se de uma renovação da história de Primavera Tardia, filme que Ozu assinara no final da década de 40, e que curiosamente, contava também com Setsuko Hara (e com outros atores regulares das fitas do cineasta) no outro papel: o da filha solteira, que nesse caso específico, vive com o pai viúvo, que a tenta casar a todo o custo, enquanto ela prefere ficar solteira para cuidar do seu progenitor. 11 anos separam a estreia das duas obras, e entre ambas verificamos como todo o sistema ético da cultura japonesa não se alterou muito – apenas em pequenas coisas p…

Bom Dia (Ohayô) [1959]

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É um dos 3 clássicos do Mestre Yasujiro Ozu a estrear, pela primeira vez, no grande ecrã em Portugal. Bom Dia é uma sátira social que se mantém extremamente atual, e que pode ser vista, ou revista, a partir de hoje no Espaço Nimas. Um filme que irá com certeza animar o verão dos cinéfilos lisboetas.
Pode parecer surreal, para as pessoas da geração high-tech que (podemos dizê-lo da forma mais metafórica, mas realista, possível) nasceu com um ecrã táctil no lugar dos olhos, o confronto com um mundo onde a televisão é um bem raro e que apenas alguns podem ter acesso. Poderá ser incompreensível, para as pessoas que vieram ao mundo numa era em que a televisão já se tinha tornado uma parte essencial e vulgar de qualquer casa, e cuja influência já se tinha tornado parte do quotidiano de cada um, que uma história como Bom Dia possa ter usufruído de um impacto significativo – e que pode falar, e muito bem, da forma como a televisão se banalizou e acabou por afetar, de uma maneira mais ou meno…

A Flor do Equinócio (Higanbana) [1958]

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O Mestre Yasujiro Ozu regressa ao Espaço Nimas, depois do sucesso das exibições de Viagem a Tóquio e O Gosto do Saké em 2013. A partir de hoje, os espectadores poderão ver ou rever mais três clássicos do realizador japonês, em cópias digitais restauradas. Um deles é A Flor do Equinócio, primeiro filme a cores do cineasta.
Casamento, relações familiares e conflito de gerações são temas recorrentes do Cinema de Ozu, que elaborou, com este filme, um outro olhar contemporâneo sobre os rígidos códigos de conduta da sociedade japonesa do seu tempo. Com todas as marcas visuais, estilísticas e narrativas que tornaram única a obra do realizador, A Flor do Equinócio segue as linhas daquele que poderia ser um banal drama familiar, mas consegue ser muito mais do que isso. Aliás, porque como Ozu não é igual aos outros, não poderíamos esperar uma recriação de temas mundanos e eternos da experiência humana que recorresse aos métodos mais vulgares utilizados para se contarem histórias que se enqua…

O trailer d’ Os Maias de João Botelho já está disponível

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A apresentação promocional da adaptação da obra de Eça de Queiroz pelo realizador de Filme do Desassossego, João Botelho, já está disponível na Internet. Leiam tudo no Espalha Factos!

Os discos dos QUEEN: News of the World [1977]

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O sexto álbum dos QUEEN evidencia uma reviravolta nas temáticas artísticas utilizadas pelo grupo: obra de pendor mais leve e menos sofisticada e elaborada, mas não menos incrível e brilhante, em «News of the World» não encontramos a dispersão de géneros e melodias que fizeram a trademark do grupo no díptico de discos anterior, mas uma selecção de temas em que quase cada um representa um único género musical, ou tendência. De destacar também o esplendoroso trabalho da edição do disco, com aquela que é talvez a melhor capa da discografia do grupo (baseada numa ilustração original do autor de ficção científica Frank Kelly Freas). Mas se os QUEEN estão aqui mais "certinhos", não foi isso que os impediu de elaborar mais um grande título da sua discografia - porque é esse lado mais correcto e polido que volta a mostrar as várias faces, ou máscaras, que o grupo soube vestir em cada obra. «News of the World» tem ainda duas das composições mais celebradas (e comercialmente utilizada…

Omar [2013]

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O candidato palestiniano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é uma pungente história de amor que reflete o estado do país e as consequências dos conflitos que nele se presenciam na vida normal dos seus habitantes. Omar é uma obra simples, delicada e emocionante, que estreia hoje em Portugal. 
Omar é um rapaz habituado a passar clandestinamente o muro de separação para poder encontrar, do outro lado, a sua namorada secreta, de nome Nadia. Contudo, os sentimentos que os dois personagens sentem um pelo outro acabarão por ser condicionados pela guerra e por uma série de problemas sociais e políticos, que se sobrepõem ao amor que os une e criando reviravoltas inesperadas e perturbantes nas suas vidas e naqueles que os rodeiam. A Palestina ocupada destrói simplicidades e cria rivalidades, proporcionando outras lutas que tentam distanciar-se do conflito armado que está sempre tragicamente presente. 
É a história deste jovem (interpretado por Adam Bakri) que dá o título ao novo filme de H…

O Teorema Zero (The Zero Theorem) [2013]

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É o novo filme de um dos membros dos Monty Python, autor de excentricidades lendárias como Brazil – O Outro Lado do Sonho e A Fantástica Aventura do Barão. A filmografia de Terry Gilliam é irregular, variando constantemente entre filmes mais e menos interessantes, mas O Teorema Zero está entre os grandes títulos da sua carreira, e é também um dos filmes mais imaginativos de 2014. 
Terry Gilliam regressa às fantasias distópicas e sociais futuristas depois de Brazil e 12 Macacos, e volta a acrescentar a essência criativa, excêntrica e insólita que caracterizam estas suas narrativas que têm tanto de ficção como de crítica à vida quotidiana. O Teorema Zero segue, à partida, algumas linhas básicas que nos recordam Brazil, mas acaba, apesar disso, por ir mais além do que essa história futurista poderia permitir. Não nos esqueçamos que o filme mais conhecido de Gilliam data da década de 80, época em que smartphones e redes sociais não passavam de delírios dos mais lunáticos escritores de fic…

O Atirador (The Shootist) [1976]

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- You told me I was strong as an ox.
- Well, even an ox dies.


E mesmo os mais valentes e corajosos anti-heróis dos filmes também não podem durar para sempre, tal como os seus tempos de glória e de saloons, poker e duelos ao meio dia: «The Shootist» foi o último trabalho da longa carreira de John Wayne, e começa com uma espécie de revisitação de alguns dos seus filmes anteriores, numa sequência inicial a preto e branco que utiliza esses excertos para construir uma cronologia que sirva à personagem que Wayne interpreta neste filme). É a história de um pistoleiro à beira da morte, que pretende passar os últimos momentos da sua vida com a maior dignidade que merece, ajustando contas com o passado - e enterrando consigo o próprio passado, e as memórias de uma época do Oeste que nunca mais voltou, mas que criou um imaginário eterno para a arte e cultura americanas. Don Siegel (o realizador de «A Fúria da Razão») assina esta humanização do protótipo de herói que, em vários filmes do género we…

Os discos dos QUEEN: A Day at the Races [1976]

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Algum tempo depois do lançamento de «A Day at the Races», Freddie Mercury confessaria que este quinto disco dos QUEEN poderia ter sido lançado ao mesmo tempo que o anterior, «A Night at the Opera», ou poderiam até ter formado um duplo álbum. E há muitas semelhanças entre os dois: a capa é parecida (partilham, embora que desenhado de maneiras diferentes, o símbolo da banda, representando, através das figuras, os signos de cada um dos quatro elementos da mesma), os títulos são de filmes dos irmãos Marx (esta foi a comédia que fizeram dois anos depois a seguir à da Ópera), e a estrutura e organização das canções do disco segue uma linha narrativa complexa, mas ao mesmo tempo linear e que se vai repetindo ao longo de cada faixa (mesmo que sejam todas muito distintas umas das outras). E tal como «A Day at the Races» não é um filme superior a «A Night at the Opera», também este quinto álbum não consegue superiorizar-se ao quarto. Mas não deixa, por isso, de ser muito bom, original e vician…

Livros VS Filmes #1 - O PROCESSO

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O LIVRO  A obra incontornável de Franz Kafka é uma intemporal reflexão sobre a condição humana face à burocracia da sociedade e do mundo em que vivemos. É a história de Josef K., um homem que acorda numa manhã e é acusado de um crime cujas circunstâncias não lhe são reveladas. K. luta pela sua inocência no meio de um processo longo, demorado e caótico, que nos leva numa viagem profunda até ao lado menos humano da Humanidade, contrapondo os acontecimentos estranhos e até surreais que acontecem ao protagonista com o estado do mundo em que vivemos, dominado pela Ordem do Poder. 
O FILME  A adaptação de Orson Welles tem Anthony Perkins como protagonista, numa desconstrução relevante e brilhante da história de Kafka. Através de um visual grandioso, sufocante e atribulado, a forma como a história é recriada dá ao filme um respeito tão grande como o da obra literária. Acompanhamos K. na sua longa jornada de auto-descoberta, maior do que a vida e até do que o próprio Cinema, num mundo burocr…

Filmes em 60 segundos: O Deus da Carnificina (Carnage) [2013]

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Roman Polanski adapta a peça homónima de Yasmine Reza para o Cinema aproveitando as limitações do espaço cénico e doméstico ao máximo, para recriar com a maior precisão possível a crescente tensão entre os dois casais que se reunem, ao longo de quase 80 minutos, para discutirem um problema criado pelos filhos de ambos. Um filme que aumenta a sua ironia e sarcasmo à medida que as quatro personagens se deixam cair no ridículo das situações e problemas que criam a cada instante e que acabam por gerar a ruptura de um ambiente que, à partida, parecia ser favorável e nada hostil. Com uma entusiasmante execução técnica e performativa, «O Deus da Carnificina» pode não ser um dos mais notáveis trabalhos de Polanski, mas mostra sem dúvida como o cineasta de «Chinatown» e «O Escritor Fantasma» ainda tem muito para dar, permanecendo um exemplo de grande criatividade e qualidade cinematográfica.
★ ★ ★

Filmes em 60 Segundos: Agentes Universitários (22 Jump Street) [2014]

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A crítica americana pode ter idolatrado «22 Jump Street», mas não é por isso que esta comédia deixa de ser muito parecida, a nível técnico, com tantos outros blockbusters de Verão de Hollywood (como por exemplo, na realização televisiva e formatada e na montagem rápida e constantemente despropositada de cada plano). Contudo, há uma coisa que distingue esta de outras fitas cómicas da temporada, e que acaba por “salvá-la” da mediania: a nova aposta dos realizadores de «O Filme LEGO» vence por nos garantir uma boa dose de divertimento ligeiro e bem feito, exemplarmente construída pelas interpretações e, principalmente, pela energia e timing da hilariante dupla formada por Channing Tatum e Jonah Hill. Tem clichés na sua história, mas estes são muito bem polvilhados por uma série de gags eficazes, que fazem com que esta seja mais do que uma mera comédia comercial: é uma comédia comercial com (muita) piada.
★ ★ ★

Night Moves [2013]

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O novo filme de Kelly Reichardt, uma das vozes mais influentes do actual cinema independente norte americano, é no fim de contas uma grande surpresa: Night Moves pode não ser para todos os gostos, mas sem dúvida que abalará o sentido cívico e ético de qualquer espectador.
Night Moves acaba por se tornar numa espécie de heist movie ecológico e psicológico, através de uma divagação filosófica com o seu quê de contemplativa e introspetiva, sobre a condição humana numa situação extremamente delicada. A história de Kelly Reichardt está dividida em duas partes: a primeira diz respeito ao plano de execução do crime ambiental pelos três jovens que protagonizam o filme, e todos os passos que detalhadamente elaboram para conseguirem cumprir o seu objetivo da maneira mais eficaz, perturbante (para o establishment) e impactante possível; a segunda revela um outro lado, mais negro e profundo, de uma narrativa que parecia clara e objetiva, já que a cineasta começa, aqui, a explorar as consequência…

Três Mulheres Altas: o envelhecimento em jeito de comédia negra

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Se Edward Albee ficou conhecido pelo humor cáustico e o drama angustiante de «Quem tem medo de Virginia Woolf?», em «Três Mulheres Altas», peça que está agora em cena no Teatro Nacional D. Maria II (até dia 13 de julho), a comédia e a tragédia unem-se numa mistura que tanto tem de sarcástica, como de repugnante, pessimista e filosófica. O trio de mulheres representam três gerações distintas, que combatem entre si para objectivos que, apesar de distintos, acabam por colidir, quer se queira, quer não.
A(s) história(s) destas três mulheres é a marca da Mulher na sociedade e do seu papel na criação das convulsões dessa mesma sociedade: três idades e três formas de ver o mundo que se chocam e confrontam, e cujos pontos em comum são pouquíssimos, ou mesmo inexistentes. E a partir deste objectivo humanista, introspectivo e social, Albee traça um objecto satírico, que nos faz rir das coisas que, supostamente, não estamos autorizados a ver de uma maneira mais... engraçada. 
«Três Mulheres Alt…

Os discos dos QUEEN: A Night at the Opera [1975]

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O título foi "roubado" a uma comédia delirante dos irmãos Marx, que tem apenas uma coisa em comum com o álbum: a loucura e o espírito irreverente e desejoso de quebrar todas as convenções possíveis e imagináveis. O epíteto surgiu depois dos quatro terem visto o filme num dia de gravações, mas é completamente diferente, a "ópera" dos QUEEN: um misto de poesia, alucinações, drama, tragédia, comédia e farsa, que se tornou, à época, no disco mais caro de sempre, no que diz respeito ao seu budget. Mas os custos elevados foram recompensados: a obra foi um sucesso de público e de crítica, e hoje permanece, para a opinião especializada, como um dos trabalhos mais originais da banda. E com toda a razão. «A Night at the Opera» é um grandioso "vulcão em erupção", e um dos momentos mais fervilhantemente criativos de inspiração do grupo. Desde o princípio até ao fim que os QUEEN revelam outras máscaras do seu imaginário, elaborando ligações complexas com os álbuns an…

Violette [2013]

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É a história de uma mulher ímpar na História da Literatura Francesa, que foi contemporânea de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Albert Camus. No entanto, a sua existência permanece desconhecida de muita gente, e Violette pretende ressuscitar a vida e obra de uma escritora revolucionária. 
Trata-se de um filme interessante que tem como único defeito assinalável, talvez, o de ser um pouco longo demais, o que faz com que o ritmo da película se perca em virtude de certas pequenas situações que são filmadas de forma descontextualizada do resto da história. Mas uma fita assim não deixa de ser relevante, por tratar de uma pessoa que não associamos, à partida, à época cultural filmada. Porque o tempo pode tê-la apagado do campo mediático da literatura, mas o impacto da sua escrita foi inigualável e continua a gerar repercussões. 
É invulgar encontrarmos um ambiente assim tão bem desconstruído no Cinema, captando a essência da busca incessante dessa geração de autores por novas tendência…

Draft Day - Dia D [2014]

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O novo filme do realizador de Os Caça-Fantasmas, O Pelotão Chanfrado e Nas Nuvens é um retrato corriqueiro dos bastidores económicos e oportunistas do futebol americano. Não é mais do que um mero divertimento ligeiro, mas ao menos sabe cumprir da melhor maneira essa função nada desprestigiante. Draft Day – Dia D estreia esta semana em Portugal. 
É uma fórmula (demasiado) habitual, mas que acaba por funcionar mais uma vez: temos uma equipa de futebol americano que está a fazer uma péssima temporada e Sonny Weaver Jr. (Kevin Costner), o manager da mesma, está a um passo de ser despedido da liderança. Mas no draft day (o dia em que todas as equipas contratam novos e promissores talentos), Sonny tem a oportunidade de reconstruir a sua equipa caótica e desastrosa, e salvar a pouca confiança que os fãs e o seu chefe ainda depositam nas suas ideias, trazendo os melhores jogadores e evitando cair nas armadilhas propostas pela estratégia das outras equipas. 
E com isto já conseguimos saber qu…

O último Lance... desta temporada

E cá está, em podcast, o último episódio da segunda temporada de Um Lance no Escuro. O fim de uma nova e enriquecedora etapa para o programa e o miserável ser que o faz todas as semanas. Espero que nos possamos reencontrar em breve neste mundo do éter, mas por agora, fiquem com mais uma selecção improvável de bandas sonoras de musicais: desde Mary Poppins a South Park, há aqui de tudo! UM LANCE NO ESCURO 12

A despedida (temporária) do Lance

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Hoje vou gravar a última emissão desta segunda temporada de Um Lance no Escuro. Foi uma óptima e divertida jornada, e esta noite vou despedir-me temporariamente da Rádio Autónoma para umas férias bem merecidas - porque não posso pedir a ninguém para me aturar em julho e agosto... vós, caros ouvintes, tendes também de descansar! 
Vai ser mais um especial de bandas sonoras (repetindo o inesperado êxito que teve o anterior), e resta-me agradecer a todos os que ouviram, acompanharam e acarinharam este programa, uma das coisas que mais gosto de fazer. E um especial obrigado também aos 8 convidados que presentearam esta época de emissões com grandes conversas, e que aceitaram com simpatia o desafio de participar neste programa amadoríssimo: Tiago R. Santos, André Tenente, Francisco Rocha, José Carlos Maltez, António Sala, Miguel Gonçalves Mendes, Manuel S. Fonseca e João Chaves. 
O 12.º episódio será transmitido hoje às 22 horas, no sítio do costume, e espero voltar com novidades deste pro…

Filmes em 60 segundos: A Terra em Perigo (Invasion of the Body Snatchers) [1956]

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Eis um filme sci-fi com uma razão de ser, que ultrapassa a própria ameaça alienígena que nos conta: mais do que uma pura ficção psicológica, «Invasion of the Body Snatchers», de Don Siegel, é uma metáfora contundente para a pressão do McCarthyismo (com vários apelos directos ao espectador, que tem de compreender que aquela situação imaginária corresponde demasiadamente à realidade que o rodeia) e para o conformismo ético e social que parece abalar qualquer país, nos anos 50 e no século XXI. Formal e narrativamente datado (algumas ideias visuais poderão parecer ridículas para os nossos dias), mas ainda arrepiante e provocador na sua essência, este clássico americano soube conjugar, como ninguém, a força da crítica política ao poder da imaginação que só o Cinema pode exercer nas audiências. O resultado foi um dos títulos maiores da ficção científica “retro” dos anos 50 e 60, muitas vezes imitado, mas nunca ultrapassado. 
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