quinta-feira, 31 de julho de 2014

Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo (Când se lasa seara peste Bucuresti sau metabolism) [2013]


Um filme que questiona o passado e o presente do Cinema, e aquilo que será a Sétima Arte no futuro – mas que se perde no desinteresse que acaba por criar com as suas personagens. Realizado por Corneliu Porumbiou, Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo é antecedido pela curta metragem Luminita, do português André Marques

O que é o Cinema? Parece ser a grande pergunta em que se centram os quase 90 minutos do filme de Porumbiou. Através de uma série de planos fixos, o realizador elabora uma série de alusões ao cinema contemporâneo e às diferenças que a modernidade trouxe às tradições da arte das imagens em movimento. Esses planos fixos são contados em sequência, em momentos de conversa prolongadas, que podem fazer uma espécie de alusão aos 11 minutos que um rolo de película consegue filmar (algo mencionado na primeira – e mais interessante – cena do filme), algo que Alfred Hitchcock utilizou também para construir um dos seus trabalhos mais notáveis e inovadores, A Corda. Mas só são isso, planos fixos com conversas mais ou menos interessantes, que não mostram grande criatividade ou utilização dessa câmara parada (mas tão cheia de possibilidades inventivas) pelo realizador. 

Não há dúvida que Quando a Noite Cai em Bucareste… possui um grande simbolismo cinéfilo, tal como uma fotografia apropriada, boas interpretações e um exemplar trabalho de enquadramento da câmara. Mas que mais se pode aproveitar disto, no meio de tantas pontas soltas e muitas cenas entediantes e cujo propósito para a sua inclusão no filme parece ser nenhum outro que o da aleatoriedade? Este exercício de linguagem perde, pois, por não saber dominar esse lado peculiar e não conseguir, a partir dele, construir mais qualquer coisa do que aquilo que nos é apresentado.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

“Hollywood, tens cá disto?”: Balada da Praia dos Cães (1987)


A expectativa que rodeia a produção, desde o início da sua rodagem, é evidente, devido a dois fatores: primeiro, trata-se da adaptação de um livro polémico, de José Cardoso Pires, inspirado num caso verídico, vencedor do Grande Prémio do Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; o segundo fator reside no ator escolhido para protagonizar este drama policial, ambientado no Estado Novo: Raul Solnado, na altura um dos cómicos mais aclamados em atividade, decide embarcar noutro registo, interpretando o inspetor da PJ Elias Santana, que vai investigar um caso insólito. O próprio Cardoso Pires ficou, a princípio, desagradado com esta escolha para o papel. Mas quando o filme estreou, tanto ele como os espectadores ficaram surpreendidos, ao verem Solnado desempenhar tão bem esta personagem, representativa de um regime e de um passado repleto de mistérios.

Um dos grandes sucessos do Cinema português da década de 80 na nova edição da rubrica "Hollywood, tens cá disto?", no Espalha Factos!

100 anos depois – A I Guerra Mundial em 5 filmes


Recordar a I Guerra Mundial no Cinema com 5 grandes filmes: eis a proposta que o José Pereira e eu concretizámos neste artigo para o Espalha Factos!

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Oito Vidas por um Título (Kind Hearts and Coronets) [1949]


Kind hearts are more than coronets,
And simple faith that norman blood.

É uma das comédias mais famosas e características do estilo que tornou a Ealing num fenómeno de culto, produtora de uma série de filmes tidos hoje como clássicos, que marcaram a História do humor e do Cinema britânico. Basta que nos relembremos do impagável «O Quinteto Era de Cordas» ou do curioso e satírico «O Homem de Fato Claro» para associarmos um tipo de comédia característico desse estúdio inglês, onde o nonsense, o disparate e a sociedade são denominadores comuns para a criação de alguns dos momentos mais hilariantes da Sétima Arte. E com «Kind Hearts and Coronets» formamos mais um elemento que todas estas três fitas partilham igualmente: Alec Guinness. Um actor que dispensa apresentações, mas cujo génio e versatilidade parece estar Hoje esquecido, em virtude da dimensão dos épicos de guerra e ficção científica onde que colaborou (referências como «Lawrence da Arábia» ou «A Ponte do Rio Kwai» são inevitáveis e indissociáveis, tal como a trilogia original de «Star Wars», obviamente), certamente mais famosos a nível comercial. Mas o talento de Guinness não se ficava apenas pelos grandes papéis mais sérios e graves que, parece, as pessoas mais gostam de lhe associar: há também a loucura. Sim, Alec Guiness era um homem louco, apesar de toda aquela aparência britânica, educada e polida. Essa veia para a maluquice ficou patente nestas e noutras comédias. Tanto na transformação incrível que «The Ladykillers», como no papel mais ingénuo, mas não menos apaixonante, da farsa de «The Man in the White Suit». E também, nas diversas figuras em que se desdobra nesta fita de Robert Hamer.


Isto não se trata de alguma novidade, porque desde a estreia original do filme que as oito personagens que Guinness interpreta foram sempre um dos pontos centrais da promoção comercial da obra. São pequenas participações completamente diferentes, e que representam os oito membros da respeitada família Ascoyne que o vingativo Louis (Dennis Price) pretende assassinar para devolver a honra à sua falecida Mãe (rejeitada  de forma total por estes seus familiares, devido a algumas complicações amorosas que não se coadunavam com a conduta permitida a indivíduos de tão elevada índole social), aproveitando ainda para conquistar um título nobiliárquico para si próprio. E apesar de Guinness ser uma das coisas mais surpreendentes de «Kind Hearts and Coronets» (a sua presença preenche sempre o ecrã de maneira notável, quer seja o capitão de um navio ou uma tia com já uma certa idade), há muito mais ainda para descobrir nesta comédia negra, muito negra, sobre oportunismo e assassínios numa receita que só o humor britânico seria capaz de cozinhar, numa obra perfeita na construção das intrigas, nas consequências dos actos do protagonista e nos diferentes meios sociais em que se envolve. É um filme de actores com uma realização simples, mas que se adequa totalmente às necessidades das interações entre as personagens, e a maior ou menor distância e cumplicidade que estabelecem umas com as outras.


Sátira à estrutura e conflito de classes, com uma visão mais negra e que transparece, nas suas muitas graças, uma desilusão frontal com a natureza humana e suas múltiplas transformações interesseiras e oportunistas, «Kind Hearts and Coronets» é uma das peças-chave da Ealing por não ser só uma comédia satírica. Porque quando a vingança se torna em sede de poder, os elementos narrativos ganham uma nova construção e uma pormenorização notável, que mostram como todo o puzzle bate certo, e como não são só as gargalhadas que estão em jogo. E se são fantásticas as oito personagens de Guinness (depois disto, o actor não precisaria de mostrar mais o seu génio criativo - mas felizmente, continuou a fazer filmes por mais umas décadas, proporcionando muitas outras belíssimas interpretações) e os planos maquiavélicos de Louis, contados num flashback que tanto pode deliciar como surpreender os espectadores, o ponto mais alto desta obra prima encontra-se na sobriedade do retrato do quotidiano inglês, e na conjugação que se faz entre a aparente perfeiçãozinha dos britânicos com os segredos fatais e os desejos obscuros que escondem, tão bem mascarados entre fachadas de conduta, educação e poder, numa crítica aos comportamentos dos estratos sociais mais elevados que não perdeu, ainda hoje, o seu potencial de ferir essas "susceptibilidades". Para quem pensa que as comédias clássicas são todas "iguais", revela não só um desconhecimento enomre da matéria, como também que não viu ainda este «Kind Hearts and Coronets» que é o completo oposto do estereótipo de "comédia clássica" perpetuado pelo senso comum e por certas mentes menos conhecedoras da Arte de fazer rir no Cinema. Porque é ácida, irónica, subtil e muito irreverente.

* * * * *

domingo, 27 de julho de 2014

Os discos dos QUEEN: Jazz [1978]


«Jazz» fecha a primeira década de vida dos QUEEN, e tal como a maioria dos álbuns anteriores da banda, foi mal recebido na época do seu lançamento, sendo reavaliado por diversas ocasiões e entidades ao longo das décadas. Neste disco voltam as variações de estilos (como as variações criativas, mais presentes pelo cruzamento constante de temas mais fortes e alguns temas disfarçadamente inocentes e ingénuos), que caracterizaram a banda até «A Night at the Opera», mas os QUEEN reinventam-se mais uma vez, e incluem uma nova excentricidade às sonoridades desta obra, que conquistou o agrado de uns e o desprezo de tantos outros. E se os QUEEN já eram "estranhos", «Jazz» faz-nos perguntar "mas o que é isto?!" mais vezes do que o habitual, enquanto saltitamos de extravagância em extravagância, entre os pontos mais e menos altos de um álbum que marcaria, também, o desfecho de uma certa imagem visual da banda (para o álbum seguinte, «The Game», os quatro membros do grupo mostram como já estavam preparadíssimos, logo no início dos anos 80, para se identificarem com as tendências que essa década queria deixar marcadas para memória futura), e criaria polémicas ainda mais importantes do que as anteriores. O controverso vídeo de «Bicycle Race» é exemplo disso, onde vemos modelos femininas nuas numa bizarra corrida de bicicletas, tal como exemplo são as letras ainda mais provocadoras de Freddie Mercury em vários dos temas do álbum, que reflectem os últimos tempos de uma época e as alterações que esse final iria causar e condicionar na década seguinte (nessa «Bicycle Race», por exemplo - e isto ao nível cinéfilo -, fala-se de «Jaws», «Star Wars» e tantos outros símbolos que marcam os anos 70, como também fariam uma alteração significativa dos gostos de Cinema das massas, agora sedentas de grandes e espectaculares blockbusters).

Desde o início, com a música «Mustapha», de Mercury, que percebemos a maneira como os QUEEN regressam àquilo que os demarcou de outras bandas do seu tempo (se bem que com um fulgor distinto), e que tinham sido postas um pouco de parte no suave álbum anterior, «News of the World». É um delírio non-sense e poliglota, com variações alucinantes entre altos e baixos, em que Mercury experimenta vozes distintas como nunca antes tinha feito, nem como nunca alguma vez voltaria a executar. Depois há «Fat Bottomed Girls», um dos grandes singles de «Jazz» e o hino rock por excelência deste trabalho, que é constituída pelas mais clássicas e épicas sonoridades do género e os pequenos toques de frescura inseridos pelos QUEEN. «Jealousy» tem experiências com instrumentos menos usuais, numa lindíssima letra de Mercury (que faz todo o trabalho vocal, com vários coros e elasticidades musicais), e é uma canção aparentemente "certinha", mas que condiz perfeitamente com o fio condutor do disco e o espírito que o grupo lhe quis dar. De seguida há a complexa, mas não menos orelhuda e popularíssima «Bicycle Race», cheia de pequenas brincadeiras sonoras que tentam dar "vida" à corrida imaginária composta por Mercury, inspirado pelo Tour de France de 78, e repleta de referências sociais e culturais (para além dos filmes, há o Watergate e tantas outras coisas, numa salganhada deliciosa de ideias fervilhantes que, e isto é mesmo impressionante, só dura três minutos.

«If You Can't Beat Them» é uma composição completamente rock (e nada clássica) de John Deacon, onde os instrumentos ganham outra força e dimensão. «Let Me Entertain You» é uma engraçada mensagem directa ao público dos QUEEN, falando das capacidades da banda e que, com ela, os espectadores terão uma enorme experiência de entretenimento, graças aos artistas que a compõem e a todos os seus ajudantes (como as editoras, que são mesmo mencionadas na letra), que fazem o "menu" perfeito e que pode agradar a toda a gente. «Dead on Time» é mais uma grande canção rock, agressiva, de Brian May, poderosa, provocante, contagiante e inacreditável, mas que apesar disso nunca foi tocada ao vivo - e é pena, porque deveria dar uma maior espectacularidade aos concertos dos QUEEN. E com «In Only Seven Days», Deacon volta a assinar uma composição harmoniosa, semelhante à «Spread Your Wings» de «News of the World». «Dreamer's Ball» mostra ser uma canção acutilante que homenageia os clássicos e os primórdios do rock n' roll e, mais propriamente, os primeiros anos de carreira de Elvis Presley. «Fun It», de e com Roger Taylor, tem uma batida e um som disco que parece ser o primórdio das experiências mais eighties que os QUEEN levariam a cabo em «The Game» (mais propriamente com uma canção chamada «Another One Bites the Dust»), e que necessita de um pézinho de dança retro para ser devidamente apreciada (e não, eu não me sujeitei a isso). 

E logo depois voltamos às baladas, com a voz de Brian May em «Leaving Home Ain't Easy», uma composição simples e algo simplista, mas bem orientada pelos artistas. «Don't Stop Me Now» é outro desses temas fulgurantes, temporais e sensacionais: tantas vezes copiado e "homenageado" (ainda se lembram do sacrílego anúncio daquela companhia de televisão, telefone e internet, que retalhou a música original como se de carne picada se tratasse?), dispensa apresentações pela forma como conseguiu ultrapassar gerações e continuar a ser uma canção tão fora do comum e maravilhosamente composta e interpretada, onde os QUEEN põem tudo e mais alguma coisa e conseguem, mais uma vez, sair vencedores com esta impecável "salada de frutas" artística. Para terminar «Jazz» temos «More of That Jazz», uma música mais séria, mais rock e menos alegremente entusiasmante que a antecedente, porque nela, Taylor elabora uma construção melódica forte, com algum pendor de crítica social, e terminando de uma forma seca, que sucede a uma curta mistura, nos momentos finais, de algumas das outras canções do álbum, criando um. Encerra o álbum com uma mensagem que fica patente nos nossos ouvidos muito tempo depois de escutada a canção.

«Jazz» é, por tudo isto e algo mais, outro dos álbuns esquecidos e subvalorizados dos QUEEN. Cheio de referências a outras canções da banda (e também com ligações entre as faixas do disco, como a menção de «Fat Bottomed Girls» em «Bicycle Race»), a obra não poderia ter dado um fim melhor à primeira fase criativa dos QUEEN, que não se voltaria, depois, a repetir (a banda estava pronta para lidar com os anos 80, e assim o fez, como iremos descobrir nos próximos álbuns). Com mais uma série de canções para o futuro (e que continuam a ser novas e irreverentes), a banda caminharia agora para outros meios, que conquistaram novos fãs e desagradaram a outros "veteranos", mas que nunca deixaram de provar a versatilidade do grupo e, mais ainda, da voz e talento de Freddie Mercury. Mais uma pérola a descobrir, esquecendo as críticas negativas a que foi sujeita.

* * * * 1/2 

As melhores faixas: a exuberante entrada de «Mustapha», o hino de «Fat Bottomed Girls». a beleza de «Jealousy», a complexidade de «Bycicle Race» e «Dead on Time», a poesia de «In Only Seven Days» e a homenagem de «Dreamer's Ball», e a energia de «Don't Stop Me Now».

sábado, 26 de julho de 2014

Livros VS Filmes #2 - LARANJA MECÂNICA


O LIVRO 
«Laranja Mecânica» reflecte acontecimentos trágicos da vida do seu autor, e profetiza uma sociedade suja, violenta e isenta de moralidade, através da história diabólica de Alex e dos seus três drugos. Desenvolvendo uma linguagem própria (o nadsate), o protagonista conta-nos todas as suas peripécias, e com ela, o leitor vai até ao lado mais negro da humanidade, descobrindo os dois lados de uma questão delicada e que necessita de uma grande reflexão: a distância entre a Ordem e o Livre-Arbítrio, e suas causas e consequências. Um livro que permanece chocante e contemporâneo mais de meio século depois da sua publicação. 

O FILME 
A obra de Stanley Kubrick é tão ou mais famosa do que o livro, não só pela inesquecível interpretação de Malcolm McDowell (o “one and only” Alex) como por toda a enorme controvérsia e censura que originou na sua estreia original. Com o passar dos anos tornou-se (justamente) um filme de culto, kitsch e provocador, que continua a provocar tanto como a escrita de Anthony Burgess. O cineasta segue, nesta extravagância visual e sensorial, a história original e altera algumas situações, para aumentar a perversidade das intenções iniciais e dar às questões sociais levantadas no livro uma notável relevância cinematográfica. 

O VEREDICTO: é difícil escolher só um, porque tanto o livro como o filme, pelas suas próprias razões, merecem um lugar de destaque na colecção de cada um. São duas obras essenciais da cultura da segunda metade do século XX e que se complementam de uma forma deliciosa.

Segunda edição de uma rubrica quinzenal para a página Culturart. Uma nova edição destas lutas entre Literatura e Cinema sairá dentro de 15 dias, aqui e depois neste estaminé.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Snowpiercer - Expresso do Amanhã [2013]


Foi um coreano, Bong Joon-ho, que conseguiu trazer de volta a extinta tradição épica, popular e inteligente dos grandes clássicos blockbusters de aventura e ficção científica: Snowpiercer – Expresso do Amanhã é uma história apocalíptica e uma metáfora arrasadora para a existência humana e a hierarquização da vida em sociedade.

Snowpiercer é o comboio onde viajam todos os humanos que sobreviveram à catástrofe provocada por uma experiência falhada que queria parar o aquecimento global. Entretanto, estamos em 2031 e uma nova geração já nasceu naquele comboio, e muitos não se conseguem lembrar de como era a vida na Terra, antes da tragédia acontecer. O Snowpiercer viaja sem parar à volta do mundo, e está estruturado de forma hierárquica, dos mais pobres aos mais ricos e poderosos, controlando os fracos com um sistema violento e chocante. Mas chegou a altura de Curtis (Chris Evans) liderar uma revolta contra todo o sistema dominado com mão de ferro pelo grandioso chefe do comboio.

Dito desta forma, o simbolismo político e social de Snowpiercer – Expresso do Amanhã pode parecer simplista. Mas não é isso que conseguimos ver neste novo filme de Bong Joon-Ho, numa produção de cariz internacional (algo que se nota em alguns formalismos narrativos da história) que contou com o auxílio de Chan-wook Park (de Oldboy – Velho Amigo) que adapta para o grande ecrã a BD Le Transperceneige. É uma história apocalíptica contada com grande entusiasmo e exatidão, tendo sempre atenção ao(s) pormenor(es) de cada cena e de cada crítica, ou sátira, presente nas diferentes carruagens do transporte.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

O MotelX está de volta… e os sustos também!


A noite da passada terça feira ficou marcada pela conferência de imprensa do MotelX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, onde se apresentaram muitos dos regressos e novidades que irão marcar a oitava edição do festival, a decorrer entre 10 e 14 de setembro. Espreitem as novidades no Espalha Factos!

quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Fim do Outono (Akibiyori) [1960]


O último dos três filmes do realizador Yasujiro Ozu que chegam esta semana ao Espaço Nimas, em cópias digitais restauradas, é mais uma belíssima reflexão do papel das relações humanas nas mudanças e costumes da sociedade japonesa. Um clássico do cinema oriental que os espectadores portugueses podem agora ver ou rever no grande ecrã. 

O Fim do Outono é a história do início de um ciclo social e da tentativa de tentar renovar outro. Trata-se de uma renovação da história de Primavera Tardia, filme que Ozu assinara no final da década de 40, e que curiosamente, contava também com Setsuko Hara (e com outros atores regulares das fitas do cineasta) no outro papel: o da filha solteira, que nesse caso específico, vive com o pai viúvo, que a tenta casar a todo o custo, enquanto ela prefere ficar solteira para cuidar do seu progenitor. 11 anos separam a estreia das duas obras, e entre ambas verificamos como todo o sistema ético da cultura japonesa não se alterou muito – apenas em pequenas coisas para conseguir acompanhar tudo aquilo que a modernidade trouxe de novo. 

Tal como nos dois filmes anteriores do realizador que estão igualmente em reposição no Nimas, assistimos aos efeitos da passagem do tempo na mudança de papéis que o nascimento das novas gerações provoca nas comunidades humanas – mas não nos esqueçamos que, apesar dos “novos”, os “velhos” não podem ser desprezados, nem renegados ao esquecimento. A mãe quer que a filha siga o mesmo caminho de felicidade que ela, partindo pelos mesmos preceitos e códigos que estão completamente impostos na cultura. Mas a filha não deseja, para a mãe, um final solitário que a sua ausência poderá causar. É um duelo entre obrigações cívicas e a consciência das personagens que põe todas estas vidas em jogo, neste singelo drama familiar. 

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Bom Dia (Ohayô) [1959]


É um dos 3 clássicos do Mestre Yasujiro Ozu a estrear, pela primeira vez, no grande ecrã em Portugal. Bom Dia é uma sátira social que se mantém extremamente atual, e que pode ser vista, ou revista, a partir de hoje no Espaço Nimas. Um filme que irá com certeza animar o verão dos cinéfilos lisboetas.

Pode parecer surreal, para as pessoas da geração high-tech que (podemos dizê-lo da forma mais metafórica, mas realista, possível) nasceu com um ecrã táctil no lugar dos olhos, o confronto com um mundo onde a televisão é um bem raro e que apenas alguns podem ter acesso. Poderá ser incompreensível, para as pessoas que vieram ao mundo numa era em que a televisão já se tinha tornado uma parte essencial e vulgar de qualquer casa, e cuja influência já se tinha tornado parte do quotidiano de cada um, que uma história como Bom Dia possa ter usufruído de um impacto significativo – e que pode falar, e muito bem, da forma como a televisão se banalizou e acabou por afetar, de uma maneira mais ou menos condizente com o que os Velhos do Restelo do filme anunciam, as nossas vidas e as nossas relações. 

Ou então podemos modificar o valor material da narrativa de Bom Dia, e de todas as discussões e problemas que daí surgem, para outras épocas e para as controvérsias familiares que causaram apetrechos como os videojogos, os computadores, os telemóveis e, se virmos as coisas de uma perspetiva ainda mais moderna, dos tablets e dos smartphones. Se trocarmos qualquer um destes elementos pela TV que os dois irmãos tanto ambicionam, em nada mudam as peripécias que eles vivem – mas a cada passo tecnológico que damos ao longo do tempo, poderemos ver como cada uma dessas tecnologias conseguiu alterar, no sentido positivo como também no negativo, alguns pequenos pormenores sociais presentes na geração anterior.

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A Flor do Equinócio (Higanbana) [1958]


O Mestre Yasujiro Ozu regressa ao Espaço Nimas, depois do sucesso das exibições de Viagem a Tóquio e O Gosto do Saké em 2013. A partir de hoje, os espectadores poderão ver ou rever mais três clássicos do realizador japonês, em cópias digitais restauradas. Um deles é A Flor do Equinócio, primeiro filme a cores do cineasta.

Casamento, relações familiares e conflito de gerações são temas recorrentes do Cinema de Ozu, que elaborou, com este filme, um outro olhar contemporâneo sobre os rígidos códigos de conduta da sociedade japonesa do seu tempo. Com todas as marcas visuais, estilísticas e narrativas que tornaram única a obra do realizador, A Flor do Equinócio segue as linhas daquele que poderia ser um banal drama familiar, mas consegue ser muito mais do que isso. Aliás, porque como Ozu não é igual aos outros, não poderíamos esperar uma recriação de temas mundanos e eternos da experiência humana que recorresse aos métodos mais vulgares utilizados para se contarem histórias que se enquadram nestas categorias narrativas.

É a aproximação agridoce a uma realidade social que pode parecer estranha aos espectadores ocidentais, mas que não deixa de ter os seus pontos de contacto com a História do nosso país e nas coisas que, graças a uma mudança de mentalidades gradual, se tornaram coisa apenas ligada ao passado. Apesar de estar relacionada aos preceitos e costumes da cultura japonesa, a ideia de casamentos combinados, originados pela ambição de estatuto social por parte dos familiares das “vítimas” e que opunham o verdadeiro amor entre marido e mulher a um futuro estável e economicamente agradável para ambas as partes, nunca deixou de ser, infelizmente, universal – e há regiões do planeta onde casos destes ainda se sucedem, com a maior normalidade de todas.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

O trailer d’ Os Maias de João Botelho já está disponível


A apresentação promocional da adaptação da obra de Eça de Queiroz pelo realizador de Filme do Desassossego, João Botelho, já está disponível na Internet. Leiam tudo no Espalha Factos!

sábado, 19 de julho de 2014

Os discos dos QUEEN: News of the World [1977]


O sexto álbum dos QUEEN evidencia uma reviravolta nas temáticas artísticas utilizadas pelo grupo: obra de pendor mais leve e menos sofisticada e elaborada, mas não menos incrível e brilhante, em «News of the World» não encontramos a dispersão de géneros e melodias que fizeram a trademark do grupo no díptico de discos anterior, mas uma selecção de temas em que quase cada um representa um único género musical, ou tendência. De destacar também o esplendoroso trabalho da edição do disco, com aquela que é talvez a melhor capa da discografia do grupo (baseada numa ilustração original do autor de ficção científica Frank Kelly Freas). Mas se os QUEEN estão aqui mais "certinhos", não foi isso que os impediu de elaborar mais um grande título da sua discografia - porque é esse lado mais correcto e polido que volta a mostrar as várias faces, ou máscaras, que o grupo soube vestir em cada obra. «News of the World» tem ainda duas das composições mais celebradas (e comercialmente utilizadas e copiadas) de toda a sua colheita musical. São dois hinos que mostram a potência da banda e que se tornaram ainda mais relevantes nos vários concertos ao vivo, desde o ano de lançamento do disco até à derradeira tour de espectáculos, onde os QUEEN fizeram duas incríveis e inesquecíveis apresentações no estádio de Wembley. E este disco não pára de nos surpreender depois dessa dupla de músicas... pela sua (quase total) calma (menos acentuada em algumas canções com um pendor mais rockeiro), e pela maneira como flutua tão suavemente (e agressivamente, nos momentos mais inesperados) de faixa para faixa, obtendo razões para agradar a todos os gostos, já que o grupo se concentrou mais em desenvolver, e bem!, cada música pelo seu caminho único e específico.

Em «News of the World» temos uma distribuição singular de autoria das canções: Roger Taylor e John Deacon são responsáveis, cada um, por duas músicas do álbum, criando alguns dos momentos mais notáveis do mesmo e não deixando só para a dupla principal de autores o trabalho criativo mais significativo. Mas são de Brian May e Freddie Mercury os dois grandes sucessos do álbum, mencionados no parágrafo anterior: são eles «We Will Rock You» e «We Are the Campions», respectivamente. E que dizer dessas duas canções? Que são fantásticas, o que já toda a gente sabe... mas há ainda mais para ouvir. Há «Sheer Heart Attack», de Taylor, o tema rock provocador e ensurdecedor que foi o título do terceiro disco dos QUEEN, e cujo tema supostamente principal finalmente surge neste sexto. Depois, temos a melodia macabramente suave de «All Dead, All Dead», de May, uma balada melancólica que representa o lado emocional do grupo, tal como a que se segue, «Spread Your Wings», com a filosofia algo batida e "barata" de Taylor - mas que não deixa de ser encantadora.

E a música seguinte, «Fight From the Inside», é outro tema interessante de «News of the World», que volta a dar importância ao lado bipolar deste álbum não presente em cada canção (nas misturas de géneros recorrentes em «A Night at the Opera», por exemplo), mas na forma como rapidamente caminhamos da mais triste das baladas com a mais forte das batidas rock. Vejamos que, logo a seguir a esta música, ouvimos a irreverente «Get Down Make Love» de Mercury (talvez a faixa menos inspirada) e depois a brincadeira simples, mas não simplista, de May, «Sleeping on the Sidewalk». E somos confrontados com novas sonoridades que não esperávamos descobrir nos QUEEN, como nos mostra «Who Needs You», tema que se assemelha a certas músicas de dança latino-americanas. «It's Late», de May é a canção mais complexa do álbum e aquela que tenta imitar os passos da magnum opus «Bohemian Raphsody». Não consegue ser superior, mas ao menos proporciona mais um extraordinário momento de poder criativo da banda, sendo estruturada como se de uma peça de teatro narrativa se tratasse. E para terminar, ouvimos mais uma lindíssima peça de Mercury, «My Melancholy Blues», outra das grandes canções deste álbum, com algo de jazz e do tal blues melancólico do título. É uma perfeita homenagem aos grandes artistas dos géneros e mais uma prova da reinvenção permanente dos QUEEN.

«News of the World» é mais uma obra essencial para se conhecer a evolução dos QUEEN e as descobertas que fizeram em variados estilos musicais. Mal recebido à época (como tantos outros álbuns do passado e posteriores a este sexto), começou a receber um culto enorme e vive, sobretudo, graças à fama massificada dos dois primeiros temas. Contudo, tem muito mais para se ouvir. E apesar da flutuação e mudança entre temas não funcionar a 100%, a banda criou aqui mais uma panóplia de composições que marcam o seu historial criativo. Uma obra estranha dentro do conjunto do trabalho dos QUEEN, mas que possui algumas marcas notáveis do percurso da banda que nunca mais voltaram a ser repetidas.

* * * * 1/2

As melhores faixas: A força brutal de «We Are the Champions», a beleza de «All Dead, All Dead» e «Who Needs You» e o relevante jogo dramático de «It's Late».

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Omar [2013]


O candidato palestiniano ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro é uma pungente história de amor que reflete o estado do país e as consequências dos conflitos que nele se presenciam na vida normal dos seus habitantes. Omar é uma obra simples, delicada e emocionante, que estreia hoje em Portugal. 

Omar é um rapaz habituado a passar clandestinamente o muro de separação para poder encontrar, do outro lado, a sua namorada secreta, de nome Nadia. Contudo, os sentimentos que os dois personagens sentem um pelo outro acabarão por ser condicionados pela guerra e por uma série de problemas sociais e políticos, que se sobrepõem ao amor que os une e criando reviravoltas inesperadas e perturbantes nas suas vidas e naqueles que os rodeiam. A Palestina ocupada destrói simplicidades e cria rivalidades, proporcionando outras lutas que tentam distanciar-se do conflito armado que está sempre tragicamente presente. 

É a história deste jovem (interpretado por Adam Bakri) que dá o título ao novo filme de Hany Abu-Assad, realizador de O Paraíso, Agora! (outro nomeado ao mesmo prémio da Academia), que acompanhamos ao longo de pouco mais de hora e meia. Tal como essa multipremiada obra, o cineasta volta a debruçar-se sobre os problemas que marcam a atualidade palestiniana e israelita. E aliás, a forte veracidade da história, no que diz respeito à maneira como a ficção usa a turbulência causada pelos factos nestes países faz-nos cair na estranha sensação de que este filme parece ter sido feito “naquele” momento em que estamos a visioná-lo.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

O Teorema Zero (The Zero Theorem) [2013]


É o novo filme de um dos membros dos Monty Python, autor de excentricidades lendárias como Brazil – O Outro Lado do Sonho e A Fantástica Aventura do Barão. A filmografia de Terry Gilliam é irregular, variando constantemente entre filmes mais e menos interessantes, mas O Teorema Zero está entre os grandes títulos da sua carreira, e é também um dos filmes mais imaginativos de 2014. 

Terry Gilliam regressa às fantasias distópicas e sociais futuristas depois de Brazil e 12 Macacos, e volta a acrescentar a essência criativa, excêntrica e insólita que caracterizam estas suas narrativas que têm tanto de ficção como de crítica à vida quotidiana. O Teorema Zero segue, à partida, algumas linhas básicas que nos recordam Brazil, mas acaba, apesar disso, por ir mais além do que essa história futurista poderia permitir. Não nos esqueçamos que o filme mais conhecido de Gilliam data da década de 80, época em que smartphones e redes sociais não passavam de delírios dos mais lunáticos escritores de ficção científica.

Quer na sua sátira burlesca e detalhada ao poder das novas tecnologias nas relações humanas do século XXI, quer na ilustração do uso dessas mesmas tecnologias na criação de novas formas de divertimento e prazer (que acabam também por desconstruir e reconstruir os mecanismos de comportamento que acabamos por ter com quem nos rodeia), O Teorema Zero elabora também uma reflexão sobre a presença do Big Brother, dispositivo Orwelliano que tudo vigia a todo o momento, mas atribui-lhe uma outra faceta que não deixa de ser curiosa: é que com as novas tecnologias, esse “Grande Irmão” não é apenas da responsabilidade daquela entidade misteriosa.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

domingo, 13 de julho de 2014

O Atirador (The Shootist) [1976]


- You told me I was strong as an ox.
- Well, even an ox dies.


E mesmo os mais valentes e corajosos anti-heróis dos filmes também não podem durar para sempre, tal como os seus tempos de glória e de saloons, poker e duelos ao meio dia: «The Shootist» foi o último trabalho da longa carreira de John Wayne, e começa com uma espécie de revisitação de alguns dos seus filmes anteriores, numa sequência inicial a preto e branco que utiliza esses excertos para construir uma cronologia que sirva à personagem que Wayne interpreta neste filme). É a história de um pistoleiro à beira da morte, que pretende passar os últimos momentos da sua vida com a maior dignidade que merece, ajustando contas com o passado - e enterrando consigo o próprio passado, e as memórias de uma época do Oeste que nunca mais voltou, mas que criou um imaginário eterno para a arte e cultura americanas. Don Siegel (o realizador de «A Fúria da Razão») assina esta humanização do protótipo de herói que, em vários filmes do género western, se assemelhava a uma entidade sobre-humana, indestrutível, imbatível e superior a qualquer "mísero" ser humano. Por isso, aqui essa "divindade" desce à terra e veste a pele ou capa de inferioridade, ou por outras palavras, de mortalidade. É curioso como, em plena década de 70 (quando os westerns na América já eram coisa do passado, ultrapassada e até esquecida por boa parte da população), alguém tenha querido "enterrar" de vez o género e a decadência crescente das suas personagens (vítimas da forma como a localização temporal das suas histórias começou a aproximar-se cada vez mais com o final do Velho Oeste e o princípio da nova era do progresso). Todos nós acabamos assim, a começar a perder as capacidades numa certa altura das nossas vidas, e Wayne não poderia ter dado outro ponto final mais relevante e curioso à sua vida artística do que com «The Shootist».


Este western estilizado para os anos 70 (nota-se isso principalmente pelo sangue colorido e vivo das cenas mais intensas) tem uma realização algo reverente de Don Siegel, que acaba por surpreender pela sua simplicidade e sensibilidade, filmando com a maior poesia a queda da importância dos mitos do Oeste, por causa da mudança que os tempos trouxeram ao funcionamento das cidades e dos meios de comunicação que as fazem funcionar. Porque se em «O Homem que Matou Liberty Valance», o mito começava a desvanecer-se com a chegada do comboio, em «The Shootist» esse transporte já é uma realidade vulgar, começando a surgir o automóvel (ou a "carroça sem cavalos", como lhe designa a personagem de Ron Howard a frames tantos da narrativa). E aí, a presença de alguém como J.B. Books (Wayne) numa cidade pacata e diferente dos outros tempos (onde os vestígios da vida da outra Era começam a desaparecer a pouco e pouco) tem um valor... museológico, quase arqueológico até. Toda a gente quer conhecer aquele que foi o "terror" de uma época distante e que quase nada partilha em comum com aqueles inícios do século XX. E a maior das curiosidades é esta: Wayne e Stewart voltam aqui a contracenar, e faz-se uma referência à última vez que se viram - há quinze anos atrás, mais ou menos a altura em que estavam a filmar o filme de Ford. As duas velhas lendas voltam a juntar-se e reflectem, com um tom ainda mais fúnebre que o do outro filme, os efeitos que a mudança teve no apagar dos tempos do passado. E se em «Liberty Valance», Wayne ensina a Stewart, o filho do progresso, como se deve disparar uma arma, em «The Shootist» o mesmo actor repete os seus inesquecíveis ensinamentos a um miúdo com já alguma experiência no assunto, mas que pertence já à geração posterior à de Stewart, onde o avanço para a modernidade já é uma realidade física e psicológica, e que ninguém pode evitar. E não deixa de ser triste, e bonito ao mesmo tempo, vermos tudo isto acontecer e contemplarmos, em cada cena, como Books está a morrer... e com ele, as memórias do velho Oeste.


Filme amargo de nostalgias e recordações, «The Shootist» tornou-se numa notável despedida de John Wayne do grande ecrã. Com um elenco de luxo (onde ainda encontramos outros veteranos, como a maravilhosa Lauren Bacall) e uma história básica, mas muito bem desenvolvida, de crimes, castigo e redenção, este é mais do que um mero western de Hollywood: é uma ode ao desaparecimento do género que, tal como o tempo que retrata, não conseguiu sobreviver totalmente à passagem do tempo (porque por mais ressurreições dos filmes de cowboiada que se ponham em prática, nunca se conseguirá chegar ao nível de produção industrial dos mesmos na era dourada do Cinema americano). Um formidável exercício de recuperação de uma linguagem e de um tipo de narrativa muito própria, através de alguns dos seus maiores protagonistas - que souberam captar como ninguém o espírito de "derrota" e de "submissão" do Velho Oeste em relação à modernidade.

* * * * 1/2

Os discos dos QUEEN: A Day at the Races [1976]


Algum tempo depois do lançamento de «A Day at the Races», Freddie Mercury confessaria que este quinto disco dos QUEEN poderia ter sido lançado ao mesmo tempo que o anterior, «A Night at the Opera», ou poderiam até ter formado um duplo álbum. E há muitas semelhanças entre os dois: a capa é parecida (partilham, embora que desenhado de maneiras diferentes, o símbolo da banda, representando, através das figuras, os signos de cada um dos quatro elementos da mesma), os títulos são de filmes dos irmãos Marx (esta foi a comédia que fizeram dois anos depois a seguir à da Ópera), e a estrutura e organização das canções do disco segue uma linha narrativa complexa, mas ao mesmo tempo linear e que se vai repetindo ao longo de cada faixa (mesmo que sejam todas muito distintas umas das outras). E tal como «A Day at the Races» não é um filme superior a «A Night at the Opera», também este quinto álbum não consegue superiorizar-se ao quarto. Mas não deixa, por isso, de ser muito bom, original e viciante.

Felizmente, para os QUEEN, este álbum só ajudou a continuar a cimentar a fama crescente do grupo, que assinalou com «A Day at the Races» mais um enorme sucesso dentro e fora das fronteiras britânicas (incluindo no Japão - um dos países mais fervorosamente fanáticos pela banda), continuando a criar algumas músicas que se tornariam imortais e "vítimas" de múltiplas e desinspiradas versões por diversas gerações de artistas (obviamente que, aqui, falamos de «Somebody to Love», a pequena ópera mais reverente que tenta fazer o "papel" que «Bohemian Raphsody» teve em «Opera» - não imitando o estilo multifacetado dessa composição, mas adequando-a ao espírito mais conciso deste álbum). Cada música abre um novo mundo para quem a escuta, e os QUEEN, apesar de perderem aqui algum do fulgor explosivo de criatividade que explicava a magnificiência do álbum anterior, mostram que, afinal, ainda não perderam o "espírito" que os começava a caracterizar - e aqui temos mais um belo punhado de canções, que contam com letras e melodias da autoria de Mercury, Brian May, John Deacon e Roger Taylor (estes dois últimos com uma menor participação autoral, como quase sempre se sucede). O tom um pouco mais "ligeiro" deste disco não significa que o mesmo é mais inocente ou dispensável - muito pelo contrário. É que «A Day at the Races» tem um outro olhar, menos feroz, mas não menos crítico e brilhante, aos mesmos estilos e temas de «A Night at the Opera», que foram reinventados com mais instrumentos e inovações vocais e musicais. E é igualmente uma delícia para os melómanos.

«Tie Your Mother Down» é uma composição de May que já tinha sido criada há oito anos quando decidiram incluí-la neste álbum, como tema de abertura. E é óptimo: com grandes guitarradas (que se assemelham a uma das outras canções deste álbum), tem rock e blues e está exemplarmente elaborada. Tal como a mais "paradisíaca" e calma «You Take my Breath Away», uma magnífica invenção de Mercury, ao piano, onde ele fez algumas manipulações interessantes, colocando a sua voz a fazer vários trabalhos distintos, e o resultado é agradavelmente "arrepiante". O encanto continua pelo resto do álbum: desde as brincadeiras instrumentais inteligentes de May em «Long Away», com a peça composta por vários estilos e emoções que é «The Millionaire Waltz» e, para terminar o lado A do álbum, a misteriosa e fantástica composição de Deacon «You and I». E a abrir o lado B há essa pérola chamada «Somebody to Love», com as deambulações românticas de Mercury que serviram de identificação a inúmeros ouvintes apaixonados ou desiludidos nesse campo. 

Há depois a crítica social acertada e provocadora de May na densa e filosófica «White Man», e ainda a pequena grande pérola de Mercury, com de novo as suas brincadeiras excêntricas e nada banais, em «Good Old-Fashioned Lover Boy». De seguida ouvimos Roger Taylor a cantar a sua «Drowse», naquela que é a única canção mais esquecível deste disco - apesar de se notar uma certa inspiração interessante do baterista dos QUEEN. Por fim, há «Teo Torriate (Let Us Cling Together)», a homenagem de May aos fãs japoneses (que se tornariam uma parte essencial do culto que foi criado em redor da banda ao longo dos anos que esteve no activo - e na maneira como o legado artístico do quarteto continua, na posteridade, a fazer "eco". Encerra com a maior dignidade um álbum bonito e formidável, que com o tempo seria um pouco apagado, na sua totalidade, pelo mega-sucesso que teve «Somebody to Love», mesmo que essa seja uma das peças superiores deste disco. 

Mas «A Day at the Races» permanece, injustamente, como outra pérola desconhecida dos QUEEN, com ideias e invenções grandiosas que continuam desconhecidas, em detrimento dessas "partes" soltas que entraram mais depressa na cultura popular - por serem repetidas incessantemente pelas estações radiofónicas. E sim, quase todas as canções são notáveis (mesmo a inferior «Drowse» se consegue destacar em alguma coisa). Mas ainda assim, o álbum é "só" semi-perfeito, por se sentir que não há aquela linha de continuidade que fez com que «A Night at the Opera» funcionasse tão maravilhosamente bem. A mistura de elementos não é tão marcante, mas há algo na reverência que encontramos neste álbum que não deixa de ser fascinante. Cómica e ingénua, menos alucinante e "chocante", esta obra tem, mesmo assim, algo de mágico que evidencia, novamente, a diversidade de géneros e estilos artísticos que os QUEEN souberam manejar e recriar à sua maneira. E assim terminava o auge criativo da banda, pelo menos, na década de 70 - a seguir a «A Day at the Races» os QUEEN iriam partir para outros caminhos, que iremos descobrir daqui para a frente, que nunca se voltaram a igualar ao que fizeram neste díptico discográfico. Com mais ou menos sucesso conseguiram recriar a sua imagem ao longo dos anos, acompanhando as tendências de cada época. Mas enquanto alguns álbuns posteriores se tornaram algo kitsch, «Opera» e «Races» continuam fresquíssimos na sua energia bizarra e na sua originalidade musical, ainda impossível Hoje de ser ultrapassada ou inovada por novos artistas. 

* * * * 1/2

As Melhores Faixas: A contagiante «Somebody to Love», a lindíssima «The Millionaire Waltz», a poética «You Take My Breath Away» e a grande abertura de «Tie Your Mother Down».

sábado, 12 de julho de 2014

Livros VS Filmes #1 - O PROCESSO


O LIVRO 
A obra incontornável de Franz Kafka é uma intemporal reflexão sobre a condição humana face à burocracia da sociedade e do mundo em que vivemos. É a história de Josef K., um homem que acorda numa manhã e é acusado de um crime cujas circunstâncias não lhe são reveladas. K. luta pela sua inocência no meio de um processo longo, demorado e caótico, que nos leva numa viagem profunda até ao lado menos humano da Humanidade, contrapondo os acontecimentos estranhos e até surreais que acontecem ao protagonista com o estado do mundo em que vivemos, dominado pela Ordem do Poder. 

O FILME 
A adaptação de Orson Welles tem Anthony Perkins como protagonista, numa desconstrução relevante e brilhante da história de Kafka. Através de um visual grandioso, sufocante e atribulado, a forma como a história é recriada dá ao filme um respeito tão grande como o da obra literária. Acompanhamos K. na sua longa jornada de auto-descoberta, maior do que a vida e até do que o próprio Cinema, num mundo burocraticamente desumano. Filmado com meios limitados, mas uma imaginação insuperável, este «Processo» capta o espectador de uma forma dinâmica, não perdendo nada da essência kafkiana - mas investindo também noutros caminhos criativos. 

O VEREDICTO: ambos se recomendam vivamente!

Esta é a primeira edição de uma rubrica que comecei ontem a escrever para a página do facebook CulturArt. Um novo número destes pequenos "combates" entre livros e suas adaptações vai sair sempre de 15 em 15 dias nessa dita página, e depois postada aqui no blog para memória futura.

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Filmes em 60 segundos: O Deus da Carnificina (Carnage) [2013]


Roman Polanski adapta a peça homónima de Yasmine Reza para o Cinema aproveitando as limitações do espaço cénico e doméstico ao máximo, para recriar com a maior precisão possível a crescente tensão entre os dois casais que se reunem, ao longo de quase 80 minutos, para discutirem um problema criado pelos filhos de ambos. Um filme que aumenta a sua ironia e sarcasmo à medida que as quatro personagens se deixam cair no ridículo das situações e problemas que criam a cada instante e que acabam por gerar a ruptura de um ambiente que, à partida, parecia ser favorável e nada hostil. Com uma entusiasmante execução técnica e performativa, «O Deus da Carnificina» pode não ser um dos mais notáveis trabalhos de Polanski, mas mostra sem dúvida como o cineasta de «Chinatown» e «O Escritor Fantasma» ainda tem muito para dar, permanecendo um exemplo de grande criatividade e qualidade cinematográfica.

★ ★ ★

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Filmes em 60 Segundos: Agentes Universitários (22 Jump Street) [2014]


A crítica americana pode ter idolatrado «22 Jump Street», mas não é por isso que esta comédia deixa de ser muito parecida, a nível técnico, com tantos outros blockbusters de Verão de Hollywood (como por exemplo, na realização televisiva e formatada e na montagem rápida e constantemente despropositada de cada plano). Contudo, há uma coisa que distingue esta de outras fitas cómicas da temporada, e que acaba por “salvá-la” da mediania: a nova aposta dos realizadores de «O Filme LEGO» vence por nos garantir uma boa dose de divertimento ligeiro e bem feito, exemplarmente construída pelas interpretações e, principalmente, pela energia e timing da hilariante dupla formada por Channing Tatum e Jonah Hill. Tem clichés na sua história, mas estes são muito bem polvilhados por uma série de gags eficazes, que fazem com que esta seja mais do que uma mera comédia comercial: é uma comédia comercial com (muita) piada.

★ ★ ★

Night Moves [2013]


O novo filme de Kelly Reichardt, uma das vozes mais influentes do actual cinema independente norte americano, é no fim de contas uma grande surpresa: Night Moves pode não ser para todos os gostos, mas sem dúvida que abalará o sentido cívico e ético de qualquer espectador.

Night Moves acaba por se tornar numa espécie de heist movie ecológico e psicológico, através de uma divagação filosófica com o seu quê de contemplativa e introspetiva, sobre a condição humana numa situação extremamente delicada. A história de Kelly Reichardt está dividida em duas partes: a primeira diz respeito ao plano de execução do crime ambiental pelos três jovens que protagonizam o filme, e todos os passos que detalhadamente elaboram para conseguirem cumprir o seu objetivo da maneira mais eficaz, perturbante (para o establishment) e impactante possível; a segunda revela um outro lado, mais negro e profundo, de uma narrativa que parecia clara e objetiva, já que a cineasta começa, aqui, a explorar as consequências que traz a execução do crime – e que se escapam das mãos dos protagonistas, num desesperante confronto com a realidade que criaram e que da qual já não podem escapar.

É aqui, então, que a fita ganha o lado de thriller, criando-se um volte face psicológico e dramático no destino das peças deste xadrez fatalista: de um filme “certinho”, no que concerne ao facto de retratar uma temática e uma filosofia de vida cada vez mais presente no quotidiano dos seres humanos, Night Moves embrenha-se em caminhos mais labirínticos e difíceis, porque começa a explorar a mente humana e as reações mais ou menos irracionais que os culpados do crime acabam por sentir, na pele, ao saberem das terríveis e imprevisíveis consequências que a sua ação acabou por trazer àquela reserva natural tão maltratada pelas indústrias. Porque se o objetivo do trio era o de condenar as “maldades” das grandes empresas destruidoras da natureza, o castigo que lhe dão passa assim a ser, de igual forma, um castigo para os três, mas com outros contornos, mais psicológicos e menos temporários.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Três Mulheres Altas: o envelhecimento em jeito de comédia negra


Se Edward Albee ficou conhecido pelo humor cáustico e o drama angustiante de «Quem tem medo de Virginia Woolf?», em «Três Mulheres Altas», peça que está agora em cena no Teatro Nacional D. Maria II (até dia 13 de julho), a comédia e a tragédia unem-se numa mistura que tanto tem de sarcástica, como de repugnante, pessimista e filosófica. O trio de mulheres representam três gerações distintas, que combatem entre si para objectivos que, apesar de distintos, acabam por colidir, quer se queira, quer não.

A(s) história(s) destas três mulheres é a marca da Mulher na sociedade e do seu papel na criação das convulsões dessa mesma sociedade: três idades e três formas de ver o mundo que se chocam e confrontam, e cujos pontos em comum são pouquíssimos, ou mesmo inexistentes. E a partir deste objectivo humanista, introspectivo e social, Albee traça um objecto satírico, que nos faz rir das coisas que, supostamente, não estamos autorizados a ver de uma maneira mais... engraçada. 

«Três Mulheres Altas» brinca com os seus espectadores, levando-nos a prever situações que, ao longo da peça, não acabarão por acontecer: as reviravoltas são inevitáveis e, ao mesmo tempo, incrivelmente inesperadas: a transição do primeiro para o segundo acto da peça transforma o conjunto da obra para uma outra coisa totalmente diferente - algo que também se sucede com «Virginia Woolf?» e as voltas ilusórias e psicológicas a que o casal de protagonistas submete os seus dois jovens convidados. Ambas as peças falam de conflito de gerações da maneira menos banal possível, e por isso as duas continuem a ser tão intemporais, marcantes e fortes, no seu conteúdo e nas suas punchlines - e aqui, não devemos pensar só no lado cómico de cada uma dessas histórias, como também no lado fatalmente amargo que as caracteriza, pela construção dos elementos que levam as personagens ao clímax final que tão pacientemente as aguarda.

Tem um óptimo trabalho de actores e encenação, e a tradução parece não perder nada das intenções originais de Edward Albee, que dizia que esta peça reflectia a relação distante e conflituosa que manteve com a sua Mãe, desde sempre. E Albee, como lhe é característico, não aborda estes problema tantas vezes dissecado por várias formas de arte da maneira mais provável. O jogo intrincado de relações a que somos sujeitos acaba por gerar nas 3 personagens femininas uma série de mutações psicológicas e sociológicas cujo significado e pretensões entendemos à partida, mas cuja profundidade e intensidade temos dificuldade em adivinhar logo desde o início de cada acto. E «Três Mulheres Altas» reflecte a mudança de papéis que a idade oferece a cada indivíduo no "mundo" em que se insere, sem se esquecer das pequenas coisas, não menos importantes e brutais - e são essas condicionantes que nos moldam tanto como seres humanos, tanto também através da perspectiva das coisas que cada faixa etária acaba por ter das que a precedem e/ou sucedem. Porque para nos falar da Vida, e de todos os pontos fulcrais da mesma que parecem ser sempre fontes inesgotáveis de criatividade, Albee inovou a forma de se pensar e fazer Teatro, e a forma como podemos ser agarrados por aquilo que o palco nos oferece.

sábado, 5 de julho de 2014

Os discos dos QUEEN: A Night at the Opera [1975]


O título foi "roubado" a uma comédia delirante dos irmãos Marx, que tem apenas uma coisa em comum com o álbum: a loucura e o espírito irreverente e desejoso de quebrar todas as convenções possíveis e imagináveis. O epíteto surgiu depois dos quatro terem visto o filme num dia de gravações, mas é completamente diferente, a "ópera" dos QUEEN: um misto de poesia, alucinações, drama, tragédia, comédia e farsa, que se tornou, à época, no disco mais caro de sempre, no que diz respeito ao seu budget. Mas os custos elevados foram recompensados: a obra foi um sucesso de público e de crítica, e hoje permanece, para a opinião especializada, como um dos trabalhos mais originais da banda. E com toda a razão. «A Night at the Opera» é um grandioso "vulcão em erupção", e um dos momentos mais fervilhantemente criativos de inspiração do grupo. Desde o princípio até ao fim que os QUEEN revelam outras máscaras do seu imaginário, elaborando ligações complexas com os álbuns anteriores, criando elos para o futuro e demarcando novas etapas artísticas que só ficariam registadas neste disco. O êxito percorreu os dois lados do Atlântico: tanto no Reino Unido, onde os QUEEN ganhavam um culto crescente, e nos EUA, num número de vendas que lhes proporcionou o primeiro disco de platina no país, as novas histórias e mensagens da banda chegavam aos fãs e a novos ouvintes que se deliciaram, pela primeira vez, com o estilo único e sempre surpreendente que caracteriza cada uma das 12 faixas do disco. Entre rock mais ou menos ligeiro e orquestral, e o pop de tendências mais ou menos surreais, surge um espectáculo operático como nunca se ouviu antes nem depois, misturado com baladas, danças e filosofias. Ouvimos melhor o talento de cada um dos quatro membros do grupo, já que existe uma maior diversidade na autoria das canções e não uma centralização mais notória na dupla May-Mercury.

«Death on Two Legs (Dedicated to...)» é uma música com uma intenção (pouco) subliminar, que os primeiros segundos em piano tentam esconder - mas que rapidamente desaparecem para dar lugar a outra tonalidade melodiosa. Percebemos que Freddie Mercury está a insultar alguém, com toda a mistura de sons, vozes e instrumentos que escutamos ao longo da canção, contagiante. É uma música surpreendente em que os artistas se vingam dos managers dos quais se tinham finalmente libertado, que trouxeram alguns problemas económicos e angústias aos QUEEN. Segue-se-lhe uma música completamente diferente (e nesta álbum, cada tema pouco ou nada tem em comum com os que se lhe antecedem), «Lazing on a Sunday Afternoon», um tema com um certo toque vintage que faz lembrar certos divertimentos do mundo do espectáculo burlesco do século XX. «I'm in Love with My Car» é mais uma grande amostra do rock de Roger Taylor, e «You're My Best Friend», de John Deacon, é não só um dos temas mais emblemáticos do álbum como também um dos mais alegres e orelhudos. «'39», de Brian May, é uma música fabulosa, um hino que segue os moldes do estilo skiffle (proeminente nos EUA em inícios do século), com elementos espirituais e filosóficos, totalmente fora das "convenções" que os QUEEN criaram no seu estilo e que as pessoas imediatamente caracterizam - quem diria que esta música é dos mesmos fulanos que fizeram o «Killer Queen», perguntariam os ouvintes de 75?

Depois temos ainda espaço para os (grandes) divertimentos proporcionados por «Sweet Lady» e «Seaside Rendezvous», de May e Mercury respectivamente, que reflectem ideias menos desenvolvidas anteriormente com uma nova frescura e abordagem. Mas há dois épicos no disco: um deles é o mais notável (e já lá chegaremos), e o outro é o mais esquecido «The Prophet's Song», uma música de May com algo de  rock progressivo, apocalíptico e sci-fi que os múltiplos coros e a voz-protagonista de Mercury acentuam de uma maneira espectacular, com uma história própria e uma comparação notável entre as várias fases da mesma, flutuando entre o desespero da Humanidade e a esperança e a salvação trazida pelo tal profeta da cantiga. Uma canção brilhante e excepcional, que estabelece ligação com a melodia mais bonita do álbum: «Love of My Life», o tema de todos os apaixonados, ontem, hoje, e amanhã, uma poética composição de Mercury que reflecte as desilusões e contradições do amor e das relações humanas - e que se revelou num enorme êxito nos concertos da banda. Depois, há mais um tema "folião" e divertido, «Good Company», uma composição simples, mas não menos interessante, inspirada e encantadora, de Brian May, ao som de um ukulele.

E eis que chegámos ao "outro" épico deste disco, e a música mais marcante, a nível cultural, social e popular, de «A Night at the Opera». O que se pode dizer sobre esta epopeia de dimensões cósmicas que não tenha já sido referido em milhentas outras ocasiões? É uma música que tem tudo e mais alguma coisa, e permanece uma das peças-chave do reportório dos QUEEN. É uma delícia para os ouvidos e uma viagem de descoberta "ultimate" pelas alucinações e devaneios de Freddie Mercury. Deu ao grupo prémios, honrarias e aclamações que ainda vão durar mais umas quantas décadas, influenciou muita gente e foi alvo de diversas "homenagens" (a mais popular da actualidade será a formidável recriação do videoclip original pelos Marretas). E por fim, temos «God Save the Queen», uma impecável versão rock instrumental do hino da Grã-Bretanha, que fecha uma saga de acontecimentos históricos e musicais maiores que o mundo... mas couberam todos num único disco.

Freddie Mercury dissera mais tarde que, em «A Night at the Opera», os QUEEN tiveram espaço para fazer coisas que não puderam concretizar em «QUEEN II» e «Sheer Heart Attack». "Fizemos coisas com a guitarra e com as vozes como nunca havíamos feito antes. Não houve qualquer limitação". A isto se juntou a inspiração elevada do grupo, que deu origem a várias composições - muitas delas presentes neste disco, e que são das mais refinadas da sua discografia, e outras acabaram por originar êxitos de álbuns posteriores (Mercury começava a pensar nessa altura num certo tema intitulado «We Are the Champions»). Foi o disco que trouxe à banda a grandiosidade, e definiu-os de uma vez por todas como uma das figuras mais marcantes da sua época na música. E todas estas condicionantes se reflectiram num álbum maravilhosamente construído, equilibrado, original, inovador e intemporal, que felizmente, continua tão forte, vivo, audaz e irresistível como há quase 40 anos. Nessa altura, todos estavam muito inspirados e contribuíram para este álbum genial de igual maneira. Surpreende a cada canção e a cada criação que os QUEEN transformam e retransformam em mil e uma metamorfoses, contradizendo-se constantemente nos seus temas e nas intenções de cada um - e isso, aqui, é algo muito importante, e incrível. Um disco imparável e excepcional, que marca o topo da primeira década de actividade dos QUEEN.

* * * * *
As melhores faixas: como são todas óptimas, só me resta fazer o meu "top", para mostrar o que gosto mais e o que gosto menos nesta obra prima (e não é, lá está, um "menos" negativo - é uma contagem do quão adoro cada uma das 12 faixas deste álbum que idolatro completamente). Aqui vai, por ordem decrescente: «Bohemian Raphsody», «The Prophet's Song», «Death on Two Legs (Dedicated to...)», «'39», «Love of my Life», «You're My Best Friend»,  «Sweet Lady», «Seaside Rendezvous», «Good Company», «I'm in Love with My Car», «Lazing on a Sunday Afternoon», «God Save the Queen».

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Violette [2013]


É a história de uma mulher ímpar na História da Literatura Francesa, que foi contemporânea de Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Albert Camus. No entanto, a sua existência permanece desconhecida de muita gente, e Violette pretende ressuscitar a vida e obra de uma escritora revolucionária. 

Trata-se de um filme interessante que tem como único defeito assinalável, talvez, o de ser um pouco longo demais, o que faz com que o ritmo da película se perca em virtude de certas pequenas situações que são filmadas de forma descontextualizada do resto da história. Mas uma fita assim não deixa de ser relevante, por tratar de uma pessoa que não associamos, à partida, à época cultural filmada. Porque o tempo pode tê-la apagado do campo mediático da literatura, mas o impacto da sua escrita foi inigualável e continua a gerar repercussões. 

É invulgar encontrarmos um ambiente assim tão bem desconstruído no Cinema, captando a essência da busca incessante dessa geração de autores por novas tendências e novos sentimentos, que renovaram a literatura e a maneira como olhamos para o mundo e nos autocensuramos. Violette Leduc inovou ao mostrar a sexualidade com outras palavras e emoções, num espelho da sua vida difícil e acidentada que está retratada com delicadeza, choque e frontalidade.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

Draft Day - Dia D [2014]


O novo filme do realizador de Os Caça-Fantasmas, O Pelotão Chanfrado e Nas Nuvens é um retrato corriqueiro dos bastidores económicos e oportunistas do futebol americano. Não é mais do que um mero divertimento ligeiro, mas ao menos sabe cumprir da melhor maneira essa função nada desprestigiante. Draft Day – Dia D estreia esta semana em Portugal. 

É uma fórmula (demasiado) habitual, mas que acaba por funcionar mais uma vez: temos uma equipa de futebol americano que está a fazer uma péssima temporada e Sonny Weaver Jr. (Kevin Costner), o manager da mesma, está a um passo de ser despedido da liderança. Mas no draft day (o dia em que todas as equipas contratam novos e promissores talentos), Sonny tem a oportunidade de reconstruir a sua equipa caótica e desastrosa, e salvar a pouca confiança que os fãs e o seu chefe ainda depositam nas suas ideias, trazendo os melhores jogadores e evitando cair nas armadilhas propostas pela estratégia das outras equipas. 

E com isto já conseguimos saber qual vai ser o final da história: juntemos a isto uma história de amor previsível e despropositada, uma série de diálogos recalcados de tantos outros filmes do género e um retrato fiel do espírito do futebol na vida dos americanos, e temos logo Draft Day na sua mais pura e banal essência, mais televisiva do que cinematográfica. E Ivan Reitman é, também, um realizador pouco cinematográfico, mais conhecido pelos sucessos de bilheteira do que pela qualidade e originalidade das suas fitas – à exceção de Os Caça-Fantasmas, que é um êxito de culto, e do premiado Nas Nuvens, Reitman tem-se dedicado maioritariamente a comédias falhadas, sensaboronas e, até, grotescas, como Gémeos, Júnior e Um Polícia no Jardim Escola.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

O último Lance... desta temporada

E cá está, em podcast, o último episódio da segunda temporada de Um Lance no Escuro. O fim de uma nova e enriquecedora etapa para o programa e o miserável ser que o faz todas as semanas. Espero que nos possamos reencontrar em breve neste mundo do éter, mas por agora, fiquem com mais uma selecção improvável de bandas sonoras de musicais: desde Mary Poppins a South Park, há aqui de tudo!
UM LANCE NO ESCURO 12

A despedida (temporária) do Lance


Hoje vou gravar a última emissão desta segunda temporada de Um Lance no Escuro. Foi uma óptima e divertida jornada, e esta noite vou despedir-me temporariamente da Rádio Autónoma para umas férias bem merecidas - porque não posso pedir a ninguém para me aturar em julho e agosto... vós, caros ouvintes, tendes também de descansar! 

Vai ser mais um especial de bandas sonoras (repetindo o inesperado êxito que teve o anterior), e resta-me agradecer a todos os que ouviram, acompanharam e acarinharam este programa, uma das coisas que mais gosto de fazer. E um especial obrigado também aos 8 convidados que presentearam esta época de emissões com grandes conversas, e que aceitaram com simpatia o desafio de participar neste programa amadoríssimo: Tiago R. Santos, André Tenente, Francisco Rocha, José Carlos Maltez, António Sala, Miguel Gonçalves Mendes, Manuel S. Fonseca e João Chaves. 

O 12.º episódio será transmitido hoje às 22 horas, no sítio do costume, e espero voltar com novidades deste programa ainda em 2014. Mais uma vez OBRIGADO (porque nunca é demais agradecer)... e vejam sempre bons filmes.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Filmes em 60 segundos: A Terra em Perigo (Invasion of the Body Snatchers) [1956]


Eis um filme sci-fi com uma razão de ser, que ultrapassa a própria ameaça alienígena que nos conta: mais do que uma pura ficção psicológica, «Invasion of the Body Snatchers», de Don Siegel, é uma metáfora contundente para a pressão do McCarthyismo (com vários apelos directos ao espectador, que tem de compreender que aquela situação imaginária corresponde demasiadamente à realidade que o rodeia) e para o conformismo ético e social que parece abalar qualquer país, nos anos 50 e no século XXI. Formal e narrativamente datado (algumas ideias visuais poderão parecer ridículas para os nossos dias), mas ainda arrepiante e provocador na sua essência, este clássico americano soube conjugar, como ninguém, a força da crítica política ao poder da imaginação que só o Cinema pode exercer nas audiências. O resultado foi um dos títulos maiores da ficção científica “retro” dos anos 50 e 60, muitas vezes imitado, mas nunca ultrapassado. 

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