domingo, 28 de setembro de 2014

Gata em Telhado de Zinco Quente: uma sociedade falsificada em rota de colisão


Depois de ter noticiado, há mais de um mês, que este clássico de Tennessee Williams iria chegar em setembro ao CCB, tive a oportunidade de ir ver o espectáculo na passada sexta feira. Uma encenação sublime de Jorge Silva Melo, que está em cena até dia 30 em Lisboa, e que depois partirá para outras zonas do país, numa digressão que se prolongará até ao próximo ano: «Gata em Telhado de Zinco Quente» é uma belíssima revisitação de um clássico do século XX, que continua a fazer sentido nos nossos dias – e talvez esteja hoje mais atual do que nunca. Uma produção da Artistas Unidos, sobre a qual escrevi uma análise no Espalha Factos, que pode ser lida aqui.

sábado, 27 de setembro de 2014

(Re)descobrir o cinema de Satyajit Ray no Nimas


É mais uma das grandes iniciativas deste ano cinematográfico: a partir de hoje, todos os dias até 5 de novembro, o Espaço Nimas irá exibir seis filmes do realizador Satyajit Ray. Apostando maioritariamente em filmes menos conhecidos (pelo menos em Portugal) do cineasta indiano, esta é uma oportunidade única para deslumbrar algumas das maiores pérolas de um génio do cinema, em cópias (realmente) digitais e (realmente) restauradas.

Elaborar (mais) uma História do cinema e ignorar Satyajit Ray é algo equivalente a desprezar Tolstoi ou Steinbeck numa hipotética História da literatura. Quer se goste ou não, é inegável o contributo do realizador para a evolução e renovação do cinema, e os seus filmes, que parecem ser retratos de uma sociedade restrita (a bengali), acabam por ser mais universais do que aparentam – e intemporais também. Dos quatro filmes que pudemos ver, encontrámos as provas de um cineasta sempre em constante reinvenção criativa, através de diferentes histórias e modos de filmar que espelham as suas preocupações sociais, e a maneira muito peculiar como olhava o mundo e todas as suas “personagens”.

A minha opinião sobre quatro filmes desta iniciativa («A Grande Cidade», «Charulata», «O Santo» e «O Cobarde») pode ser lida no Espalha Factos.

Os Gatos Não Têm Vertigens [2014]


Quatro anos depois de A Bela e o Paparazzo, o realizador António-Pedro Vasconcelos regressa com uma comédia dramática protagonizada por uma dupla (aparentemente) improvável. Um filme simples, sobre problemas contemporâneos, que não se perde em excessivos simplismos. Uma proposta interessante que pode ser vista, a partir desta semana, nas salas portuguesas. 

Quem diria que ia ser amor à primeira vista?” é parte do slogan promocional desta nova comédia dramática (ou será mais um drama com alguns tons de graça?) que nos chega hoje às salas, numa história de António-Pedro Vasconcelos e Tiago R. Santos. Mas tal como o filme nos mostra, e as variadíssimas entrevistas que o realizador tem feito nas últimas semanas, a história que rodeia os dois protagonistas consegue ser um pouco mais do que uma recriação fácil de um cliché cinematográfico que todos nós já vimos antes (não ambicionando, por isso, centrar-se nessa ideia que tanto está a ser publicitada). O trailer fala por si, e os diálogos que nele ouvimos também: esta é uma trama de emoções narrativas, mas acima de tudo um relato humano que tenta captar algum do espírito deste Portugal desesperado. 

E é por isso que Os Gatos Não Têm Vertigens consegue ir mais além do que aquilo que parece prometer. As más línguas podem apontar o que quiserem na feitura do filme, na construção da história ou na sua mise-en-scène, mas não há dúvida que, para além de ser um interessante filme “comercial” (conceito do demo que provoca arrepios precipitados em muito boa gente), este é também um exemplo de storytelling com toques mainstream e convencionais – mas um convencionalismo com alguma originalidade e que, sejamos sinceros, consegue ser agradável.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

sábado, 20 de setembro de 2014

Livros VS Filmes #4 – TO KILL A MOCKINGBIRD



O LIVRO 
Há várias edições e títulos nacionais atribuídos ao romance de Harper Lee. Mas «Por Favor, Não Matem a Cotovia» continua a ser uma delícia de livro independentemente da tradução. Clássico da literatura norte-americana do século XX, centra-se na vida de uma pequena comunidade sulista e na coragem de um advogado, Atticus Finch, que defende um negro acusado de um crime que não cometeu, (sendo facilmente julgado e odiado devido aos preconceitos que continuam presentes). Mas há também um retrato apurado de costumes e das contradições de uma sociedade sempre em crescimento, com as mentalidades a alterarem-se de geração em geração. 

O FILME 
Tal como a obra que adapta, «Na Sombra e no Silêncio» adquiriu também um estatuto de culto – mas por diferentes razões: quer seja pela incrível interpretação de Gregory Peck como Finch, quer pela abordagem cinematográfica aos temas sociais da história. O filme de Robert Mulligan dá uma especial atenção ao caso judicial que é o mote para a maior parte da história, e consegue funcionar muito bem “cortando” algumas das melhores partes do texto de Lee. Mas seria interessante ver algumas das cenas mais divertidas do livro transpostas para o grande ecrã (a sessão do culto religioso é uma delas). 

O VEREDICTO 
Este é mais um caso em que livro e filme se complementam, já que ambos merecem ser igualmente descobertos (o primeiro, pela sua reflexão mais aprofundada, o segundo pela recriação incrível que faz de uma história brilhante). São ambos incontornáveis para a cultura popular americana, e essenciais para uma melhor compreensão de certos valores humanos que se adequam a qualquer país.

Esta foi a quarta edição da rubrica da rubrica «Livros Vs Filmes», publicada ontem, e que sai quinzenalmente, às sextas feiras, na página do facebook CulturArt

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Jersey Boys [2014]


É a celebração cinematográfica, assinada pelo veterano Clint Eastwood, de uma das bandas americanas mais famosas de sempre. Baseado no musical homónimo de grande sucesso da Broadway que passou por vários outros palcos do mundo, Jersey Boys é uma delícia visual que tem causado opiniões várias e extremas, mas não há dúvida que o filme merece ser descoberto. Estreia esta semana. 

O regresso de Clint Eastwood à realização faz-se com um filme que, tal como alguns dos anteriores, foi recebido pelo público e pela crítica sem conseguir gerar nenhum consenso. Esta é uma situação que se tem vindo a tornar constante, e alguns dos casos em questão tornam essa tão grande variedade de opiniões num fenómeno interessante (o que se sucedeu com Hereafter – Outra Vida e J. Edgar é disso exemplo). Contudo, talvez Jersey Boys, mesmo que se enquadre numa linha de estilo semelhante a todos os filmes que se sucederam ao magnífico Gran Torino, possa ser visto como um objeto de estudo à parte, diferente dos seus pares. 

Isto porque esta adaptação do musical da Broadway é dificilmente associável a outras obras de Eastwood, já que este parece não ser um filme assinado pelo lendário cineasta americano, responsável pelo arrasador western Indomável e pelo conto de crime e relações/perturbações humanas de Mystic River. Apesar de manter alguns elementos fundamentais do aspeto visual e narrativo do seu cinema, como a fotografia de Tom Stern (que colabora com o realizador há mais de dez anos, mais precisamente desde Bloodwork – Dívida de Sangue), os planos, a grandiosa reconstituição de uma época perdida nas memórias de quem a viveu, o relato de uma história tipicamente americana (de sucesso, decadência e crescimento), como outros pequenos mas essenciais detalhes da fita, e que tornaram Eastwood inconfundível no cinema do nosso tempo, Jersey Boys aposta na diferença – e isso pode causar agrado a uns e descontentamento a outros. 

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A Emigrante (The Immigrant) [2013]


Há um conflito tenso e armadilhado, entre dois irmãos, que se constrói através de oposições antigas e das fragilidades mentais de ambos. Minto: Jeremy Renner e Joaquin Phoenix não são mais do que primos em «The Immigrant», último filme de James Gray, estreado entre nós com um grande atraso (a culpa é do jet lag... comercial). Mas os pontos de colisão entre ambos parecem com que se torne mais adequado, pelos hábitos humanos e cinematográficos que adquirimos, que nos lembremos desse outro tipo de relação familiar, mais próxima e, ao mesmo tempo, mais acidentada, e propícia à descoberta de caminhos perigosos, dos quais não poderemos nunca voltar. Contudo, não é a rivalidade entre os dois vigaristas (um das artes de palco, e o outro mais virado apenas para os palcos mais duvidosos... e certas profissões obscuras da vida urbana) que se torna o cerne da obra, mas sim a causa de todos os atritos entre ambos: Marion Cotillard, ou melhor dizendo, Ewa. Porque se tanto Emil como Bruno são representativos de dois tipos de ilusões (o primeiro através da magia dos seus truques repletos de fantasia - símbolo de uma humildade incompatível com a feroz concorrência do mundo dos "states" -, e o segundo pela maneira como espezinha fortemente o sonho americano colorido e fofinho - conseguindo orientar-se muito bem nos meandros gananciosos e duvidosos da vida popular nocturna), a protagonista terá de lidar com os dois mundos para garantir a sua própria sobrevivência, numa sociedade a crescer, mas que nunca deixou de ter a expectativa de um colapso sempre à espreita, apesar de todo o optimismo e da esperança de muitos emigrantes que, tal como Ewa, partiram para os EUA em busca de uma vida melhor, mais justa e mais digna (e com a despreocupação e a excessiva confiança do sistema económico, viu-se o resultado: a aparente prosperidade americana não conseguiu evitar que, no final dos anos 20, década em que se desenrola a acção de «The Immigrant», o país entrasse numa enorme recessão, que provocaria a ruína e a desgraça de uma grande parte da população, entre ricos e pobres).


«A Emigrante» é, assim, um filme de contradições, mas acima de tudo, de suposições e dos medos que rodeiam a (in)glória do sonho americano. Do realizador James Gray (que, tal como nos filmes anteriores, não voltou a criar nenhum consenso, tanto da parte da crítica como do público), chega-nos mais uma história que tem tudo para se assemelhar a tantas outras que conhecemos de fio a pavio... e de facto, é o que acaba por acontecer, à medida que vemos as paixões, a ruína psicológica das personagens e a sede de ascensão num ambiente dominado pela decadência e pelo desespero. Mas porque será o filme tão especial, afinal? A razão é simples: apesar dessa construção narrativa "óbvia", e da familiaridade dos aspectos técnicos (e principalmente, da cinematografia, que tanto nos faz recordar as cenas de flashbacks de «O Padrinho - Parte II»), nunca conseguimos deixar de pensar que este é um trabalho de Gray. E tal como os bons autores, ele parte do "velho" para construir algo novo, que se desdobra na beleza dos planos (como o do desfecho) e das texturas cromáticas, no encadeamento das pequenas tensões da acção, e na utilização e "manipulação" do formidável conjunto de actores que dão vida a estas figuras dúbias e (inacreditavelmente) insólitas. Joaquin Phoenix é já uma peça habitual do Cinema de Gray, acompanhando-o desde «The Yards», drama de família e corrupção, e aqui encontramos algumas semelhanças com interpretações anteriores dessa parceria (sobretudo na fragilidade emocional e na constante luta social e pessoal em que se envolve a sua personagem). Mas talvez seja aqui que encontramos o pináculo da evolução do actor, que contracena com os igualmente magníficos Jeremy Renner e a (esplendorosa) Marion Cotillard. Tal como «The Immigrant» pode ser mesmo o melhor filme de Gray, e aquele que mais consegue aproveitar as influências artísticas (desde os filmes à pintura, ao teatro, à música...) para nos conseguir transportar de volta ao Cinema dito "clássico", sem perder algum sabor de modernidade. Porque se a história é "velha", arcaicas são ainda mais as convulsões que assistimos no filme, sinais de tempos cíclicos que nunca deixarão de afectar a humanidade (e para os quais, apesar dessas repetições sucessivas, parecemos não encontrar nenhuma resolução possível). Mas neste campo, muitos vêem brilhantismo, e outros a mais pura preguiça criativa. Quem terá razão? Optamos por continuar a acompanhar a divertida jornada de reacções que tem recebido o filme, que tanto tem de clássico como de ultra moderno (moderno, isto é, sem ter qualquer marca de CGI), e motivar os espectadores a verem-no, a discutirem-no, a detestá-lo ou/e a idolatrá-lo (aqui, tudo é possível).

 

Por essas razões dadas pelos detractores, defender a nova obra de Gray (que prossegue um universo dominado pelas sombras do passado e pelos fantasmas de uma cultura sempre em crescimento) parece ser trabalho hercúleo (porque as respostas que temos para lhes dar confirmam, de certa maneira, parte dos negativismos que atribuem à película). Sim, não parece ser tarefa fácil, essa de explicar porque é que «The Immigrant» vale a pena, quando tantas pessoas dizem o contrário. É difícil demonstrar, por esta via que é a da palavra escrita, a genialidade de James Gray, que se encontra tanto no mais pequeno dos pormenores (em que os tais elementos "que nos lembramos de qualquer lado" são utilizados para criar pequenas peças essenciais para a visão única e muito própria do autor - e algumas das cenas-chave do filme, creio, irão perdurar na memória visual de muita gente, em parte por causa desses detalhes) como na subtileza dos diálogos, na simplicidade cruel da câmara e na tristeza poética que invade, como um vírus fatal, o corpo destes homens e mulheres, divididos por credos, etnias, ou pura e simplesmente, diferentes formas (mais ou menos ingénuas) de ver e de aproveitar os recursos oriundos da existência humana. Mas tudo isto é algo que o espectador pode sentir, quer queira ou não, quando se sentar na sala (ou no sofá lá de casa, fica ao seu critério) e quiser contemplar uma obra que carrega um sentido de humanidade que é praticamente universal - e isto não pode ser negado, nem mesmo pelos maiores pessimistas cinéfilos (que tanto se manifestaram sobre a fita). Essas sensações, como é óbvio, não se conseguem passar para um qualquer suporte comunicacional, mas vale a pena dizer que elas existem, e que estão à espera de ser interpretadas, de mil e uma maneiras, por todos os que as quiserem descobrir. Gostos servem para ser discutidos, e não deixa mesmo de ser curiosa a multiplicidade de comentários que «The Immigrant» tem gerado, desde o maior dos desprezos à mais louca das aclamações. E se as opiniões devem ser respeitadas, independentemente do assunto ou da opinação em questão, assumo aqui (contribuindo para o debate que dura ad eternum, e que se tem distanciado cada vez mais da palavra "unanimidade"), para terminar esta dissertação mal construída, uma das minhas maiores certezas contemporâneas (que muitos irão ver com mau olhado): é que este é um dos melhores filmes de 2014.

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sábado, 13 de setembro de 2014

Os discos dos QUEEN: Hot Space [1982]


Se os QUEEN se caracterizam pelo mix de referências e estilos musicais, em «Hot Space» a história é ligeiramente diferente. Aqui encontramos uma salganhada de coisas, sim, mas não se criou o fio condutor comum da maioria dos álbuns anteriores, já que essas coisas se encontram dispostas de uma maneira que em pouco se assemelha a experiências do passado, onde o estilo da banda parece ser algo tapado por vários elementos musicais que eles quiseram utilizar aqui, mas que acabaram por danificar todo o álbum. Além disso, «Hot Space» é mais um conjunto de experimentações do que de invenções, provocando uma série altos e baixos que acabam por criar apenas um disco de agradável audição, mas de fácil esquecimento. E por isso, o álbum acaba por não funcionar tão bem, ao direccionar-se maioritariamente a tendências de teor mais pop e (alguma) disco que reflectem só as modas da época em que foi feito. A criação de uma obra como esta, com as suas características próprias, adveio do gigantesco sucesso do tema «Another One Bites the Dust», que graças ao qual o grupo conseguiu, numa rara ocasião, triunfar junto do público com um tema que nada tem de rock. Assim, «Hot Space» é uma espécie de prolongamento, para um disco inteiro, de todos os ingredientes dessa música que incita mesmo ao “pézinho de dança”. 

A antiga e lendária máxima “No synthesisers!” já tinha sido violada, em parte, com «The Game», e aqui, a maquineta (e seus derivados) acabaria por dominar a construção melódica na sua totalidade, apagando quase sempre o rock e proporcionando um espaço maior para outros géneros, executados de uma maneira menos interessante. Mas nada está perdido: encontramos alguns temas interessantes dentro destas características, e podemos descobrir também algumas canções que se afastam das mesmas e se aproximam do passado, apontando também para caminhos artísticos que a banda seguiria no futuro. Daí, por ser tão diferente de tudo o que a banda fez antes ou depois, este é o seu trabalho que lhe consegue ser menos facilmente associável, sendo também o disco menos apreciado pela legião de fãs dos QUEEN. Contudo, «Hot Space» é um álbum essencial no percurso dos QUEEN. É o disco que marca um novo som da banda, que seria aperfeiçoado mais tarde (nos trabalhos posteriores o rock voltaria ao de cima), e que demonstra uma reviravolta na imaginação do grupo e em todas as coisas que criariam as músicas que editaram ao longo dos anos seguintes da década de 80.

Mas não começamos mal: «Staying Power» é um bom tema, dentro das limitações para o qual foi designado, tal como a sensaborona «Dancer» e as interessantes «Back Chat» e «Body Language». Mas ao ouvirmos cada uma destas 3 faixas, torna-se cada vez mais inacreditável que este se trata mesmo de um disco dos QUEEN. A coisa só parece melhorar um pouco a seguir, com «Action this Day», de Roger Taylor, que apesar de não ter sonoridades tipicamente QUEEN, consegue captar alguma da excentricidade e criatividade que a eles são facilmente associadas. Algo semelhante encontramos em «Put Out the Fire», que tenta afastar-se da tendência disco que percorre grande parte dos outros temas, volta ao rock e avança para o terreno da canção socio-política (trata-se de uma letra de Brian May que critica o uso de armas de fogo). Não deixa de ser importante revelar, ou assinalar, esta faceta interventiva do grupo, que já encontrámos antes nesta jornada musical, e que voltaremos a descobrir nos próximos álbuns (redescobriremos essa pérola intitulada «Is this the world we created...?»). E se esta música já referenciava a tragédia de John Lennon, a que se lhe sucede, «Life is Real (Song for Lennon)» é um tributo completo de Freddie Mercury ao membro dos Beatles, com referências a algumas das maiores pérolas desse quarteto, mas que acabam por se esconder no meio de uma composição que não sai vencedora. 

«Las Palabras de Amor (The words of Love)» pode ser pirosa, mas também é uma homenagem sentida dos QUEEN aos seus fãs latino-americanos, e alguns interpretam-na como uma alegoria para a Guerra das Malvinas. Mas a intervenção não é tão "óbvia" como em «Put Out the Fire», nem a técnica está tão bem executada, e a canção acaba só por vencer pela simplicidade lírica das suas vozes. Depois há «Cool Cat», outra canção (justamente) esquecida, que teve, na versão inicial, a colaboração de David Bowie, que faz dueto com Mercury no desfecho do álbum. Mas o cantor não gostou do resultado final e pediu para a sua prestação ser retirada, e talvez até tivesse razão: é a canção mais descontextualizada de todas, que tem como única função proporcionar algum divertimento aos ouvintes, através de alguns efeitos sonoros e pelo ritmo da construção. Felizmente que «Hot Space» fecha com chave de ouro e assim, tal como todos os filmes que se salvam graças aos minutos finais, o disco torna-se mais interessante graças ao seu fim. «Under Pressure» (a tal em que participa Bowie) é a canção mais famosa da obra, que valeu mais um n.º1 no Reino Unido aos QUEEN, e mesmo que não se enquadre com nada do que ouvimos antes aqui, acaba por ser a única música que, verdadeiramente, nos fica na memória. E o tempo comprovou isso, tal como as repetições constantes do tema em milhares de emissoras de rádio de todo o mundo. É um épico como só os QUEEN poderiam criar, diferente de todos os outros da sua autoria, mas igualmente incrível e inesquecível.


«Hot Space» é um álbum menos inspirado, devido à decisão dos membros dos QUEEN de utilizar outros métodos para a elaboração da sua música. E os resultados não “soam bem” dentro do conjunto da obra do grupo, nem o próprio disco consegue funcionar “a solo”. Mas há certas experimentações disco que não são de deitar fora (e que acabam por ser, também, uma delícia para os melómanos) e, sim, acabam por ficar no ouvido, quer gostemos ou não delas. Mas o que acaba por sobressair são os poucos temas que possuem elementos "veteranos" da obra dos QUEEN, não por terem esses elementos, mas porque se tratam dos temas com melhor trabalho vocal e instrumental. O novo som que Freddie Mercury queria para a banda (algo que desagradava May e Taylor) acabaria por ser abandonado, de modo parcial, daí para a frente. Porque depois, os QUEEN começariam a juntar o seu rock épico com instrumentos e técnicas que acompanharam as novas modas da música de cada ano – uma solução que obteve resultados mais ou menos inspirados. Felizmente que eles não voltaram a fazer um álbum com excessivas apologias ao disco, mas para o bem ou para o mal, foi esse género, e esta experiência meio falhada, que influenciou a carreira do grupo até ao fim do mesmo. Eles acabariam por corrigir alguns dos erros que aqui encontramos, conseguindo, posteriormente, criar novos sucessos que não só iam ao encontro dos propósitos do grupo, como encaixavam nos discos em causa – algo que parece não acontecer aqui e com «Under Pressure».

* * * 1/2

As melhores faixas: «Under Pressure» é a melhor, mas vale a pena escutar com atenção as interessantes «Action this Day», Put Out the Fire»

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Maias - Cenas da Vida Romântica (Versão Integral) [2014]


Ao mesmo tempo que o filme, com duas horas e 17 minutos, chega hoje a várias salas de cinema do país, a adaptação da obra de Eça de Queiroz poderá ser também vista na versão do realizador, numa iniciativa exclusiva do Cinema Ideal. Com mais 50 minutos, a descoberta desta director’s cut compreende mais cenas, que nos proporcionam uma visão cinematográfica mais alargada desse clássico da literatura. A não perder. 

A história todos conhecem, e as personagens também. Mas recapitulemos, para aqueles que, porventura, se terão esquecido de tamanha complexidade (porque o mundo de Os Maias é vasto, e porque João Botelho selecionou somente alguns dos “episódios” do livro, que são também os pontos-chave da obra): há, obviamente, a paixão principal da história, mas ainda vemos, com deleite, as polémicas conversas políticas e sociais entre Carlos da Maia, o seu amigo João da Ega e todos os seus ilustres comparsas, as rivalidades com Dâmaso Salcede e a sátira irónica e corrosiva à hierarquia de classes contemporânea ao autor.

Os Maias – Cenas da Vida Romântica é mais do que uma simples adaptação, e mais do que um filme que servirá apenas para qualquer estudante do ensino secundário que repudie o enorme prazer da leitura. Felizmente que isso não acontece porque, tal como outras grandes obras da literatura, protegidas por um status intocável (que mais foi criado pelos especialistas na matéria do que propriamente pelo material em si), esta parece ser, para muita gente, uma peça completamente impossível de ser transposta, com o devido respeito, para o grande ecrã.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Livros VS Filmes #3 - FAHRENHEIT 451


O LIVRO 
Clássico da ficção científica do século passado, o livro do visionário Ray Bradbury continua essencial para a compreensão dos perigos da modernidade – e enquanto estamos rodeados de computadores, smartphones, tablets e outras parafernálias, tendemos a esquecer o verdadeiro valor dos livros, e a forma como estes simples objectos podem mudar o mundo e muitas mentalidades. Uma obra que se lê de uma assentada, mas a sua filosofia pode criar uma reflexão profunda no leitor, através de uma história que envolve um sistema burocrático que repudia a literatura e que apoia ad aeternum a massificação televisiva e sensacionalista. Muito actual, portanto. 

O FILME 
Não é que a adaptação de François Truffaut seja desprezível, mas a forma como decidiu recriar, visual e narrativamente, o imaginário de Bradbury, não foi a mais bem pensada. Não por causa das limitações de um filme em relação a um livro, mas pelo planeamento da produção, que poderia ter feito melhor com menos recursos e parafernálias dispensáveis. Oscar Werner, colaborador regular do cineasta, é Guy Montag, o protagonista do livro, numa interpretação insegura e desinspirada. O que salva o filme é a incrível montagem, as cenas mais dramáticas e fluídas, e a interpretação de Julie Christie e outros actores. 

O VEREDICTO 
Apesar da maior fragilidade do filme em relação ao livro, e de todos os defeitos que se possam usar para descrever essa adaptação, o tempo fez com que um e outro se tornassem inseparáveis. E vale a pena descobrir ambos, mas começando pelo livro, obviamente.

Terceira edição da rubrica «Livros Vs Filmes», que regressa depois de uma longa ausência. Quinzenalmente, às sextas feiras, sai uma nova edição na página do facebook CulturArt.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Grigris [2013]


Uma história “à americana” em língua francesa? É o que Grigris, nomeado para a Palma de Ouro em Cannes, parece ser… e em parte, é. Mas há outras coisas que acabam por distinguir este filme curioso, que estreia esta semana em Portugal, pela mão da Medeia Filmes

Grigris começa com uma impressionante cena de dança, em que o homónimo (interpretado por Souleymane Démé no seu primeiro desempenho no cinema) se encontra no centro da pista do bar onde costuma trabalhar, atraindo a atenção e o entusiasmo dos visitantes do espaço que, extasiados, conseguem captar a energia dos seus movimentos e a irreverência do seu estilo. A sensação que este início deixa no espectador irá repetir-se em todos os outros momentos do filme onde veremos o artista a exercer o seu maior talento. 

Mas não é só ele, este protagonista invulgar, que faz o deleite de Grigris, e por isso encontramos um filme que, mais do que agradável e feito de uma forma impecável, alerta para situações sociais (como a vida da comunidade pobre em que ele e os seus familiares se inserem) e culturais (o cruzamento de tribos e pensamentos distintos, e que irão gerar algumas das cenas de conflito e clímax mais interessantes da narrativa) que propiciam outra fonte de destacável e digno interesse.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

E Agora? Lembra-me [2013]


O premiado documentário de Joaquim Pinto passou pelo Festival de Locarno e, em Portugal, pelos certames Queer Lisboa e Doclisboa. Agora, chegou ao circuito comercial de distribuição e é também um dos dois filmes de estreia do novo Cinema Ideal

Naquele tempo, depois da aclamação com prémios de renome internacional, o novo filme de Joaquim Pinto começou a dar que falar por esse mundo fora. Chegou a Portugal primeiro pelos festivais, e agora, que está já disponível em várias salas do país, a crítica foi à projeção e entrou em êxtase, encontrando genialidades inexistentes em cada frame, e o júbilo povoou por toda a Terra (ou pelo menos, era o que parecia). Muitos cantaram e gritaram, com alegria, ousando dizer: “Bendito o que vem em nome da salvação sempre inglória do cinema português. Hossana! Hossana nas alturas!”. 

Serve esta pequena brincadeira de linguística (e que vai de encontro a um dos pontos centrais do documentário, a fé e a crença nos dogmas) para abrir esta análise a E Agora? Lembra-me, e para ironizar com a maneira, quase divina e religiosa, com que a obra tem sido recebida por vários especialistas da Arte. Mas isto também serve para alertar os leitores do seguinte: se o que estão prestes a ler for tão esclarecedor como a não-existência destas linhas (ou a série de epítetos majestosos que a imprensa tem atribuído ao conteúdo do documentário), não se preocupem, porque talvez seja esse o efeito desejado de um filme como este.

Leiam a crítica integral no Espalha Factos.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Filmes em 60 segundos: O Meu Nome é Ninguém (Il mio nome è Nessuno/My Name is Nobody) [1973]


Um western spaghetti que é também um improvável buddy movie: é isto «My Name is Nobody», filme de Tonino Valerii com um toque (gigantesco e óbvio) de Sergio Leone, e uma banda sonora de Ennio Morricone que faz referências directas ao que de mais épico têm «O Bom, o Mau e o Vilão» e «Aconteceu no Oeste», como ao lado paródico de «Aguenta-te Canalha!». É talvez aqui que este título se situa, num ponto intermédio que, ao mesmo tempo, leva ao extremo as duas vertentes, tão leonianas, deste tipo de westerns, patente na relação entre as personagens de Henry Fonda e Terence Hill, o velho e o novo que se ajudam mutuamente nas mais variadas situações. Cómico, por vezes imprevisível e quase sempre incongruente, nunca deixa de ser, contudo, uma história muito divertida e ritmada, que se acompanha com deleite e, até, algum encanto (apesar da brejeirice de algumas cenas). 

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