quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Whiplash - Nos Limites [2014]


‘Whiplash – Nos Limites’ é um olhar distinto e imaginativo sobre o mundo da música e dos seus bastidores. 

Uma das boas surpresas de janeiro encontra-se num filme que tinha tudo para ser banal e passar despercebido. Whiplash – Nos Limites consegue ser muito mais do que uma história sobre a relação entre um rapaz aspirante a baterista profissional, e o seu inescrupuloso mentor, um especialista na matéria que utiliza métodos muito pouco ortodoxos (e excessivamente violentos, acrescentamos) para incutir vários ensinamentos profissionais no seu grupo muito seleto de estudantes. É uma jornada única, que envolve o choque entre duas pessoas em tudo diferentes, mas que estão ligadas por algo em comum: uma gigantesca paixão pela música, que os move e faz pulsar, constantemente. Tanto para o bem, como para o mal.

Leiam a crítica integral na Máquina de Escrever.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Em Nome do Povo Italiano (In Nome del Popolo Italiano) [1971]


Pietà e potere non vanno d'accordo.

Falar de Dino Risi e não citar o filme mais famoso por ele realizado, o magnífico «Il Sorpasso», revela-se uma atitude tão injusta como, por exemplo, esquecer «Persona» quando se quer explorar Ingmar Bergman, ou de desprezar «The Searchers» é o tema de conversa. E como é sabido (pelo menos, para todos aqueles que viram essa comédia road-movie, uma fascinante análise à sociedade italiana através das andanças mais ou menos turísticas de um duo improvável de protagonistas), o filme de Risi termina a sua jornada humorística com o desfecho mais trágico, e por isso, menos previsível, que uma comédia poderia possuir. Esse final, que contrasta, em grande medida, com todo o desfile de gags e euforia que fomos acompanhando até então, atribui à história um tom dramático e amargo que troca completamente as voltas ao espectador.


Neste «Em Nome do Povo Italiano», filme quase desconhecido em Portugal, mas que se revela ser uma comédia tão interessante como «Il Sorpasso» (e que é muito mais complexa), o final é pontuado também por uma certa amargura, que faz com que a opinião que formámos até então sobre o que estivemos a ver se altere significativamente. Vejamos bem: em poucas palavras, é a história de um magistrado que investiga um empresário corrupto e interesseiro, suspeito do homicídio de uma jovem rapariga. Há aqui a dualidade entre as duas personagens (algo presente, com outros contornos, em «Il Sorpasso») entre o acusador e o acusado, ou seja, entre o defensor da Lei e do indivíduo que representa todos os esquemas e as formas fáceis de se contornar os parâmetros estabelecidos pela Lei. O que a cena que encerra a narrativa confronta é a maneira, como afinal, os dois opostos se complementam, através da revelação de uma outra faceta da personagem da Lei, e que faz aumentar o drama da sociedade real retratada no filme: no meio da galhofa e do ridículo do quotidiano, continua a haver espaço para o interesse alheio, tanto do lado criminal… como do lado judicial.


É uma curiosa questão, esta que nos oferece «Em Nome do Povo Italiano», e o resto da reflexão sobre a mesma fica a cargo do espectador. Mas há muitas outras (como a oposição entre classes, o conflito entre as mesmas e a forma como levar o Bem ao extremo pode trazer circunstâncias tão duvidosas, ou tão intrincadas, e de semelhantes proporções às do Mal propriamente dito – e neste caso, é a justiça cega, sem eira nem beira –, o que pode ser igualmente nocivo para a boa regulação de um sistema) que fazem do filme uma desvalorizadíssima crítica de costumes, que a cada dia torna-se mais verídica, e que abrange vários focos de tensão da vida social e política. É uma obra complexa, sim, e Dino Risi é um realizador subestimado por isso: muita gente ainda acredita nessa utopia de que a comédia é menor, é um ultraje para o Cinema “sério” e objectivamente “intelectual”. Mas entre uma e outra piada, Risi capta alguns dos maiores problemas da contemporaneidade e faz com que estes adquiram uma singular visão cinematográfica, pontuado por um dinamismo e uma riqueza nos detalhes que alimentam, ainda mais, as intenções satíricas, e surpreendentemente alarmantes, arquitectadas pelo argumento (porque esta é uma comédia e, portanto, deve fazer rir, mas que culmina numa perspectiva fatalmente céptica, descrente dos dois lados da “medalha” que foram desenvolvidos ao longo do filme).


E para ajudar a esta “festa” social há ainda os desempenhos formidáveis de Vittorio Gassman e Ugo Tognazzi, que sabem perfeitamente manejar as nuances humorísticas e sérias que carrega o conteúdo do filme, para o qual também contribui uma banda sonora orelhuda e uma montagem acutilante (que ajuda, e não destoa, como parece ser hoje a “mania” da montagem da maioria das estreias que por cá chegam) e uma câmara precisa e alucinante (que, com a sua rapidez, filma uma série de planos fulminantes que nos ajudam a entender as subtilezas da narrativa sem precisar que a conversa substitua uma das funções primordiais do Cinema: a de contar uma história, ou pelo menos, de mostrar qualquer coisa, através das imagens, e não “com o auxílio” delas). «Em Nome do Povo Italiano» é, assim, uma comédia mais abrangente do que parece à partida, e que demonstra as particularidades do humor de Dino Risi, e das variadas vertentes que podem obter as piadas dos seus filmes – desde o efeito da mais simples e audível gargalhada, até à revelação de surpresas, de volte-faces inesperados que põem novas cartas na mesa deste “jogo”, nada linear e muito menos óbvio, em que evoluiu o establishment e as figuras que o incluem. Uma prova concreta do poder do cinema popular (e não popularucho, gratuito ou “sessão de domingo à tarde”) que toda a gente deveria conhecer, e que se torna essencial para partir para facções da vida urbana de que, por serem mais delicadas, não costumamos falar regularmente, em momentos informais de cavaqueira, ou em dissecações mais profundas sobre as instituições que nos comandam, ou sobre a outra face do poder legal.

* * * * 1/2

P.S. - Tive a oportunidade de ver este filme no ciclo "As Teias da Lei: a Justiça em Debate no Cinema", conduzido por Lauro António. Continua até dia 25 de Fevereiro, sempre às quartas-feiras, na Reitoria da Universidade de Lisboa. A Programação encontra-se aqui.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Blackhat: Ameaça na Rede [2015]


Confronto de piratas num mundo cibernético e desumano 

‘Blackhat – Ameaça na Rede’ é um filme de ação sobre um tema cada vez mais presente no nosso quotidiano. Mas se enquadrarmos na filmografia de Michael Mann, não passa de uma desilusão. 

Um dos realizadores de culto do cinema americano regressa com Blackhat – Ameaça na Rede filme que, como o nome sugere, lida com o mundo cibernético. Ao contar a história de um hacker que é contratado para impedir as ações de um Blackhat (ou por outras palavras, um pirata informático que tem intenções terroristas), somos confrontados com o poder da internet. O tema não está trabalhado da maneira mais singular, uma vez que haveria por aí outros casos bem mais interessantes se a ideia era aprofundar a exploração dos efeitos perigosos, quase fatais, que a web pode envolver nas nossas atitudes e relações neste nosso mundo contemporâneo.

Leiam a crítica integral na Máquina de Escrever.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Literatura: O Homem Duplo (A Scanner Darkly) [1977]


O grande romance sobre a droga não se encontra entre os títulos de maior culto da malta jovem (refiro-me, por exemplo, a «A Lua de Joana» e «Os Filhos da Droga»), mas nesta história (pouco) futurista onde, numa mistura com crítica social e política, se desfazem e se refazem os mitos das consequências do vício. «A Scanner Darkly» é uma obra enigmática, que lida com uma crise de identidade tão forte, e tão persistente, que o próprio leitor poderá, por muitas vezes, duvidar das ideias que está a tirar da história, e ficar confuso e sentir-se também vítima das fortes alucinações e perturbações que Fred/Bob Arctor sente ao longo da história, numa demanda entre o mundo da Lei e o lado da escória viciada. No meio de uma intriga aparentemente banal, há passagens lindíssimas sobre a humanidade e os seus múltiplos instintos, uma dissecação dos valores sociais, e uma série de citações de Goethe (autor cuja utilização na narrativa não foi de todo aleatória). Philip K. Dick diz desde logo que tudo o que lemos no livro foi testemunhado por ele na realidade - e sentimos um certo desgosto com o peso fortíssimo das suas palavras, e da tristeza que usa para descrever as suas personagens, e a podridão do mundo em que elas vivem. «A Scanner Darkly» culmina numa espécie de versão adulterada, mas talvez ainda mais profunda, do desfecho de «1984», e é um romance de arromba que destrói o establishment e que, ao mesmo tempo, se deixa vencer por esse conjunto de (boas ou más) convenções de vida em sociedade.

Tradução portuguesa: Eurico Fonseca, n.º 316 da colecção Argonauta, Edição Livros do Brasil

O Jogo da Imitação (The Imitation Game) [2014]


São os filmes que valentemente se dizem ser “baseados em histórias verídicas” aqueles que menos se conseguem assumir como “realistas” junto dos espectadores. Esta é uma moda que já tem os seus anos, mas que ganhou uma revolução em tempos mais recentes, iludindo milhões de pessoas quanto à verdadeira… veracidade das histórias utilizadas nesse tipo de dramas (porque muitos destes filmes “reais” têm tanto disso, de realidade, como qualquer filme de ficção científica). E O Jogo da Imitação é isso mesmo.

Podem ler a minha opinião na íntegra, mais a do Nuno Carvalho, na Máquina de Escrever.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Mais memórias de Chaplin no Cinema Ideal


Em dezembro regressaram O Garoto de Charlot e A Quimera do Ouro. E em 2015, o Cinema Ideal volta apostar em Chaplin, e os espectadores poderão ver ou rever, em novas cópias digitais, Tempos Modernos e O Grande Ditador, obras muito mais longas e complexas na sua dimensão social. 
Uma óptima sugestão cultural para 2015. Mais informações na Máquina de Escrever.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sobre os Óscares...


As nomeações aos Óscares nada revelam de novo, em relação às intenções e critérios da Academia, e reforçam, aliás, todos os estereótipos que a ela temos associado nos últimos anos. Muitos dos filmes favoritos noutras cerimónias de prémios conquistaram aqui o seu lugar, e cumpre-se o espaço dedicado a “outros” filmes na categoria principal, com a inclusão de Selma e Whiplash – Nos Limites – que embora, como tão bem sabemos, irão sair da gala de mãos a abanar, a Academia sabe que lhe “fica bem” colocar esses nomeados junto dos verdadeiros vencedores para a Academia (algo semelhante com a animação de Isao Takahata na categoria respetiva). 

Como sempre, há ótimos títulos que ficaram de fora (como Nightcrawler – Repórter da Noite, reduzido apenas à categoria de Melhor Argumento Original, e a exclusão de O Filme Lego da Animação) e algumas distinções que, à primeira vista, nos parecem ridículas (como Meryl Streep a receber, como manda a tradição, mais uma nomeação para um papel que nem merecia qualquer tipo de mérito). Há ainda destaque para algumas surpresas que, no fundo, não assim tão surpreendentes (Marion Cotillard só está nomeada, devido ao filme dos irmãos Dardenne, porque é uma atriz muito bem enraizada no establishment da indústria norte americana), e para algumas incoerências (Bennett Miller nomeado para Melhor Realizador… e Foxcatcher não se encontra na categoria mais importante?). 

Esta é uma parte de um comentário que fiz sobre as nomeações aos Óscares, e que pode ser lido na íntegra na Máquina de Escrever.

Foxcatcher [2014]


Mais do que uma história sobre os meandros do atletismo, o novo filme de Bennett Miller fala-nos de uma personalidade obscura e da sua obsessão pelo poder dos media.

Depois de dissecar as drásticas consequências do processo “criativo” que levou Truman Capote a escrever A Sangue Frio (no filme Capote), e de analisar a relação cada vez mais intensa que une o desporto e as potencialidades dos meios informáticos (em Moneyball – Jogada de Risco), o realizador Bennett Miller decidiu pegar numa outra história verídica, mas com contornos bem mais obscuros que as duas anteriores. Com ela, Miller explora os contornos da mediatização das relações humanas, e da maneira como podemos ser facilmente levados a acreditar na maior e mais complexa das mentiras.

Leiam a crítica integral na Máquina de Escrever.

O Farrapo Humano (The Lost Weekend) [1945]


Ora aqui vai: o site "Máquina de Escrever" abriu hoje à meia-noite, e para lá já tinha escrito duas curtas críticas (e foram só experiências, espero conseguir fazer coisas melhores daqui para a frente) e um artigo minúsculo. Uma dessas críticas foi a este clássico, que finalmente recebeu uma edição em DVD no nosso país. É com grande honra que anuncio o "nascimento" deste site, cujas novidades podem ser acompanhadas diariamente via Facebook e Twitter.

Este pequeno texto que escrevi, sobre uma verdadeira obra prima do Cinema (e que é um dos melhores filmes do senhor Billy Wilder), pode ser lido aqui.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Filmes em 60 segundos: Cai a Noite Sobre a Cidade (Un Flic) [1972]



«Un Flic» foi o filme que encerrou, em grande, o percurso artístico traçado por Jean-Pierre Melville, espalhado em tantas e distintas longas-metragens. Tem uma história com elementos comuns às anteriores investidas do realizador (um assalto organizado, um conflito entre a Lei e o Crime, o existencialismo dos actos aparentemente banais das personagens), mas não existe um equilíbrio tão bem orquestrado entre cada figura da narrativa e os desenvolvimentos que se sucedem – algo verificável no extraordinário «L’ Armée des Ombres» e no character study pouco óbvio de «Le Samourai» (referenciado, em jeito de auto-paródia, num pequeno pormenor cénico). Na montagem, a utilização constante de planos-relâmpago (que nem duram mais de um segundo) cria um ambiente peculiar nas cenas de maior tensão, mas mesmo que não seja eficaz, não danifica os propósitos da trama (que se acompanha com deleite) e das interpretações, que honram o que de melhor possuiu o universo Melvilliano.

★ ★ ★ ★ 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Sobre os TCN


Apesar da escrita ser uma das minhas essenciais ferramentas existenciais, torna-se difícil expressar, através dela (e tal como me aconteceu com o oposto, com a expressão oral, diante da plateia que compôs o Deliart Caffé no passado dia 10) tudo aquilo que gostaria verdadeiramente de dizer e de agradecer, no que diz respeito aos TCN Blog Awards 2014 e aos dois prémios (completamente inesperados, principalmente o de Blogger do Ano) que recebi nessa cerimónia. 

Mas talvez ainda consigo dizer qualquer coisa sobre este ano de TCN - e que foi o melhor, entre as três edições em que pude até hoje estar presente. Não vai sair nada de jeito, mas é quase impossível mostrar, da maneira mais eficaz, a forma como me sinto emocionado por tudo isto (as lagrimitas na entrega do prémio de Entrevista foram um indício disso). E queria pedir desculpa a todos aqueles que conheço via online e que estavam lá no sábado, e que eu não consegui reconhecer (e até posso ter passado por eles que nem me apercebi). Mas foi óptimo estar reunido, pela última vez como membro do Espalha-Factos (mas já na posição de desgraçado desertor), com uma porção dos óptimos colegas que por lá conheci e que com quem trabalhei. Foi também uma alegria ver o Sebastião Barata, partner de Cinema, a vencer o prémio pelo seu blog "Milímetro a Milímetro". E foi, ainda, um orgulho poder descobrir finalmente (e de forma hilariante) a identidade de Pedro Cinemaxunga - ou pelo menos, do seu queixo -, numa revelação que teve direito a «Commando» e a descobertas em primeira mão sobre tão obscura personalidade blogueira. Por fim, vimos todos a Tuxa ao vivo. Que mais há para dizer? Claro que esta sessão tinha de ser memorável!

2014 foi um ano incrível, e 2015 é para continuar, tanto como no novo site que me vai acolher, como no regresso de «Um Lance no Escuro», com grandes surpresas, em fevereiro... e tantas outras coisas mais. Mas para o ano há mais TCN, e eu provavelmente não poderei ser nomeado pelas características mais complexas que vão envolver o novo site em que vou colaborar (que já agora, chama-se «Máquina de Escrever» e vai nascer no próximo dia 15!). Como disse o Manuel Reis, no momento em que eu "subi ao palco" pela segunda e última vez na cerimónia, esta talvez tenha sido uma despedida perfeita para o culminar de uma colaboração no EF que me envolveu intensamente ao longo de tantos meses. Muito obrigado a todos, quer os que votaram, quer os membros do júri, como também aos senhores Vittorio Storaro e António-Pedro Vasconcelos, por me terem deixado entrevistá-los e porque foi graças a eles, e às suas conversas tão interessantes, que as nomeações aconteceram. Foi uma honra estar ao pé de tão boa gente que escreve melhor do que eu, e mais do que isso, é uma honra pertencer a esta nossa blogosfera. Um bom ano para todos, sempre com bons posts, bons filmes e boas séries!

P.S. - Como eu avisei, isto não saiu nada de jeito. Mas era mesmo só para agradecer - e um simples "obrigado" vale por tudo o que aqui escrevi sem qualquer jeito.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Os 10 melhores clássicos que vi em 2014


E é este o outro top do ano, e que é bem mais importante do que o anterior porque abrange todos os "outros" filmes que vi em 2014. Não queria descrever estes filmes como "antigos", mas a palavra"clássicos" não é de todo desadequada, porque é isso que os dez filmes desta lista, os melhores que vi em 2014, são: títulos inconfundíveis e inesquecíveis que marcaram a História do Cinema, e  que correspondem a verdadeiras obras primas. Não há qualquer ordem, apenas fiz esta lista consoante cada um dos filmes me foi surgindo na memória (porque é dificílimo "arrumar" tão belos filmes em prateleiras tão vulgares como as dessas contagens).

De fora ficaram todos os grandes filmes que vi pela segunda vez, ou alguns até que redescobri como se tratasse de um primeiro visionamento (o melhor de todos, e o que mais gostei, foi sem dúvida «O Exército da Sombra», de Jean-Pierre Melville - como foi tão bom ver um filme completamente diferente daquilo que me lembrava de ter visto há três ou quatro anos!). Mas sem mais demoras, comecemos então a contagem desta lista, que o resto não interessa por agora. Vamos a isto!

Sonata de Outono (Höstsonaten) [1978]


Um dos filmes mais "acessíveis" do mestre Ingmar Bergman, mas também um dos mais envolventes e emocionantes. «Sonata de Outono» consegue fazer isso utilizando, apenas, a relação distante e conflituosa entre uma mãe e a sua filha. E é perfeito, tanto nos diálogos e na mise-en-scène, como nas interpretações - Liv Ullmann é, mais uma vez, extraordinária, e Ingrid Bergman surpreende pela frieza e, ao mesmo tempo, pelo lado carinhoso que consegue transmitir com a sua personagem. Um filme simples, mas grandioso na sua simplicidade.

Umberto D. [1952]


Clássico do Neorrealismo italiano, «Umberto D.», de Vittorio de Sica, conseguiu sobreviver muito melhor do que tantos outros filmes "colegas" da sua geração (como «A Terra Treme», de Visconti, que tive oportunidade de ver em 2014, no DocLisboa, e que não passa hoje de um relevante, mas desequilibrado, documento social) porque aposta numa emoção bonita, tipicamente "italiana", sentimentalista sem ser lamechas, com a história do idoso que perde tudo... menos o seu fiel amigo Spike. Este filme, e o do Bergman, devem ter sido os únicos que me fizeram deitar umas lágrimas em 2014. É certo que não é assim que se avalia a qualidade de um filme... mas eu regularmente também não me dou para choradeiras.



Billy Wilder é um génio colossal, e por isso este não é o único filme do realizador que está incluído nesta lista. Mas «O Grande Carnaval» é um dos seus filmes menos conhecidos, pelo menos em Portugal (não está editado em DVD, enquanto que nos EUA há uma magnífica edição restaurada da The Criterion Collection), mas também um dos melhores de Wilder. Com Kirk Douglas no papel do protagonista, é uma arrebatadora dissecação do mundo do sensacionalismo da comunicação social, e da luta entre jornalistas para conseguir a melhor notícia, o melhor escândalo, sem ter em conta as vidas inocentes que por ela são afectadas. Não foi visto com bons olhos pelos puritanos da Hollywood clássica, mas hoje tem um poder social inquestionável (e é um dos filmes preferidos de Spike Lee).

O Leopardo (Il Gattopardo) [1963]


Era um daqueles pecados cinematográficos que há muito tempo tinha para resolver - e valeu a pena a espera, porque fez com que conseguisse ver o filme nas melhores condições possíveis (sou muito "picuinhas" e sei que ver os filmes na altura certa pode estragar uma experiência que até pode ser boa, como constatei ao rever o filme do Melville). E o que é que se pode dizer desta realização de Visconti, para além da beleza daquilo que as imagens, as interpretações, o argumento e a crítica social e de costumes nos apresentam? Está tudo lá, em «O Leopardo». Um épico fabuloso e graciosamente megalómano.

Ninotchka [1939]


"Garbo laughs" foi o slogan desta magnífica comédia de Ernst Lubitsch, num argumento escrito por Charles Brackett, Walter Reisch e Billy Wilder. E é o que vemos acontecer: ela ri, mas também se apaixona e vive intensamente a vida parisiense, na companhia de um boémio da cidade. Um dos mais perfeitos exemplos da comédia sofisticada (na construção dos diálogos, na importância simbólica dos objectos, no lado subliminar das situações, etc) e um filme inesquecível, na crítica política da época, mas também por todas as coisas satirizadas que hoje ainda fazem parte do quotidiano.

Um Caso de Vida ou de Morte (A Matter of Life and Death) [1946]


Se há um filme que comprova totalmente que o Cinema é uma arte de magia, tanto no sentido da ilusão como no do encantamento, é com certeza este. Realizado por Michael Powell e Emeric Pressburger, é uma história sobre os dois lados da existência, a vida e a morte, e o que há em cada uma delas. Repleto de lindíssimas ideias visuais, «A Matter of Life and Death» é um dos filmes mais icónicos da cultura britânica, e um dos romances mais bonitos dos filmes. 

Eva (All About Eve) [1950]


Vencedor de 6 Oscares, incluindo nas categorias principais (Filme, Realizador, Argumento e Actor), «All About Eve» é uma incrível recriação da definição de "fama" no star system norte-americano, através da oposição entre uma actriz de teatro veterana, e de uma "caloira" que entra no mundo artístico através da primeira. Filme autêntico e directo, sem papas na língua, tem as magníficas Bette Davis e Anne Baxter, e permanece Hoje ainda como um dos retratos mais fiéis do mundo cruel dos artistas e da mediatização que criam com a sua imagem.



Uma comédia clássica que tem pouco de clássica, mas sim de inovadora. Com muito humor negro à mistura, conta-se uma saga de mortes e paixões no mais puro estilo britânico, com uma perfeita noção de timing, de ironia e de sarcasmo, combinados com as variadíssimas personagens (mais as oito vítimas do ódio do protagonista, todas elas interpretadas por Alec Guinness). Uma incrível peça de Cinema e de comédia que ainda hoje está "fresca"e mais original do que muito material humorístico que tem saído nas salas nos últimos tempos.

O Farrapo Humano (The Lost Weekend) [1945]


Finalmente saiu em DVD no nosso país, e é o outro título de Billy Wilder presente nesta lista. Ao contrário de «Ace in the Hole», «The Lost Weekend» não foi nenhum flop na época, conquistando as graças do público e da crítica, como também dos Oscares. História de decadência psicológica, é um retrato perturbante e profundo sobre os vícios e a maneira como lidamos com eles. Um filme de Wilder característico e nada característico, ao mesmo tempo, e uma das suas obras mais controversas, e que ainda hoje mantém esse efeito. E Ray Milland é simplesmente genial, 

A Vítima do Medo (Peeping Tom) [1960]


A encerrar esta lista, um dos filmes que mais me impressionou em toda a minha vida, e um dos únicos dois títulos desta dezena que tive o privilégio de ver em sala (neste caso, foi no Lisbon & Estoril Film Festival, num ciclo dedicado às temáticas tão orwellianas dos media, em que passaram outros fenomenais filmes). Uma obra que levou à ruína do realizador Michael Powell, mas que, com o passar dos anos, se tornou numa das maiores influências da História do Cinema, tanto pelo lado provocador utilizado para retratar o espectador e o olhar da câmara que apanha tudo (tanto o bem como o mal), como pela exímia conjugação entre a montagem, a realização, os actores e o argumento. Fecho este artigo com uma curiosidade: nessa sessão, numa sala tão pequena e com tão poucos espectadores, esteve também o senhor Wes Anderson, convidado desta edição do festival, e que é um grande fã do filme.

A minha última participação no EF Rádio...


É a minha despedida definitiva do Espalha-Factos. Falo do último artigo que escrevi a partir de casa, numa gravação meio ranhosa feita com os recursos informáticos que tenho. Obrigado ao EF por estes meses de trabalho, e até à próxima!

domingo, 4 de janeiro de 2015

5 grandes filmes que não triunfaram nos Oscars


Hoje saiu o último artigo que escrevi para o Espalha Factos. E por isso, tem um significado especial, que vai para além do conteúdo do mesmo. E mais ainda porque nele pude incluir o filme da minha vida e falar sobre ele (da maneira mais simplista possível, como já é habitual da minha parte). 

Este artigo marca o fim de uma jornada de 14 meses em que colaborei no site, e nele fiz as mais variadas experiências, que me ajudaram a crescer ao longo de cada nova etapa cumprida. Para terminar, irei participar na emissão de regresso do EF Rádio, esta semana, e comparecer nos TCN Blog Awards. Agora irei partir para um novo projecto, que irá abrir em breve, e este blog estará mais activo nos próximos dias. Mas nunca esquecerei os amigos do EF e todas as coisas que fiz graças a eles. OBRIGADO!

Podem ler a selecção que eu fiz, com 5 grandes filmes que não conquistaram os Prémios da Academia, aqui.

E em breve, mais novidades surgirão.