sábado, 27 de fevereiro de 2016

Infantilidade

Gostava que este livro tivesse existido quando era miúdo. Aliás, porque é que livros como este (e outros, da responsabilidade de fascinantes novas editoras que têm surgido por cá - neste caso, é a Orfeu Mini) só surgiram agora? É que esta historinha do urso que perdeu o chapéu não é tão óbvia para o que eu me habituei a ler (e a ver, no que diz respeito aos bonecos), quando tinha idade adequada para pegar nestas coisas. E isto tem um twist cómico que a miudagem vai adorar (se compreender, e eu creio que compreende, porque os garotos "dojendia" não são tão parvos como muitos paizinhos e mãezinhas dão a entender). Infantilidades desta estirpe fazem sempre falta. Até porque um pouco de humor negro não faz mal a ninguém.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os 10 melhores clássicos vistos em 2015


E pronto, à semelhança do que fiz no início do ano passado, e com um maior atraso, aqui fica uma selecção de dez filmes, os clássicos que mais gostei de ver, pela primeira vez, ao longo dos 365 dias de 2015. Por ordem cronológica, e falta tanta coisa. São dez grandes filmes, é o que eu posso dizer. Aqui vão:

1. - La Bête Humaine [1938]


O magnífico Jean Gabin é o protagonista da adaptação do livro homónimo de Émile Zola, realizada por Jean Renoir. Filme sobre o homem em condições que o desesperam, numa vida que o leva a agir sem pensar, em busca de um propósito que deseja obter, sem olhar a meios ou a consequências. Obra prima exemplar cuja simplicidade narrativa é complementada por planos e sequências incríveis, visual e emocionalmente falando. Um dos títulos-chave de Renoir (menção também para «Esta Terra é Minha», outro dos grandes filmes do cineasta que vi em 2015).

2. - Heaven Can Wait [1943]



Ernst Lubitsch entre a vida e a morte, num dos seus melhores filmes. Ou então, uma história sobre a memória e a eternidade. Um filme que é uma brincadeira sobrenatural, uma comédia dramática que toca a todos. Fala sobre as coisas que nos preocupam a todos de uma maneira tão bonita, que torna este romance maior do que a vida - entre gargalhadas e cenas emocionantes. 

3. - The Lady From Shanghai [1947]


Não é só a cena dos espelhos (que por si só, já merecia toda uma análise), porque este filme de Orson Welles, noir impressionante e surpreendente, tem muito mais: os planos, a história, os actores, tudo aqui está perfeito (o que compensa as pequenas imperfeições técnicas do filme, "vítima" dos habituais constrangimentos e pressões a que Welles estava sujeito. Tudo culmina nesse tal grande final, que por mais vezes que seja imitado, nunca perderá a sua originalidade e poder.

4. - All The King's Men [1949]


Venceu nos Oscars e está perfeitamente actual (e ultimamente, é uma das razões que eu dou quando me perguntam porque sou tão céptico quanto ao mundo da política). «All The King's Men» é a ascensão de um zé-ninguém ao poder, e um filme muito mais subtil do que aparenta. Não é só a corrupção de um homem bom, mas antes uma desconstrução de todo o sistema do poder. Há uma versão mais recente, com actores modernos, que aconselho a desprezarem. Tudo o que havia para dizer, Robert Rossen filmou-o nesta versão original.

5. - Ordet [1955]


Da beleza da palavra se faz esta obra-prima sobre a fé. Muitos não se conseguem identificar com «Ordet» e a sua mensagem, que a uma primeira vista descuidada, pode parecer demasiado "ingénua". Mas Dreyer está longe de ser ingénuo. Fez antes um filme que mexe connosco e com o que de mais puro há na vida humana. O espírito do Cinema está todo ele aqui, entre a família desequilibrada, o filho doente que acaba por ser a inesperada salvação de todos.

6. - Imitation of Life [1959]


Talvez seja o melhor dos melodramas clássicos? É pelo menos o que mais me tocou. Douglas Sirk faz de uma história que, nos dias de hoje, poderia ser o mote de uma banal telenovela, um filme ímpar. Visualmente magnífico, e a perfeição está no resto. Tudo é perfeito, perfeito, perfeito. Não sei mais o que dizer. A tristeza e o encanto do filme são para guardar num cantinho bem preservado da nossa memória.

7. - Jungfrukällan (The Virgin Spring) [1960]


Inspirando-se em «Rashômon», de Kurosawa, Ingmar Bergman compõe um ensaio "brutal" (odeio esta palavra) sobre a culpa e o pecado. Tão imprevisível e poético, do início ao fim, mesmo nos momentos em que alguns homens irracionais e selvagens destroem o que de belo tem aquele pequeno mundo, a menina inocente e o pai bondoso. Tudo dá uma volta completa quando o mal acontece - e os bons podem revelar a sua outra face, obscura e arrepiante. Até agora, é o meu Bergman preferido.

8. - The Manchurian Candidate [1962]


É difícil ordenar hierarquicamente estes grandes filmes, mas talvez este tenha sido o que mais prazer me deu em 2015. E visto numa cópia 35 mm de excepcional qualidade na Cinemateca, ainda foi melhor! Um filme empolgante sobre lavagens ao cérebro, agentes adormecidos, e outras paranóias dos tempos não tão longínquos da Guerra Fria. Ao contrário de todas as expectativas, com estas temáticas, «O Candidato da Manchúria» não se perdeu no tempo: o seu interesse renovou-se constantemente e, ainda na actualidade, é uma obra verdadeiramente implacável, que não se cansa de colocar armadilhas à frente do espectador e a apanhá-lo de surpresa. Fantástico!

Entre todos os grandes filmes de Akira Kurosawa que vi em 2015 (com «Os 7 Samurais» e «Yojimbo» incluídos), foi de «High and Low» que gostei mais. Melhor filme com chamadas telefónicas. Um pequeno comentário encontra-se no link.

10. - Fail-Safe [1964]


Chegamos ao fim desta dezena de títulos com um filme que também foi afectado pela Guerra Fria, e pelo medo nuclear em particular. Abafado por «Dr. Strangelove», este filme do grande Sidney Lumet começou a ser redescoberto com a passagem do tempo - e é tão bom como, ou até, melhor que, o filme de Kubrick. Não há piadas aqui, mas uma reflexão muito séria, e complexa, sobre as circunstâncias desastrosas da tensão entre os EUA e a Rússia num caso extremo. O engano cometido não é, como em «Strangelove», pretexto para uma sátira, mas um olhar grave a um possível apocalipse. E o filme continua a fazer sentido hoje - há tantos outros medos e receios nos dias que correm, que poderiam originar situações semelhantes. Uma obra-prima da tensão diplomática, onde uma decisão errada pode colocar em risco toda a Humanidade.