segunda-feira, 28 de novembro de 2016

As Novas Aventuras dos Quatro Cabeleiras


«Help!», de 1965, é o segundo filme protagonizado pelos Beatles, e que, com os seus pares «A Hard Day's Night» e «Yellow Submarine» forma aquela que é, provavelmente, a trilogia não-intencional mais estranha do cinema. Nesta comédia caótica há um desfile de gags nonsense e/ou patetas, em que não são as partes, ou a soma das mesmas, que proporcionam o objectivo principal para o espectador – e não é só “por ter os Beatles que o filme vae. Na verdade, «Help!» poderia ter sido completamente esquecido pelo tempo, ou ser visto aos olhos da contemporaneidade como, simplesmente, um exemplo agradável, mas datado, dos potenciais da nova comédia que estava a surgir, e que ganharia uma das suas maiores imagens de marca com os Monty Python (mas o «Flying Circus» só chegaria aos lares britânicos em 69). No entanto, há aqui duas coisas que salvam o filme - e neste caso a "salvação" passa por transformar esta salganhada de pequenos sketches com fio condutor dentro num filme hilariante e marcante, não só do percurso e da imagem mediática dos Beatles, como também da relação da obra com a personalidade de cada beatle. 

A primeira é, obviamente, o elenco que faz parte de «Help!» e a forma como o mesmo utiliza as características daquele que poderia ser um banal divertimento de domingo à tarde. Há os Beatles e as suas músicas (numa fase que parece ser um meio termo entre os anos "estrelas super pop" e a fase introspectiva e experimental que culminou no fim do grupo), uma belíssima galeria de actores secundários, os diálogos orelhudos e o timing perfeito e enérgico de cada situação - que se podem comparar, em parte, ao que os mestres do mudo e dos primórdios do sonoro tentaram fazer assemelhando-se também às comédias satíricas de Tati, misturando sempre explosivamente o potencial cómico dos gestos com o do que é dito e não dito. É claro que, no fim de contas, toda a estrutura do filme acaba por ser esquecível: há uma seita religiosa que anda atrás de Ringo? Há sim senhora. Mas nos entretantos, enquanto o plot se evapora da nossa cabeça por ser tão rebuscado, existem números musicais suculentos e piscadelas de olho à cultura pop para contemplar em cada recanto. E por isso, o que interessa a demanda dos membros de uma religião duvidosa e sangrenta quando o mesmo Starr começa a imitar o monstro de Frankenstein ou os seus colegas de banda estão alguns minutos a disparatar para direcções totalmente opostas dentro da mesma casa? 

A segunda coisa está no realizador do filme. Richard Lester percebeu os Beatles como mais nenhum outro cineasta da sua geração. Um tipo irreverente que aproveitava os recursos da montagem e das inovações trazidas pelas novas correntes de cinema, que os captou como ninguém, a eles e ao seu estilo, às suas cabeleiras demoníacas, ao sentido de humor e à energia constante e aliciante inerente às canções e às sensações que transmitem. Não estamos a falar, portanto, de um realizador escolhido aleatoriamente, para cumprir o simples papel de um tarefeiro não-comprometido com o material que está a filmar, e que prefere encostar-se à sombra dos dólares do que um filme com pés e cabeça. Lester sabia mesmo o que estava a fazer e, em vez de fazer uma homenagem aos Beatles, aproveita, mais uma vez (depois do filme anterior) para mostrar aos espectadores aquilo que não esperavam ver da banda: é que, apesar de serem óptimos artistas, eles também sabem fazer de palhaços com muita graça. E daí, repetimos, está outro factor que permitiu a longevidade de «Help!»: tudo adequa-se aos Beatles, todos os elementos técnicos encaixam tão bem nos corpos dos artistas, que o resultado final (aparte alguns pormenorezinhos kitsch) revela-se ainda hoje revolucionário. 

Do princípio ao fim, «Help!» é isso: um filme dos Beatles que, pela tão perfeita junção de alguns elementos tão simples, resistiu tão bem ao tempo. Nos antigamentes, tínhamos estrelas como o Elvis, que faziam fitas para agradar as fãs sem potenciarem nada mais do que um artist product placement em 90 ou 120 minutos. Já os Beatles fizeram o contrário. Claro que os filmes servem para servir as canções, mas eles quiseram dar-nos bem mais do que isso (e daí que as imagens e os sons se conjuguem tão bem). Em «Hard Day's Night», o melhor filme do tal tríptico que não é suposto ser assim designado, há uma sátira apurada sobre a histeria da beatlemania; «Yellow Submarine» é um delírio psicadélico risível mas, à época, inovador; e «Help», o mais divertido deste pequeno conjunto, é um exercício de pura anarquia cómica, cheio de pequenos detalhes deliciosos. Se os Beatles não tivessem escolhido a música, o mundo perderia belíssimas cantigas - mas por outro lado, seria fantásticos vê-los a competir com os Python e seus contemporâneos, naqueles tempos em que o cinema e o humor de massas não tinham medo de se reinventar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Não, este blog ainda não está morto, mas...

...o papagaio está. Mesmo. De certeza. Absoluta. Sintética. Analítica.

Os Filmes do DocLisboa 2016



Andei no DocLisboa 2016 a ver filmes e relatei tudo na Máquina de Escrever. Em suma, foram dias em que se viram algumas belíssimas surpresas e outros filmes para esquecer. Tudo está bem detalhado aqui.